O instituto de educaçÃo de pernambuco: como tudo começOU?



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O INSTITUTO DE EDUCAÇÃO DE PERNAMBUCO: COMO TUDO COMEÇOU?

Figueirôa, Ana Paula Rodrigues 1

Simões, José Luís2

Universidade Federal de Pernambuco


RESUMO
A pesquisa é parte da dissertação do mestrado em educação pela Universidade Federal de Pernambuco, que se encontra em andamento, onde será apresentada ao núcleo de teoria e história da educação. Traz a trajetória da história da Escola Normal Oficial de Pernambuco ao Instituto de Educação de Pernambuco, hoje denominada Escola Sylvio Rabello. A pesquisa representa uma contribuição para a história das instituições de ensino do Recife, sobretudo para a preservação da memória histórica de uma instituição escolar responsável pela formação de mestres das primeiras letras no século XX. A escola, como toda instituição social, sempre foi objeto de inúmeras pesquisas. Desde sua origem até os dias atuais busca-se conhecer a importância de tal instituição para a sociedade, uma vez que influencia e interfere na formação dos indivíduos. A história, a educação e a sociedade são intrinsecamente ligadas, nesse contexto tem-se como objetivo traçar a história da Escola Normal de Pernambuco até o início do Instituto de Educação, levando em consideração as práticas pedagógicas, políticas, sociais e as transformações econômicas em cada época, consolidando um novo tipo de sociedade. Onde se observará que nesse processo também houve a questão do gênero feminino e é nessa conjuntura que voltamos o olhar para refletir quais foram os motivos que levaram essas mulheres a buscar, num ambiente extra familiar, uma formação intelectual, oposta ao pensamento vigente da época em que, para a mulher, estava reservado o papel de mãe e de dona de casa. Esta pesquisa tem como referencial alguns autores, entre eles Le Goff e a forma de organização dos documentos, Michel Foucault e a forma do comportamento disciplinador, e Bassanezi nos ajudando a compreender como se dá esse processo de saída da mulher do lar para freqüentar a sala de aula, além das fontes apresentadas se recorrerá a idéias consolidadas e construídas por pesquisadores que, de alguma forma, dedicaram seus estudos a história da educação brasileira e especificamente a pernambucana. Para responder a essas interrogações se fará uma metodologia que utilizará o arquivo do Instituto de Educação de Pernambuco-IEP, o arquivo público estadual e da Fundação Joaquim Nabuco-FUNDAJ, além das fontes apresentadas nessas instituições públicas, se terá base em pesquisadores consolidados, ou seja, a metodologia adotada envolve referências bibliográficas, relatos pessoais (entrevistas), utilização de documentários, jornais da referida época; além da analise iconográfica, possibilitando o conhecimento dos valores, dos costumes, das opiniões, as relações sociais e familiares vivenciadas pelos informantes.
Palavras-chave: Educação, história, escola.
INTRODUÇÃO:
Pouco a pouco se foi tornando aparente aos nossos olhos um território extenso e pouco explorado nos estudos sobre o Instituto de Educação de Pernambuco (IEP), assim por motivos de compactação do campo de trabalho, decidimos restringir a nossa investigação, pois é um campo vasto, tendo um processo histórico e político bastante desafiador, consequentemente se precisou delimitar o foco.

Tendo em conta estas indicações, e os objetivos, que é: traçar a história da Escola Normal de Pernambuco até o início do Instituto de Educação. Dividimos o nosso trabalho em três momentos complementares. No primeiro, a particularidade política da época da criação da referida instituição acadêmica, no segundo segmento o caminho percorrido e as diversas denominações da instituição, e finalizando esse trabalho a terceira ocasião trata do processo de ingresso com o teste de admissão. Pretendendo deste modo demonstrar a transição da Escola Normal Oficial de Pernambuco para a criação do Instituto de Educação de Pernambuco, que compreenderá a primeira década dessa instituição que foi a de 1946.

Enfatiza-se o período de 1946 a 1956, marcado pelo discurso que apregoava a formação e qualificação dos profissionais do ensino, porém como já foi dito, foi um período de ebulição política, pois no Brasil nessa época passou por quatro presidentes da república, são eles: Gaspar Dutra (1946-1951), Getúlio Dorneles Vargas (1951 A 1954), João Café Filho (1954 a 1955) e Juscelino Kubitschek de Oliveira (1956 a 1961).

