O estudo do comportamento



Baixar 88.73 Kb.
Encontro19.07.2016
Tamanho88.73 Kb.
CAPÍTULO 3

O Behaviorismo1

O ESTUDO DO COMPORTAMENTO

O termo Behaviorismo foi inaugurado pelo americano John B. Watson, em artigo publicado em 1913, que apresentava o título “Psicologia: como os behavioristas a vêem”. O termo inglês behavior significa “comportamento”; por

isso, para denominar essa tendência teórica, usamos Behaviorismo — e, também, Comportamentalismo, Teoria Comportamental, Análise Experimental do Comportamento, Análise do Comportamento.


Watson, postulando o comportamento como objeto da Psicologia, dava a

esta ciência a consistência que os psicólogos da época vinham buscando — um objeto observável, mensurável, cujos experimentos poderiam ser reproduzidos em diferentes condições e sujeitos. Essas características foram importantes para que a Psicologia alcançasse o status de ciência, rompendo definitivamente com a sua tradição filosófica. Watson também defendia uma perspectiva funcionalista para a Psicologia, isto é, o comportamento deveria ser estudado como função de certas variáveis do meio. Certos estímulos levam o organismo a dar determinadas respostas e isso ocorre porque os organismos se ajustam aos seus ambientes por meio de equipamentos hereditários e pela formação de hábitos. Watson buscava a construção de uma Psicologia sem alma e sem mente, livre de conceitos mentalistas e de métodos subjetivos, e que tivesse a capacidade de prever e controlar. Apesar de colocar o “comportamento” como objeto da Psicologia, o Behaviorismo foi, desde Watson, modificando o sentido desse termo. Hoje, não se entende comportamento como uma [pg. 45] ação isolada de um sujeito, mas, sim,

como uma interação entre aquilo que o sujeito faz e o ambiente onde o seu “fazer” acontece. Portanto, o Behaviorismo dedica-se ao estudo das interações entre o

indivíduo e o ambiente, entre as ações do indivíduo (suas respostas) e o ambiente

(as estimulações).

Os psicólogos desta abordagem chegaram aos termos “resposta” e

“estímulo” para se referirem àquilo que o organismo faz e às variáveis ambientais

que interagem com o sujeito. Para explicar a adoção desses termos, duas razões

podem ser apontadas: uma metodológica e outra histórica.

A razão metodológica deve-se ao fato de que os analistas experimentais do

comportamento tomaram, como modo preferencial de investigação, um método

experimental e analítico.

Com isso, os experimentadores sentiram a necessidade de dividir o objeto

para efeito de investigação, chegando a unidades de análise.


A razão histórica refere-se aos termos escolhidos e popularizados, que

foram mantidos posteriormente por outros estudiosos do comportamento, devido ao seu uso generalizado.

Comportamento, entendido como interação indivíduo-ambiente, é a unidade

básica de descrição e o ponto de partida para uma ciência do comportamento. O homem começa a ser estudado a partir de sua interação com o ambiente, sendo tomado como produto e produtor dessas interações.


A ANÁLISE EXPERIMENTAL DO COMPORTAMENTO

O mais importante dos behavioristas que sucedem Watson é B. F. Skinner

(1904-1990).

O Behaviorismo de Skinner tem influenciado muitos psicólogos americanos e

de vários países onde a Psicologia americana tem grande penetração, como o

Brasil. Esta linha de estudo ficou conhecida por Behaviorismo radical, termo

cunhado pelo próprio Skinner, em 1945, para designar uma filosofia da Ciência do Comportamento (que ele se propôs defender) por meio da análise experimental do comportamento.

A base da corrente skinneriana está na formulação do comportamento



operante. Para desenvolver este conceito, retrocederemos um pouco na história do Behaviorismo, introduzindo as noções de comportamento reflexo ou

respondente, para então chegarmos ao comportamento operante. Vamos lá. [pg. 46]


O COMPORTAMENTO RESPONDENTE

O comportamento reflexo ou respondente é o que usualmente chamamos de

“não-voluntário” e inclui as respostas que são eliciadas (“produzidas”) por estímulos antecedentes do ambiente.

