O impacto dos estudos de gênero nos feminismos latino-americanos: um estudo comparativo do Brasil e do Chile nos anos de 1980



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O impacto dos estudos de gênero nos feminismos latino-americanos: um estudo comparativo do Brasil e do Chile nos anos de 1980

Júlia G. S. Oliveira1


Introdução
Em 1988, a historiadora Joan Scott definia o conceito de gênero como o “saber a respeito das diferenças sexuais”, isto é, que o conceito diz respeito à
organização social da diferença sexual. O que não significa que gênero reflita ou implemente diferenças físicas fixas e naturais entre homens e mulheres mas sim que gênero é o saber que estabelece significado para as diferenças corporais. Esses significados variam de acordo com as culturas, os grupos sociais e no tempo, já que nada no corpo, incluído aí os órgãos reprodutivos femininos, determina univocamente como a divisão social está definida. A diferença sexual não é, portanto, a causa original da qual a organização social passa a ser derivada, mas sim uma organização social variada que deve ser, ela própria, explicada2.
Ao fazer tal afirmação, Scott indaga como as pesquisadoras do campo dos estudos voltados à questão da mulher estavam problematizando as construções hierárquicas sustentadas pelas sociedades anteriores. Portanto, questiona “como as hierarquias de gênero são construídas e legitimadas. A ênfase no ‘como’ sugere um estudo de processos, não de origens, de causas múltiplas, ao invés de causas únicas, da retórica ou do discurso”3. Em um artigo anterior, a historiadora assegurava que as feministas começaram a usar a palavra “gênero” mais seriamente como uma maneira de referir-se à organização das relações entre os sexos e indicar a rejeição ao determinismo biológico. Esta discussão aflorou, paralelamente, à crise das identidades cuja Stuart Hall afirma ser “parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social”4.

De acordo com o autor, o final do século XX presenciou uma mudança estrutural em suas sociedades que fragmentou as “paisagens culturais” em torno de questões como classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade que, até então, tinham sustentado as posições sociais dos indivíduos. Assim, Hall assevera que tais transformações alteraram as noções historicamente identitárias, provocando um deslocamento ou descentramento do sujeito. Parte dessas modificações foi causada pela “erosão da identidade mestra” vinculada à classe e da emergência de novas formas de identidades ligadas às novas bases políticas delineadas por movimentos sociais como o feminismo, as lutas negras, os de libertação nacional, os pacifistas e os ecológicos5. Ao tratar do movimento feminista, Hall argumenta que esse colaborou de forma ímpar para o descentramento conceitual do sujeito ao questionar as definições clássicas de público e privado, família, sexualidade, assim como o papel social que a mulher ocupava na sociedade; contribuindo, deste modo, para a constituição das identidades sexuais e de gênero.

Portanto, à luz dessas reflexões, a proposta deste trabalho é analisar, de forma comparativa, como os movimentos feministas latino-americanos, durante a década de 1980, construíram debates e bandeiras de luta a partir desses novos aportes teóricos. Ou seja, de quais maneiras refletiu-se e posicionou-se politicamente sobre a questão identitária e o papel social da mulher. Para realizar esta análise foram selecionados cinco números de dois periódicos feministas latino-americanos: o jornal brasileiro, O Mulherio e a revista chilena Mujer/FemPress, produzidos entre os anos de 1981 a 1988. Logo, o sintético texto que se segue é apenas parte uma parte dos objetivos que compõem minha pesquisa inicial de doutorado.
O movimento feminista no Brasil e no Chile

O cenário político da América Latina, durante esse período, foi marcado por regimes civil-militares e pelo enfrentamento das esquerdas. Assim, o feminismo latino-americano surgiu no bojo destes acontecimentos. Foi neste período que muitas militantes de esquerda se exilaram na Europa e nos Estados Unidos e entraram em contato com as discussões feministas destes países. No entanto, há de se ressaltar que a experiência e as discussões vindas da Europa e dos Estados Unidos não encontraram total correspondência à realidade latino-americana, uma vez que as feministas daqui necessitavam conciliar as lutas pelas questões consideradas “específicas” às lutas pelas liberdades democráticas.

