O futuro do trabalho



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O FUTURO DO TRABALHO
Domenico De Masi


Capítulo nove (páginas 125 a 141)
PROMETEU DESACORRENTADO
“(...) Mais ligado do que os outros aos fornecimentos das colônias, o setor algodoeiro foi o banco de prova do novo modo de produção. (...)”
“O aperfeiçoamento da organização industrial, nascida na Europa em fins do século XVIII, aconteceria do outro lado do Atlântico, na Filadélfia de Taylor e na Detroit de Ford, entre fins do século XIX e os primeiros vinte anos do século XX.”
(...) a obtenção da eficiência foi a preocupação constante dos seres humanos em busca de meios para eliminar a miséria e a fadiga. No curso de milênios, essa busca deu os resultados tecnológicos que já vimos. Com freqüência, recursos aparentemente insignificantes ofereciam vantagens surpreendentes. Durante séculos, por exemplo, as espigas de trigo eram cortadas com a foicinha, que permitia aprontar determinada área de terreno em 60 minutos. Alguém teve a idéia de alongar o cabo da foicinha, transformando-a em foice: o tempo foi reduzido para 15 minutos e por isso o rendimento do ceifeiro quadruplicou. Daquele modo, portanto, era como se o ceifeiro estivesse ladeado de três colegas que trabalhavam silenciosamente para ele sem pretender sequer pagamento, comida ou abrigo*.”
Com o nascimento da indústria iniciou-se um dos maiores empreendimentos da espécie humana, comparável à invenção da agricultura há dez mil anos, à fundação da cidade na Mesopotâmia há cinco mil anos, à criação da democracia e da network na Grécia Clássica, à invenção do direito internacional e do império global na Roma de Augusto”.
“Nascida da acumulação primária da economia colonial inglesa, da utilização da energia do vapor e da eletricidade, da conquista burguesa das liberdades parlamentares e da confiança iluminista no racionalismo, a organização científica estava destinada a evoluir por todo o século }XIX, até encontrar o seu apogen nas grandes fábricas metalúrgicas e automobilísticas dos Estados Unidos.”
RESGUARDAR OS GÊNIOS
“A real conquista da ciência e da tecnologia moderna”, escreveu John Kenneth Galbraith, “consiste em tomar pessoas normais, instruí-las a fundo num setor limitado e ainda conseguir, graças a uma organização adequada, coordenar sua competência com a competência de outras pessoas especializadas mas igualmente normais. Isso permite resguardar os gênios. (...)”
“(...) resguardar os gênios individuais, reservando-lhes as únicas ou poucas funções geniais exigidas pela organização do trabalho. E, assim, em duzentos anos ela colonizou o mundo inteiro, que se dividiu sob tantos aspectos políticos, religiosos, econômicos, mas se fez de qualquer modo industrial: ou no consumo ou no modo de produção ou em ambas as coisas. Peter Drucker disse que “a revolução mundial do nosso tempo é a made in USA.” (...). O verdadeiro princípio revolucionário é a idéia da produção de massa”. Talvez haja muita ênfase bairrista, talvez alguma falha de memória (o advento industrial foi anbtes de tudo europeu)10, mas a substância da sua constatação permanece válida: a revolução industrial foi uma revolução para todos os efeitos e certamente a maior, a mais penetrante, a mais irreversível desencadeada desde as origens da história humana até a segunda metade do século XX.”
Hoje, depois de consumada, todos estão cientes disso. Mas na origem as possíveis vantagens e desvantagens da grande indústria pareceram claras apenas para os observadores mais argutos. Tomemos seis deles, de alto grau, e vamos chamá-los a testemunhar: Smith, Taylor e Ford a favor; Tocqueville e Marx contra a organização industrial do trabalho, vista como ré”.

