O facto e a ficção em Memorial do Convento o sonho de Bartolomeu de Gusmão, pioneiro da aviação em Portugal: história e ficção, tecnologia e alquimia em Memorial do Convento



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O facto e a ficção em Memorial do Convento

O sonho de Bartolomeu de Gusmão, pioneiro da aviação em Portugal: história e ficção, tecnologia e alquimia em Memorial do Convento.
Memorial do Convento é uma das mais importantes obras da literatura portuguesa do sec. XX. Este romance histórico, cuja acção se desenvolve no reinado de D. João V, explora temas polémicos da época, como a Inquisição, a exploração e escravatura dos mais humildes, as diferenças sociais existentes, etc..

A obra conta a história da construção do Palácio Nacional de Mafra, normalmente designado por convento, fruto de uma promessa feita pelo rei para obter descendência. Uma vez que D. Maria Ana confirma que está de esperanças, o rei procede à construção da obra.

Milhares de pessoas trabalham arduamente na sua construção e para que tudo seja do agrado do rei, o qual também é conhecido pela sua excentricidade. Toda esta exploração do povo, pela parte dos mais poderosos, é criticada pelo autor, José Saramago, ao longo de toda a obra.

Paralelamente, é também narrada a vida de um casal, Baltasar e Blimunda, que viviam na época descrita e presenciavam todos estes acontecimentos de um ponto de vista humilde. Conheceram-se num auto-de-fé, onde Sebastiana Maria de Jesus, mãe de Blimunda, é punida e acusada de bruxaria. Desde esse momento, nunca mais se separaram.

Baltasar era um antigo soldado que perdera a mão numa batalha e, não sendo mais útil para combater, foi totalmente desprezado pelos seus superiores, obrigando-o a tentar encontrar um rumo para a sua vida por conta própria. Este encontra o amor ao lado de Blimunda, uma mulher com características muito especiais. Uma vez em jejum, Blimunda tinha a capacidade de ver as pessoas por dentro e recolher vontades.

O casal tem um amigo padre, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, cujo sonho da sua vida passava por voar. De tal forma que desafiou o casal para a construção de uma máquina voadora, à qual chamaram de “passarola”.

No pensamento doutrinário do Padre Bartolomeu Lourenço, a alma distingue-se da vontade dos vivos, sendo esta detectada por ter o aspecto duma nuvem fechada.

Blimunda irá recolher essas vontades num frasco e, assim, o sonho de voar será concretizado através da conciliação da alquimia ou, melhor, a metafísica e a tecnologia.

No primeiro voo desta máquina, o trio acaba por se despenhar na serra de Montejunto e Bartolomeu é obrigado a fugir, pois é procurado pela Inquisição. Baltasar e Blimunda vão tratando da manutenção da passarola ao longo do tempo.

Certo dia, os cabos que impediam a passarola de voar rompem-se e Baltasar foi levado pelos ares, acabando também por ser capturado pela Inquisição, acusado de comércio com o diabo. Foi mais tarde queimado num auto-de-fé, onde Blimunda o encontra e captura a sua vontade. É a última vez que o casal se encontra.

A construção do Convento de Mafra e a aventura da máquina de voar são duas histórias contadas em paralelo na mesma época histórica.

As vastas personagens que encontramos ao longo da obra podem-se dividir essencialmente em dois grupos: o grupo de poder e o grupo do contra-poder. Sendo que do primeiro fazem parte a nobreza, a corte e o alto clero e da segunda o povo e os oprimidos escravizados. Esta divisão entre classes, aludida pelo autor, objectiva principalmente criticar as desigualdades, assim como a crueldade dos poderosos, camuflada pela religiosidade, e a sua indiferença perante o sofrimento humano é, por sua vez, canalizada para satisfazer caprichos excêntricos do rei. Baltasar e Blimunda, representantes do povo, são reconhecidos como heróis ignorados pela sociedade e que se destacam na história pela ficção do intenso romance que vivem.

Em Memorial do Convento muitos dos eventos descritos têm uma base factual que depois é contrabalançada com alguma matéria ficcional de modo a tornar a história mais apelativa aos seus leitores. Podemos assim referir o romance entre Baltasar e Blimunda, uma fantasia amorosa que decorreu num panorama real, panorama este cuja ilustração é o ponto fulcral que o autor pretende demonstrar.

Após uma pesquisa mais aprofundada acerca da obra em estudo, muitos foram os factos que tive a oportunidade de constantar relativamente ao carácter real/histórico e também ficcional da história.

A época relatada: reinado de D.João V (século XVIII) foi sem dúvida uma época marcada pelo luxo e pela grandeza. A acção inicia-se em 1711. D. João V ainda não fizera vinte e dois anos e D. Maria Ana Josefa chegara há mais de dois anos da Áustria.

Todo o conteúdo histórico relatado tem uma essência verídica: o problema da sucessão, a promessa realizada pelo rei para a construção do Convento, a Inquisição e as suas punições em praça pública, a discriminação do povo e a sua quase escravidão, nomeadamente no que respeita à construção do monumental Convento que iria abrigar alguns membros da ordem franciscana.

