O impacto da implantação da rastreabilidade bovina na pecuária de corte do Pantanal de Mato Grosso do Sul: limitações e oportunidades



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O impacto da implantação da rastreabilidade bovina na pecuária de corte do Pantanal de Mato Grosso do Sul: limitações e oportunidades
Daniel Dias Fernandes1
1Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Rodovia Aquidauana – CERA, km 12. CEP 79.200-000 Aquidauana, MS. E-mail: danieldias@top.com.br.

Resumo


O objetivo deste trabalho foi avaliar o impacto da implantação da rastreabilidade bovina na pecuária do Pantanal. Seus benefícios diretos e indiretos, quais as desvantagens e limitações de sua implantação. O trabalho foi realizado através de acompanhamentos de vistorias realizadas por técnicos de empresas certificadores a fazendas do Pantanal. Foram observados os procedimentos de identificação dos animais, e avaliado as exigências necessárias para a implantação do sistema. Avaliou-se a infra-estrutura da fazenda, como curral de manejo, existência ou não de tronco de contenção e mão-de-obra disponível. Foi utilizado um questionário de avaliação da propriedade fornecido pela empresa certificadora. As informações foram tabuladas em planilha eletrônica e avaliados os itens de maior importância para a implantação do sistema. As maiores limitações para a implantação da rastreabilidade no Pantanal são a falta de tronco de contenção e de mão-de-obra qualificada, sendo possível aproveitar o manejo de vacinação para a identificação dos animais. O custo médio de R$ 5,00 por cabeça é facilmente recuperado com a venda dos animais com preço diferenciado. Os benefícios indiretos são a melhoria do controle sanitário, zootécnico e administrativo da fazenda, além de criar condições para a implantação de programas de melhoramento genético.
Termos para Indexação: Pantanal, pecuária de corte, rastreabilidade, sistemas de produção.

Abstract


The objective of this work was evaluate the impact of the introduce of the bovine trace in the cattle ranching of the Pantanal wetland. Its direct and indirect benefits, which the disadvantages and limitations of its introduce. The work was accomplished through accompaniments of you inspect accomplished by technicians of companies certifiers to farms of the Pantanal. The procedures of identification of the animals were observed, and appraised the necessary demands for the introduce of the system. The infrastructure of the farm was evaluated, as handling corral, existence or not of contention log and available labor. A questionnaire of evaluation of the property supplied by the companies certifiers was used. The information were tabulated in electronic design the items of larger importance for the introduce of the system. The largest limitations for the introduce of the trace in the Pantanal wetland are the lack of contention log and of qualified labor, being possible to take advantage of the vaccination handling for the identification of the animals. The medium cost of R$ 5,00 for head is easily recovered with the sale of the animals with differentiated price. The indirect benefits are the improvement of the sanitary control, production system and administrative of the farm, besides creating conditions for the introduce of programs of genetic improvement.
Index Terms: cattle management, cattle ranching, Pantanal, trace.

Introdução


Rastreabilidade é definida pela International Organization for Stanardization (ISO), representada no Brasil pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), como: “A capacidade de recuperar o histórico, a aplicação daquilo que está sendo considerado”.

Para a Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos, é “o processo pela qual se correlaciona de maneira clara e rápida o lote de insumos com o produto terminado, bem como a localização do lote de produto terminado nos pontos de venda”.

Rastreabilidade dentro dos objetivos do Sistema Brasileiro de Certificação de Origem Bovina e Bubalina – SISBOV que visa especificamente o rastreamento de bovinos e bubalinos é definido como: “o conjunto de sistemas de informações e registros de arquivos que permite fazer um estudo retrospectivo dos produtos oriundos da bovinocultura e da bubalinocultura disponíveis nos supermercados, até a propriedade onde foram produzidos, passando pelos estabelecimentos onde foram industrializados, processados e embalados”.

Uma vez obtidos os registros, segue-se a certificação dos produtos agropecuários. Esta pode ser efetuada de modo a contemplar a origem, a qualidade ou ambas, dependendo dos sistemas ou processos de produção, industrialização, distribuição e comercialização (DUBOIS et al., 2002).

O grave quadro da sanidade animal na Europa, no final do século XX, especialmente com o advento da encefalopatia espongiforme bovina (síndrome da “vaca louca”), da febre aftosa e da contaminação de alimentos pelas dioxinas, levou diversos países produtores de carne a sacrificar os seus rebanhos, abrindo assim as portas da Europa e do mundo para a carne brasileira e colocou em destaque a absoluta necessidade da busca de métodos, cada vez mais seguros, para se proceder ao acompanhamento não somente da vida dos animais, mas de todo o trânsito, estocagem e comercialização dos seus produtos. Em suma, um registro de todas as informações importantes do pasto ao prato (LOMBARDI, 1998; DUBOIS et al., 2002).

Acordos internacionais minimizaram e até dispensaram as tradicionais barreiras alfandegárias. Conseqüentemente, cresceram em importância as outras barreiras, como de natureza sanitária, ambiental, e de bem-estar animal. Todas elas podem ser monitoradas pelo sistema de rastreabilidade e respaldadas pela força do consumidor cada vez mais exigente.