TRÊS TESTEMUNHAS A FAVOR: SMITH, TAYLOR E FORD

Segundo Adam Smith, em sua Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações*, “a causa principal do progresso da capacidade produtiva do trabalho e também da maior parte da arte, destreza e inteligência com que o trabalho foi desenvolvido e dirigido parece ter sido a divisão do trabalho. (...)” Esse grande aumento da quantidade de trabalho que, após a divisão do trabalho, o mesmo número de pessoas consegue realizar, é devido a três diferentes circunstâncias: primeiro, o aumento de destreza de cada operário; segundo, a economia do tempo que habitualmente se perde para passar de uma espécie de trabalho para outra; e por fim, a invenção de um grande número de máquinas que facilitam e abreviam o trabalho e permitem a um só homem fazer o trabalho de muitos. (...) Muitos aperfeiçoamentos foram realizados graças à engenhosidade dos construtores de máquinas, quando construí-las é o conteúdo de uma profissão específica, e outros graças à engenhosidade dos chamados filósofos ou espíritos especulativos. A diferença de talentos naturais entre os homens é efetivamente muito menor do que se pensa e em muitos casos as diferentes inclinações que parecem distinguir na maturidade homens de diferentes profissões são, infelizmente, efeito da divisão do trabalho.”*


(...) Smith colhe em cheio os dois fatores essenciais do desenvolvimento industrial: a intuição organizativa do trabalho parcelizado (que, mais de um século depois, Taylor levará à máxima perfeição) e o progresso tecnológico aplicado para facilitar e reduzir o trabalho humano. Mas intui também uma grave ameaça social inata no novo modo de produzi8r: que a divisão do trabalho venha a marcar definitivamente o trabalhador, fixando-o numa profissão que não corresponde às suas inclinações naturais.”
(...) O segundo testemunho a favor da organização industrial do trabalho é de Taylor, em cuja tumba, na Filadélfia, não por acaso foi inscrita esta epígrafe: “ The Father of Scientific Management”.
(...) Taylor foi ainda mais fundo na operação integralmente industrial de transferir o trabalho da esfera da aproximação para o universo da precisão. Com Taylor, os papéis diretivos são separados claramente dos papéis executivos e estes são classificados, cronometrados, prescritos, sem deixar qualquer margem de discrição.”
Com Taylor, o cronômetro entra na fábrica, apodera-se dela, regula-a e domina-a. Hoje, uma parte do mundo é cristã, outra parte é muçulmana; uma parte é capitalista, outra é comunista; uma parte do mundo é composta de brancos, outra parte de amarelos e outra, ainda, de negros; todos, porém, são tayloristas. Talvez não saibam que o são; talvez não tenham nunca ouvido falar de Taylor, mas são tayloristas: 24 horas por dia pensam, trabalham, divertem-se e até amam segundo os princípios do taylorismo, mais do que talvez faria, hoje, o próprio Taylor.”
“Mas quem era esse Taylor? A seu modo, era um conservador progressista e em certo sentido até revolucionário que, ao contrário de seus pais, escolhera como campo de ação não a política nem a cultura, mas a fábrica.”
No século XIX, ninguém mais do que ele e Marx compreenderam que o coração da sociedade, o sistema central no qual todos os outros sistemas se iam modelando, não era mais a produção agrícola, mas a fábrica. Marx compreendeu que na fábrica jogava-se o destino do proletariado; Taylor compreendeu que na fábrica jogava-se o destino da burguesia. Um queria que os operários se apropriassem de tudo; o outro queria que os fornecedores de trabalho e os trabalhadores convivessem em um sistema capaz de satisfazer a ambos, convencido de que tal sistema pudesse ser instaurado por meio de uma organização não aproximativa e unilateral mas científica e super partes.”
“Com o advento da sociedade industrial, no curso do século XIX tinham-se traçado quatro posições sobre o problema do trabalho: segundo a posição cristã, o trabalho é um castigo divino indispensável para o resgate do homem e sua salvação eterna; segundo a posição liberal, o trabalho é uma mercadoria submetida como qualquer outra às regras do mercado; segundo a posição comunista, o trabalho é a própria essência do homem, a atividade pela qual ele manifesta as suas melhores qualidades e que, por isso, não pode ser transformado em mercadoria; segundo a posição do socialismo filantrópico – de Owen a Fourier e Proudhon – as condições de trabalho podem ser humanizadas até que ele se torne uma fonte de alegre socialidade.”
Taylor introduz uma quinta perspectiva: todo o trabalho físico e grande parte do trabalho intelectual, progressivamente reduzidos em quantidade e acrescidos de produtividade, podem ser automatizados e organizados até desaparecer como “problema”, como fator de enfraquecimento econômico, de sofrimento individual e de conflito social. O dever do engenheiro organizador, nesse esquema, era justamente o de introduzir métodos e técnicas capazes de reduzir sistematicamente o tempo e o esforço humano necessários à produção, subtraindo fadiga às atividades do homem e descarregando-a sobre máquinas automáticas especialmente projetadas.”
“Quando todo o trabalho executivo estivesse descarregado sobre as máquinas e a organização, sobrariam para o homem apenas os hobbies e a atividade intelectual criativa, que Aristóteles chama de paidía e skolé. “O estudo” – escreve Taylor, em 1910 – “e também a invenção são um divertimento mental (..), um enorme prazer e não um trabalho”. Portanto, para ser assim, o trabalho deve considerar não o estudo, mas a prática, não a idealização, mas a execução, não o prazer, mas a fadiga. Como tal, é economizado, de modo a obter o máximo resultado com o mínimo esforço.”
“Um século depois e comprovada pelos fatos, a concepção de Taylor parece vitoriosa sobre todas as outras: já no seu tempo, onde quer que chegasse o scientific management diminuíam os operários e as incumbências físicas e aumentavam os empregados e as incumbências intelectuais – era necessário muito menos esforço humano para obter a mesma produção. (...)”
Taylor estava convencido de que uma organização projetada cientificamente podia resolver, a um só tempo, tanto as exigências dos empregadores como as dos empregados, conciliar altos salários e baixo custo de mão-de-obra, tornar os homens mais eficientes e, assim, mais felizes e mais prósperos. (...)”
(...) Desde jovem, Taylor cultivará uma única convicção: que todo problema, seja de natureza pessoal ou social, pode ser resolvido com organização e tecnologia. (...)”
“(...) Enquanto em todos os países industriais estouravam focos de luta de classe, Taylor reiterava que toda a questão se resumia a poucas regras elementares: para evitar conflitos e obter alta produtividade não são necessários gestos de caridade, de gentileza ou simpatia pessoal; são necessárias gratificações econômicas aos operários mais aplicados, é preciso que haja confiança recíproca entre direção e dependentes, superiores capazes de falar a mesma linguagem dos trabalhadores, encorajando-os a discutir juntos os problemas que surgem aos poucos no curso da produção.”
“Em 1899, Taylor enunciou pela primeira vez os seus “princípios fundamentais indispensáveis para uma boa gestão: independentemente da sua posição, cada um deve respeitar as seguintes condições 1) o resultado e o objetivo que se querem obter devem ser claramente definidos e manter-se no âmbito das próprias capacidades; 2) cada um deve ter a capacidade de atingir esse resultado, incluindo, para isso, a necessária autoridade e a responsabilidade pessoal; 3) em caso de sucesso, cada um deve estar seguro de receber plena satisfação e remuneração adequada; 4) em caso de insucesso, cada um deve estar pronto a assumir a responsabilidade e a justa punição.”*
“Em 1903, Taylor publicou o seu texto mais importante, Shop Management, com três objetivos principais: 1) demonstrar que altos salários e baixo custo de mão-de-obra são a base da melhor organização; 2) enunciar os princípios gerais que tornam possível manter essas condições, mesmo nas situações mais difíceis; 3) definir os vários estágios que se devem atravessar na passagem de um sistema medíocre de operação para um melhor.”
“Segundo Taylor, quem pretende aplicar o scientific management deve antes de tudo padronizar todos os utensílios e todos os métodos, depois esmiuçar cada incumbência de modo a “tornar cada tarefa o mais curta e o mais simples possível”; por isso deve medir com precisão os tempos unitários requeridos por cada uma das tarefas elementares e, por fim, aplicar a cada tarefa o mais adequado sistema de remuneração disponível: diário, por empreitada, empreitada com prêmio ou empreitada com tarifa direfencial.* (...)”
Taylor era um consultor: para realizar suas idéias, por serem complicadas, tinha que passar pelo gargalo constituído pela vontade dos empresários que o consultavam. Por sua natureza teórica e de projetista, dava mais importância à perfeição do que à praticidade, à “racionalidade absoluta” do que à “racionalidade relativa”, diria o prêmio Nobel Herbert Simon.”
“Outro engenheiro, Henry Ford, pensou em aplicar seriamente a teoria na prática em um outro contexto (Detroit) e em outro setor (a indústria automobilística, já eletrificada). Até aquele momento, a produção em grande série tinha interessado apenas a fábricas de parafusos, panelas, trilhos e coisas do gênero. Com Ford, a racionalização e a maximização conquistarão a indústria do automóvel, isto é, da máquina por excelência, aquela que mais do que todas marcará o século XX.”
Ford construiu o seu primeiro veículo em 1893, isto é, no mesmo ano em que Taylor leu na reunião da Asme – a associação dos engenheiros americanos – o seu relatório Notes on Belting. (...) Em 1908 colocava em produção aquele que depois seria o carro do século, o “Modelo T”. No ano seguinte, “1909, anunciei certa manhã, sem qualquer aviso prévio, que daquele momento em diante construiríamos penas um modelo e que esse modelo seria o “T”, com chassi exatamente idêntico em todos os veículos, e acrescente: cada cliente poderá comprar o carro na cor que preferir, desde que seja preto”.* (...)
Em 1913, isto é, dois anos antes da morte de Taylor, Ford inaugurou a primeira linha de montagem, expressão e síntese máximas do taylor-fordismo.”
“A idéia de Ford é criar um veículo para o grande público, destinado tanto a um único usuário como à família inteira, construído com materiais de qualidade e posto à venda a preços tais que “nenhum homem com um bom ordenado não seja capaz de possuir um e de gozar com a família as benesses de algumas horas de prazer nos grandes espaços abertos por Deus”.”
Ao contrário de Taylor, Ford usa uma linguagem em que convivem o empresário, o ideólogo, o patriota, o profeta. Na prática, porém, o empresário vence sempre todos os outros. O fato é que o “Modelo T”, rigorosamente vestido de preto, foi posto à venda por menos de mil dólares, enquanto um Mercedes, que o comprador podia escolher na cor do seu gosto, custava 18 mil dólares.”
Ford repete muitas vezes que a empresa é uma obra coletiva, como uma catedral, e que nenhum empresário tem o direito de considerá-la resultado pessoal seu. (...)”
A linha de montagem evita que o trabalhador se desloque ou se movimente para pegar um componente, porque leva as peças ao lugar preciso onde ele deve utilizá-las. Desse modo, grande parte do tempo antes perdido pelos operários é incorporado na linha de montagem. O trabalho se parceliza posteriormente e perde qualidade; a produtividade cresce visivelmente. Onde enlouquecia a desordem das coisas, o perambular e o vozerio dos homens, agora reinam, soberanos, a precisão dos gestos, o silêncio das pessoas, a força da máquina. (...) Em poucos anos a linha de montagem – posta no ponto, finalmente – conseguiu quadruplicar o rendimento de cada operário. Com o mesmo orgulho com que recorda esse sucesso, Ford observa: “O resultado claro da aplicação desses princípios é a redução para o operário da necessidade de pensar e a redução ao mínimo dos seus movimentos. Sempre que possível, o operário faz apenas uma coisa, com um só movimento.” (...)”
“(...) “O trabalho repetitivo, o fazer contínuo, sempre do mesmo modo, de uma única coisa, é uma perspectiva terrível para certo tipo de mentalidade. É terrível também para mim. Eu não conseguiria nunca fazer a mesma coisa todos os dias; mas para outro tipo de pessoa, diria talvez que para a maioria das pessoas, as operações repetitivas não são motivo de terror. Na realidade, para alguns tipos de mentalidade, pensar é verdadeiramente um castigo. Para essa gente, o trabalho ideal é aquele em que o instinto criativo não se deve exprimir. Os trabalhos em que é preciso colocar cérebro e músculos têm poucos apreciadores... O operário médio – e não me agrada ter que dizê-lo – deseja um trabalho em que não precise dispor de muita energia física e sobretudo um trabalho em que não precise pensar.” (...)”
(...) desde 1914 Ford estabeleceu o mínimo salarial de cinco dólares por dia (o mais alto do setor) e a jornada de trabalho de oito horas (amais curta do setor). Em 1921, seis anos depois da morte de Taylor, saía da linha de montagem da Ford o veículo que completava cinco milhões de unidades produzidas; o americano médio podia comprá-lo por menos de 600 dólares.”
TRÊS TESTEMUNHAS CONTRA: OWEN, TOCQUEVILLE E MARX
A lógica do capitalismo, segundo Owen, tinha lançado os trabalhadores em condições materiais e espirituais verdadeiramente piores do que as pré-industriais. “A difusão geral das indústrias em um país produz um novo caráter nos habitantes; e porque se forma na base de um princípio absolutamente desfavorável à felicidade individual e geral, esse caráter produzirá os males mas deploráveis e permanentes, a menos que se tenha uma intervenção legislativa para contrastar essa tendência.” (...)”
Para ter sucesso nessa corrida, os concorrentes em disputa “levaram as classes inferiores, de cujo trabalho deriva hoje essa riqueza, a um nível de verdadeira opressão...” (...)”.*
“(...) De la Démocratie em Amérique revela a rachadura numa sociedade já industrial tal como se mostra ao olhar aguçadíssimo de Tocqueville*, segunda testemunha aqui convocada contra a organização industrial do trabalho.”
“Depois de ter mostrado como a democracia favorece o desenvolvimento da indústria e a proliferação dos industriais, Tocqueville explica porque, no seu entender, a indústria pode por sua vez conduzir à desigualdade: “Não vejo nada de mais preocupante, sob o prisma político, do que esses novos sistemas industriais. Quando um operário se dedica contínua e unicamente `_a fabricação de um só objeto, acaba por executar esse trabalho com destreza singular, mas perde ao mesmo tempo a faculdade geral de aplicar o espírito no trabalho. Fica cada dia mais hábil e menos laborioso; pode-se dizer que, nele, o homem se degrada à medida que o operário se aperfeiçoa.”
“O que se poderá esperar de um homem que empenhou vinte anos da sua vida fazendo cabeças de alfinetes? E para que poderia ele aplicar a poderosa inteligência humana que tantas vezes revolucionou o mundo senão para buscar um meio melhor de fazer cabeças de alfinete? (...) Ele não pertence mais a si mesmo, mas à profissão que escolheu.(...)”.”
O resultado dessa longa privação – que pouco depois Marx chamará de alienação – é uma progressiva distinção entre empresário e trabalhador: “Enquanto o operário é obrigado cada vez mais a limitar-se ao estudo de um só detalhe, o patrão alarga a cada dia o seu olhar sobre um complexo mais amplo; o seu espírito se estende, enquanto o do outro se restringe. Logo, ao operário bastará apenas a força física, sem inteligência, enquanto o patrão terá necessidade da ciência e quase do gênio para conseguir. Um se assemelha cada vez mais ao administrador de um vasto império, o outro a um bruto... (...)”.”
“(...) Poucos anos depois, nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, Karl Marx, o terceiro e mais implacável acusador da organização industrial de tipo capitalista, fornecerá uma primeira análise científica da exploração embutida no trabalho assalariado sob forma de alienação objetiva e subjetiva.* (...)”
