O gurí de Bagé



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Encontro28.07.2016
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O Gurí de Bagé

Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio Gurí de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.


Pues, diz que o divã no consultório do Gurí de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.



- Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

- O senhor quer que eu deite logo no divã?

- Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto.

Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.



- Certo, certo. Eu...

- Aceita um mate?

- Um quê? Ah, não. Obrigado.

- Pos desembucha.

- Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

- Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

- Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.

- Outro...

- Outro?

- Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

- E o senhor acha...

- Eu acho uma pôca vergonha.

- Mas...

- Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o Gurí de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.



- Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...

Mas acabou concordando.



- Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê. Qual é o causo?

- Bem - disse o home - é que nós tivemos um desentendimento...

- Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?

- Eu não meti a espora. Não é, meu bem?

- Não fala comigo!

- Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.

- Ela tem um problema de carência afetiva...

- Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.

- Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extra-conjugais e...

- Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?

- Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?

- Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?

- O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.

- Mais isto tá ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.

- Eu?

- Ela. Tu espera na salinha.

Outra do Gurí de Bagé

O Gurí de Bagé se declara "freudiano de colá decalco" e "mais ortodoxo que Caximir Buquê", mas isto não o impede de experimentar com novas formas de terapia. Como no caso da mulher do compadre Salustiano.


Contam que um dia o compadre Salustiano entrou no consultório, segundo o Gurí de Bagé, como mata-mosquito em convento. Causando alvoroço. eles há tempo não se viam.



- Guasca velho!

- Cachorrão!

- Índio bem loco!

- Seu bosta!

- Animal!

- Desgraçado!

E se atiraram um nos braços do outro, com tanta força que a Lindaura veio ver se não tinha móvel quebrado. Depois o Gurí de Bagé mandou o amigo se deitar no divã e desembuchar, que era de graça. O Salustiano reagiu.



- Epa. Tá me estranhando, compadre? O problema é com a Rosa Flor.

- O que tem?

- A Rosa Flor quer ir pro Rio.

- Ir embora do Rio Grande? Mas enloqueceu.

- Pos é. Diz que não agüenta mais vê campo. Quer ver o mar.

- Mas ela não sabe que mar é igual a campo, com a desvantagem que afunda?

- Sabe, mas não adianta. Aquela, quando decide ir pra um lugar, é como cachorro de cego, só matando.

- Escuta aqui, tchê. Tu desse um trancaço nela?

- Dei trancaço, dei laço, cheguei até a pedi. Foi como mijá em incêndio.

- Côsa, seu. Tu sabe que mulher que vai pro Rio, já desce na rodoviária falada.

- E não sei?

- Me manda ela aqui.

A Rosa Flor, a princípio, não quis dizer nada. Ia para o Rio e pronto. O Gurí de Bagé abriu um volume do Freud para consulta. Era ali que guardava, numa folha de caderno de armazém, escritas a toco, as máximas do velho Adão, seu pai. Encontrou um precedente: "Pra amarrar cavalo no campo e mulher em casa, só carece de um pau firme.". Deitada no pelego a Rosa Flor confirmou com a cabeça quando o Gurí perguntou, sutilmente, se o compadre não passava mais a lingüiça na farinheira. Era verdade pode acontecer com um gaúcho, fora cair do cavalo ou a filha casar com nordestino. Com a outra mão, começou a desabotoar a braguilha. Fazia qualquer coisa por um amigo.


Ficou combinado que a Rosa Flor teria sessões duas vezes por semana e desistiria daquela história de ir para o Rio. O compadre Salustiano podia ficar descansado. A honra da Rosa...



Bem Capaz

- Amélia - disse ela.

- Como a mulher de verdade? - perguntou ele. Ela não entendeu.

- Que mulher?

- A da música. A que podia passar fome mas não reclamava.

- Bem capaz!

Ele a perdoou por não conhecer a música. Afinal, a música era mais antiga do que ele. A perdoaria por qualquer coisa. Ela era linda. Ela tinha o queixinho pontudo.