Foi durante o exílio, após o acirramento da repressão, na década de 1970, que muitas das militantes da esquerda brasileira entraram em contato com o feminismo. Neste momento, em Paris surgiu a publicação do boletim bilíngue intitulado Nosotras6, editado pelo grupo de Mulheres da América Latina, que aglutinou ativistas brasileiras e chilenas, principalmente. Em seu primeiro número, publicado em 1974, o boletim trazia questionamentos a respeito do que era o feminismo e o que era “ser mulher” na América Latina: “que lo que quiere decir el femenismo? El femenismo es un movimiento que tendria sentido solamente en un pais industrializado? Que hay de común o de distinto entre la mujer mexicana, venezolana, argentina, brasileña, francesa7?”

Nesta mesma data, o Chile vivia seu primeiro ano de ditadura governado por Augusto Pinochet, o que elucida a presença das chilenas no grupo de Paris. Cabe ressaltar que o Chile, nos anos de 1970, experimentou dois modelos econômicos antagônicos: o socialismo e o neoliberalismo. Em 1970, a colisão dos partidos de esquerda, a Unidade Popular, levou Salvador Allende à presidência da república pela via democrática8. A eleição de um presidente de esquerda era algo, até então, incomum na América Latina. Allende tinha o objetivo transformar, de forma pacífica, o Chile em um Estado socialista por meio de projetos sociais como a reforma agrária, a nacionalização de empresas e investir na educação e na criação de creches9. De acordo com Peter Winn, o governo da Unidad Popular utilizou o mais expressivo movimento de mulheres do período, o “Centro de Mães de Frei”, para desenvolver atividades como distribuição de leite, alfabetização de adultos e educação sanitária, endossando o papel social feminino ligado ao espaço privado e aos cuidados com o outro10.

O golpe militar efetuado em 1973 pôs fim a todas as medidas sociais alcançadas nos últimos três anos e instaurou uma forte repressão aos movimentos sociais e aos sindicatos11. Assim, a proposta de contenção do “caos” social e da inflação, foi acompanhada também pela implantação de medidas neoliberais ainda na década de 197012. Essas transformações realizadas durante a ditadura alteraram as formas de organização social e, nesta mesma década, surgiram as primeiras Organizações Não Governamentais (ONGs) que, de acordo com Margarita Iglesias, serviram como estratégia de trabalho para profissionais das classes médias ou como forma de organização social e antiditatorial13. De acordo com a autora, foi neste momento que proliferam os movimentos feministas chilenos ligados ao combate à ditadura e pelo direito à vida, sendo que alguns destes foram formados a partir de ONGs. No Brasil, em contrapartida, o feminismo que se formou nos anos de 1970, nasceu vinculado à esquerda e se constituiu, em sua maioria, de forma autônoma. O Estado brasileiro não oferecia espaços institucionais destinados às mulheres, do mesmo modo que os partidos de esquerda viam os problemas específicos femininos como questões menores e burguesas que tenderiam a dividir a luta de classes. A falta de espaço dentro dos próprios partidos levou algumas militantes a constituírem espaços independentes de ativismo14. Nesse contexto, as feministas, partindo da perspectiva marxista, afirmavam que combater o patriarcalismo e o sexismo, inclusive dentro dos partidos e sindicatos aos quais estavam ligadas, era essencial para a transformação das relações sociais.

Em 1975, a partir da declaração do Ano Internacional da Mulher, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975, uma narrativa “fundadora” do movimento feminista e de mulheres foi construída, surgindo diversas associações nestes países15. No Chile, segundo Iglesias, o movimento de mulheres se desdobrou em diferentes propostas e em espaços políticos diversificados como sindicatos e partidos, associações de bairro e comunitárias. Do mesmo modo, foram diferentes as formas de atuação refletidas nos centros de estudo sobre as questões femininas, nos movimentos pela diferença sexual ou nas associações de operárias. Com o lema “democracia em lo país y en la cama”, esses grupos produziram um encontro entre as chamadas lutas específicas com as demandas gerais em prol da democracia.

Segundo Cardoso, com o distanciamento dos partidos, no período de redemocratização, a fisionomia do feminismo alterou-se e proliferam entidades ligadas às Universidades, às ONGs - que começaram a ganhar espaço no país - e aos Conselhos Estaduais e Municipais destinados a defesa dos direitos da Mulher. Foi neste contexto que o periódico brasileiro O Mulherio foi publicado, ligado à Fundação de pesquisa Carlos Chagas.