Como exemplo,

podemos citar a contração das pupilas quando uma luz forte incide sobre os olhos, a salivação provocada por uma gota de limão colocada na ponta da língua, o arrepio da pele quando um ar frio nos atinge, as famosas “lágrimas de cebola” etc.

Esses comportamentos reflexos ou respondentes são interações estímuloresposta (ambiente-sujeito) incondicionadas, nas quais certos eventos ambientais confiavelmente eliciam certas respostas do organismo que independem de “aprendizagem”. Mas interações desse tipo também podem ser provocadas por estímulos que, originalmente, não eliciavam respostas em determinado organismo.


Quando tais estímulos são temporalmente pareados com estímulos eliciadores

podem, em certas condições, eliciar respostas semelhantes às destes. A essas

novas interações chamamos também de reflexos, que agora são condicionados devido a uma história de pareamento, o qual levou o organismo a responder a estímulos que antes não respondia. Para deixar isso mais claro, vamos a um exemplo: suponha que, numa sala aquecida, sua mão direita seja mergulhada

numa vasilha de água gelada. A temperatura da mão cairá rapidamente devido ao encolhimento ou constrição dos vasos sangüíneos, caracterizando o

comportamento como respondente. Esse comportamento será acompanhado de uma modificação semelhante, e mais facilmente mensurável, na mão esquerda, onde a constrição vascular também será induzida. Suponha, agora, que a sua mão direita seja mergulhada na água gelada um certo número de vezes, em intervalos

de três ou quatro minutos, e que você ouça uma campainha pouco antes de cada imersão. Lá pelo vigésimo pareamento do som da campainha com a água fria, a mudança de temperatura nas mãos poderá ser eliciada apenas pelo som, isto é, sem necessidade de imergir uma das mãos2.


Neste exemplo de condicionamento respondente, a queda da temperatura

da mão, eliciada pela água fria, é uma resposta incondicionada, enquanto a queda da temperatura, eliciada pelo som, é uma resposta condicionada (aprendida): a água é um estímulo incondicionado, e o som, um estímulo condicionado. [pg. 47]


No início dos anos 30, na Universidade de Harvard (Estados Unidos), Skinner começou o estudo do comportamento justamente pelo comportamento

respondente, que se tornara a unidade básica de análise, ou seja, o fundamento para a descrição das interações indivíduo-ambiente. O desenvolvimento de seu trabalho levou-o a teorizar sobre um outro tipo de relação do indivíduo com seu ambiente, a qual viria a ser nova unidade de análise de sua ciência: o comportamento operante. Esse tipo de comportamento caracteriza a maioria de nossas interações com o ambiente.


O COMPORTAMENTO OPERANTE

O comportamento operante abrange um leque amplo da atividade humana

— dos comportamentos do bebê de balbuciar, de agarrar objetos e de olhar os

enfeites do berço aos mais sofisticados, apresentados pelo adulto. Como nos diz Keller, o comportamento operante

“inclui todos os movimentos de um organismo dos quais se possa dizer que, em algum momento, têm efeito sobre ou fazem algo ao mundo em redor. O comportamento operante opera sobre o mundo, por assim dizer, quer direta, quer indiretamente”3.

A leitura que você está fazendo deste livro é um exemplo de comportamento operante, assim como escrever uma carta, chamar o táxi com um gesto de mão, tocar um instrumento etc.

Para exemplificarmos melhor os conceitos apresentados até aqui, vamos relembrar um conhecido experimento feito com ratos de laboratório. Vale informar que animais como ratos, pombos e macacos — para citar alguns — foram utilizados pelos analistas experimentais do comportamento (inclusive Skinner) para verificar como as variações no ambiente interferiam nos comportamentos. Tais

experimentos permitiram-lhes fazer afirmações sobre o que chamaram de leis



comportamentais. Um ratinho, ao sentir sede em seu habitat, certamente manifesta algum comportamento que lhe permita satisfazer a sua necessidade orgânica. Esse comportamento foi aprendido por ele e se mantém pelo efeito proporcionado: saciar a sede. Assim, se deixarmos [pg. 48] um ratinho privado de água durante 24 horas, ele certamente apresentará o comportamento de beber água no momento em que tiver sede. Sabendo disso, os pesquisadores da época decidiram

simular esta situação em laboratório sob condições especiais de controle, o que os levou à formulação de uma lei comportamental.

