O impacto da revoluçÃo russa e a difusão do pensamento de karl marx e friedrich engels no brasil: 1917 a 1930



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O IMPACTO DA REVOLUÇÃO RUSSA E A DIFUSÃO DO PENSAMENTO DE KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS NO BRASIL: 1917 A 1930.
Denilton Novais Azevedo
O objetivo principal deste estudo é, sobremaneira, abordar algumas questões atreladas ao processo da difusão e recepção do pensamento de Karl Marx e Friedrich Engels no Brasil, após o impacto provocado pela Revolução Russa de 1917. Nesse sentido, dividimos nossos esforços em três partes fundamentais. A primeira tem por finalidade destacar o contexto sócio-cultural que antecede a chegada das idéias de Marx e Engels em solo brasileiro. A segunda enfoca a recepção do pensamento de ambos os filósofos por parte de alguns intelectuais influenciados direta ou indiretamente pela Revolução de Outubro. A terceira analisa o contexto da fundação do Partido Comunista do Brasil, o PCB, bem como sua relação com o pensamento de Marx e Engels, destacando algumas importantes características, por exemplo, quem foram os principais leitores e divulgadores. No que tange ao suporte teórico-metodológico, em maior grau, lançamos mão das abordagens conceituais pensadas pelo filósofo italiano Antônio Gramsci. Valemos, principalmente, dos conceitos de “Bloco histórico” e “Hegemonia”, no intuito de explicar o processo de “ideologização” levado a cabo pelos militantes comunistas brasileiros. Em linhas gerais, entendemos que a recepção e difusão do pensamento de Marx e Engels encontram-se como um fator contra-hegemônico, em relação ao todo. Igualmente, não menos importante, verificamos a relação entre as primeiras referências aos pensadores alemães e a sua recepção junto ao movimento operário brasileiro. Ademais, atreladas a estas questões, elaboramos duas hipóteses. A primeira, o contexto político e social do Brasil da segunda metade do século XIX, aristocrático e escravista, e a ausência de uma classe trabalhadora constituiu um grande obstáculo à recepção das idéias socialistas e, mais especificamente, ao pensamento de Marx e Engels. A segunda, o desenvolvimento do movimento operário brasileiro representou um fator crucial para a difusão das idéias socialistas, e, mais especificamente, marxistas. Por último, devemos deixar registrado que este trabalho foi elaborado a partir de um estudo essencialmente bibliográfico. Analisamos, principalmente, as seguintes obras já clássicas a respeito do tema: A Derrota da Dialética, a recepção das idéias de Marx no Brasil até o começo dos anos trinta, de Leandro Konder; O marxismo no Brasil, das origens a 1964, de Edgard Carone; Marx, o socialismo e o Brasil, de José Nilo Tavares; História das Idéias Socialistas no Brasil, de Vamireh Chacon; entre outros.
Palavras-chave: Marx-Engels, Revolução Russa; Marxismo.

O marxismo no Brasil, assim como em outros países, demorou e teve que percorrer um longo caminho, repleto de obstáculos, até tornar-se dominante entre o movimento operário. 1 As primeiras referências em nosso país antes de 1917 se resumem, em grande medida, a alguns comentários bastante esparsos e demasiadamente superficiais sobre o pensamento dos filósofos alemães.

Devemos aqui, antes de qualquer coisa, problematizar algumas questões caras a este trabalho, tais como: de que modo o movimento de esquerda no Brasil se portou diante da vitoriosa Revolução Russa? O que a nossa imprensa comentou sobre o assunto? De que maneira essas notícias se relacionam com o pensamento de Marx e Engels, e a realidade histórica brasileira? Qual a relação dos diversos movimentos de esquerda diante da recepção das idéias marxianas? São esses os principais pontos norteadores que iremos nos guiar a partir de agora.

Inicialmente, devemos sublinhar que apesar das transformações ocorridas na passagem do século XIX para o XX, o Brasil, de 1917 a 1922, ainda continuava muito distante daquela realidade pensada pelos filósofos alemães.