- És de Porto Alegre mesmo?

- Passo Fundo.

- Epa. De faca na bota.

- Bem capaz!

Conversaram a noite toda. Ou ele conversou. Ela ouvia. de vez em quando fazia "hm-hm". quando se despediram, ele perguntou se poderia vê-la no dia seguinte.



- Bem capaz!

- Por que não?

- Eu trabalho, né?

- Depois do trabalho.

- Tá.

Viram-se no dia seguinte e nos dias depois. Encontraram-se todos os dias durante a semana. Ele apaixonado. Ela só ouvindo e de vez em quando fazendo "hm-hm". Até que um dia ele disse:



- Quero dar um beijinho bem aqui.

E apontou para o queixinho pontudo.



- Bem capaz!

- Deixa.

- Bem capaz!

- Por que não?

- Bem...

- Não diz "bem capaz".

- Digo o que eu quiser. Eu, hein?

- Amélia, eu...

Mas ela já tinha levantado da mesa. Ele estava pensando o quê? Que mandava nela? Só porque tinham saído juntos algumas vezes? Bem capaz! Ele só agüentou dois dias. No terceiro, telefonou. Pediu perdão. Não sabia o que dera nele, para falar daquele jeito. Adorava o jeito dela falar. Poderia vê-la outra vez? Silêncio. Ela vai dizer "Bem capaz", pensou ele, e eu vou me suicidar. Ah, vou. Vou me atirar de cima do Viaduto. Afinal, sou um cara antigo.


Mas ela disse: "Tá".


Reencontraram-se, casaram-se e ainda ontem ela deu entrada no Pronto-Socorro com o queixo fraturado. Foi ele. Até que agüentou muito.



Caixinhas

Ninguém jamais ficou sabendo o que, exatamente, o Ramão fez para a mulher, mas um dia ela começou a colecionar caixinhas. Nunca fora de colecionar nada e, de repente, começou a juntar caixas, caixetas, potezinhos, estojos. Em pouco tempo, tinha uma coleção considerável. O próprio Ramão se interessou. Dizia:



- Mostre a sua coleção de caixas, Santinha.

E a Santinha mostrava para as visitas a sua coleção de caixas.



- Que beleza!

As caixas, caixinhas, caixetas, potes, potezinhos, estojos, baús cobriam algumas mesas e várias estantes. Era realmente uma beleza. Mas, estranhamente, a Santinha era a que menos se entusiasmava com a própria coleção. Os outros a admiravam, ela não dizia nada. Ou então fornecia alguma informação lacônica.



- Essa é chinesa.

Ou:


- É pedra-sabão.

Ninguém mais tinha problemas sobre o que dar para a Santinha no seu aniversário ou no Natal. Caixas. E as amigas competiam, cada uma querendo descobrir uma caixa mais exótica para a coleção de Santinha. Uma caixinha tão pequenininha que só cabia uma ervilha. Um baú laqueado que, supostamente, pertencera ao Conde D'Eu. Etc, etc. O Ramão também contribuía. quando saía em uma de suas viagens, nunca deixava de trazer uma caixinha para a Santinha. Que a Santinha aceitava, sem dizer uma palavra, e acrescentava à sua coleção. E a coleção já cobria a casa inteira.


Quando a polícia, alertada pelos vizinhos, entrou na casa, viu o sangue, viu a Santinha sentada numa cadeira, muda, folheando a Amiga, mas não viu o Ramão. Só o viu quando começou a abrir as caixinhas. Havia um pouco do Ramão em cada caixinha. Até na que só cabia uma ervilha tinha um ossinho. Um fêmur estava no baú do Conde. E a Jacira ficou escandalizada quando soube que a cabeça do Ramão foi encontrada numa caixa de chapéu antiga que ela tinha trazido para a Santinha de Paris. Veja só, de Paris!




Ninguém desculpou a Santinha, mas o consenso geral era de que alguma o Ramão tinha feito.


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