Um ratinho foi colocado na “caixa de Skinner” — um recipiente fechado no qual

encontrava apenas uma barra. Esta barra, ao ser pressionada por ele, acionava um mecanismo

Tocar um instrumento é um exemplo de um comportamento operante que tem efeito] sobre o mundo
O ratinho, por acaso, pressiona a barra e recebe a gota d’água.

Inicia-se o processo de aprendizagem. ((camuflado) que lhe permitia obter uma gotinha de água, que chegava à caixa por meio de uma pequena haste.

Que resposta esperava-se do ratinho? — Que pressionasse a barra. Como

isso ocorreu pela primeira vez? — Por acaso. Durante a exploração da caixa, o

ratinho pressionou a barra acidentalmente, o que lhe trouxe, pela primeira vez,

uma gotinha de água, que, devido à sede, fora rapidamente consumida. Por ter

obtido água ao encostar na barra quando sentia sede, constatou-se a alta probabilidade de que, estando em situação semelhante, o ratinho a pressionasse novamente.

Neste caso de comportamento operante, o que propicia a aprendizagem dos

comportamentos é a ação do organismo sobre o meio e o efeito dela resultante — a satisfação de alguma necessidade, ou seja, a aprendizagem está na relação entre uma ação e seu efeito.

Este comportamento operante pode ser representado da seguinte maneira:



R —► S, em que R é a resposta (pressionar a barra) e S (do inglês stimuli) o

estímulo reforçador (a água), que tanto interessa ao organismo; a flecha significa

“levar a”.

Esse estímulo reforçador é chamado de reforço. O termo “estímulo” foi

mantido da relação R-S do comportamento respondente para designar-lhe a

responsabilidade pela ação, apesar de ela ocorrer após a manifestação do

comportamento. O comportamento operante refere-se à interação sujeitoambiente.

Nessa interação, chama-se de relação fundamental à relação entre a

ação do indivíduo (a emissão da resposta) e as conseqüências. É considerada fundamental

porque o organismo se comporta (emitindo esta ou [pg. 49] aquela

resposta), sua ação produz uma alteração ambiental (uma conseqüência) que, por

sua vez, retroage sobre o sujeito, alterando a probabilidade futura de ocorrência.

Assim, agimos ou operamos sobre o mundo em função das conseqüências criadas

pela nossa ação. As conseqüências da resposta são as variáveis de controle mais

relevantes.

Pense no aprendizado de um instrumento: nós o tocamos para ouvir seu

som harmonioso. Há outros exemplos: podemos dançar para estar próximo do

corpo do outro, mexer com uma garota para receber seu olhar, abrir uma janela

para entrar a luz etc.
REFORÇAMENTO

Chamamos de reforço a toda conseqüência que, seguindo uma resposta,

altera a probabilidade futura de ocorrência dessa resposta.

O reforço pode ser positivo ou negativo.

O reforço positivo é todo evento que aumenta a probabilidade futura da

resposta que o produz.

O reforço negativo é todo evento que aumenta a probabilidade futura da

resposta que o remove ou atenua.

Assim, poderíamos voltar à nossa “caixa de Skinner” que, no experimento

anterior, oferecia uma gota de água ao ratinho sempre que encostasse na barra.

Agora, ao ser colocado na caixa, ele recebe choques do assoalho. Após várias

tentativas de evitar os choques, o ratinho chega à barra e, ao pressioná-la

acidentalmente, os choques cessam. Com isso, as respostas de pressão à barra tenderão a aumentar de freqüência. Chama-se de reforçamento negativo ao processo de fortalecimento dessa classe de respostas (pressão à barra), isto é, a remoção de um estímulo aversivo controla a emissão da resposta. É

condicionamento por se tratar de aprendizagem, e também reforçamento, porque um comportamento é apresentado e aumentado em sua freqüência ao alcançar o efeito desejado.

O reforçamento positivo oferece alguma coisa ao organismo (gotas de água

com a pressão da barra, por exemplo); o negativo permite a retirada de algo

indesejável (os choques do último exemplo).