Sem embargo, este país, optou-se pelo modelo agro-exportador, de modo que as indústrias se restringiram a algumas poucas cidades, tais como, São Paulo2 e Rio de Janeiro. Esse processo foi em grande medida, impulsionado pela posição do Brasil nos negócios do café no cenário internacional, o que de certa forma, acabou atraindo o interesse dos imigrantes europeus. 3

É, pois, justamente com a vinda desses imigrantes, principalmente os de origem italiana, que as idéias socialistas e anarquistas passaram a fazer parte de nossa realidade. E, até a fundação do Partido Comunista Brasileiro, em março de 1922, foram os anarquistas os principais agitadores do movimento operário deste país, como veremos na seqüência.

Em relação a esses estrangeiros que pretenderam difundir as idéias socialistas no Brasil, no início do século XX, se depararam com uma situação pouco favorável, conforme comentou Antônio Piccarolo:
encontraram sorte por completo negativa, tendo a semente caído em terreno impreparado e contrário a todo desenvolvimento socialista. [...] A razão deste insucesso para o socialismo, como para a organização operária, deve-se procurar na natureza e no caráter anacrônico que se lhes quis impor. Esquecendo que viviam no Brasil, país saído havia pouco tempo da escravidão, propagandistas e organizadores quiseram criar um socialismo e uma organização baseadas nos moldes existentes nos países economicamente adiantados. Os socialistas, em maioria italianos, no seu congresso aprovaram um magnífico programa de socialismo italiano. As organizações operárias, sob a influência de elementos generosos, mas com a cabeça nas nuvens, dirigiam a proa para a França, imitando os sindicalistas e traduzindo as obras de Sorel e dos outros revolucionários. 4
Acerca do insucesso da difusão do socialismo em solo brasileiro, José Nilo Tavares nos apresentou uma importante hipótese, discutida pelo historiador Boris Fausto. Para este a:
[...] pequena empresa industrial, dispersa em vários pontos do Brasil, existiu antes da afirmação do pólo cafeeiro e ao lado dele, graças à proteção representada pela dificuldade de comunicações, à proximidade das fontes de matérias-primas, à existência de um pequeno mercado consumidor de bens como alimentos, bebidas, tecidos de qualidade inferior. Os trabalhadores desse tipo de indústria, espalhados em um imenso espaço geográfico, nunca tiveram condições objetivas para dar origem a um movimento operário. 5
Tavares frisou que esses motivos contribuíram imensamente para obstaculizar a difusão do socialismo neste país, e sublinha que não houve aqui uma força capaz de empolgar as massas; acrescenta-se ainda a existência de alianças entre as classes sociais6. Ou seja, a classe média brasileira era completamente dependente da camada dominante da sociedade, tornando praticamente impossível uma suposta sublevação.

Se por um lado os socialistas não tiveram sorte, com os anarquistas foi um pouco diferente. Para se ter uma ligeira noção, por exemplo, da importância desempenhada pelos anarquistas no Brasil, nas primeiras décadas do século passado, estouraram inúmeras greves pelo país, todas impulsionadas por aqueles ideais. Motivo que fez com que as autoridades aumentassem a vigilância e o rigor sobre esses “arruaceiros”.

No ano de 1907 foram sancionados alguns decretos referentes a questão do trabalho e do imigrante no Brasil. Em outras palavras, aumentaram o cerco aos supostos perturbadores da ordem. Conforme sublinha John Dulles: “O Decreto 1641 (a 'lei Adolfo Gordo') regularizava a expulsão, de parte ou de todo o território nacional, estrangeiros que comprometessem 'a segurança nacional ou a tranqüilidade pública'”. 7 É evidente o descontentamento dos patrões em relação à atuação desses imigrantes “agitadores”.

Novas transformações estavam por vir, um exemplo importantíssimo, o crescente número de indústrias no Brasil, ocasionados, em grande medida, pela Grande Guerra. De acordo com Antônio Rezende:


O contexto da Guerra vai trazer modificações na economia brasileira. Devido à própria dificuldade de importação – conjuntura está favorável ao mercado interno –, no período de 1915 - 19 houve um crescimento na área industrial, quando foram fundadas 5 936 novas indústrias e o número de operários aumentou significativamente. 8
É justamente neste novo cenário econômico-social que o movimento grevista se desenvolve, tornando-se a principal tática de luta dos anarquistas e anarco-sindicalistas.

