O feminismo como sujeito coletivo total: a mediação da diversidade



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O feminismo como sujeito coletivo total: a mediação da diversidade

Telma Gurgel1

O objetivo central desse texto é refletir sobre alguns desafios programáticos, estatégicos e políticos do feminismo contempoâneo. Entre estes demarcadores faremos uma leitura, em particular, da construção do sujeito feminista como um coletivo total. Tal reflexão, exige, inicialmente, a sua compreensão como unidade dialética de realidades complexas, que se articulam entre si, pela mediação das totalidades.

Acreditamos que através desse exercício compreenderemos os seus atuais dilemas enquanto movimento social, que perpassan questões tanto em nível da individualidade quanto o da universalidade.



  1. Feminismo e luta de classe

Em sua trajetória o feminismo tem provocado reflexões políticas acerca da opressão-dominação que submetem as mulheres a uma realidade, na qual a sua existência enquanto sujeito social, é fortemente marcada pela exclusão dos espaços de decisões estratégicas na sociedade.

Assim, no “contexto da Ilustracão”2 as mulheres e o feminismo promoveram um amplo debate sobre o significado do termo igualdade e sobre a sua concretude na sociedade que emergia. Elas chamaram a atenção para os limites da universalidade do homem como sujeito da história e sobre os problemas relativos à hieraquização das dimensões do público e do privado, com a subalternidade das ações realizadas no âmbito do ambiente doméstico e das relações sociais de afetividade.

Para Fraisse (1998: 11), as manifestações de mulheres neste período se distinguem das dos séculos anteriores quando: “ a disputa é levada à praça pública e toma a forma de um debate democrático: converte-se, pela primeira vez, na forma explícita de uma questão política.”

As revolucionárias traziam, assim, pela primeira vez, para o Estado moderno, a necessidade de se organizar a diferença de maneira igualitária. Para elas, seria necessário ações políticas que favoreçessem a igualdade, para a realização das promessas da modernidade.

Neste curso de pressão e interpelação do discurso e prática do Estado revolucionários na França, do século XVIII, as mulheres confrontavam diretamente, com a lógica patriarcal e se designam como coletivo político.

É neste processo de auto-designação que se expressa a diversidade de sujeitos da luta feminista3 e se evidencia as múltiplas temáticas que interessam as pesquisas sociais sobre a condição das mulheres.

Ao longo do processo de consolidação da ordem buguesa e da democracia representativa formal, as mulheres pomoveram um conjunto de agitações políticas que confrontavam a desigualdade entre os sexos. Ao tempo em que, se rebelavam contra as desigualdades sociais.

Desta forma, além de lutarem pela consolidação do poder popular em contraponto ao poder burguês, as mulheres iniciaram uma batalha histórica em torno do direito de participar ativamente da vida pública, do mundo do trabalho remunerado, do acesso a educação, da representatividade política e do acesso as forças armadas.

Riot-Sarcey ( 2002) apresenta os argumentos que justificavam à época, as concepções discriminatórias sobre as mulheres:

Todos os habitantes de um país devem e gozam de direitos de cidadãos passivos, todos tem direito a proteção de sua pessoa, de sua propriedade, de sua liberdade, etc... mas nem todos tem o direito a ser parte ativa da formação do poder público; nem todos são cidadãos ativos. As mulheres, [...] as crianças, os estrangeiros, aqueles que não contribuem em nada para o funcionamento público não devem, pois influenciar na coisa pública ( p. 20).


Além dessas interdições, o regime burguês reafirmou a hierarquia na família como base para a organização social, posicionando-se contra o direito ao amor livre e ao divórcio, reclamados pelas mulheres no processo da Revolução Francesa. Ao mesmo tempo em que reafirma o poder do homem como chefe da família, ao qual devem estar subordinado todos os outros membros.