Esse estudo não é tratado apenas por uma revisão bibliográfica, a questão documental foi fascinante, pois se teve a sensação de trilhar novos caminhos, de obter documentos históricos e porque não dizer valiosos, aí sim sentir o germinar da pesquisa.


“O documento não é inócuo. É antes de mais nada o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio”. (LE GOFF, 2003, p.537).
E é nesse contexto segundo Le Goff, que devemos tratar os documentos, pois muito deles trata da forma que o seu “instituidor” tem de mascarar, maquiar, algo que se pretende esconder, cabendo ao pesquisador a sua análise e neutralidade, por conseguinte é preciso relutância, tempo e determinados equipamentos, ao procurar os documentos, selecionando as fontes a serem usadas na pesquisa, considerando a riqueza e credibilidade que caracterizam um trabalho, demandam refinamento no tratamento e compreensão dado a eles.
O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados desmistificando-lhe o seu significado aparente. (LE GOFF, 2003, p.538).
A PARTICULARIDADE POLÍTICA:
A ideia de retratar o regime do Estado Novo como processo político da época, estudada, é pelo fato que o objeto de estudo se dá no fim do Governo de Vargas, tendo sofrido essas influencias, mas não irá esbaldar-se sobre todo o processo do Governo de Getúlio Vargas, e sim os efeitos que a educação perpassou.

Sabendo-se que a educação esta intrinsecamente ligada à sociedade e que os atos tomados por Gustavo Capanema, então Ministro da Educação e Saúde (1934-1945), tiveram relevância no sistema educacional. Apesar de ter havido rompimentos com os “intelectuais educacionais” do período, também tirou a educação da extenuação das épocas anteriores.


“Todavia, para o setor educacional, a postura de Capanema já não foi à mesma, pois deixou de lado, praticamente, toda aquela plêiade de jovens educadores (Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Almeida Junior...), forjados durante o movimento de renovação pedagógica de inspiração escolanovista”. (CUNHA, 1989, p.18).

No decorrer da primeira década da criação do Instituto de Educação de Pernambuco, houve diversos Ministros da Educação, pois foi um período de transformações políticas, na sucessão de Capanema, ao final do Estado Novo, o Ministro do então Ministério da Educação e Saúde Pública no Governo interino de José Linhares foi Ricardo Leitão da Cunha, percebe-se que houve diversas denominações para os ministérios da educação. No ministério de Ricardo Cunha foi baixado o decreto 8.530, de 2 de janeiro de 1946, onde regulamentava o Ensino Normal, conhecido também como Lei Orgânica do Ensino Normal. Para Haidar (2004, p.60) “As leis Orgânicas do ensino normal, primário e agrícola, mesmo projetadas na administração de Capanema, e, portanto sob idêntica inspiração das demais, só saíram em 1946, após a ditadura Vargas”, já para Tanuri (1969, p.36 “A lei orgânica do Ensino Normal significou o único instrumento do poder central de legislar sobre a organização deste ramo de ensino para todo o território do país.


“A Lei Orgânica do Ensino Normal não introduziu grandes inovações, apenas acabando por consagrar um padrão de ensino normal que já vinha sendo adotado em vários estados. Em simetria com as demais modalidades de ensino de segundo grau, o Normal foi dividido em dois ciclos: o primeiro fornecia o curso de formação de “regentes” do ensino primário, em quatro anos, e funcionaria em Escolas Normais Regionais”. (TANURI, 2000 p.15).

Histórico escolar, pertencendo a uma normalista do Instituto de Educação de Pernambuco na década de 50. Referente ao primeiro ciclo do ensino normal.


O ensino normal foi divido em dois ciclos, no 1º ciclo ao concluir os quatro anos de ensino, o aluno tinha o direito à regência do primário. Porém ao concluir o segundo ciclo, teria a titulação de professor primário. No Instituto de Educação de Pernambuco, o segundo ciclo se dava ao total de três anos, já em outras instituições podiam ocorrer em dois anos como também diz a lei orgânica, contudo de uma forma mais intensiva.
“O curso de segundo ciclo, em dois anos, formaria o professor primário e era ministrado nas Escolas Normais e nos Institutos de Educação. Além dos referidos cursos, os Institutos de Educação everiam ministrar os cursos de especialização de professores – para a educação especial, curso complementar primário, ensino supletivo, desenho e artes aplicadas, música e canto – bem como cursos de administradores escolares, para habilitar diretores, orientadores e inspetores”. (TANURI, 2000 p.16).