Apesar de toda censura e a severa repressão policial, o movimento anarquista teve seu apogeu entre a classe operária no ano de 1917, com a famosa “greve geral”, do mesmo ano. 9 No entanto, conforme ressaltou Moniz Bandeira:


As greves de 1917, 1918 e 1919 mostraram que o movimento operário estava, objetivamente, maduro, mas não possuía uma direção conseqüente, capaz de abrir a perspectiva política. [...] Os anarquistas, apesar da firmeza, da combatividade e do devotamento com que lutavam, não podiam desempenhar essa tarefa, em virtude das limitações da sua doutrina. Que fazer? Nada sabiam. 10
Estamos de acordo quanto à importância desempenhada pelos anarquistas brasileiros, principalmente nas duas primeiras décadas do século XX. No entanto, suas táticas de embates funcionaram apenas por um tempo; a aversão a qualquer pretensão partidária, somado a inexistência de um corpus teórico que pudesse servir como instrumento de luta, acarretou na perda de importantes intelectuais e simpatizantes. Desse modo, muitos passaram a acreditar que, somente por meio de um partido forte e centralizado, poderia sonhar com algo mais concreto, na luta contra o capital e a exploração do operário.
A REPERCUSSÃO DAS IDÉIAS DE MARX E ENGELS NO BRASIL: 1917 – 1922.
Como vimos até aqui, o movimento operário brasileiro até mais ou menos por volta do ano de 1917, hasteava hegemonicamente a bandeira ideológica do anarquismo e do anarco-sindicalismo. Entretanto, a Revolução Russa11 trouxe uma série de conseqüências para a classe operária internacional e brasileira. Duas delas pelo menos se sobressaem: a primeira, preparou o terreno para a fundação do Partido Comunista; a segunda, permitiu a difusão do pensamento de Marx e Engels, bem como do marxismo, entre alguns setores da sociedade brasileira. Conforme assinalaram Ciro Flamarion Cardoso e Hector Perez Brignoli, exposto na obra, Os Métodos da História:
Nos anos seguintes à Revolução de 1917, constituiu-se uma escola de pensamento histórico marxista na União Soviética, ao mesmo tempo em que por todo o mundo ampliava-se a influência do materialismo histórico entre os intelectuais. No contexto dos anos anteriores à II Guerra, é bem compreensível que as posições da URSS e da III Internacional tivessem influência predominante sobre os pensadores marxistas de todo o mundo. 12
Sobre o aspecto da recepção da Revolução Bolchevique no Brasil, sublinhou João Quartim de Moraes:
[...] [A] constatação, historicamente justa, de que a esquerda e o movimento operário brasileiros chegaram ao marxismo através do leninismo, não deve fazer esquecer de que também nos países europeus onde o movimento socialista estava profundamente entranhado na cultura operária, o impacto do bolchevismo conduziu à refundação revolucionária do marxismo à luz das idéias de Lênin. A diferença na verdade, está em que enquanto nestes países o marxismo se refundava, em países como o Brasil ele se fundava. 13
O impacto da Revolução influiu diretamente no surgimento de núcleos de estudos voltados para questões relacionadas ao marxismo, bem como, no surgimento de inúmeros partidos socialistas por todo o território nacional. Desse modo, as idéias anarquistas dentro do movimento operário brasileiro a partir de então, deixavam de ser hegemônicas, a medida que novos conceitos e idéias adentravam na pauta da esquerda brasileira. Como já foi destacado, o apogeu do movimento anarquista no Brasil se deu por volta de 1915 e 1918, a partir desta data começa a entrar em crise. Valendo-se das análises de Konder:
No momento do refluxo, os líderes do movimento operário se viram colocados numa situação de perplexidade: eles não sabiam como dirigir um recuo organizado da massa em face da onda de repressão que se desencadeava. Os ativistas começaram a constatar que não dispunham de instrumentos teóricos adequados para tentar preservar, politicamente, ao menos algumas das conquistas obtidas no período do avanço. Generalizou-se entre eles, então, o sentimento de que era preciso buscar novas formas de organização, para tornar o combate mais eficiente. 14
Com a criação da Terceira Internacional (1ª Comunista) em 1919, sob a liderança de Lênin, o governo de Moscou ajudou imensamente a difundir o marxismo e a apoiar a fundação de partidos comunistas por toda parte. Para Marcos Del Roio, a I.C. tinha “o objetivo estabelecido de defender a revolução na Rússia e contribuir para a difusão da revolução socialista. A repercussão no Brasil foi imediata, e começou-se a organizar um agrupamento que atendia ao chamado que vinha de Moscou”. 15