Apesar das mulheres contarem com o apoio do movimento dos trabalhadores na maioria de suas reivindicações, foi particularmente, com relação ao direito ao trabalho que houve maior resistência. Inclusive em 1866, no congresso da Internacional dos Trabalhadores os delegados foram contrários ao trabalho feminino. Esta decisão provocou reação imediata das mulheres socialistas que intensificaram as manifestações e as petições públicas e fundaram a primeira associação feminista, chamada de Liga das Mulheres, em 1868.

Este acirramento de posições perdurou até 1871, quando emergiu a experiência da Comuna de Paris e as reivindicações pela igualdade entre os sexos cedem lugar a causa comum, da conquista de uma sociedade regida pelos interesses da classe trabalhadora. As mulheres assumiram, assim, mais uma vez, um claro compromisso de classe com a luta socialista.

A consolidação do capitalismo e a nascente industrialização provocaram um conjunto de alterações de ordem econômica, social e política que tiveram repercussões na vida das mulheres. No entanto, elas continuaram excluídas dos direitos civis e políticos

A luta sufragista surge neste contexto. As mulheres defendiam que o sufrágio universal possibilitaria o acesso do sexo feminino à política e por consequinte abriria a possibilidade de mudança no conjunto das leis e instituições. A luta sufragista também possibilitaria, segundo as sufragistas, uma ampla aliança entre as mulheres, unificando, estrategicamente, diferentes posições .

Dentre as particularidades deste movimento, o seu caráter de massa foi, sem dúvida, o que mais desafiou as feministas socialistas, no interior das organizações sindicais, assim como na estrutura dos partidos socialistas e comunistas, à época. O grande desafio estratégico era justificar a importância da luta das mulheres, para o processo de transformação radical da sociedade. 4

Sem dúvida, o debate sobre o papel das mulheres populares na luta revolucionária, mobilizou, articulou e, dialeticamente, dividiu a ação das feministas. No entanto, foi fundamental para o posicionamento político do movimento no sentido de articular a luta das mulheres com a luta pela emancipação humana.

Isto por quê como já situamos, a entrada das mulheres no mundo do trabalho enfrentou forte resistência de parte dos trabalhadores que, consideravam essa presença para além de uma ameaça aos seus empregos. Mas, também como uma deturpação do papel tradicional das mulheres que para eles deveria se reduzir ao cuidado do lar, na organização do processo de reprodução da força de trabalho.

A agudização da questão social no século XIX, aprofunda o caráter social da opressão das mulheres e contribue para uma maior aproximação das organizações de mulheres, com a luta socialista. Data deste período, a realização de Congressos Internacionais, nos quais se definiam linhas de atuação política para organização das mulheres nos partidos comunistas5.

A experiência do socialismo real, nos países de Leste europeu, evidenciou as dificuldades desta articulação, na medida em que as transformações da base produtiva não alteraram as relações de poder e de desigualdades entre homens e mulheres. Sobre este fato, os escritos de Alexandra Kollontai (1982) acerca da emergência de uma nova moral com a destruição do patriarcado, considerado uma estrutura de reprodução ideológica da sociedade de classe. É um dos exemplos da dificuldade de incorporação das demandas de liberdade e autonomia das mulheres, pela esquerda mundial socialista.

Por outro lado, a resistência política à luta específica das mulheres desafiou e continua a desafiar a oganização de feministas no interior dos partidos de esquerda. Principalmente, para o entendimento de que assim como a classe, o gênero e a raça/etnia compõem a ontologia do ser social. Neste sentido, o combate a esta tríade de dominação deve estar pesentes na construção do programa estratégico, de forma simetricamente articulada.

Essa compreensão reafirma a necessidade histórica da continuidade da auto-organização das mulheres no processo da luta anticapitalista. O desafio é se constituir um campo político no qual a luta pela igualdade entre os sexos e a ruptura radical com as estruturas do capitalismo caminhem com a mesma intensidade e força política no interior do projeto libertário.