Diante deste cenário, em 10 de janeiro de 2002 o Ministro de Estado da  Agricultura, Pecuária e Abastecimento, tendo em vista a necessidade de caracterizar o rebanho bovino e bubalino no território nacional, assim como a segurança dos seus produtos através da Instrução Normativa Nº 01 (I.N. Nº 01), instituiu o Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina – SISBOV.

O sistema foi criado para atender a demanda mundial e as exigências da União Européia (UE), por carne segura e de procedência conhecida. Por exigência UE, todos os países que quisessem exportar para os países que compõem a UE eram obrigados a ter um sistema de rastreabilidade e certificação dos produtos desde a origem.

O Brasil possuidor de um rebanho bovino de aproximadamente 188 milhões de cabeças, onde deste total o Mato Grosso do Sul detém aproximadamente 24 milhões de cabeças sendo que três milhões estão no Pantanal, tem obtido um crescimento médio anual de 3,0 a 3,5%, produzindo sete milhões de toneladas de carne por ano, com 600 mil toneladas exportadas em 2000, o que gerou US$ 1 bilhão em divisas para o país (MAPA, 2004).

Com o baixo custo de produção da carne brasileira, que é 60% mais baixo que o australiano e 50% menor que o americano, tornando a carne brasileira extremamente competitiva no mercado mundial, o Brasil tem ocupado posição de destaque no cenário mundial da carne. Entretanto, a competitividade mundial que se apresenta atualmente, tem exigido ajustes e posicionamento diferenciado por parte do governo e dos agentes da cadeia da carne bovina. A competitividade da cadeia, em termos de preço final de produto, torna-se insuficiente para a conquista e consolidação de mercados, tanto internos quanto externos. A satisfação dos clientes é ponto fundamental para manter-se no mercado, garantindo posições já conquistadas, ou seja, preço baixo não é garantia de mercado comprador cativo (RIES & AMBROSINI, 2003).

O mercado externo para o setor cárneo ainda tem espaço para crescimento, e o Brasil tem o melhor potencial do mundo para ocupar este espaço. Em termos de mercados exportadores, vele destacar o crescimento do Brasil passando de 4% do mercado em 1996, para 9% em 1999, sendo o país que conquistou maior fatia do mercado mundial, comparado aos principais produtores mundiais como Austrália, Estados Unidos, Nova Zelândia e Irlanda.

Desde março de 2004, quando se tornou obrigatório aos frigoríficos exportadores para a UE, a compra de animais rastreados, a arroba do boi gordo passou a ter uma diferença que alcançou R$ 5,00 a mais por arroba, ou seja, um boi gordo com 17 @ teve um prêmio de R$ 85,00. se considerarmos em um caminhão com 18 bois este valor sobe R$ 1.530,00.

O Pantanal por ser caracterizado como uma região de cria, com as normativas do MAPA, onde a partir de 01 de junho de 2006 os animais para serem abatidos vão ter que estar inseridos no Banco Nacional de Dados do SISBOV por um período de 365 dias, o invernista será obrigado a adquirir animais já rastreados. Diante deste fato, o criador terá que vender animais a desmama já rastreados e certificados.

O objetivo deste trabalho foi avaliar a implantação da rastreabilidade bovina na pecuária bovina do Pantanal. Seus benefícios diretos e indiretos, quais as desvantagens e limitações de sua implantação.

Material e Métodos


O trabalho foi realizado através de acompanhamentos de vistorias realizadas por técnicos de empresas certificadores a fazendas do Pantanal. Foram observados os procedimentos de identificação dos animais, e avaliado as exigências necessárias para a implantação do sistema. Avaliou-se a infra-estrutura da fazenda, como curral de manejo, existência ou não de tronco de contenção e mão-de-obra disponível. Foi utilizado um questionário de avaliação da propriedade fornecido pela empresa certificadora. As informações foram tabuladas em planilha eletrônica e avaliados os itens de maior importância para a implantação do sistema.

Resultados e Discussão


Segundo FERNANDES (2001) e FERNANDES & ASSAD (2002) a pecuária de corte extensiva é a principal atividade econômica do Pantanal, sendo caracterizada por grandes propriedades de tamanho médio de 1.787,50 hectares, sendo que 4,98% tem área superior a dez mil hectares e ocupam 54,74% da área de todo o Pantanal. Os índices zootécnicos são baixos, principalmente devido à baixa qualidade genética do rebanho, da estacionalidade das forrageiras e da grande proporção de áreas não aproveitadas.

No Pantanal, vem ocorrendo concentração dos produtores na atividade de cria, havendo recria apenas das novilhas de reposição. Os principais produtos do sistema de produção de bovinos na região são os animais representados pelas seguintes categorias: bezerros (as) desmamados (as), novilhas de recria, garrotes, tourunos (touros de descarte) e vacas boiadeiras (vacas de descarte) (ABREU et al., 2001).