Sem embargo, se na Rússia deu certo para os camaradas de lá, então teríamos que seguir o mesmo exemplo, a mesma teoria por aqui. O conjunto das idéias de Marx e Engels passaram a despertar maior interesse, como o único meio possível de combate para se chegar ao poder, para assegurar as velhas conquistas e acrescentar outras tantas por vir.

Astrojildo Pereira, um dos principais combatentes da causa operária deste país, inicialmente adepto do anarquismo, após as influências da Revolução de Outubro, migrou-se para o comunismo (como muitos outros), resume muito bem o sentimento de seus contemporâneos em relação a forma como vinham atuando, e de que maneira surgiu os primeiros esforços para criar um partido comunista no Brasil:
Puseram a nu a incapacidade teórica, política e orgânica do anarquismo para resolver os problemas de direção de um movimento revolucionário de envergadura histórica [...]. A contestação deste fato, resultante de um processo espontâneo e bem dizer instintivo de autocrítica que se acentuou, principalmente, durante a segunda metade de 1921, sob a forma de acaloradas discussões nos sindicatos operários, é que levou diretamente às organizações dos primeiros grupos comunistas. 16
Portanto, em relação às primeiras décadas do século XX, podemos concluir que a experiência empírica provou para os adeptos do anarquismo que seria preciso outros meios de organização para poder sonhar com algo mais concreto.

Desta forma, com a fundação do PCB, abriu um novo horizonte de expectativas para movimento operário brasileiro. Tanto o Partido Comunista, quanto a teoria revolucionária da história, exposta nas obras de Marx e Engels, passaram a fazer parte de nossa realidade.


MARX E ENGELS APÓS A FUNDAÇÃO DO PCB: 1922 – 1930
Como verificamos no tópico anterior, a fundação do Partido Comunista Brasileiro, o PCB, ocorreu em março de 1922, sob influência da vitoriosa Revolução Russa. Sem embargo, a noção de um Partido centralizado e organizado, poderia, aos olhos dos comunistas ser decisivo na luta contra a exploração do trabalho e para a construção de uma nova sociedade brasileira. Conforme sublinhamos anteriormente, a experiência empírica provou para o movimento operário que sem teoria não se alcança resultados satisfatórios. Já afirmava o herói da Revolução bolchevique, Lênin, que sem teoria não há revolução.

Considerando as reflexões do pensador italiano, Antônio Gramsci, algum grupo ou classe social, em momentos específicos da história procuram agir sobre a sociedade, no intuito de transformá-la. Para este fim, criam seus próprios partidos, que servirão como mecanismos geradores de uma nova hegemonia. Ainda de acordo com Gramsci, são os intelectuais os principais difusores e formadores de opinião, que lançam mão de diversos suportes para tal empreitada, tais como palestras, mini-cursos, livros, jornais, revistas, etc.