  1. Os dilemas da igualdade em tempos de diversidades

Aliado a este processo de disputa programática, o movimento feminista vivenciou ainda, nos finais do séxulo XX, o panorama do questionamento radical da noção de sujeito coletivo, inaugurado pela teoria pós-moderna.

Em Varikas (1993), esse giro conceitual traz ao feminismo um enorme risco da perda de seu potencial crítico e transformador. Uma vez que promove o esvaziamento de uma proposta política de emancipação das mulheres, ao deslocar suas análises do campo da realidade concreta para o campo das significações simbólicas e textuais dos discursos.

Para esta autora, o principal desafio do feminismo, neste contexto, são as:


[...] tensões entre a auto-afirmação do indivíduo e a normatividade homogeneizante da construção de todo coletivo, a questão da simultaneidade das opressões, irredutíveis a uma hierarquização de ordens múltiplas de dominação em termos de “principais” e “ secundárias”, a impossível tensão entre o geral ou o universal [...] e suas configurações concretas e singulares. ( 1993: 76)
Assim, apoiado na crítica ao estruturalismo, o feminismo passa a desenvolver um campo conceitual e teórico que se propõe a romper com os determinismos e suas expressões essencialistas que, naturalizam, entre outras dimensões sociais, a discriminação entre os sexos

Ao mesmo tempo, a teoria feminista reafirma a crítica ao universalismo teórico, ao destacar não apenas as elaborações "falocêntricas" da teoria social, mas as diferenças entre as mulheres.

Uma outra dimensão sociológica que gostaria de salientar é a crítica contundente à noção de sujeito cartesiano. Neste campo, debate-se em torno da relação sujeito/objeto e do papel da subjetividade no processo de conhecimento.

Para as teóricas do feminismo, não se pode distinguir a razão e subjetividade como elementos distintos do processo de conhecimento. Uma vez que é a partir das experiências históricas construídas por sujeitos, em contextos concretos, que se realiza a condição humana.

Por último, queremos frisar a crítica ao materialismo dialético que está presente na aproximação teórica do feminismo com a pós-modernidade. Varikas (1993) defende que as maiores expressões dessas críticas se centram na noção de utopia e de emancipação.

Defendemos na abordagem dessa crítica, a observância do elemento histórico, já situado neste texto, com relação ao feminismo e as correntes de esquerda socialistas. Quando as teorias marxistas e os seus postulados de práxis, bem como as experiências concretas do socialismo real, trouxeram à teoria feminista uma série de observações. As quais revelavam que, somente com certos aportes marxistas seria impossível dar conta da "complexidade das relações desiguais entre os sexos, da divisão sexual de trabalho, de poder e de codificação do prazer" (CASTRO, 2000: 197).

Por outro lado, não podemos deixar de destacar que Marx e Engels defenderam que a problemática da vida das mulheres deveria ser compreendida no âmbito da questão social, portanto, por fora do estatuto da natureza ou da biologia. Ambos reconheceram a relação entre a emancipação das mulheres e a de toda humanidade, mas, ao se concentrarem na ordem econômica e no caráter histórico do ordenamento familiar, não elaboraram sobre a necessidade do processo de construção de relações igualitárias homem/mulher como elemento integrante da revolução socialista. Assim, portanto a questão da emancipação das mulheres perdeu o caráter de especificidade.

Com a Segunda Internacional e a forte presença de Clara Zétkin o debate sobre a luta específica das mulheres e sua relação com a revolução socialista assumiu contornos significativos. Zétkin defendia que a propriedade privada transformou as mulheres em propriedade do homem e que este, se apropria desta condição histórica para o exercício de seu poder na vida pública e privada. Sendo assim, seria papel do partido socialista incorporar em sua programática questões que fortalecessem a aliança entre o movimento operário e o movimento de mulheres. Para ela, isto significaria a ampliação do número de mulheres no processo de luta contra o sistema capitalista.