Em 1981, ainda, aconteceu o I Encontro Feminista Latino Americano e Caribenho, realizado em Bogotá, nos fazendo refletir como as pautas feministas estavam transbordando as fronteiras locais e nacionais. De acordo com Sonia Alvarez, esses encontros “vêm funcionando como espaços críticos transnacionais nos quais militantes locais remodelam e renegociam identidades, discursos e práticas distintivas dos feminismos regionais”16. De acordo com a Alvarez, os debates da primeira década do encontro, de 1981 a 1990, refletiram as mudanças regionais dos feminismos e tiveram como temas centrais as relações entre os movimentos feministas e a esquerda masculina revolucionária e, entre o feminismo e o movimento mais amplo de mulheres no contexto da crise econômica. A questão da autonomia era vista, segundo a autora, como ponto principal de discussão, sendo “considerados por muitas a pedra fundamental da identidade feminista na América Latina” 17. Isto é, ao mesmo tempo em que os grupos feministas queriam construir alianças com outros setores sociais, principalmente com outras mulheres, no intuito de diminuir as desigualdades de gênero; a autonomia se fazia necessária para evitar a cooptação das demandas por agentes de partidos políticos, pelo Estado e pelas agências de cooperação que financiavam muitos dos projetos18. Para refletir como essas questões teóricas e políticas aparecem nos debates feministas, foram selecionados seis números dos dois periódicos mencionados. Os três primeiros números formam produzidos no início dos anos 1980 (1981-1984) e os outros três ao final da década (1988-1989).


Os debates em torno da autonomia e da “natureza” feminina
O jornal O Mulherio publicou sua edição n°0 em abril de 1981. Fundado por pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas, o periódico argumentou nesta edição que o objetivo do periódico era que fazer um boletim que ocupasse uma lacuna importante no movimento que era a de suprir a falta de informação entre as pesquisadoras do campo feminino. Posteriormente, viu-se a necessidade de atender a três setores: os meios de comunicação, que tratavam da mulher apenas nas “páginas de culinária ou beleza”; aos grupos e entidades culturais e acadêmicas, e as associações de mulheres19. Composto por 16 páginas, em preto e branco, o jornal foi financiado pela Fundação Ford20 que, de acordo com o editorial, lhes permitiria uma tiragem regular por um ano e meio. Este número trouxe como principal artigo “8 de Março: passado, presente e futuro”, escrito por Maria Carneiro da Cunha, o qual tinha o objetivo de traçar um panorama do movimento feminista brasileiro, desde o início do século XX, e refletir sobre os rumos do feminismo brasileiro. Para isso cita a conquista do voto, na década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas e o “retorno” do feminismo, ao final dos anos de 1960, que trouxe junto da militância as pesquisas acadêmicas e universitárias, já que muitas feministas passaram a interrogar sua própria condição feminina21. No artigo, a autora argumenta que os últimos três anos trouxeram uma “relativa liberalização política”, fruto da pressão civil e dos movimentos sociais, que permitiu a organização do I Encontro da Mulher Paulista, em 1979, no Teatro Ruth Escobar, com a presença de 500 pessoas de associações femininas e feministas.
Pela primeira vez elas puderam expor diretamente seus problemas e suas reinvindicações do dia-a-dia sem ter de passar pelos canais institucionais dos partidos e dos sindicatos. Foram discutidos todos os problemas que interessam à mulher, dando ênfase à mulher trabalhadora, o que se refletiu na 1° bandeira do congresso: a luta por creches.22
Nota-se, que um dos pontos dos apresentados nas análises de Alvarez sobre o feminismo latino-americano na década de 1980 faz-se presente no artigo do jornal: a questão da autonomia das questões femininas frente aos partidos e sindicatos. Isso é endossado quando, na sequência, ao falar da recepção do congresso na sociedade, a autora avalia que os grupos de direita agiram “como sempre”, tentando diluir o movimento, enquanto na esquerda “há posições contraditórias, enquanto forças respeitam a autonomia do movimento de mulheres, outros negam a necessidade desta autonomia em nome de uma ‘luta geral’ que consideram mais importante e prioritária23”.