Valendo-se das análises de José Nilo Tavares, percebemos claramente o significado da formação do PCB, bem como o interesse pelo pensamento de Marx e Engels, para o movimento operário brasileiro:
[...] somente a partir da revolução bolchevista, com a criação de um partido operário marxista-leninista, inicia-se efetivamente o processo da influência de Marx no Brasil. E isso pelo fato de, após a Primeira Grande Guerra, ter-se formado uma classe operária, embora lentamente, mas identificada através das lutas e dos interesses comuns; de que a teoria marxista infiltra-se, dificultosamente, é verdade, no interior das teorias revolucionárias; e, finalmente, de que se forma um partido orgânico da classe operária, vinculado ao movimento socialista internacional, não obstante as suas conhecidas limitações.17
Seguindo esse mesmo ponto de vista, outro especialista no assunto, Kazumi Munakata, acrescenta:
É nessa medida que, não obstante o reconhecido “baixo nível” teórico e a ausência de “tradição marxista” no Brasil, o Partido Comunista, desde os primeiros momentos de sua existência, não pode deixar de elaborar uma teoria – por mais rudimentar que seja – que servisse de bússola. 18
Se por um lado em 1922 podíamos contar pela primeira vez com um partido voltado exclusivamente para a causa operária, por outro, no campo da teoria, encontrava-se deficiências enormes. Todos estavam de acordo quanto a importância das idéias de Marx e Engels, como forma de compreender e transformar a realidade histórica brasileira, contudo, poucos intelectuais se aventuraram nessa difícil e árdua tarefa. Em relação a primeira obra daqueles filósofos traduzidas para o português, vejamos algumas informações editoriais apresentadas pelo historiador, Edgard Carone:
MARX, Karl. e ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. / Trad. Otávio Brandão/ da edição francesa de Laura Lafarge, revisada por Engels. P. Alegre/ PCB/ 1924, 40 p. É a 1. ed. Brasileira. Na capa, retrato de Marx. No final do texto original, nota do tradutor: “Chamamos a atenção do proletariado do Brasil para a obra imortal de Karl Marx e Friedrich Engels, geniais precursores de Trostki e Lênin.' A tradução foi feita entre maio e julho de 1923”. 19
Dos intelectuais engajados na difusão do pensamento dos filósofos entre os comunistas brasileiros, dois nomes merecem grande destaque: Otávio Brandão e Astrojildo Pereira, ambos ex-anarquistas20, cada um desempenhou distintas funções.

Brandão, por exemplo, foi quem primeiro traduziu e publicou uma obra de Marx e Engels no Brasil. Tratava-se do Manifesto do Partido Comunista de 1848, publicado inicialmente no ano de 1923, nas páginas do jornal do Rio de Janeiro, A Voz Cosmopolita. Um ano depois, foi transformado em livro, em Porto Alegre. Na tradução do Manifesto, chamaram-nos a atenção dois aspectos que consideramos relevantes. O primeiro, o fato de a obra ter sido vertida a partir do francês e não do original alemão; o segundo, a nítida influência da Revolução de Outubro no processo editorial de boa parte da esquerda brasileira.

De 1924–25, Brandão publicou seu principal trabalho, Agrarismo e Industrialismo,21 para muitos, a pioneira em termos de interpretação da história brasileira com base na teoria marxista. Conforme justificou Konder, sobre a bagagem intelectual de Brandão:
[...] nessa época, era um trabalhador infatigável. Graças a um acordo do PCB com Sarandy Raposo, da Confederação Sindicalista Cooperativista Brasileira, Brandão mantinha, anonimamente, no jornal O Paiz, uma seção na qual divulgava idéias de Marx e de Lênin. Segundo informa em suas memórias, Brandão já tinha lido O Estado e a Revolução, A Doença Infantil do “Esquerdismo” no Comunismo, Que fazer? A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky, além de outros escritos de Lênin, todos em francês. Também estava se familiarizando (“estudei meditando”, diz ele) com obras de Marx e Engels: A Miséria da Filosofia, O Anti-During, Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã, A Origem da Família, A Guerra dos Camponeses na Alemanha, As Lutas de Classes na França em 1848-1850 etc. Conhecia igualmente um resumo d' O Capital. Ao que tudo indica, nenhum outro marxista brasileiro, naquele momento, dispunha de uma bagagem de conhecimentos comparável a Brandão. 22
Astrojildo, por sua vez, não se destacou como Brandão no quesito das traduções de textos marxistas, muito embora deixou-nos alguns trabalhos relativamente importantes. Podemos por assim dizer, sua verdadeira contribuição se deu no campo prático, e pode ser identificada na dificílima tarefa de organizar e difundir o PCB. Com base em José Angelo da Silva, referência no assunto:
Como um dos delegados presentes no Congresso de fundação do Partido em 1922, como articulador político junto à Terceira Internacional, Astrojildo Pereira realizou destacado trabalho partidário nos primeiros anos de vida do PCB. Deixou como herança intelectual um grande número de artigos, manifestos etc., que estavam mais voltados para a análise de conjuntura do que para ensaios analíticos. 23