Não se pode, a priori, definir um evento como reforçador. A função

reforçadora de um evento ambiental qualquer só é definida por sua função sobre o comportamento do indivíduo. [pg. 50]
Entretanto, alguns eventos tendem a ser reforçadores para toda uma

espécie, como, por exemplo, água, alimento e afeto. Esses são denominados



reforços primários. Os reforços secundários, ao contrário, são aqueles que

adquiriram a função quando pareados temporalmente com os primários. Alguns

destes reforçadores secundários, quando emparelhados com muitos outros,

tornam-se reforçadores generalizados, como o dinheiro e a aprovação social.

No reforçamento negativo, dois processos importantes merecem destaque: a

esquiva e a fuga.

A esquiva é um processo no qual os estímulos aversivos condicionados e

incondicionados estão separados por um intervalo de tempo apreciável, permitindo que o indivíduo execute um comportamento que previna a ocorrência ou reduza a magnitude do segundo estímulo. Você, com certeza, sabe que o raio (primeiro

estímulo) precede à trovoada (segundo estímulo), que o chiado precede ao estouro

dos rojões, que o som do “motorzinho” usado pelo dentista precede à dor no dente.

Estes estímulos são aversivos, mas os primeiros nos possibilitam evitar ou reduzir a magnitude dos seguintes, ou seja, tapamos os ouvidos para evitar o estouro dos trovões ou desviamos o rosto da broca usada pelo dentista. Por que isso acontece? Quando os estímulos ocorrem nessa ordem, o primeiro torna-se um reforçador negativo condicionado (aprendido) e a

ação que o reduz é reforçada pelo condicionamento operante. As ocorrências passadas de reforçadores negativos condicionados são responsáveis pela probabilidade da resposta de esquiva.

No processo de esquiva, após o estímulo condicionado, o indivíduo

apresenta um comportamento que é reforçado pela necessidade de reduzir ou

evitar o segundo estímulo, que também é aversivo, ou seja, após a visão do raio, o indivíduo manifesta um comportamento (tapar os ouvidos), que é reforçado pela necessidade de reduzir o segundo estímulo (o barulho do trovão) — igualmente

aversivo.


Outro processo semelhante é o de fuga. Neste caso, o comportamento

reforçado é aquele que termina com um estímulo aversivo já em andamento.

Ao ouvirmos o som do “motorzinho” usado pelo dentista,

antecipamos a dor. Desviar o rosto é esquivar-se dela.

A diferença é sutil. Se posso colocar as mãos nos ouvidos para não escutar

o estrondo do rojão, este comportamento é de esquiva, pois estou evitando o

segundo estímulo antes que ele aconteça. Mas, se os rojões começam a pipocar e

só depois apresento um comportamento para evitar o barulho que incomoda, seja

fechando a porta, seja indo embora ou mesmo tapando os ouvidos, pode-se falar

em fuga. Ambos reduzem ou evitam os estímulos aversivos, mas em processos

diferentes. No caso da esquiva, há um estímulo condicionado que antecede o

estímulo incondicionado e me possibilita a emissão do comportamento de esquiva.

Uma esquiva bem-sucedida impede a ocorrência do estímulo incondicionado. No

caso da fuga, só há um estímulo aversivo incondicionado que, quando

apresentado, será evitado pelo comportamento de fuga. Neste segundo caso, não

se evita o estímulo aversivo, mas se foge dele depois de iniciado.



EXTINÇÃO

Outros processos foram sendo formulados pela Análise Experimental do

Comportamento. Um deles é o da extinção.

A extinção é um procedimento no qual uma resposta deixa abruptamente de

ser reforçada. Como conseqüência, a resposta diminuirá de freqüência e até

mesmo poderá deixar de ser emitida. O tempo necessário para que a resposta

deixe de ser emitida dependerá da história e do valor do reforço envolvido.

Assim, quando uma menina, que estávamos paquerando, deixa de nos olhar

e passa a nos ignorar, nossas “investidas” tenderão a desaparecer.

PUNIÇÃO

A punição é outro procedimento importante que envolve a conseqüenciação

de uma resposta quando há apresentação de um estímulo aversivo ou remoção de

um reforçador positivo presente.

Os dados de pesquisas mostram que a supressão do comportamento punido

só é definitiva se a punição for extremamente intensa, isto porque as razões que

levaram à ação — que se pune — não são alteradas cora a punição.