Apesar de concordarmos com alguns elementos da crítica formulada no contexto da pós-modernidade, com relação a liberdade criativa do sujeito, particularizamos a nossa unidade teórica, com as feministas socialistas, na defesa de uma organização societária sem a propiedade privada, com igualdade entre os sexos, com outra divisão sexual do trabalho e, com uma nova moral sexual, parafraseando Kollontai( 1982).

Para o feminismo contemporâneo é primordial falar de igualdade e de liberdade. E com isso, possa se consolidar como sujeito de emancipação articulado a um projeto de sociedade que ultrapasse a desigualdade entre os sexos como um de seus princípios ontológicos.

A questão estratégica que se apresenta neste desafio é: como constituir esse sujeito como síntese das singularidades das mulheres, sem perder de vista as trajetórias particulares que as mobilizam como força motriz interior?

Centralizamos neste desafio pois para Iasi (2006, 77): “O fazer histórico se apresenta silmutaneamente em dimensões particulares e genéricas, como momentos de uma totalização e não como polos estanques de uma determinação mecânica.”

Neste sentido, como nos ensina a tradição marxista, o desafio está em buscar as mediações entre as diversas deteminações que constroem o sujeito e a ação coletiva do feminismo.

Defendemos que uma das mediações que não se pode perder de vista é a da experiência vivida. Para tal abordagem, reportaremo-nos ao existencialismo beauvoriano, temática do próximo ítem.


3-Feminismo e existencialismo

A maturidade e o rigor intelectual de Beauvoir nos permitem reconstruir o contexto de suas elaborações, ao mesmo tempo, em que vamos identificando o envolvimento da pensadora francesa com os problemas de sua época.

A mensagem de Beauvoir foi clara: não existe uma essência do feminino. A feminilidade é uma invenção histórica, consolidada na identidade de gênero num determinado corpo sexuado.

Na aproximação com Sartre e o existencialismo, Beauvoir apresentou as bases para uma integralidade das mulheres como ser humano, condicionando, para tal, o reconhecimento pelas mulheres de sua condição de “outro” na relação com o homem e o mundo.

O sujeito no feminismo existencialista de Beauvoir baseia-se, assim, em primeiro lugar, na noção de história como um devir, como o projeto do se torna, como transitoriedade. Para ela:
Uma sociedade não é uma espécie: nela, a espécie realiza-se como existência; transcende-se para o mundo e para o futuro; seus costumes não se deduzem da biologia; os indivíduos nunca são abandonados à natureza; obedecem a essa segunda natureza que é o costume e na qual se refletem os desejos e os temores que traduzem a sua atitude ontológica. Não é enquanto corpo que o sujeito toma consciência de si mesmo e se realiza: é em nome de certos valores que ele se valoriza. (BEAUVOIR, 1980 : 56)
A coerência radical desta teoria se centraliza no reconhecimento dos elementos de interiorização da experiência vivida que é, ao mesmo tempo, resposta de subjetivação.

Aqui consideramos importante resgatar Marx, nos Manuscristos Econômicos e Filosófico quando aborda a questão da consciência universal e do homem enquanto ser genérico. Segundo Marx (1989: 196):


[...] muito embora se revele assim como indivíduo particular, e é precisamente esta particularidade que dele faz um indivíduo e um ser comunal individual - é de igual modo à totalidade, a totalidade ideal, a existência subjetiva da sociedade enquanto pensada e sentida. Ele existe ainda na realidade como a intuição e o espírito real da existência social, como uma totalidade da manifestação humana da vida. ( MARX,1989: 196).

A consciência surge em Marx, retornando aos Manuscritos, como totalização e individualização na sociedade. Para ele, o movimento do ser humano nas suas relações com o mundo marca a objetivação dos sentidos físicos e intelectuais:


[...] só quando o objeto se torna objeto humano ou o homem objetivo, é que o homem não se perde nele. Tal só é possível quando o próprio homem se torna objeto social, no momento em que se transforma em ser social e a sociedade para ele se torna ser no referido objeto (MARX, 1989: 198).

