O instituto brasileiro de filosofia: uma tentativa de construçÃo de hegemonia conservadora



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O INSTITUTO BRASILEIRO DE FILOSOFIA: UMA TENTATIVA DE CONSTRUÇÃO DE HEGEMONIA CONSERVADORA

Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves

Escola Mosaico

jurucemattos@yahoo.com.br

Pedro Leão da Costa Neto



História – UTP

pedro.costa@utp.br

O objetivo do presente trabalho é analisar a tentativa de elaboração de um projeto hegemônico conservador realizada pelo Instituto Brasileiro de Filosofia. O IBF foi criado na cidade de São Paulo, em 1949 e entre seus fundadores podem-se destacar, Miguel Reale, Vicente Ferreira da Silva, Luiz Washington Vita, e segundo os seus Estatutos tinha, entre seus objetivos, o de: “promover o desenvolvimento da cultura filosófica em nosso país mediante cursos, conferências, seminários (...)”1. A identificação do IBF, como Instituição representativa do pensamento conservador no Brasil, já foi destacada por diferentes autores.

Paulo Eduardo Arantes, em seu ensaio dedicado a João Cruz Costa2, identifica nos anos 50-60, três diferentes posições filosóficas, que corresponderiam a diferentes posições ideológicas: 1) a “esquerda transcendental”, que se constituiu em torno do departamento de filosofia da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP), e que pressupunha que suas técnicas filosóficas mais rigorosas corresponderiam a posições políticas mais avançadas. Arantes, seguindo as observações de Antônio Cândido que caracterizou a obra Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda como representante de um radicalismo potencial das classes médias, atribuirá esta mesma caracterização ao próprio Antônio Cândido e outros professores da FFCL – USP; 2) o “nacionalismo existencialista” que se constituiu em torno do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB, e que visava elaborar, a partir de conceitos originários principalmente da filosofia existencialista, um fundamento filosófico para um projeto nacional-desenvolvimentista; e 3) a “direita” do Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF), diferentemente das duas concepções anteriores, que elaboraram diferentes visões críticas em relação à formação histórica e intelectual brasileira que, propunha, ao contrário, uma análise positiva do nosso passado histórico.

No mesmo sentido, Leandro Konder3 , em sua análise dos intelectuais brasileiros nos anos 50-60, apresentou uma tipologia, onde ressaltava a importância das opções filosóficas e das posições teórico-políticas para a formação das diferentes tendências existentes entre os intelectuais, em um sentido amplo, e os historiadores, de maneira específica: 1) a “perspectiva conservadora” citando, por exemplo, Djacir Menezes (próximo ao IBF) que destacava a dimensão da continuidade no processo histórico brasileiro, de maneira a repelir o reconhecimento da importância da ruptura Menezes afirmando, assim, o seu estreito compromisso com a ordem. Konder identifica, nessa concepção, uma desenvolta apologia das forças que têm comandado nossa história; 2) a “tendência nacional-desenvolvimentista”, agrupada primeiro em torno do IBESP, e que depois dará origem ao ISEB, que pretendia entender a nossa história à luz de um projeto comprometido com a promoção de um desenvolvimento nacional autônomo; 3) a “perspectiva marxista”, sobre a qual Konder faz uma distinção, separando o marxismo ortodoxo doutrinário por um lado, e, por outro, a corrente representada por dois intelectuais socialistas independentes: Antônio Cândido e Florestan Fernandes. O autor sublinha igualmente a importância do grupo de jovens professores da USP que se reuniram em um Seminário para elaborar uma leitura de O Capital.


Na cidade de São Paulo, a oposição, entre os projetos representados pela da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo da USP e pelo IBF, assumiu contornos particularmente antagônicos. Criada em 1934, a FFCL foi concebida como o centro da futura Universidade - e também como forma de superar a estrutura das escolas profissionais isoladas representadas pelas seguintes instituições de ensino: Faculdade de Medicina, Politécnica, e Faculdade de Direito. Para a sua efetivação, a nova faculdade contou com a ajuda de uma “missão cultural francesa” que representou uma forte descontinuidade com a tradição cultural e de ensino da cidade. Até esta data, o ensino da Filosofia, na cidade de São Paulo estava representado: por um lado, pela Faculdade Livre de Filosofia e Letras de São Paulo, criada em 1908, pelos beneditinos de São Paulo, e que funcionou até 1937 - com uma interrupção entre 1918 e 1921 - quando foi reconhecido pelo governo federal e integrada a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 1946-1947; por outro lado, pela Faculdade de Direito de São Paulo criada em 18274; no interior da qual tinham se formado a grande parte dos membros do IBF. O novo estilo de ensino da filosofia, representado pelo ensino dos professores franceses vai rapidamente entrar em choque com a tradição de ensino da filosofia representada pela Faculdade de Direito. Referindo-se ao destaque dado pelo IBF, ao pensamento filosófico no Brasil, Tânia Gonçalves sublinha o seu caráter ideológico: “Para dar legitimidade ao Instituto diante do método francês de estudos filosóficos, Miguel Reale elege um assunto próprio para o grupo do IBF – a tradição filosófica brasileira esta que sempre esteve ligada à tradição das faculdades de direito do Brasil, especialmente São Paulo e Recife.5