Como a historiadora Regina Crespo24 afirma, quando temos como objetos de estudo periódicos, devemos nos ater aos critérios que levam à hierarquização dos espaços de publicação, como se organizamos textos, assim como quem os produz; uma vez que estas publicações não são neutras e refletem certos anseios do grupo e posicionamentos políticos. Apesar do jornal não ter ligação com nenhum partido, notoriamente, o artigo escrito por Maria Carneiro da Cunha seguia o posicionamento marxista e não se propunha a discutir as diferenças sexuais; os problemas femininos, apesar de serem comuns a todas as mulheres, eram agravados pela questão da classe social. A identidade feminina aqui é vista de forma quase homogênea e a-histórica. “Elas”, as mulheres, segundo a autora, são indivíduos que, historicamente, sofreram com a dominação masculina e com a desigualdade de classe, assim, a superação econômica era essencial para a conquista da autonomia feminina.

Ainda nessa edição de O Mulherio foi publicado um artigo de Carmen da Silva25, intitulado “Abracadabra”. Neste texto, Silva avalia que muitas mulheres a escrevia esperando por “um milagre” em suas vidas e assegura que os problemas femininos estão ligados aos homens da classe dominante que “tecem a sujeição feminina” por diversos meios:
A economia que nos descrimina no trabalho e nos salários; a estatística que determina se e quando devemos trabalhar fora ou ficar em casa; parir ou evitar filhos; a ciência que define nossa “natureza” nos termos mais convincentes aos interesses deles: mulher é dócil, passível, generosa, abnegada, só se realiza através da dedicação ao outro, tem a mais estreita afinidade fisiológica com a vassoura, o tanque, as panelas e o escovão. Fora desse modelo, ela não é feminina e pagará por tal “deficiência” um alto preço social e privado26.
Apesar de Silva afirmar que o poder patriarcal está assentado “naturalmente” nas mãos dos homens da classe dominante, uma reflexão decorrente das discussões acadêmicas brasileiras em torno do tema no período27, a autora problematiza a “natureza” feminina consagrada na mentalidade cultural e nos discursos científicos. Ao por em xeque atribuições inerentes ao feminino como “dócil, abnegada, generosa, etc”, Silva descontrói os saberes codificados que posicionavam a identidade feminina como algo natural e estável. Mesmo que a categoria “gênero” não seja empregada, este artigo interroga o essencialismo biológico que definia a identidade feminina até então. Esta é apresentada como um modelo “idealizado” por um determinado grupo, com certos fins, e que as mulheres ao escaparem a este modelo preconizado enfrentariam problemas tanto na espera pública, quanto na privada, indo de encontro às denúncias de discriminação e assédio sexual no trabalho e as formas de violência doméstica que eclodiam no período.

Em 1981, no México, também era editado o primeiro número da revista Mujer/FemPress28 organizado pelas chilenas Adriana Santa Cruz e Viviana Erazo, que então viviam exiliadas no país. No ano seguinte, a revista passou a ser editado em Santiago, no Chile, e reunia artigos e recortes enviados pelas correspondentes feministas da América Latina e alguns países da Europa. De acordo com a militante Adriana Santa Cruz, a revista surgiu diante da percepção de que “as pessoas lutam para derrubar a cultura lendária do sexismo na América Latina e era necessária uma revista (…) que refletisse os problemas reais enfrentados pelas mulheres” 29. O periódico faz parte da Unidad de Comunicacion Alternativa de la Mujer e recebeu apoio financeiro da SIDA (Swedish International Development Cooperation Agency), da Suécia, do Ministério do Desenvolvimento e Cooperação da Noruega e da Igreja Metodista Americana, dos Estados Unidos, o que possibilitou uma tiragem regular da revista até 1997.