Com isto queremos destacar a atualidade do Segundo Sexo quando Beauvoir define a situação da mulher, como uma alienação, como o outro. Daí a importância da perspectiva de autodesignação e emancipação que o feminismo sintetiza como sujeito de liberdade.

Neste sentido, destacamos um segundo ponto na teoria de sujeito em Beauvoir que é a sua oposição à realidade mítica da natureza feminina. Para a autora, o principal mito que aprisiona as mulheres é o da feminilidade:
É, também, inteiramente verdade que a mulher [...] é um ser arraigado na natureza; ela é mais do que o homem escravizada à espécie, sua animalidade é a mais manifesta, mas, nela como nele, o dado é assumido pela existência, pertence também ao reino humano. Assimilá-la à natureza é um simples “parti pris”. (BEAUVOIR, 1980: 301).
Para Beauvoir, o devir histórico das mulheres é a ruptura com o Eterno Feminino, com um modelo normatizado de existência para as mulheres que as submetem a normas, estatutos e valores discriminatórios e de dominação. Para esse processo, a pensadora feminista, designou o termo da transcendência.

A transcendência assume, nesta perspectiva, um sentido aproximado com o da liberdade. Inclusive, é nesta categoria que se percebe a influência existencialista no feminismo de Beauvoir.

Apoiado no trinômio da escolha, projeto e engajamento, o conceito de liberdade apresentado pelo existencialismo, reafirma a idéia de um sujeito consciente e atuante. Como destacamos:
[...] só há realidade na ação; [...] o homem só existe na medida em que ele se realiza, ele não é, portanto, nada mais do que o conjunto de seus atos, nada mais que sua vida. [...] O quietismo, é a atitude das pessoas que dizem : os outros podem fazer o que eu não posso fazer. ( SARTRE, 1996 : 51).
Este sujeito autônomo, livre em suas escolhas e verdadeiro em seus engajamentos, é a base do existencialismo que considero importante para a teoria do sujeito desenvolvida pela história do feminismo, como antítese do patriarcado.

Utilizamos o termo patriarcado como ele foi empregado pelo feminismo dos anos de 1970: “[...] indica uma formação social onde os homens detêm o poder, ou ainda, simplesmente: o poder dos homens”. ( DELPHY, 2000: 141).

Mesmo considerando o patriarcado como anterior ao capitalismo, este sistema apropriou-se de suas estruturas simbólicas para compor a trajetória patriarcal-capitalista do sistema de gênero (SAFFIOTI : 2000). No qual se consolida o processo de exploração-dominação que legitima a hierarquização masculina na sociedade, ao estabelecer a liberdade para os homens e às mulheres, a submissão. Ao focalizá-lo como sistema de poder masculino, destaca-se, segundo Saffioti (2000) a dupla fase da dominação-exploração sobre as mulheres: econômica e sexual.

Para Beauvoir, a relação público X privado, instituída pelo patriarcado, é estruturante da desigualdade social entre os gêneros na sociedade:


No homem não há nenhum hiato entre a vida pública e a vida privada: quanto mais ele afirma seu domínio do mundo pela ação e pelo trabalho, mais ele se revela viril; nele, os valores humanos e os valores vitais se confundem; ao passo que os êxitos autônomos da mulher estão em contradição com a sua feminilidade, porquanto se exige da “verdadeira mulher” que se torne objeto, que seja o outro. (BEAUVOIR, 1980: 308).
Categoria analítica dotada de um peso histórico e social e, longe de se constituir como um tema anacrônico, o patriarcado e sua crítica são estratégicos para o feminismo conforme situa León (1999):
[...] a reconceitualização do patriarcado pelas feministas, como um sistema social opressivo [...] regulador das relações de poder, econômicas e sociais entre os gêneros, tem evidenciado que a opressão das mulheres não é um “problema individual”, nem cultural, nem natural, mais, sim, um fenômeno político, supra-nacional e histórico. (LEÓN, 1999: 08).
Isto porque os mecanismos de dominação se estruturam como pontos de vistas hegemônicos. No caso da opressão das mulheres se fundamentam na caracterização assimétrica das condições de existência dos homens e das mulheres na sociedade, em pelo menos quatro dimensões, como nos afirma Camurça (2007): na divisão sexual do trabalho, no controle da sexualidade, na violência contra a mulher e nos processos de decisões políticas.