Punir ações leva à supressão temporária da resposta sem, contudo, alterar a

motivação. [pg. 52]

Por causa de resultados como estes, os behavioristas têm debatido a

validade do procedimento da punição como forma de reduzir a freqüência de

certas respostas. As práticas punitivas correntes na Educação foram questionadas pelo Behaviorismo — obrigava-se o aluno a ajoelhar-se no milho, a fazer inúmeras cópias de um mesmo texto, a receber “reguadas”, a ficar isolado etc. Os behavioristas, respaldados por crítica feita por Skinner e outros autores, propuseram a substituição definitiva das práticas punitivas por procedimentos de instalação de comportamentos desejáveis. Esse princípio pode ser aplicado no cotidiano e em todos os espaços em que se trabalhe para instalar comportamentos desejados. O trânsito é um excelente exemplo. Apesar das punições aplicadas a motoristas e pedestres na maior parte das infrações cometidas no trânsito, tais punições não os têm motivado a adotar um comportamento considerado adequado para o trânsito. Em vez de adotarem novos comportamentos, tornaram-se especialistas na esquiva e na fuga.


CONTROLE DE ESTÍMULOS

Tem sido polêmica a discussão sobre a natureza ou a extensão do controle

que o ambiente exerce sobre nós, mas não há como negar que há algum controle.

Assumir a existência desse controle e estudá-la permite maior entendimento dos

meios pelos quais os estímulos agem.

Assim, quando a freqüência ou a forma da resposta é diferente sob estímulos diferentes, diz-se que o comportamento está sob o controle de estímulos. Se o

motorista pára ou acelera o ônibus no cruzamento de ruas onde há semáforo que ora está verde,

Discriminação de estímulos: resposta diferenciada ao verde ou ao

vermelho do semáforo. ora vermelho, sabemos que o comportamento de dirigir está sob o controle de estímulos.

Dois importantes processos devem ser apresentados: discriminação e

generalização.
DISCRIMINAÇÃO

Diz-se que se desenvolveu uma discriminação de estímulos quando uma

resposta se mantém na presença de um estímulo, mas sofre certo grau de

extinção na presença de outro. Isto é, um estímulo adquire a possibilidade de ser conhecido como discriminativo da situação reforçadora. Sempre que ele for

apresentado e a resposta emitida, haverá reforço. Assim, nosso motorista de

ônibus vai parar o veículo quando o semáforo estiver vermelho, ou melhor, esperamos que, para ele, o semáforo vermelho tenha se tornado um estímulo

discriminativo para a emissão do comportamento de parar.

Poderíamos refletir, também, sobre o aprendizado social. Por exemplo:

existem normas e regras de conduta para festas — cumprimentar os presentes,

ser gentil, procurar manter diálogo com as pessoas, agradecer e elogiar a dona da casa etc. No entanto, as festas podem ser diferentes: informais ou pomposas, dependendo de onde, de como e de quem as organiza. Somos, então, capazes de discriminar esses diferentes estímulos e de nos comportarmos de maneira diferente em cada situação.


GENERALIZAÇÃO

Na generalização de estímulos, um estímulo adquire controle sobre uma

resposta devido ao reforço na presença de um estímulo similar, mas diferente.

Freqüentemente, a generalização depende de elementos comuns a dois ou mais

estímulos. Poderíamos aqui brincar com as cores do semáforo: se fossem rosa e vermelho, correríamos o risco dos motoristas acelerarem seus veículos no semáforo vermelho, pois poderiam generalizar os estímulos. Mas isso não acontece com o verde e com o vermelho, que são cores muito distintas e, além disso, estão situadas em extremidades opostas do semáforo — o vermelho, na superior, e o verde, na inferior, permitindo a discriminação dos estímulos Na generalização, portanto, respondemos de forma semelhante a um conjunto de estímulos percebidos como semelhantes.

Esse princípio da generalização é fundamental quando pensamos na

aprendizagem escolar. Nós aprendemos na escola alguns conceitos básicos, como fazer contas e escrever. Graças à generalização, podemos transferir esses aprendizados para diferentes situações, como dar ou receber troco, escrever uma carta para a namorada distante, aplicar conceitos da Física para consertar aparelhos eletrodomésticos etc.