Histórico escolar, pertencendo a uma normalista do Instituto de Educação de Pernambuco na década de 50. Referente ao segundo ciclo do ensino normal.


Modelo esse centralizador e burocrata, uniformizando o ensino normal em todo o país, fazendo com que os estados reformulem as escolas normais onde as mesmas passam a ser institutos educacionais, cabendo aos estados o direito de adaptar as determinações às diferenças e necessidades regionais e administrar o ensino, respeitando o espírito da lei.
“A política educacional centralizadora traduziu-se na tentativa de regulamentar minuciosamente em âmbito federal a organização e o funcionamento de todos os tipos de ensino no país, mediante “Leis Orgânicas do Ensino”, decretos-leis federais promulgados de 1942 a l946. A Lei Orgânica do Ensino Normal (Decreto-Lei n. 8.530, de 2/1/1946), embora assinada logo após o final da ditadura Vargas, havia sido gestada sob a mesma inspiração anterior, apresentando,

entretanto, uma orientação menos centralizadora do que aquela que havia presidido à elaboração dos anteprojetos originais”( TANURI. 2000, p. 15).


Entretanto, como a peculiaridade política da referida época, foi o fim do Estado Novo (1945), e os trabalhos de concretização para a Lei da Constituição dos Estados Unidos do Brasil (18 de setembro de 1946), nessa constituição de 1946, já havia artigos que “democratizavam” as escolas, porém os aprimoramentos na economia, e na política, tinham a intenção de um novo projeto social. Nesse contexto as campanhas para as escolas públicas de qualidade, mobilizaram todos os grupos sociais, no quais dos muitos debates resultou a atual LDB.

Assim para Aranha (2006, p.307) “Se a lei despertava otimismo, os fatos nem tanto. As inúmeras dificuldades para a sua aplicação se deviam muitas vezes a inadequação à nossa realidade”. Ou seja, os estados não estavam preparados para a ampliação do ensino e da gratuidade, fato esse que continuava o acesso predominantemente para as elites.

A ebulição política em relação aos poderes, é que irão desencadear os rumos da educação, para Haidar (2004) “Os estados e o Distrito Federal voltavam a ter a atribuição expressa de organizar os seus respectivos sistemas de ensino”. Onde nesse período acontecerá a redemocratização do país e consequentemente um avanço na educação.

Podemos observar no quadro abaixo a efervescência do ensino normal em todo o Brasil de 1946 a 1956, um estudo realizado pelo IBGE demonstra o avanço do ensino normal no país, onde 1946, ano inicial da Lei orgânica, havia 382 estabelecimentos que ofereciam o ensino normal, tendo uma ampliação no decorrer dos dez primeiros anos para 982 unidades escolares.



O BRASIL EM NÚMEROS

ENSINO NORMAL DE 1946 A 1959

Anos

Unidades escolares

Corpo docente

Matrículas

Aprovações

Conclusões de curso

Geral

Efetiva

1946

382

3412

21597

20947

20143

8077

1947

544

4874

24958

23787

21915

7383

1948

533

4889

26014

25446

24213

7692

1949

579

5305

30457

29202

27553

9902

1950

590

5324

33436

31941

30413

10114

1951

632

5815

37824

35811

33990

10777

1952

673

6383

42473

40284

38191

12994

1953

749

7204

48724

45899

42617

14829

1954

839

8169

55206

52240

48308

16235

1955

921

9221

60286

57149

52252

18164

1956

982

9870

65096

61725

56480

19364
Fonte: serviço de Estatística da Educação e cultura. Tabela extraída de: Anuário do Brasil 1960. Rio de Janeiro
Porém como podemos pensar em avanços educacionais, ensino gratuito para todos e a redemocratização, onde no final desse período ainda havia os interventores, escolhidos politicamente, pessoalmente “homens de confiança” e subordinados ao estado maior? Pois até então os interventores estaduais é que tinham o poder sobre os estados (Decreto-lei 1202 de 08 de abril de 1939), segundo Cunha (1989, p. 32) “Os governadores são substituídos por interventores, meros executores de ordens vindas de cima”. Esse decreto trata sobre a administração dos estados e municípios, de forma subordinativa, rígida, autoritária e centralizadora.