A preocupação do feminismo em afirmar as particularidades, como propostas de sua construção, pode ser destacada nos Encontros Feministas Latinoamericano:


Cada organização, mulher e proposta se filia ao feminismo à luta ou causa que a mobiliza. E por sua vez o feminismo oferece um marco político e teórico capaz de incluir, gerar debates e abrir terrenos de propostas. Se algo caracteriza o feminismo é sua universalidade, de acordo com a extensão das relações patriarcais, as relações de poder entre os homens e as mulheres estão em todas as partes e afetam a todas, individual e coletivamente. (Relatório do VIII Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe, República Dominicana, 1999: 01)

Com isso, reafirmamos a idéia do feminismo tanto como uma escolha política quanto como uma proposta metodológica, que se desafia, permanentemente, a buscar os pontos de intersecção entre as clivagens da condição das mulheres. Entre suas experiências vividas que se reproduzem e se retro-alimentam das novas concreticidades construídas na história social.


4 - Autonomia e liberdade: a construção do coletivo total

A questão do sujeito que expresse a multiplicidade das demandas específicas das mulheres tem sido uma das problemáticas internas do feminismo, que precisam ser levadas em conta, pois, como afirma Oberti (2000):

o patriarcado, ou como queiramos denominar ao sistema de dominação, não é um sistema fechado [...], mas sim formas hegemônicas de poder - masculino - que revelam suas próprias falhas [...] a tarefa estratégica do feminismo é explorar essas brechas onde houver e também ajudar a produzi-las. (OBERTI 2000: 03 )

Para Varikas (1999), a materialidade da opressão das mulheres se encontra na adequação entre o que é a norma e a realidade. Cabe ao feminismo dar visibilidade a esta dualidade, com ações políticas e um corpo teórico, que assegure uma unidade entre o projeto de emancipação das mulheres e a construção de uma ordem social igualitária.

Há algum tempo, esta é uma preocupação visível no feminismo latino-americano, conforme destacamos dos encontros feministas no continente:

O movimento se encontra expresso em todas as iniciativas antipatriarcais que as mulheres feministas desenvolvem nos diferentes espaços. [...] O feminismo como movimento social que pretende integrar um projeto de mudança na situação de opressão da mulher deve incluir dentro de seu agir todas as categorias que nos definem como pessoas, que integram como sujeitos que fazem parte de nossa opressão global como mulheres. [...] Este feminismo se vai construindo em diversidade de formas [...]Essa heterogeneidade que reflete necessidades diferentes e diversos níveis de consciência, exige encontrar demandas conjuntas para avançar na construção de um movimento amplo e autônomo ( Relatório do V Encontro Feminista latino- americano e do Caribe, Argentina, 1990 : 18-21).
Com isso percebemos o significado da diversidade na composição social e práxis do movimento. Diversidades que, segundo Oberti (2000), referem-se:
[...] em primeiro lugar, a diferentes posições constituídas por cruzamentos de determinações (escolha sexual, gênero, etnia, classe social, idade, e assim por o infinito); em segundo lugar, à tolerância e ao reconhecimento da posição da outra.[...] não se confundir diversidade com desigualdade ou com abuso de poder. ( OBERTI, 2000: 02).
A primeira leitura que podemos fazer é a compreensão de que o feminismo como sujeito coletivo se constitui, mediante um duplo processo: o reconhecimento da diversidade e a construção de uma unidade programática que reflita a aceitação das experiências particulares dentro da identidade coletiva.