Evidentemente que tiveram outros tantos nomes de colaboradores, engajados na luta por um partido mais forte e conhecido entre os operários. Entretanto, chamaram-nos bastante a atenção à determinação de Brandão e Astrojildo que, sem dúvida, influenciaram dos seus muitos contemporâneos ligados ao movimento operário brasileiro.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

De maneira geral, apesar de todo o esforço empreendido por muitos intelectuais no sentido de difundir a teoria marxista entre os comunistas brasileiros, a partir de 1922, no que se refere às obras de Marx e Engels, continuaram inéditas neste país até pelo menos a década de 1930. Isso é claro, sem nos referirmos as obras clássicas, como O Capital, por exemplo, que só foi publicada na década de 1960. Portanto, o entendimento da complexa teoria marxista esteve sempre comprometido, e isso de fato, ajuda-nos a explicar as lacunas existentes no pensamento de muitos intelectuais que aderiram ao marxismo naquele período.



BIBLIOGRAFIA
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CARONE, Edgard. O marxismo no Brasil, das origens a 1964. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986.

DULES, John. W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil. 1900 – 1935. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.

FAUSTO Boris. História da Brasil. São Paulo: Edusp, 2007.

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HERMÍNIO, Linhares. Contribuição à história das lutas operárias no Brasil. São Paulo: Alfa – Omega, 1977.

KONDER, Leandro. A Derrota da Dialética: a recepção das idéias de Marx no Brasil até o começo dos anos trinta. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1988.

MUNAKATA, Kazumi. O marxismo brasileiro originário: anos vinte. Revista: História: Questões e Debates. Curitiba: Editora da UFPR, jun. 1985, v. 6, n. 10.

PICCAROLO, Antônio. ap. TAVARES, José N. Marx, o Socialismo e o Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
REZENDE, Paulo Antônio. História do Movimento Operário no Brasil. São Paulo: Ática, 1986.

SILVA, Angelo José. Tempo de fundadores. In: MORAES, João Quartim e ROIO, Marcos Del. (orgs). A História do marxismo no Brasil. Visões do Brasil. São Paulo: UNICAMP, v. 4, 2007.





 Aluno do Mestrado em História da Universidade Estadual de Maringá (UEM) - Linha de Pesquisa História Política e Movimentos Sociais.

1CARONE, Edgard. O marxismo no Brasil, das origens a 1964. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986.

22 Conforme argumentou Boris Fausto: “O Estado de São Paulo esteve à frente de um processo de desenvolvimento capitalista, caracterizado pela diversificação agrícola, a urbanização e o surto industrial. O café continuou a ser o eixo da economia e constituiu a base inicial desse processo.” FAUSTO Boris. História da Brasil. São Paulo: Edusp, 2007. p. 282.

33 Esta já constitui a segunda leva de imigrantes europeus vindos para o Brasil. Como já foi comentado anteriormente, a primeira ocorreu na segunda metade do século XIX.

44 PICCAROLO, Antônio. ap. TAVARES, José N. Marx, o Socialismo e o Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. p. 84.

55 FAUSTO, Boris. ap. __________, Marx, o Socialismo e o Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. p. 84 – 85.

66 TAVARES. op. cit., 1983. p. 85.

77 DULES, John. W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil. 1900 – 1935. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 29.