Onde havia um orgão mediador para os interventores, chamado de Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), que tinha como objetivo a moralização administrativa, perante o Estado e os Municípios, ou seja, todo o decreto, todo o ato governamental, teria que passar pelo crivo do DASP, pois ele era um orgão ligado ao governo federal.


“Num regime forte, o DASP acabou por transforma-se num superministério. Dirigido por tecnocratas, marginalizava a influência política. Interventores e prefeitos a ele se submetiam. Leis e decretos estaduais, embora fossem da alçada do interventor, deveriam receber aprovação dos “daspinhos”. (CUNHA, 1989, p.32).

Em Pernambuco não foi diferente, passou a ter intervenção de 1930 a 1947, o interventor que acatou a ordem da Lei Orgânica pelo decreto 8.530, de 2 de janeiro de 1946, passando a Escola Normal para o Instituto de Educação de Pernambuco foi o General Dermeval Peixoto.

A Escola Normal de Pernambuco tinha como objetivo formar professores para atuarem no magistério de ensino primário e de nível secundário (hoje Ensino Normal Médio), onde ampliaria e difundiria os conhecimentos relativos à educação infantil. A partir da criação do Instituto de Educação de Pernambuco, pelo Decreto-Lei 1448, de 03 de setembro de 1946.

Decreto-Lei 1448, de 03 de setembro de 1946, publicado no Diário oficial de Pernambuco em uma quarta-feira do dia 04 de setembro de 1946. Fonte: Arquivo Público de Pernambuco.


Ora, pela data da publicação do decreto de Pernambuco, podemos compreender que após a publicação da Lei Orgânica Federal, pelo decreto 8530 de 2 de janeiro de 1946, o estado passou sete meses para a publicação do seu decreto, e a criação do Instituto de Educação, porém essa formulação do Instituto, era compacta. Não havendo ainda a criação dos outros centros, que tinham uma vinculação maior, ou seja, abrangeria não só o ensino normal, como também a educação infantil, o ensino primário, o ensino ginasial e o científico.
O CAMINHO PECORRIDO:
A escola Normal Oficial de Pernambuco foi inaugurada em 1865, mas vale salientar que essa modalidade de estabelecimento, já havia em diversas capitais do Brasil, A primeira escola Normal brasileira foi no estado do Rio de Janeiro, Segundo Romanelli (2005, p.163) “A primeira delas foi criada em 1830, em Niterói, sendo pioneira na América Latina”. Pode-se perceber que perpassou mais de 30 anos para termos a Escola Normal de Pernambuco, uma dessas hipóteses para esse fator, são as questões políticas e as necessidades de cada região, passando por vários processos políticos e denominações.

A Escola Normal de Pernambuco estava situada primeiramente na Torre antiga da Alfândega, no bairro do Recife. Em seguida, passou a realizar suas atividades no casarão colonial à Rua da Praia. Em 1900, a sua localização era nas dependências do Ginásio do Recife, atual Ginásio Pernambucano. Seu primeiro prédio próprio foi em 1920, na Praça Adolfo Cirne, mas em 1962 começaram as obras para a transferência da Câmara de Vereadores do Recife, para o referido local, onde até então funcionava a Escola Normal, situada na Rua Princesa Isabel, ao lado do Parque Treze de Maio, na Boa Vista.

Estas mudanças aconteceram nos governos de Miguel Arraes (governador de Pernambuco) e do Engenheiro Arthur Lima Cavalcanti (prefeito do Recife). Consequentemente, a Escola Normal foi transferida para o atual Instituto de Educação de Pernambuco (IEP), precisamente na Escola Sylvio Rabello, situado entre a Avenida Mario Melo e o Parque 13 de Maio.