Na vida cotidiana, também aprendemos a nos comportar em diferentes

situações sociais, dada a nossa capacidade de generalização no aprendizado de regras e normas sociais.
BEHAVIORISMO: SUA APLICAÇÃO

Uma área de aplicação dos conceitos apresentados tem sido a Educação. São conhecidos os métodos de ensino programado, o controle e

a organização das situações de aprendizagem, bem como a elaboração de uma tecnologia de ensino.

Entretanto, outras áreas também têm recebido a contribuição das técnicas e

conceitos desenvolvidos pelo Behaviorismo, como a de treinamento de empresas, a clínica psicológica, o trabalho educativo de crianças excepcionais, a publicidade e outras mais. No Brasil, talvez a área clínica seja, hoje, a que mais utiliza os conhecimentos do Behaviorismo.

Na verdade, a Análise Experimental do Comportamento pode nos auxiliar a

descrever nossos comportamentos em qualquer situação, ajudando-nos a

modificá-los.




Texto Complementar

O EU E OS OUTROS

(...) Numa análise comportamental, um pessoa é um organismo, um membro

da espécie humana que adquiriu um repertório de comportamento.

(...) Uma pessoa não é um agente que origine; é um lugar, um ponto em que

múltiplas condições genéticas e ambientais se reúnem num efeito conjunto. Como

tal, ela permanece indiscutivelmente única. Ninguém mais (a menos que tenha um

gêmeo idêntico) possui sua dotação genética e, sem exceção, ninguém mais tem

sua história pessoal. Daí se segue que ninguém mais se comportará precisamente

da mesma maneira.

(...) Uma pessoa controla outra no sentido de que se controla a si mesma.

Ela não o faz modificando sentimentos ou estados mentais. Dizia-se que os

deuses gregos mudavam o comportamento infundindo em homens e mulheres

estados mentais como orgulho, confusão mental ou coragem, mas, desde então,

ninguém mais teve êxito nisso. Uma pessoa modifica o comportamento de outra

mudando o mundo em que esta vive.

(...) As pessoas aprendem a controlar os outros com muita facilidade. Um

bebê, por exemplo, desenvolve certos métodos de controlar os pais quando se

comporta de maneiras que levam a certos tipos de ação. As crianças adquirem

técnicas de controlar seus companheiros e se tornam hábeis nisso muito antes de

conseguirem controlar-se a si mesmas. A primeira educação que recebem no

sentido de modificar seus próprios sentimentos ou estados introspectivamente

observados pelo exercício da força de vontade ou pela alteração dos estados

emotivos e motivacionais não é muito eficaz. O autocontrole que começa a ser

ensinado sob a forma de provérbios, máximas e procedimentos empíricos é uma

questão de mudar o ambiente. O controle de outras pessoas aprendido desde

muito cedo vem por fim a ser usado no autocontrole e, eventualmente, uma

tecnologia comportamental bem desenvolvida conduz a um autocontrole capaz.


A QUESTÃO DO CONTROLE

Uma análise científica do comportamento deve, creio eu, supor que o

comportamento de uma pessoa é controlado mais por sua história genética e

ambiental do que pela própria pessoa enquanto agente criador, iniciador; todavia,

nenhum outro aspecto da posição behaviorista suscitou objeções mais violentas.

Não podemos evidentemente provar que o comportamento humano como um todo

seja inteiramente determinado, mas a proposição torna-se mais plausível à medida

que os fatos se acumulam e creio que chegamos a um ponto em que suas implicações

devem ser consideradas a sério.

Subestimamos amiúde o fato de que o comportamento humano é também

uma forma de controle. Que um organismo deva agir para controlar o mundo a seu

redor é uma característica da vida, tanto quanto a respiração ou a reprodução.

Uma pessoa age sobre o meio e aquilo que obtém é essencial para a sua

sobrevivência e para a sobrevivência da espécie. A Ciência e a Tecnologia são

simplesmente manifestações desse traço essencial do comportamento humano. A

compreensão, a previsão e a explicação, bem como as aplicações tecnológicas,

exemplificam o controle da natureza. Elas não expressam uma “atitude de dominação”

ou “uma filosofia de controle”. São os resultados inevitáveis de certos

processos de comportamento.