Os locais representados são também reais e são descritos tal e qual como eram na época representada. A obra descreve maioritariamente Lisboa e Mafra. Mafra é o segundo grande espaço representado. Até à construção do convento, a vida de Mafra decorria basicamente entre a vila velha e o antigo castelo, próximo da igreja de Sto. André.

Além de Mafra, são ainda referidos espaços como Pêro Pinheiro, a serra do Barregudo, Monte Junto e Torres Vedras.

O contexto histórico e factual é “cenário” para a vertente ficcional da obra que diz respeito ao amor entre Baltasar e Blimunda. Baltasar revela-se como um herói no romance, chegando a ser comparado ao herói pícaro (do Diabinho da Mão Furada) e é também participante na obra de construção do convento de Mafra, representando assim o povo oprimido e trabalhador. Blimunda representa o transcendente e a inquietação constante do ser humano em relação à morte, ao amor, ao pecado e à existência de Deus.

No entanto, surge nesta vertente uma personagem verídica. O padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão foi um sacerdote secular, cientista e inventor nascido em 1685, cognominado de “padre voador”, tal como na obra. Esta personagem existiu de facto e as suas convicções descritas na história são idênticas às reais, visto que o padre tinha o sonho de poder voar. É hoje lembrado como o pioneiro da aviação em Portugal.

O padre Bartolomeu Lourenço chegou mesmo a pedir patente para um “instrumento para se andar pelo ar” que é hoje vulgarmente designado por “balão”, mas, na altura, era chamado de “passarola” devido à sua forma semelhante à de um pássaro. A patente foi-lhe concedida no dia 19 de Abril de 1709 e rapidamente se divulgou pela Europa. Este facto serviu de inspiração para o romancista na criação de todo o enredo em torno da ‘máquina de voar’ que o trio constituído por Baltasar, Blimunda e o padre construiram ao longo do tempo, também com a ajuda e inspiração do músico.

A aventura da passarola liga-se ao primeiro núcleo narrativo, porque o padre recebe o apoio mecenático do Rei, que lhe cede a quinta de S. Sebastião da Pedreira. Mas liga-se também ao segundo núcleo, isto é, conta com o trabalho de Baltasar e Blimunda, o que lhe confere carácter marginalizado e hostilizado pelo Santo Ofício.

Domenico Scarlatti é na obra o professor de piano da infanta D. Maria Bárbara e também de D. António, irmão de D. João V. Embora se relacione com a realeza, é um dos representantes do contra-poder devido à sua liberdade de espírito e poder libertador da sua música. É também uma ajuda no processo de construção da “passarola”. Facto que sugere uma união entre a ciência e a arte de forma a facilitar a abertura ao progresso e à modernidade. A música de Scarlatti é, na obra, utilizada como impulsionadora e motivadora para a construção da máquina e também teve um efeito curativo, uma vez que ajudou Blimunda a ficar melhor quando esta se sentiu fraca por recolher tantas vontades. Scarlatti é também quem informa o casal da morte do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão.

Constata-se que Domenico Scarlatti também existiu na realidade. Compositor italiano e professor de D. Maria Bárbara, vem, mais tarde, a ser o músico master da princesa Maria Bárbara em Madrid, quando esta se casou com o Príncipe herdeiro de Espanha, permanecendo por lá durante alguns anos. Tal como na obra, o músico é reconhecido pelas suas abordagens harmónicas bastante inovadoras.

A imagem da vida real é dada em permanente contraste com a vida dos verdadeiros heróis do romance: o par real reflecte a visão histórica da época que se caracterizava pelo excesso, a riqueza, a corrupção, a sexualidade reprimida e subordinada ao falso código cerimonioso e moral religioso, perdendo, assim, a sua “grandeza real”.

Pode-se afirmar que o principal protagonista de todo o enredo é o povo. Rude, violento e acima de tudo trabalhador, o povo enfrenta toda a narrativa, representando, através de Baltasar e Blimunda, todos aqueles que construíram de facto o Convento de Mafra. A crítica e o olhar mordaz do narrador enfatizam a escravidão a que foram sujeitos quarenta mil portugueses para alimentar o sonho de um rei megalómano.



Tendo como pretexto a construção do convento, José Saramago, adoptando a perspectiva de um narrador distanciado do tempo da diegese, apresenta uma visão crítica da sociedade portuguesa da primeira metade do século XVIII. É neste sentido que Memorial do Convento ultrapassa a classificação de romance histórico, uma vez que não se trata de uma simples reconstituição de um acontecimento histórico, mas sim um testemunho intemporal e universal do sofrimento de um povo sujeito à tirania de uma sociedade em que só a vontade de el-rei prevalecem o resto é nada (XXII).

Bibliografia
http://pt.scribd.com/doc/31617912/Memorial-do-Convento-caracterizacao-de-personagens-e-simbologia
http://www.lithis.net/74
http://pt.wikipedia.org/wiki/Memorial_do_Convento
http://esjapportugues.blogs.sapo.pt/7652.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bartolomeu_de_Gusm%C3%A3o
http://pt.wikipedia.org/wiki/Passarola

Trabalho realizado por:

Madalena Morais nº12 12ºL


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