Hoje denominada Escola Sylvio Rabello, pertencendo ao Instituto de Educação de Pernambuco. A Escola recebeu diversos nomes ao longo da sua trajetória. As várias mudanças se explicam pelo fato de que, ao longo do século XX, diversas reformas foram implantadas pelo governo no que se refere à educação brasileira. O Brasil passa por mudanças políticas, econômicas e sociais e a questão da educação também vai ser discutida, para Barroso (2008, p.82) “Na década de 1950, a economia pernambucana já não ocupava a posição que fizera da Província um dos esteios da nação. A economia urbano-industrial oferece um novo suporte para a produção cultural e os arautos do Brasil Moderno exigiam uma nova cultura, uma nova educação, uma nova escola”.


Vista da lateral da Escola Sylvio Rabello, na Avenida Mário Melo. Fotografia tirada para a pesquisa.

O Centro Integrado foi composto pelas escolas: Jardim de Infância Ana Rosa Falcão de Carvalho (Ensino Infantil); Escola Cônego Rochael de Medeiros (Ensino Primário); Escola João Barbalho (Ensino Ginasial); Escola Sizenando Silveira (Ensino Científico) e a Escola Sylvio Rabello (Ensino Profissionalizante). A foto abaixo é o símbolo do Instituto de Educação de Pernambuco, onde as cinco estrelas estão representando as escolas citadas acima.


Símbolo do Instituto de educação de Pernambuco estava presente em todos os documentos oficiais e no fardamento escolar. Disponível no arquivo pessoal da Normalista entrevistada.


Os modelos da escrita da história tomados por Le Goff (1984, p. 93), ao interpretar os símbolos utilizados para justificar o seu poder. “O símbolo é sinal de um contrato. É a referência a uma unidade perdida, recorda e evoca uma realidade superior e oculta. Ele não se utilizou apenas de fontes escritas, utilizou de tudo o que poderia representar os símbolo, ou seja, utilizou-se da cores,

A tradução da palavra que esta no símbolo “Luceat omnibus”, segundo o dicionário de sentenças Latinas e Gregas (2000, p.321) significa, “que a luz brilhe para todos3”, segundo Le Goff (1984, p.101) “A luz é objecto das mais ardentes aspirações, está carregada dos mais altos símbolos”. Podendo esta tradução deixar subtendido, que a luz do saber, e que a educação nos mais diversos níveis, seja para todos, ou seja, uma educação descentralizadora, uma educação para o povo, onde todos tenham acesso, podendo essa ter sofrido influência do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. “O documento defendia a educação obrigatória, pública, gratuita e leiga como dever do Estado, a ser implantada em programa de âmbito nacional” (Aranha, 2006, p. 303).

A estruturação como Centro Integrado Instituto de Educação de Pernambuco, aconteceu através do Decreto Estadual nº 2.631, de 26 de outubro de 1972, que se baseou na Lei Federal 5.692, de 11 de agosto de 1971, que trata das Diretrizes e Bases para a Educação Nacional.

Mediante o exposto, é que o Governador de Pernambuco no período de 1971 a 1975, Eraldo Gueiros Leite, decretou no diário oficial, a reestruturação do Instituto de Educação de Pernambuco como mostra a figura a seguir:



Decreto Estadual nº 2.631, de 26 de outubro de 1972, publicado no Diário oficial de Pernambuco, publicado em 27 de outubro de 1972. Fonte: Arquivo público de Pernambuco no livro do diário oficial de 1972, página 4769.


PROCESSO DE INGRESSO COM O TESTE DE ADMISSÃO
Para ingressar na escola normal oficial de Pernambuco, havia o teste de admissão, havendo certas restrições legais no processo de ingresso, onde a candidata deveria passar pelo teste de admissão, sendo esse exame bastante rigoroso.
“O exame está no centro dos processos que constituem o indivíduo como efeito e objeto de poder, como efeito e objeto de saber. É ele que, combinando vigilância hierárquica e sanção normalizadora, realiza as grandes funções disciplinares de repartição e classificação”. (FOUCAULT, 2009, p. 183).
Obrigatórios pela Lei orgânica do ensino normal no título III do capítulo III, os exames de admissão a esse nível de ensino haviam configurado uma barreira difícil de ser ultrapassada pela grande massa dos alunos que vinham do ensino primário. “A certeza de que este era um nível de ensino reservado para uma “elite” pode ser encontrada na seletividade que, na época, equivalia ao dos vestibulares a partir da década de 70”. (PESSANHA, 1994, P. 85).