Podemos afirmar que o programa de recuperação da história do pensamento filosófico no Brasil correspondia a uma nova leitura conservadora da História do Brasil, que assumirá contornos cada vez mais claros com a aproximação de Antonio Paim e Paulo Mercadante a Miguel Reale, ao IBF e a escola culturalista.6


Uma vez reconstruída, em linhas gerais, o projeto hegemônico conservador do IBF, no interior das principais tendências existentes nas décadas de 50 e 60, tentaremos analisá-lo a partir das observações efetuadas por Antonio Gramsci, elaborada nos Cadernos do Cárcere, sobre a “concepção positiva da revolução passiva”, no qual são criticadas as concepções históricas de Croce apresentadas em seus livros Storia dell’Europa nel secolo XIX e Storia d’ Italia dal 1871 al 1915, onde todos os momentos de ruptura e luta de classes se dissolvem – são escamoteados, no que Gramsci caracterizou como “história fetichista”.

Este programa de pesquisa correspondia a uma prática intelectual orgânica7. Neste sentido, o IBF possuía uma (1) política de formação filosófica, que passou a ser realizada a partir de 1952, quando, através do financiamento da Secretaria de Cultura da Municipalidade de São Paulo, foram organizados cursos de extensão cultural. O então governador do Estado de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez8 e o prefeito da cidade de São Paulo, Armando Arruda Pereira, consideraram, na época, que o IBF era uma “entidade de utilidade pública ”9. Esses cursos ocorreram continuamente de 1952 a 1965. (2) Uma política editorial, com financiamento obtido junto ao empresariado, à Editora da USP (da qual Reale fora Reitor por duas vezes), ao Governo do Estado de S. Paulo, à Prefeitura da Capital, ao Instituto Nacional do Livro (INL).10

A categoria do aparelho de hegemonia filosófico (a.h.f.), desenvolvida por Christine Buci-Glucksmann11, é de particular importância para a análise do IBF, pois nos dá indicações precisas para uma problematização rigorosa. Segundo a autora, o a.h.f. tem por objetivo “a difusão de uma filosofia, de uma concepção geral da vida”, de uma estrutura ideológica que compreende “uma organização material que visa a manter, defender, desenvolver a ‘frente teórica e ideológica’. O a.h.f., portanto, faz parte ‘do formidável complexo de trincheiras e fortificações da classe dominante’.”12 Assim, o IBF é, verdadeiramente, um a.h.f., onde confluem o trabalho intelectual em sentido estrito (das pesquisas, dos estudos, etc.), e o trabalho intelectual em sentido lato, no sentido da organização – conforme definido por Antonio Gramsci.
Palavras-chave: Instituto Brasileiro de Filosofia; revolução passiva; aparelho de hegemonia filosófico (a.h.f.)

História – UTP




1 Instituto Brasileiro de Filosofia: Estatutos. In: PÁDUA, Elisabete Matallo Marchesini de. Ideologia e Filosofia no Brasil: O Instituto Brasileiro de Filosofia e a Revista Brasileira de Filosofia. São Paulo: FE-USP, (Tese de Doutorado), 1998, Anexo 1, p. 1.

2 ARANTES, Paulo Eduardo. Instinto de Nacionalidade: Cruz Costa e herdeiros nos idos de 60. In: Um departamento Francês de Ultramar. Estudos sobre a formação da cultura filosófica uspiana (uma experiência nos anos 60). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994, p. 88-107.

3 KONDER, Leandro. História dos Intelectuais Nos Anos Cinqüenta. In: FREITAS, Marcos Cézar: Historiografia Brasileira em Perspectiva. São Paulo: Contexto – USF, 1998, p. 335-374 e notas p. 470-471.

4 Para maiores informações sobre a tradição de ensino filosófico desenvolvido na Faculdade de Direito do largo de São Francisco, consultar: REALE, Miguel. A filosofia em São Paulo. 2a. ed, São Paulo: Grijalbo, 1976.

5 GONÇALVES, Tânia. João Cruz Costa Educador: Contribuições ao debate sobre a filosofia como formação cultural. São Paulo: FE-USP, (Dissertação de Mestrado), 2004, p. 34.

6 Sobre o processo de aproximação entre Antônio Paim, Paulo Mercadante com Miguel Reale e o IBF, consultar a entrevista de Paulo Mercadante in: SOARES, Jorge Coelho, Marcuse no Brasil, Londrina: Edições CEFIL, 1999, p. 129-134 em particular p. 132.

7 Cf. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. V. 2. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

8 Lucas Nogueira Garcez (1913-1982) foi presidente da ARENA em 1970, entre 1966 e 1975 foi diretor das Centrais Elétricas de São Paulo (CESP) e, entre 1979 e 1982, foi presidente da Eletropaulo. Isto indica, como o leitor verá, que Garcez era estreitamente ligado a Miguel Reale.

9 PÁDUA, Elisabete Matallo Marchesini. Ideologia e filosofia no Brasil: O Instituto Brasileiro de Filosofia e a Revista Brasileira de Filosofia. Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1998, tese de doutoramento, p. 21

10 Cf. id. ibid., p. 21-43

11 BUCI-GLUCKSMANN, Christine. Gramsci e o Estado: por uma teoria materialista da filosofia. 2ªed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

12 Id. ibid., p. 484


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