O fator china, o brasil e a globalizaçÃO



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Encontro19.07.2016
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O FATOR CHINA, O BRASIL E A GLOBALIZAÇÃO

Quando, aqui ou no Exterior, se discute o tema da globalização, a China aparece, por variadas


razões, como referencia necessária. A primeira, a mais óbvia delas, é o notável e consistente
desempenho da economia chinesa, na qual se combinam uma propensão alta a poupar, que
alcança os 40% do Produto Interno Bruto, e uma inesperada capacidade de absorver enormes
fluxos de investimentos estrangeiros, além de uma tendência a obter fortes superávits comerciais.
A taxa de crescimento econômico, acima dos 10% anuais, é emblemática do que a China tem
sabido realizar.

Uma segunda razão é a própria dimensão de sua população e de sua economia, que garantem à


China uma significação global, à medida que se integra às principais correntes econômicas
internacionais. Mantidas as tendências vigentes, as extrapolações indicam que, nas próximas
décadas, a China terminará por tornar-se a primeira ou a segunda potência econômica mundial, o
que por si só seria revolucionário e alteraria fundamentalmente o entendimento que temos da
realidade contemporânea.

O impacto mundial da China é ampliado pela chamada diáspora chinesa, principalmente nos


países asiáticos e nos Estados Unidos, a qual detém riqueza maior que o PIB brasileiro, pois
alcança US$ 750 bilhões, e constitui o maior investidor "estrangeiro" no país de origem,
superando mesmo os interesses japoneses e norte-americanos. A experiência internacional e as
conexões econômicas dessa diáspora, aliadas ao seu talento, operosidade e solidez cultural,
representam enorme vantagem comparativa num mundo que se internacionaliza velozmente.

Mas existem outros fatores importantes. Por exemplo, a perspectiva de que ao desenvolvimento


chinês seja gradativamente incorporada a totalidade, ou quase, da população, e não apenas os que
vivem no litoral e em grandes centros urbanos. Essa perspectiva faz pensar no imenso espaço que
ainda resta para a inserção chinesa da nova realidade global, em quanto falta para a integração da
China "profunda" na economia moderna.

Outro fator é o da qualidade do desenvolvimento, o que aqui significa capacidade em pesquisa


científica e tecnológica, desenho industrial, comercialização moderna, embalagens e em outros
serviços estratégicos, que caracterizam o novo sistema de produção internacionalizado e permitem
o lançamento de produtos mundiais. Há quem se arrisque a subestimar a capacidade dos chineses
- e seu interesse nesse "admirável mundo novo" da produção avançada -, equívoco em que não
podemos cair, dada a nossa experiência de cooperação na construção de satélites sino-brasileiros
de recursos terrestres. Sabemos da dedicação de nossos parceiros na exploração da fronteira do
conhecimento e não se pode pensar a China como uma nação que tenha "corpo", mas que não
tenha "cabeça".

Não é necessário dizer mais para sublinhar a importância da China e suas perspectivas. Não é ela,


porém, um modelo para o Brasil, como não o são a Índia ou a Rússia. Nem ainda nenhum dos
tigres asiáticos nem o México, por exemplo. Não há processo de homogeneização de instituições
políticas ou de processos econômicos que possa verdadeiramente resistir a realidades tão distintas,
a experiências históricas tão diversificadas, a culturas tão fortes e originais. Parece irrealista se
escravizar a paradigmas ou ainda "receitas" prontas, na busca da melhor inserção global.
Conhecer experiências alheias não significa que se possa ou se deva copiá-las.

O que importa reter é que os rumos da globalização estão ainda em aberto, há suficientes margens


de dúvida para a construção de cenários alternativos de futuro e seria desastroso condenar países
inteiros a funções ancilares numa hipotética ordem fundada no monopólio do conhecimento
científico e tecnológico de vanguarda.

Na realidade, a ordem política e o próprio sistema de mercado conviveriam mal com a divisão


permanente da humanidade em dois segmentos, um dinâmico e inteligente e o outro estagnado e
embrutecido, ainda mais se estes estivessem separados por um gigantesco mundo fabril confinado
ao low tech e condenado a produzir bens e serviços de valor agregado relativamente pequeno, bem
como a carregar o ônus da degradação ambiental inerente ao industrialismo em larga escala.

Esse mundo tripartite significaria que o sistema mundial de mercado se teria anquilosado e


revelado incapaz de se realizar plenamente. Em outras palavras, a "globalização excludente", mais
do que uma fórmula paradoxal e insatisfatória, seria uma confissão de fracasso produtivo e de que
seriam falsas as esperanças induzidas pelo ingresso da economia mundial numa nova etapa. A
severidade desse quadro determina em grande parte as preocupações e incertezas atuais.

Essas preocupações são de natureza global. Seu encaminhamento, entretanto, se faz nesta fase em


nível nacional. Como a sociedade se organiza sob a forma de Estado, cabe a este - como
representante daquela - a função de interlocutor privilegiado nos processos conexos de
globalização e regionalização. Numa sociedade como a nossa, cuja opção fundamental é pela
democracia, esse aspecto ganha relevância. A multiplicidade de atores políticos e econômicos pode
levar o observador a subestimar a função gerencial do Estado nesses processos. Não se trata de
ressuscitar modelo - os tempos agora são outros, não mais há opções autárquicas ou
assemelhadas. O que interessa é o caminho que temos pela frente.

Olhar o futuro significa propor modelos ou cenários internacionais, regionais e domésticos e


armar estratégias de médio e longo prazos para realizá-los. Significa não presumir a eternização
de possíveis hegemonias. Implica promover conceitos como do desenvolvimento sustentável, tão
difícil de ser posto em prática, mas que embute uma revolução teórica. Requer alargar e
aprofundar a integração com os vizinhos imediatos para reforçar a posição de todos, nos tempos
que vêm.

Torna-se necessário um novo enfoque para as questões sociais, inclusive do emprego, no interesse


de cada um e do País. Em última análise, a inserção internacional depende de que o povo possa
desfrutar de melhores condições de bem-estar e de acesso desimpedido aos instrumentos e
conhecimentos que caracterizam a vida moderna. Se persistem a miséria e a ignorância, a correção
desse penoso estado de coisas é responsabilidade de todos nós, tanto por imediatos motivos
sociais e humanitários, quanto pela aspiração comum de que cada um alcance efetivamente
condições de prestar sua melhor contribuição à sociedade. O povo brasileiro, afinal, somos todos
nós.

A tarefa nada tem, portanto, de pequena ou acanhada, nem existe bola de cristal que faculte


predições firmes. Mas o debate avança e setores cada vez mais amplos dele participam. Novos
consensos estão sendo formados. O primeiro passo para a boa inserção é que coletivamente nos
entendamos acerca do que se está passando no mundo e do que podemos fazer para construir
nosso destino, dentro do quadro abrangente que se nos oferece.


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