Resultado de um teste de admissão no ano de 1951. Disponível no arquivo pessoal da Normalista entrevistada.


Esses exames eram elaborados pelas próprias escolas com extrema rigidez, tendo como objetivo, qualificar e classificar, como mostra abaixo o capítulo da lei federal, não era necessário só o conhecimento intelectual, e sim idade específica e a sanidade física e mental, tendo como viés as questões do higienismo, e a normatização, que tinham como objetivo, os procedimentos legais de preservação da raça sadia e hígida e com isso a qualidade racial, afim de não oferecerem problemas à ordem pública, Chalhoub (1996).

Em Pernambuco o teste de admissão não foi diferente, o regulamento do ensino normal no capítulo IV, criado na década de 1950, passou a ter os mesmos requisitos de acordo com a lei orgânica. Podemos observar que de acordo com o regulamento o teste da imagem acima demonstrada, abrange as disciplinas regulamentadas, porém no mesmo não demonstra se a submissão foi escrita ou oral e no lugar de matemática temos aritmética. A normalista obteve a média 66 e também tinha de 14 anos, ou seja, foi aprovada, uma vez que para obter a aprovação era necessário a média cinco e idade mínima de 15 anos para o segundo ciclo.

Quando buscamos uma profissão, é sempre uma tentativa de unir uma necessidade imposta pela sociedade com algo que a torne prazerosa. Em geral, esse prazer é associado a uma sensação de dever cumprido, a uma ligação emocional com a profissão, ao reconhecimento dado por outrem da importância/eficácia do seu trabalho ou à compensação financeira.

Porém sabemos que a busca da profissionalização está atrelada a diversos fatores, desde ao modismo da época, até a própria vocação. Nesta época era status ter uma filha fazendo o curso normal, pois o mesmo, não só preparava para uma profissão como também para o casamento, ou seja, servia também para a organização do lar, os bons costumes e a educação dos filhos.


“Considerado o mais próximo da função de “mãe”, o magistério era o curso mais procurado pelas moças, o que não significava sequer que todas as estudantes fossem exercer a profissão ao se formarem, pois muitas contentavam-se apenas com o prestígio do diploma e a chamada “cultura geral” adquirida na escola normal”. (BASSANEZI, 2008, p. 625).
A Escola Normal no início era apenas masculina, só depois sendo seu acesso permitido às mulheres, apesar das dificuldades, as escolas normais desempenharam um papel de grande importância não só na educação brasileira, mas em vários estados e um deles foi Pernambuco.
“Na província de Pernambuco, em 1836, uma lei estabelece a criação de Uma escola normal do ensino mútuo que, entretanto, nunca foi instalada. Apenas em 1864, a Lei 598 de 13q5 determinava que se instituísse uma escola normal do sexo masculino com dois anos de curso, escola esta instalada em 1865. Quatro anos depois, ou seja, em 1869, o curso já seria aumentado para três anos e em 1887 para quatro”. (TANURI, 1969, p.17).
É a partir dessa época que começa a democratização do ensino feminino que começou com as Escolas Normais, já que antes eram só para o sexo masculino e para as famílias mais ricas, vale ressaltar que já haviam escolas confessionais/internatos e religiosas desde o final do século XIX, para o sexo feminino, mas com objetivos diferentes. A finalidade da Escola Normal era formar professores para ministrar aulas no antigo ensino primário. A lei geral de 15 de outubro de 1827 estabelecia o que os meninos e meninas podiam aprender.
“Que conhecimentos transmitiriam essa escola elementar prometida pelo governo a todos os cidadãos? Dispunha o art. 6º:

Aos meninos os professores ensinarão a ler as quatro operações da Aritmética, prática de quebrados, decimais e proporções, as noções mais gerais da geometria prática, a gramática da língua nacional e os princípios da moral cristã e da doutrina da religião católica e apostólica romana, proporcionados à compreensão dos meninos, preferindo para as leituras a Constituição do império e a História do Brasil.