88 REZENDE, Paulo Antônio. História do Movimento Operário no Brasil. São Paulo: Ática, 1986. p. 15.

9A esse respeito, salientou Hermínio Linhares que: “Em julho de 1917 houve greve geral em São Paulo, paralisando completamente, durante vários dias, todo o movimento da cidade. Os operários de todas as fábricas exigiram aumento de salário. A adesão de diversos grupos de trabalhadores fez com que cessasse todo o movimento citadino. Esta greve – marco foi a primeira greve geral em um Estado do Brasil. Os anarquistas dirigiram o movimento, o comércio fechou, os transportes pararam e o governo impotente não conseguiu dominar o movimento pela força. Os grevistas tomaram conta da cidade por trinta dias.” HERMÍNIO, Linhares. Contribuição à história das lutas operárias no Brasil. São Paulo: Alfa – Omega, 1977. p. 61 – 62.

10BANDEIRA, Moniz e outros. O Ano Vermelho. São Paulo: Civilização Brasileira, 1980. p. 144.

11Devemos aqui registrar que, apesar de a Revolução ter aberto um novo caminho para o movimento operário brasileiro, de início foi entendida de maneira muito superficial. A esquerda brasileira não sabia ao certo o que realmente ocorreu na Rússia, tanto que muitos anarquistas a saudaram, acrescenta Moniz Bandeira, “[...] como a realização da utopia libertária. Faltava, na verdade, todos, inclusive à intelectualidade, a informação exata e precisa sobre o tipo de regime que, na Rússia, se implantava.” BANDEIRA, Moniz. op. cit., 1980. p. 145.

12CARDOSO, Ciro Flamarion e PEREZ, Hector. A concepção marxista da história, da década de 20 a nossos dias. In: __________, Os Métodos da história. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983. p. 69.

13MORAES, João Q. A evolução da consciência política dos marxistas brasileiros. In: __________, (Org.) História do marxismo no Brasil., v. III. São Paulo: Editora da Unicamp, 1998. p. 48.

14 KONDER, Leandro. A Derrota da Dialética: a recepção das idéias de Marx no Brasil até o começo dos anos trinta. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1988. p. 125.

15ROIO, Marcos Del. A gênese do Partido Comunista (1919-29). In: FERREIRA, Jorge. e REIS, Daniel Aarão. (Orgs). Formação das tradições (1889-1945). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 228.

16PEREIRA, Astrojildo. ap. REZENDE, op. cit. , 1986. p. 15.

17 TAVARES, José N. op. cit. p. 111 - 112.

18MUNAKATA, Kazumi. O marxismo brasileiro originário: anos vinte. Revista: História: Questões e Debates. Curitiba: Editora da UFPR, jun. 1985, v. 6, n. 10, p. 61 – 81.

19CARONE, Edgard. op. cit., 1986. p. 117.

20Devemos considerar que o próprio PCB estava impregnado de influências anarquistas naquele período, como se sabe, aquele movimento fincou raízes profundas na maneira de pensar e agir dos intelectuais e do operariado brasileiro. Essa herança cultural gerou posteriormente inúmeras críticas ao Partido. Segundo Antônio Rezende: “No relatório do comitê executivo da Terceira Internacional declarou-se que o PCB não constituía ainda um verdadeiro partido comunista, pois conservava ‘restos de ideologia burguesa alimentados pela presença de elementos da maçonaria e influenciados por preconceitos anarquistas”. O partido só conseguiu o registro de filiado da III AIC em 1924. Memória e história. São Paulo: Ed. Ciências Humanas, n. 1. In: REZENDE, Paulo Antônio. História do Movimento Operário no Brasil. São Paulo: Ática, 1986. p. 25.

21Brandão publicou a referida obra em Buenos Aires, Argentina, sob o pseudônimo de Fritz Mayer. Pela primeira vez no Brasil usou-se os conceitos de Luta de Classes.

22KONDER, op. cit., 1988. p. 145-146.

23SILVA, Angelo José. Tempo de fundadores. In: MORAES, João Quartim e ROIO, Marcos Del. (orgs). A História do marxismo no Brasil. Visões do Brasil. São Paulo: UNICAMP, v. 4, 2007. p. 128.




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