No número nº 41, publicado em dezembro de 1984, a revista trouxe contribuições dos feminismos de diversos países como Costa Rica, Peru e República Dominicana30. Esta edição, com vinte e oito páginas datilografadas, apresentou 13 artigos produzidos por militantes feministas latino-americanas, quatro recortes de jornais com notícias sobre os movimentos feministas na América Latina, e informes sobre encontros realizados nos países, bem como endereço das organizações de mulheres no Peru, na Costa Rica e na República Dominicana. No entanto, as próprias chilenas não produziram nenhum artigo, o que nos leva perguntar o porquê desta lacuna. Frente a isso, destacamos o artigo mexicano, produzido por Angélica Guerrero, posto que a experiência do feminismo do México foi o que influenciou a produção da revista. Este texto, intitulado “La búsqueda de una mitologia feminina, un nuevo reto para la mujer”, problematiza a educação sexista que condiciona um destino às mulheres tendo como base os princípios biológicos. Como exposto: “todavia la educación sexista que impone a las personas creer que de acuerdo al sexo que se pertenzca se definirán la actividades sociales que pude desempenhar, reduciendo las tareas de la mujer ao matrimonio y a la maternidad”31. Isto é, a autora questiona a divisão binária da sociedade em masculino e feminino e como esta gera uma desigualdade e uma assimetria, com base em um detalhe biológico, que inscreve as diferenças sexuais e naturaliza determinadas funções aos sujeitos, a exemplo da maternidade feminina, o que ela coloca como “um mito”, assim como as demais atribuições, que foi aprendida e repassada por longos anos. Do mesmo modo, a autora reflete sobre a dificuldade das mulheres em romper com um sistema historicamente consolidado e repressor que acaba por gerar sérios problemas às mulheres. De acordo com o artigo:
(...) para la mujer, transcender las eferas de lo doméstico la coloca de imediato como enemiga de quienes la rodean, outros, simplesmente no la compreenden y prefieren ignorala, se libra una lucha que se cree justificada, sin embargo no hay quien comporta esta satisfación y sobre todo no se encuentra hacia donde seguir32.
Como referencia teórica Guerrero cita o livro A Mística Feminina, publicado em 1971, pela psicóloga norte-americana Betty Friedan33. Neste livro, Friedan tece uma análise crítica à educação sexista e heteronormativa espelhada no modo de vida das jovens americanas. Ao constatar que cada vez mais as jovens estudavam menos e se casavam mais cedo, a autora criticou a imagem das mulheres sempre associada à família e ao lar, questionando: “é só isto?”. Deste modo, ressaltou que os “especialistas” ao escreverem sobre e para as mulheres apenas reafirmavam o seu destino biológico de mãe e esposa, um aprendizado sobre a “feminilidade” que acompanha as mulheres desde a infância. Em suas palavras: “(...) mil vozes de entendidos aplaudiam sua feminilidade, seu equilíbrio, sua nova maturidade. Bastava-lhes orientar a vida desde a infância no sentido da busca de um marido e da formação da família” 34.

As argumentações apresentadas no artigo de Guerrero, embasadas no livro de Friedan, também encontram ressonância no artigo produzido pela brasileira Carmen da Silva, nos fazendo refletir sobre a circulação do debate teórico feminista na América Latina e nos seus usos, de acordo com a realidade de cada país. No México, a questão da luta de classes ou a autonomia do movimento não são pontos marcantes do texto, cuja preocupação centra-se, fundamentalmente, em diluir uma identidade feminina calcada em atributos biológicos que a autora vê como um “aprendizado histórico” que tem um efeito intenso no cotidiano feminino. No artigo de Carmem da Silva este ponto também é discutido, mas há uma atenção também ao fator econômico e uma crítica mais tênue ao papel que o patriarcado exerce na sociedade. De todo modo, esses dois artigos indicam como, apesar da categoria gênero não ser utilizada, o feminismo latino-americano já delineava uma crítica ao construto cultural que residia sobre os papéis sociais das mulheres, buscando romper como o discurso da diferença biológica como justificativa das assimetrias sociais.



Considerações Finais

Em suma, podemos compreender, por meio do recorte das fontes, no que concerne às discussões de gênero que, mesmo que a categoria ainda não fosse empregada pelas feministas, havia uma reflexão sobre as dicotomias sexuais e a construção cultural das diferenças sexuais. Os artigos analisados, no início dos anos de 1980, nos dão indícios de uma rejeição ao determinismo biológico, apontando para os aspectos culturais das definições normativas do padrão de feminilidade. Do mesmo modo, nota-se a preocupação em estender visibilidade aos problemas femininos como políticos e, assim, legitimar, em primeiro momento, a igualdade masculina e feminina na esfera institucional. É claro que não podemos afirmar que esses processos foram homogêneos na América Latina, uma vez que os dois contextos sociais aqui analisados nos apresentaram cenários políticos distintos que refletiram na formação dos movimentos feministas e na própria concepção dos periódicos. Os artigos do final dos anos de 1980, de forma sucinta, nos permitem refletir sobre a pluralização do movimento feminista e da formação de outras identidades ligadas às diferenças étnicas e sexuais. Estas novas identidades fizeram emergir outros sujeitos políticos, contribuindo, assim, para o questionamento sobre as construções hierárquicas e díspares nas sociedades latino-americanas.