Sem dúvida cometemos erros. Descobrimos, talvez rápido demais, meios

cada vez mais eficazes de controlar nosso mundo, e nem sempre os usamos

sensatamente, mas não podemos deixar de controlar a natureza, assim como não podemos deixar de respirar ou de digerir o que comemos. O controle não é uma fase passageira. Nenhum místico ou asceta deixou jamais de controlar o mundo em seu redor; controla-o para controlar-se a si mesmo. Não podemos escolher um gênero de vida no qual não haja controle. Podemos tão-só mudar as condições

controladoras.
Contracontrole

Órgãos ou instituições organizados, tais como governos, religiões e sistemas

econômicos e, em grau menor, educadores e psicoterapeutas, exercem um

controle poderoso e muitas vezes molesto. Tal controle é exercido de maneiras

que reforçam de forma muito eficaz aqueles que o exercem e, infelizmente, isto via de regra significa maneiras que são ou imediatamente adversativas para aqueles que sejam controlados ou os exploram a longo prazo.

Os que são assim controlados passam a agir. Escapam ao controlador —

pondo-se fora de seu alcance, se for uma pessoa; desertando de um governo;

apostasiando de uma religião; demitindo-se ou mandriando — ou então atacam a fim de enfraquecer ou destruir o poder controlador, como numa revolução, numa reforma, numa greve ou num protesto estudantil. Em outras palavras, eles se opõem ao controle com contracontrole.


B. F. Skinner. Sobre o Behaviorismo.

Trad. Maria da Penha Villalobos. São Paulo,

Cultrix/Editora da Universidade de São Paulo, 1982. p. 145-164. [pg. 56]

Questões

1. Quem é o fundador do Behaviorismo e quais as diferentes denominações dessa tendência teórica?

2. Para os behavioristas, qual é o objeto da Psicologia e como é caracterizado?

3. Como o homem é estudado pelo Behaviorismo?

4. Qual o mais importante teórico do Behaviorismo?

5. O que é comportamento reflexo ou respondente? Dê exemplos.

6. Como o comportamento respondente pode ser condicionado? Dê exemplo.

7. O que é comportamento operante? Dê exemplos.

8. Como se condiciona o comportamento operante? Dê exemplo.

9. O que é reforço? O que é reforço negativo e positivo? Dê um exemplo para cada caso.

10. Explique os processos de esquiva e fuga com os reforçamentos negativos.

11. O que é extinção e punição? Dê um exemplo para cada caso.

12. O que é generalização e discriminação? Dê exemplos.
Atividades em grupo

1. A partir do capítulo estudado e do texto complementar apresentado, discutam:

• Como a análise comportamental vê o homem, a pessoa?

• Pela proposta da análise comportamental, o que é preciso fazer para se

conhecer e para conhecer os outros?

• Como se dá a questão do controle e do contracontrole dos comportamentos?


2. Escolham uma situação social cotidiana e, a partir da perspectiva do

Behaviorismo, procurem entender o que está acontecendo com o comportamento das pessoas, esforçando-se em conhecer as contingências

ambientais que as levam a se comportarem daquela maneira.

3. Assistam ao filme Truman: o show da vida e debatam sobre o controle social do comportamento. Somos mais livres do que Truman? Nossa vida é menos controlada do que a dele?


Bibliografia

Para o aluno

Sobre a análise do comportamento, existe um ótimo livro para principiantes,

que utiliza o método de instrução programada para ensinar os principais conceitos

da teoria S-R. Trata-se de A análise do comportamento, de J. G. Holland e B. F. Skinner (São Paulo, Herder/USP, 1969). Um outro livro introdutório, entretanto mais complexo que o primeiro, é o de Fred Keller, Aprendizagem: teoria do reforço (São Paulo, EPU, 1973).


Muito interessante para o jovem é a leitura do livro de ficção científica, de B.

F. Skinner, Walden II: uma sociedade do futuro (São Paulo, Herder/USP, 1972),

onde o autor, a partir da concepção da análise experimental do comportamento,

apresenta sua visão utópica sobre um mundo onde as contingências estariam



todas controladas.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal