O guardador de porcos



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Os melhores contos de Andersen

Rio de Mouro, Everest Editora, Lda, 2002





O Guardador de porcos

Era uma vez um príncipe que tinha um reino muito, muito pequeno, mas que, por outro lado, era suficientemente grande para que ele pudesse casar-se. E casar-se era exactamente o seu maior desejo.

Contudo, não deixava de ser um pouco audacioso da sua parte querer ser ele a formular a pergunta à filha do Imperador: “Aceitaria ser minha esposa?”

Apesar de tudo, estava decidido a tentar, porque o seu nome era famoso e havia centenas de princesas que aceitariam imediatamente, e de bom grado, a proposta de se casarem com ele e irem viver no seu pequeno reino.

Mas seria esse o caso da filha do Imperador?

É o que vamos ver.

Sobre a sepultura do pai do príncipe crescia uma roseira linda que tinha a particularidade de apenas florir de cinco em cinco anos e de dar uma única flor. Mas essa flor não era uma rosa vulgar, tinha um cheiro tão doce que fazia esquecer, com a sua extraordinária fragrância, todos os sofrimentos e preocupações.

O príncipe tinha também um rouxinol que cantava divinamente, como se a sua pequena e delicada garganta albergasse todas as mais belas melodias.

Ora, o Príncipe queria oferecer a rosa e o rouxinol de presente à Princesa. Colocou cada um deles em dois grandes cofres de prata e os mensageiros encarregaram-se de os levar ao palácio, para que fossem entregues à princesa. O Imperador ordenou que levassem as ofertas à sua presença e, acompanhado pela sua comitiva, seguiu os mensageiros até ao salão onde a princesa se encontrava com as suas damas-de-
-companhia.

Quando ela viu os cofres de prata, bateu palmas de alegria.

– Quem dera que fosse um gatinho! – exclamou ela, mas quando abriu ficou imediatamente inebriada pela fragância da rosa.

– Oh, como é bela! – exclamaram, por sua vez, todas as damas-


-de-companhia.

– É muito mais do que bela – declarou o Imperador entusiasmado. – É fascinante!

A princesa acariciou-a com a ponta dos dedos e pouco faltou para que começasse a chorar.

– Que horror, pai! – disse ela – Não é artificial, é verdadeira! É uma rosa natural!

E, muito zangada, atirou violentamente a maravilhosa rosa para o chão.

Casada poderia estar,

Mas de amores morrerei...

Esfregou os olhos e pôs os óculos – Mas... são as damas-de-


-companhia que estão a armar aquela confusão infernal! É melhor ir ver o que se passa!

E lá foi ele, num ápice!

Assim que chegou ao pátio, aproximou-se silenciosamente e muito devagar. As donzelas estavam tão entretidas a contar os beijos, para que não houvesse enganos, que não deram pela sua chegada.

– Mas... o que significa isto? O que é que se passa aqui? – gritou, ao ver a princesa a beijar o guardador de porcos e, com o seu sapato, deu uma sapatada na cabeça da princesa, mesmo no exacto momento em que ela dava o octogésimo sexto beijo.

– Fora daqui! – gritou o Imperador, enfurecido, expulsando do seu reino tanto a princesa como o guardador de porcos.

A princesa ficou assim só e abandonada e desatou a chorar. O guardador de porcos não parava de resmungar. Entretanto, começou a chover a cântaros.

– Ai de mim! – lamentava-se a Princesa – Porque é que não dei ouvidos ao meu pai e não casei com o príncipe? Ah, como sou infeliz!

Então, o guardador de porcos foi esconder-se atrás de uma árvore, lavou o rosto com água da chuva, despiu os farrapos velhos que trazia vestidos e apresentou-se perante ela com toda a magnificência própria de um príncipe. Estava tão formoso e elegante que a surpreendida princesa, ao vê-lo, fez imediatamente uma vénia.

– Agora sei que mereces todo o meu desprezo – disse ele.
– Recusaste um príncipe honrado, não deste valor à rosa e ao rouxinol mas, por mero capricho, beijaste o guardador de porcos. Agora tens o que mereces!

Depois de pronunciar estas palavras, o príncipe disse-lhe adeus para sempre e regressou ao seu reino. A princesa ficou só e abandonada, cantando a melodia:



– Que horror! – repetiram as damas-de-companhia – É uma rosa verdadeira!

Para elas, uma rosa natural era algo de muito pouco distinto, porque rosas verdadeiras havia-as por toda a parte. Mas nenhum dos presentes conseguiu dar conta do extraordinário perfume que esta rosa emanava e ninguém se dignou apanhá-la do chão.

– Antes que voltemos a enfurecer-nos todos, vejamos o que contém o outro cofre – disse o Imperador.

Abriram cuidadosamente o outro cofre e, então, apareceu o rouxinol.

Dois pajens foram incumbidos de trazer um suporte dourado com um poleiro em arco e um deles pousou a ave sobre o mesmo.

Embora o seu aspecto não fosse muito vistoso, a verdade é que o rouxinol começou a cantar tão bem e com tal harmonia que ninguém se atreveu a dizer nada.

As damas-de-companhia escutaram, encantadas; o Imperador, impressionado, pousou as mãos sobre o peito, e a Princesa, muito atenta, sentou-se numa poltrona sem pronunciar qualquer palavra.

Superbe! Charmant – diziam as donzelas, pois todas elas sabiam falar francês, cada uma com uma pronúncia pior do que a outra.

Queriam com isso dizer que achavam o canto extraordinariamente maravilhoso. A belíssima voz do rouxinol ouvia-se em todo o palácio e cada vez acorriam mais pessoas para o ouvir, entre elas o mordomo imperial e os ministros, o camareiro do Imperador e as camareiras da Princesa.

– Esta ave faz-me lembrar a caixa de música da falecida

Imperatriz! – disse um velho ministro.

– É verdade, é exactamente o mesmo tom, a mesma melodia – disse outro.

– De facto, é – concordou o Imperador, soluçando como uma criança ao lembrar-se da sua boa esposa que tinha falecido havia anos.

A princesa exclamou:

– Tenho a impressão de que este pássaro canta como se estivesse vivo. Será que é um pássaro verdadeiro?

O Imperador questionou os mensageiros que tinham trazido a ave e a rosa.

– É sim, é um pássaro verdadeiro! – retorquiram eles.

– Nesse caso, soltem-no – disse a princesa. E recusou terminantemente que o príncipe a visitasse.

Os criados receberam ordens para abrir as janelas e o rouxinol voou em liberdade.

Então as damas-de-companhia disseram:

– O príncipe deve ser muito grosseiro e inculto para presentear uma princesa com uma rosa verdadeira e um rouxinol vivo.

esquecer que sou a filha do Imperador! Digam-lhe que lhe darei dez beijos como ontem, mas que os restantes serão as minhas damas-de-
-companhia a dar-lhos.

– Oh! Mas isso é tão desagradável! – exclamaram em coro as damas-de-companhia.



– Que disparate! – disse a Princesa – Se eu posso beijá-lo, vocês também podem fazê-lo. Lembrem-se que sou eu que vos alimento e sou eu que vos pago o salário!

E foi assim que, de boa ou de má vontade, as dama-de-companhia tiveram de acompanhá-la até à pocilga.

– Cem beijos da princesa – reafirmou o guardador de porcos


– caso contrário, cada um fica com o que é seu!

– Então ponham-se à minha volta – ordenou a princesa.

As damas-de-companhia rodearam-na uma vez mais e o guarda-
dor de porcos beijou a princesa.

– Que alarido é aquele ali ao pé da pocilga? O que é que se passa? – perguntou o Imperador, que tinha ido à varanda apanhar ar fresco.

– Que vaivém tão aborrecido! – disse a Princesa – Dar-lhos-ei, mas vocês têm de pôr-se à minha volta para que ninguém veja.

Então, as donzelas juntaram-se em redor da princesa, taparam-na com os vestidos, e o guardador de porcos teve direito a dez beijos da princesa e, em troca, ela recebeu a panela.

Foi uma enorme alegria! Durante toda a noite e todo o dia a panela não parou de ferver. Ficaram assim a saber o que se estava a cozinhar em todos os fogões da cidade, fosse em casa dos camareiros, do sapateiro ou do alfaiate. As damas-de-companhia dançavam e batiam palmas de alegria.

– Nós sabemos quem vai comer sopa e quem vai comer bolo, quem vai comer papas e quem vai comer assado! Não é interessante?

– Muito interessante! – concordou a governanta da Casa Real, esposa do mordomo.

– Sim, mas não digam a ninguém. Lembrem-se que eu sou filha do Imperador.

– Com certeza que não! – responderam todas em coro.

O guardador de porcos, ou seja, o príncipe não perdeu tempo e construiu um jogo de campainhas. Quando o punham a girar, o instrumento tocava todas as valsas e polcas do mundo inteiro.

– Que maravilha! – exclamou a princesa, ao passar perto dali
– Nunca ouvi uma música tão bonita e harmoniosa. Vão perguntar-lhe imediatamente o preço daquele instrumento. Mas que fique bem claro: não voltarei a beijá-lo!

– Pois desta vez, ele quer cem beijos da Princesa – disse a donzela encarregada do recado.

– Está visto que ele enlouqueceu de vez! – exclamou a princesa, e continuou o seu caminho. Mas reflectiu um pouco, deu meia volta e voltou para trás.

– É preciso promover as artes – disse. – Não posso, nem devo

Mas, apesar destas desventuras, o príncipe não se deixou intimidar. Pintou o rosto com uma tinta escura da cor da terra, enterrou o chapéu na cabeça e bateu com os nós dos dedos à porta do palácio.

Quis o acaso que fosse o próprio Imperador a abrir. O visitante tirou o chapéu e saudou o monarca:

– Bom dia, Majestade! Será que me poderíeis arranjar trabalho aqui no palácio?

– Bem... não sei – respondeu o Imperador. – Há tanta gente que vem pedir trabalho... ignoro se há trabalho para ti. Mas prometo que não vou esquecer-me de ti.

Reflectiu um pouco e logo acrescentou:

– Espera... preciso de alguém para tomar conta dos porcos, pois temos muitos, muitíssimos.

E, assim, o príncipe foi admitido como guardador de porcos real. Foi-lhe dada uma pequena e miserável cabana perto das pocilgas, onde ele ficaria a viver a partir desse momento. Trabalhava durante todo o dia e, à noite, aproveitava todos os momentos para construir uma bonita panela, com guizos a toda a volta. Quando ficou pronta, colocou-a sobre o fogo e, assim que a panela começou a ferver, os guizos tocaram uma velha melodia:

Casada poderia estar,

Mas de amores morrerei...

Mas a panela ainda fazia muito mais coisas, e era por isso uma panela muito peculiar. Se alguém metesse o dedo no vapor que saía da panela, pelo cheiro podia logo saber que alimentos estavam a ser cozinhados em todas e em cada uma das cozinhas da cidade. Em casa do alfaiate imperial faziam-se salsichas fritas; a mulher do caçador da corte assava uma perdiz que o marido tinha desviado da última caçada;

em casa do sapateiro, as batatas saltitavam dentro de água; em casa do mestre-escola, que fazia anos nesse dia, havia uma galinha a estufar na panela. E vejam lá que o mendigo que ia todos os dias ao palácio pedir uma esmola, tinha um belo pedaço de carne suculenta a ferver na sopa e pudim de sêmola para a sobremesa. Sim, era verdade que esta panela era muitíssimo mais valiosa do que a rosa natural e o rouxinol de verdade.

Acontece que, um dia, passou por ali a Princesa, que andava a passear com as suas damas-de-companhia e, ao ouvir inesperadamente a bela melodia que a panela desprendia, parou e ficou a escutar com um ar de agrado. E lembrou-se que também ela sabia tocar aquela canção: “Casada poderia estar...”. Na verdade, era a única coisa que sabia tocar, e só com um dedo.

– Mas... esta é a música que eu sei tocar! – exclamou a Princesa, entusiasmada. – Deve ser um guardador de porcos muito culto. Escutem: vão ter com ele e perguntem-lhe quanto quer pelo instrumento. Eu gostaria muito de o possuir.

E, imediatamente, uma das damas-de-companhia foi ter com ele, mas antes calçou um par de tamancos, pois estava tudo sujo em volta daquela pocilga.

– Quanto queres por esta panela? – perguntou a donzela ao guardador de porcos, apertando o nariz e apoiando um pé de cada vez, pensando que assim evitaria pisar a porcaria da pocilga.

– Dez beijos da Princesa – respondeu o jovem guardador de porcos.

– Deus nos livre! – exclamou a dama-de-companhia, quase desmaiando perante tal impertinência.

– Por menos que isso não vendo; é uma panela muito especial – respondeu o guardador de porcos.

E a dama-de-companhia voltou para junto da Princesa.

– Então, qual foi a resposta? – perguntou ela.

– Não me atrevo a repeti-la – retorquiu a dama-de-companhia.

– Então, diz-me baixinho ao ouvido!

E quando a Princesa ficou a saber o que o guardador de porcos queria, exclamou:

– Que desavergonhado e grosseiro! – e foi-se embora.

Mas logo que se afastou um pouco, voltou a escutar os guizos a tocar a mesma melodia:

Casada poderia estar,

Mas de amores morrerei...

– Ouçam! Perguntem-lhe se aceita dez beijos das minhas damas-


-de-companhia!

– Não, obrigado – respondeu o guardador de porcos. – Dez beijos da princesa, ou fico eu com a panela.





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