O feminismo possui uma heterogeneidade em sua formação que é decorrente das diferentes experiências de opressão das mulheres, enquanto corpo individualizado e sujeito social. Assim, podemos afirmar que as estatégias oganizadas pelo feminismo como sujeito coletivo, sistematizam as formas de enfrentamento e de resistência das mulheres à sua condição de oprimidas e explorada.

Sendo assim, na organização programática e operativa do movimento feminista é fundamental que as diversas objetividades que movem a resistência das mulheres, sejam reconhecidas e assumam a mesma visibilidade e potencial de articulação interna do feminismo como sujeito de emancipação.

Como nos afirma Silva( 2010, 23)

A dialética de ser sujeito implica em compeender as mulheres como pessoas na singularidade de suas experiâncias e compreender o grupo social mulheres como tendo algo em comum, apesar de suas diferenças e desigualdades internas.

Uma das mediações desse pocesso é a compreensão do feminismo como um sujeito político de ação, construído nas totalidades parciais da opressão das mulheres em vinculação com a totalidade social na qual sua atuação política auto-reflexiva tem um sentido de práxis6.

A categoria de coletivo total, evidencia também o desafio de se superar os impasses originários da tensão entre os campos políticos no interior do feminismo, ao possibilitar, em sua analítica, a interação entre as diferentes interpretações da realidade e entre as diversas maneiras de se construir a práxis de tansformação do feminismo.

Assim, é cada vez mais urgente a criação de novos e o fortalecimento de antigos espaços de construção política coletiva, como os encontros e os fóruns de debates e de intervenção política coletiva. Organizados a partir de uma metodologia que possibilite a expressão concreta de todas as demandas específicas que compõem o sujeito “mulheres”. O que pode possibilitar uma práxis de unidade na ação que sem, dúvida, fortalecerá o feminismo nos momentos de confrontos radicalizados com a ordem patriarcal capitalista contemporânea.

O feminismo se desafia, portanto, a empreender-se na construção de espaços amplos de articulação e lutas políticas que consigam mobilizar cada uma das mulheres mediante o reconhecimento de sua particularidade de ser e, ao mesmo tempo, a partir do reconhecimento das múltiplas determinações que compõem suas experiências de mulher, perpassando portanto as dimensões de classe, raça, geração, sexualidade, afetividade entre outras questões.
Referências
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1 Assistente Social, doutora em sociologia, professora do curso de serviço social da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte- UERN, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre a Mulher – NEM-UERN, militante feminista

2 Celia Amorós (2001: 90) utiliza esta noção para considerar não apenas a Ilustração Européia do Séc. XVIII, mas inclui: “ [...] desde que a ala esquerda dos sofistas gregos, proclamou a igualdade entre os gregos e os bárbaros, entre os homens livres e os escravos até aqueles processos sociais e ideológicos em que se deslegitimou o poder hegemônico da ordem feudal”.

3 Miguel (2000) aborda este processo no artigo: Los feminismos a través de la historia. Disponível em: http:// creatividadfeminista. org./artículos/ feminismo, 2000.


4 González (2010) apresenta esse debate no movimento, bem como a relação das sufragistas com as socialistas.

5 Num desses encontros, em 1910, que foi definido a realização da primeira Jornada Internacional da Mulher que iniciou a tradição do 08 de março, em nível mundial, segundo algumas pensadoras feministas, como González ( 2010).


6 O conceito de práxis é revisitado com muita freqüência pela teoria sociológica e pela filosofia. Considero que temos que abordá-lo como um conceito que indica ação criativa e potencialidade humana num contexto determinado. Para Marx, práxis indica “a atividade livre, universal, criativa e auto-criativa por meio da qual o homem cria (...), e transforma (...) seu mundo humano e histórico e a si mesmo(Apud Bottomore 1988: 292).


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