As observações realizadas mostraram que 80% das fazendas visitadas não possuem tronco de contenção, sendo necessários levar o gado a fazendas vizinhas que possuíam troncos, para conter os animais e realizar a identificação dos mesmos. Como a identificação individual através da colocação de brincos é uma etapa obrigatória, a falta de tronco de contenção passa a ser um fator limitante para se iniciar o processo de rastreabilidade. Outro fator observado é a alta incidência de funcionários analfabetos ou semi-analfabetos nas fazendas do Pantanal o que dificulta a implantação e operacionalização do sistema. Fato este que está de acordo com o estudo realizado com FERNANDES & ASSAD (2002). O prazo de validade imposto pelo MAPA de 180 dias a partir da liberação nos números até a inclusão dos animais no Banco Nacional de Dados – BND do SISBOV, exigiu muita atenção do produtor, pois devido a demora na entrega dos brincos pelos fabricantes, problemas no processo de identificação (colocação) dos brincos, devido ao tamanho das fazendas, adversidades climáticas, disponibilidade de mão-de-obra, falta de tronco de contenção, e demora nas vistorias pelas certificadoras, alguns produtores tiveram dificuldades para cumprir o prazo.

A identificação individual exigida pelo SISBOV traz vantagens para o produtor que devem ser avaliadas e consideradas. Primeiro, que o boi gordo e a vaca gorda tem um preço melhor, recebendo prêmio que pode chegar a R$ 5,00 por arroba. Algumas “praças” de leilões têm valorizado com melhores preços animais já rastreados e certificados. Segundo, a identificação individual, permite um controle zootécnico e administrativo dos animais e da fazenda, permitindo ao produtor conhecer quais são os animais mais produtivos e eficientes da fazenda. Permite melhoria no controle sanitário e implantação de programas de melhoramento genético. Como o custo médio para identificar e certificar um animal foi em torno de R$ 5,00 por cabeça em toda a vida do animal, os benefícios identificados foram maiores que os custos e limitações, para se implantar a rastreabilidade no Pantanal.



Conclusões


A rastreabilidade não deve ser encarada apenas como colocação de brincos, deve-se considerar que ocorrer melhorias na gestão do rebanho; na gestão individual dos animais; melhorias na qualificação de mão-de-obra; melhorias nas cadeias mercadológicas e garantias de prêmios por qualidade.

As maiores limitações para a implantação da rastreabilidade no Pantanal são a falta de tronco de contenção (instalações adequadas) e mão-de-obra qualificada, sendo necessário modificar o sistema de produção tradicional, com o objetivo de adequá-lo a implantação do sistema. O prazo de validade imposto pelo MAPA de 180 dias para inclusão dos animais no BND exige cuidado e planejamento de atividades pelo produtor. É possível aproveitar o manejo de vacinação para identificar os animais, não sendo necessário um manejo exclusivo para a identificação dos animais. O custo médio de R$ 5,00 por cabeça é facilmente recuperado com a venda dos animais com preço diferenciado. Os benefícios indiretos são a melhoria do controle sanitário, zootécnico e administrativo da fazenda, além de criar condições para a implantação de programas de melhoramento genético.


Referências bibliográficas


ABREU, U.G.P. de; MORAES, A.S.; SEIDL, A.F. Tecnologias apropriadas para o desenvolvimento sustentado da bovinocultura de corte no Pantanal. Corumbá, MS: Embrapa Pantanal, 2001. 31 p. (Embrapa Pantanal. Documentos, 24).

DUBOIS, R.; MELO, M.T. de; FREIRE, A.P. Rastreabilidade: pilar da saúde pública, passaporte para a exportação. Brasília: Sociedade Brasileira de medicina Veterinária. 2002. 206 p.

FERNANDES, D.D. Pecuária de corte e desenvolvimento sustentável do Pantanal sulmatogrossense. Brasília: Universidade de Brasília, 2001. 104 p. (Dissertação de Mestrado).

FERNANDES, D.D.; ASSAD, M.L.L. A Pecuária bovina de corte da região pantaneira. In: ROSSETTO, O.C.; BRASIL JÚNIOR, A.C.P. (Org.). Paisagens pantaneiras e sustentabilidade ambiental. Brasília: Ministério da Integração Nacional: Universidade de Brasília, 2002. (Coleção centro-Oeste de Estudos e pesquisas, 7). p. 99-125.

RIES, L.R.; AMBROSINI, L.B. Rastreabilidade e certificação. ANTUNES, L. M.; FLORES, A. W. (Org.). Porto Alegre: Planejar Brasil, 2003. 130 p.

MAPA.Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Dados Estatísticos. Disponível no endereço . Acesso em setembro/2004.

MAPA. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa N° 1. Disponível em: < http://www.agricultura.gov.br/ Acesso em março/2002.

MAPA. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa N° 21. Disponível em: < http://www.agricultura.gov.br/ Acesso em maio/2004.



LOMBARDI, M.C. Rastreabilidade: exigências sanitárias dos novos mercados. In: CONGRESSO BRASILERIO DAS RAÇAS ZEBUÍNAS, 3. Uberaba: Anais.... Uberaba: ABCZ. 1998. p. 90-96. Editado por Luiz Antônio Josahkian.


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