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1 Doutoranda no Programa de Pós-Graduação de História Social da Universidade de São Paulo (USP/Brasil) e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

2 SCOTT, Joan W. Prefácio a Gender and Politics of History. Cadernos Pagu, n° 3, 1994, p. 12.

3 Idem, p. 16.

4 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2006, p. 5.

5 Idem, p. 6

6 O periódico que durou dois anos (1974-1976) e, apesar de fortemente influenciado pelas ideias das francesas, interrogava e pontuava a importância de especificar os problemas das mulheres latino-americanas, bem como suas formas de luta.

7 EDITORIAL. Nosotras, Paris, n. 1, jan. 1974. In: ABREU, Maira. Nosotras: feminismo latino-americano em Paris. Revista Estudos Feministas, vol.21, nº2, maio/agosto, 2013.

8 LIRA, Francisco F. Do socialismo ao neoliberalismo: os anos de 1970 no Chile. Vitrine da Conjuntura, Curitiba, v.3, n. 6, 2010.

9 Ressalto que a criação das creches era uma das bandeiras do movimento feminista brasileiro durante as décadas de 1970 e 1980. Essa concepção liga-se às propostas delineadas pela militante e pensadora russa, Alexandra Kollontai, em 1920, na qual defendia que a sociedade capitalista e patriarcal trouxe para a mulher um fardo excessivo ao lhe atribuir, ao mesmo tempo, três tarefas: a de esposa, a de trabalhadora e a de mãe. Assim, argumentava que a igualdade entre homens e mulheres só poderia se dar através da implantação de um Estado comunista que asseguraria à mulher seus direitos, sobretudo aqueles ligados à maternidade. Portanto, o Estado, ao criar um espaço como as creches, abriria espaço para que as mulheres pudessem trabalhar e, logo, conseguissem sua autonomia. Trata-se, deste modo, de uma análise que tem como escopo as relações econômicas e não os questionamentos sobre a constituição das diferenças sexuais. No entanto, esta analise serviu de referência para muitas das militantes feministas marxistas da intitulada segunda onda. KOLLONTAI, Alexandra. O Comunismo e a Família. Komunistka, 2, 1920. Editorial Marxista, Barcelona, 1937.

10 O autor ainda ressalta que no campo, a proposta revolucionária do “Novo Chile” teve um efeito inverso na vida das camponesas, uma vez que seus maridos não permitiam que estas tivessem a mesma atuação nos Conselhos e nas Campanhas habitacionais, bem como, com o aumento da renda familiar, estes homens as impediam de trabalhar fora de casa, o que levou ao aumento de casos de “abusos conjugais”. WINN, Peter. A Revolução Chilena. Coleção Revoluções. São Paulo: Editora UNESP, 2010, p. 120.

11 Durante o governo Pinochet, as mulheres também foram acionadas, em seus papéis tradicionais de esposa ou mãe, pelo Estado para serem referências, “pilares da reconstrução nacional”. WINN, Peter. A Revolução Chilena, op.cit.

12 As medidas adotadas vieram da experiência de um grupo de estudantes de economia chilenos, nos Estados Unidos, conhecidos como Chicago Boys. Estes foram responsáveis por trazer as ideias e propostas neoliberais implantadas, primeiramente, no Chile e, posteriormente, em toda a América Latina. Entre as medidas estavam a redução do papel do Estado no setor público e na economia. LIRA, Francisco F. Do socialismo ao neoliberalismo: os anos de 1970 no Chile, op.cit.

13 IGLESIAS, Margarita. Los desafíos del Cono Sur desde las perspectivas de las mujeres. La democratización de la democracia o la reinvención de una democracia latinoamericana. In: PEDRO, Joana M & WOLFF, Cristina (Org.) Gênero, Feminismos e ditaduras no Cone Sul. Florianópolis: Editoras Mulheres, 2010.

14 Com isso não queremos afirmar que não havia grupos de mulheres dentro dos partidos ou grupos de esquerda. A Federação Paulista de Mulheres, por exemplo, era uma extensão do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8). O que queremos destacar é que o movimento feminista brasileiro da década de 1970 surgiu com uma crítica a falta de autonomia para discutir as questões de gênero dentro da esquerda. Ver: ALVAREZ, Sonia. Engendering Democracy in Brazil: women´s movements in politics. Princeton University Press: Oxford, 1993, MORAES, Maria L. Q. Vinte Anos de Feminismo. Tese de Livre Docência, Departamento de Sociologia, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de Campinas, 1996.