Rezava a lei:

Às meninas, as mestras, além do declarado no art.6º, com exclusão das noções de Geometria, e limitando a instrução da Aritmética só às suas quatro operações, ensinarão também as prendas que servem à economia doméstica”. (HAIDAR, 2004, p.40)



CONSIDERAÇÕES FINAIS:
O percurso para se chegar a conclusão desse trabalho foi longo, mas gratificante. Principalmente em encontrar algumas Normalistas com seus saudosismos; de ter acesso aos arquivos: do Instituto de Educação de Pernambuco, da FUNDAJ, do arquivo público de Pernambuco e aos arquivos particulares das Normalistas, que guardaram as fotos e os documentos escolares.

Este trabalho foi de grande valia, pelo destaque que foi dado a história da escola Normal de Pernambuco até a construção do Instituto de Educação de Pernambuco, passando pelo o ingresso das Normalistas, pelas questões políticas e a trajetória de uma instituição de grande importância no estado de Pernambuco.

Onde o sistema educacional é ampliado para atender às necessidades do processo de industrialização e urbanização, consequentemente os homens começaram a deixar o Curso Normal, para participar do processo de industrialização, pois esse pagava melhor do que a profissão de professor, em compensação o horário de trabalho passaria de seis horas para oito horas diárias.

Nas memórias dessas Normalistas buscou-se, perceber como se viveu esse processo, trazendo o enriquecimento histórico sobre parte da história da educação brasileira e pernambucana, nos relatos das professoras primárias, vão além do que se imagina, constituem-se também como documentos verbalizados, contextualizados e reveladores da história. Os mesmos contribuíram para a compreensão do sistema educacional, em uma época de ebulição política. Portanto considera-se enfim que os processos da educação e da sociedade, são um conjunto de significações que foram sendo instaurados ao longo da história desta instituição, não só no processo de formação das normalistas, mas também na coletividade em geral. Produzindo assim mudanças, e construindo uma sociedade mais digna e conhecedoras de seus valores, em plena época de transição do processo de urbanização e modernização, o que refletiu na formação das normalistas aqui estudadas que testemunharam esse contexto histórico.

Escrevendo sobre essas experiências, fica evidenciado claramente, antes de qualquer outra pretensão, os motivos e as dificuldades encontradas na busca de caminhos que facilitassem a melhor compreensão dessa temática, nos objetivos propostos na pesquisa apresentada. Assim falar de uma instituição, e das normalistas é falar também do processo educacional, pois essas mulheres denominadas normalistas foram as nossas primeiras professoras. Por isso mesmo, esta memória contribui para restituir a história e memória de um centro educacional e das mulheres do tempo estudado, o seu lugar de participação e conquistas na história da educação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS:


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DOCUMENTOS EM MEIO ELETRÔNICO:
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BRASIL. Constituição dos estados unidos do Brasil de 18 de setembro de 1946. Brasília, DF. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constitui%C3%A7ao46.htm>. Acesso em 30 de novembro de 2010.
BRASIL. Decreto-Lei n.8.530 de 2 de janeiro de 1946. A Lei Orgânica do Ensino Normal. Brasília, DF. Disponível em: http://www.senado.gov.br>. Último acesso em 11 de novembro de 2006.
BRASIL. Decreto-lei nº 1202 \ 08.04.1939. Administração dos Estados e dos Municípios. Brasília, DF. Disponível em: http://www2.camara.gov.br/legin/fed/declei/1930-1939/decreto-lei-1202-8-abril-1939-349366-publicacao-1-pe.html Acessado em: 02/01/2011.
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RECIFE. Disponível em: < http://www.camara.recife.pe.gov.br/institucional>. Acesso em 23 de outubro de 2010.




1 Licenciada em Educação Física, Especialista em: Coordenação Pedagógica; Saúde Coletiva; e Educação Física Escolar. Professora da rede Estadual de Pernambuco e da rede municipal de Caruaru. Email: anap_rfigueiroa@hotmail.com

2 Licenciado em Educação Física, mestre e doutor em Educação, atualmente é professor adjunto e docente no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPE. Email: joseluis2711@yahoo.com.br

3 O sol brilha para todos. No contexto de Petrônio (100,1) essa frase indica que a natureza ofertou como bem comum o que havia de mais belo.


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