Para Marx, parece imediatamente claro que a revolução industrial, bem mais veloz do que a rural, desencadeará uma transformação total, nunca antes vista: “Durante o seu domínio de classe apenas secular, a burguesia criou forças produtivas em massa muito maiores e mais colossais do que se as tivessem feito as últimas três gerações juntas. A subjugação das forças naturais, as máquinas, aplicação da química à indústria e à agricultura, a navegação a vapor, as ferrovias, os telégrafos elétricos, o desbravamento de continentes inteiros, a navegabilidade dos rios, populações inteiras surgidas do solo quase por encanto – qual dos séculos antecedentes imaginava que no seio do trabalho social estivessem adormecidas tais forças produtivas?”*.”
“Essa nova revolução celebra a sua vitória na pele dos trabalhadores reduzidos a mercadorias: “Esses operários, que são obrigados a vender-se por minuto, são uma mercadoria como qualquer outro artigo comercial. (...) Com a difusão do uso das máquinas e a divisão do trabalho, o trabalho proletário perdeu todo o caráter independente e com isso todo o atrativo para o operário, que passa a ser um simples acessório da máquina e ao qual se pede apenas uma operação manual simplíssima, extremamente monótona e facílima de aprender. (...) Operários concentrados em massa nas fábricas são organizados militarmente e dispostos como meros soldados da indústria, sob a vigilância de toda uma hierarquia de suboficiais e oficiais.”
A perpétua transformação gerada pela indústria e a insegurança em que ela lança o proletariado desdobram-se do nível estrutural ao cultural. Ainda no Manifesto lê-se: “O contínuo revolucionamento da produção, o ininterrupto sacudir de todas as situações sociais, a incerteza e o movimento eternos põem em destaque a época dos burgueses sobre todas as precedentes. Dissolvem-se todos os relacionamentos estáveis e enrijecidos, com a sua série de idéias e de conceitos antigos e venerandos, e todas as idéias e os conceitos novos envelhecem antes de poderem fixar-se.”
O domínio da burguesia sobre o proletariado realiza-se no íntimo de cada lavrador pela alienação e a nível planetário pela globalização, seja material ou intelectualmente. “Com a exploração do mercado mundial, a burguesia deu um cunho cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países. (...)”
“Foram suplantadas por indústrias novas, cuja introdução passa a ser questão de vida ou morte para todas as nações civilizadas, por indústrias que não trabalham mais apenas matérias-primas do lugar, mas das zonas mais remotas e cujos produtos não s]ão consumidos apenas no próprio país mas em todas as partes do mundo. Às velhas necessidades, satisfeitas com os produtos do país, sucedem novas necessidades que, para serem satisfeitas, exigem produtos de países e climas mais distantes. À antiga auto-suficiência e ao antigo isolamento locais e nacionais segue-se uma troca universa, uma interdependência universal das nações. (...)”
Como se vê, a “aldeia global” de McLuhan e a globalização das multinacionais de hoje se manifestam a Marx com um século e meio de antecedência, entre as fumaças das chaminés de Londres e Manchester, e lhe aparecem como o corolário da potência industrial, como projeção de uma tendência histórica, agora vigente, destinada a esmagar inexoravelmente os trabalhadores, a não ser que eles conseguissem bloquear a revolução burguesa com uma contra-revolução proletária.”
O trabalho, que deveria ser a mais alta expressão do homem, porque o resgata da barbárie, submetendo a natureza à cultura, criando riqueza e progresso – essa imensa força criadora à disposição da humanidade, reduzida a mercadoria da indústria capitalista – faz regredir cada trabalhador ao nível de escravo e faz regredir o proletariado inteiro ao nível de classe subalterna. O remédio está, portanto, na eliminação da divisão entre produtores e proprietários dos meios de produção. Só quando os trabalhadores se tiverem apropriado das fábricas terminará a sua transformação em mercadoria.”
“Para que isso aconteça, é preciso que os proletários se reconheçam como portadores de interesses comuns, unam-se a nível mundial, organizem-se em classe antagonista e cumpram a sua revolução proletária, fundando uma nova sociedade finalmente sem classes e sem Estado.”


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