15 PEDRO, Joana M. Narrativas fundadoras do feminismo: poderes e conflitos (1970-1978). Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 26, nº 52, p. 249-272, 2006.

16 ALVAREZ, Sonia, ET.ALLI. Encontrando os feminismos latino-americanos e caribenhos. Estudos Feministas, Florianópolis, n° 11, v.2, 360, jul-dez, 2003, p. 542

17 Idem, p. 543.

18 De acordo com Alvarez e et.ali, a autonomia do movimento é compreendida como a capacidade de agir de forma independente, questão que segue, ainda hoje, como um tema dorsal e caro ao movimento, uma vez que se deve perguntar “do que e de quem, exatamente, as feministas devem manter autonomia?”. Idem, p. 544

19 O Mulherio, nº0, abril, 1981, p.1.

20 Segundo a página da Fundação Ford, a mesma foi criada em 1936 e trata-se de “uma organização privada, sem fins lucrativos, criada nos Estados Unidos para ser uma fonte de apoio a pessoas e instituições inovadoras em todo o mundo, comprometidas com a consolidação da democracia, a redução da pobreza e da injustiça social e com o desenvolvimento humano”. Disponível em: .

21 O artigo cita, paralela a esse ponto, grupos femininos e feministas, em São Paulo e no Rio de Janeiro, que se constituíram nos últimos cinco anos: Nó Mulheres, Associação de Mulheres, Centro da Mulher Brasileiras, Sociedade Brasil Mulher e Coletivo das Mulheres.

22 O Mulherio, n°0, mar/abril, 1980, p. 3. Disponível em:

23 Idem.

24 CRESPO, Regina. Revistas culturais e literárias latino-americanas: objetos de pesquisa, fontes de conhecimento histórico e cultural. In: JUNQUEIRA, M, VILADARGA, S. M.F. S. (Org). Cadernos de Seminário de Pesquisa, v. 2. São Paulo: Humanitas, 2011, p. 98-116.

25 Carmem da Silva foi uma militante e jornalista da Revista Cláudia, que escreveu sobre questões como desejo, sexualidade, divórcio e aborto.

26 O Mulherio, n°0, mar/abril, 1980, p. 6. Disponível em:

27 No Brasil, a tese pioneira de Heleieth Saffioti, intitulada A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade, defendida em 1976, na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, serviu de referência para os primeiros trabalhos acadêmicos voltados para a questão feminina. Em 1979, Saffioti publicou o artigo O fardo das brasileiras - de mal a pior pela revista Escrita Ensaio, n.5, São Paulo, no qual argumentava a respeito da dominação histórica patriarcal. A autora argumentava que a dominação feminina era sustentada pelo tripé constituído pelas relações entre o capitalismo, o racismo e o patriarcado, sendo este último a forma mais antiga de domínio, seguida de perto pelo racismo. SAFFIOTI, Heleieth. O Poder do Macho. São Paulo: Editora Moderna, 1987.

28 Infelizmente, não tivemos acesso a este exemplar, portanto, analisaremos o n°41, publicado em 1984, primeiro número da coleção disponível no arquivo da Biblioteca Florestan, da Universidade de São Paulo.

29 CRUZ, Adriana S. Fempress: a communication strategy for women. Gender and Development, v.03, nº1, 1995, p. 51.

30 Neste momento, o Brasil, apesar de ter organizações feministas atuantes e, inclusive uma imprensa destinada a essa discussão, não possuía correspondentes fixas com a revista , isso só ocorreu a partir de 1987, com o Coletivo Fempress Brasil, sediado no Rio de Janeiro. As correspondentes brasileiras eram: Ana Cristina Pires, Carla Costa Teixeira, Fátima Mello, Maria José de Lima, Rosana Rodrigues, Tereza Cristina Nascimento Sousa e Wania Sant´Anna. As notícias veiculadas sobre a questão feminina no Brasil, até esta data, eram feitas por meio de recortes de materiais de jornais enviados por leitoras da revista, que também informavam sobre os eventos que aconteciam no país.

31 Mujer/Fempress, Instituto Latinoamericano de Estudos Transnacionales, nº 41, dezembro de 1984, p. 19.

32 Idem.

33 FRIEDAN, Betty. A mística Feminina, Editora Vozes: Petrópolis, 1971.

34 Idem, p. 18.



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