O legado do Funcionalismo: a psicologia Aplicada



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O Legado do Funcionalismo: A Psicologia Aplicada

O Desenvolvimento da Psicologia nos Estados Unidos Walter Dili Scott (1869-1955)

A Vida de Scott

Influências Contextuais sobre a Psicologia Aplicada Publicidade e Seleção de Pessoal

Oranvilie Stanley Hall (1844-1924) Hugo Münsterberg (1863-1916)

A Vida de Hall A Vida de Münsterberg

A Evolução como Estrutura para o Desen- A Psicologia Forense e Outras Aplicações

volvimento Humano

Especialidades na Psicologia Aplicada

James McKeen Catteil (1860-1944) O Movimento dos Testes Psicológicos

A Vida de Cattell A Psicologia IndustrialjOrganizacional

Os Testes Mentais A Psicologia Clínica

Lightner Witmer (1867-1956) Comentário

A Vida de Witmer

A Clínica Psicológica

O Desenvolvimento da Psicologia nos Estados Unidos

Vimos que a doutrina da evolução e a psicologia funcional dela derivada rapidamente dominaram os Estados Unidos, perto do final do século passado, e que a psicologia americana foi orientada muito mais pelas idéias de Darwin e Galton do que pelo trabalho de Wundt. Foi um curioso e até paradoxal fenômeno histórico. Wundt treinou boa parte dos membros da primeira geração de psicólogos americanos em sua forma de psicologia, incluindo-se ai Hall, Cattell, Witiner, Scott e Miinsterberg. Contudo, “poucos elementos do sistema de psicologia de Wundt sobreviveram à passagem de retomo pelo Atlântico com os jovens americanos que tinham ido para o exterior” (Blumenthal, 1977, p. 13). Quando voltaram aos Estados Unidos, esse alunos de Wundt, esses novos psicólogos, se puseram a estabelecer uma psicologia que pouco se assemelhava ao que Wundt lhes tinha ensinado. A nova ciência, mais ou menos como uma espécie viva, adaptava-se ao seu novo ambiente.

A psicologia de Wundt e o estruturalismo de Titchener não puderam sobreviver por

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muito tempo no clima intelectual americano, no Zeitgeist da América, em sua forma original; por isso, transformaram-se no funcionalismo. Eles não eram tipos práticos de psicologia, não tratavam da mente em uso e não podiam ser aplicados às exigências cotidianas e aos problemas da vida. A cultura americana tinha uma orientação prática, pragmática; as pessoas valorizavam o que funcionava. Era necessária uma forma de psicologia utilitária, que arregaçasse as mangas. “Precisamos de uma psicologia usável”, escreveu G. Stanley Hall, o decano da psicologia aplicada americana. “Os pensamentos wundtianos nunca poderão se aclimatar aqui, pois são antipáticos ao espírito e ao temperamento americanos” (Hall, 1912, p. 414).

Os psicólogos americanos recém-treinados retomaram da Alemanha e, à maneira tipica mente direta e agressiva da América, transformaram a espécie peculiarmente germânica de psicologia. Começaram a estudar não o que a mente é, mas o que faz. Enquanto alguns psicólogos americanos — James, Angell e Carr em especial — desenvolviam a abordagem funcionalista em laboratórios acadêmicos, outros a aplicavam em ambientes extra-universitá rios. Assim, a guinada para um tipo prático de psicologia ocorria ao mesmo tempo que o funcionalismo era fundado como escola distinta de pensamento formal.

Os psicólogos aplicados levaram sua psicologia para o mundo real, para as escolas, fábricas, agências de publicidade, tribunais, clínicas de orientação infantil e centros de saúde mental, e fizeram dela algo funcional em termos de objeto de estudo e de uso. Com isso, modificaram a natureza da psicologia americana tão radicalmente quanto os fundadores acadê micos do funcionalismo. A literatura profissional da época reflete o seu impacto. Na virada do século, 25% das comunicações de pesquisa publicadas nas revistas psicológicas americanas eram a respeito de psicologia aplicada, e menos de 3% envolviam introspecção (O’Donnell, 1985). As abordagens de Wundt e Titchener, que há tão pouco tempo constituíam a nova psicologia, iam sendo superadas com rapidez por uma psicologia mais nova ainda.

A disciplina desenvolveu-se e prosperou nos Estados Unidos enquanto o país como um todo também passava por esse processo. O vibrante e dinâmico crescimento da psicologia americana no período 1880-1900 é um evento marcante na história da ciência. Em 1880, não havia laboratórios nos EUA; perto de 1895, havia vinte e seis, e eles estavam melhor equipados do que os da Alemanha. Em 1880, não havia revistas americanas de psicologia; em 1895, havia três. Em 1880, os americanos tinham de ir à Alemanha para estudar psicologia; em 1900, eles tinham programas de graduação em casa. Por volta de 1903, o número de Ph.D.s em psicologia nas universidades americanas só perdia para os conferidos em química, zoologia e física. A publicação britânica Who ‘s Who iii Science (1913) afirmou que os Estados Unidos lideravam na psicologia, havendo no país um número maior de psicólogos notáveis — oitenta e quatro — do que na Alemanha, na Inglaterra e na França juntas (Jonçich, 1968).

Passados pouco mais de vinte anos do início da psicologia na Europa, os psicólogos americanos assumiram a liderança incontestável do campo. James McKeen Cattell afirmou, em seu discurso de posse na presidência da Associação Psicológica Americana, em 1895, que “o crescimento acadêmico da psicologia na América nos últimos cinco anos é quase sem prece dentes... A psicologia é matéria obrigatória do currículo de graduação... e, entre os cursos universitários, a psicologia hoje rivaliza com as outras ciências principais em número de alunos e na quantidade de trabalhos originais realizados” (Cattell, 1896, p. 134).

A psicologia fez sua estréia americana, diante de um público ávido, na Feira Mundial de

Chicago de 1893. Num programa que lembrava o Laboratório Antropométrico de Francis

Galton na Inglaterra, os psicólogos organizaram exibições de aparelhos de pesquisa e um

laboratório de testes em que, mediante uma taxa, os visitantes podiam ter suas capacidades

medidas. Uma exibição mais ampla foi feita na Exposição de Compras da Louisiana, em St.

Louís, Missouri, em 1904. Esse “evento povoado de astros” apresentou conferências dos

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principais psicólogos da época — E. B. Titchener, de Comei!; C. Lloyd Morgan, Pierre Janet, G. Stanley Hall e um novo Ph.D. chamado John B. Watson (Benjamin, 1986). Wundt não teria aprovado essa popularização da psicologia, e nada parecido com isso ocorreu na Alemanha. Popularizar a psicologia refletia o temperamento americano, que tinha modificado tão substan cialmente a psicologia wundtiana, tornando-a psicologia funcional e estendendo-a bem além do laboratório.

Portanto, a América acolheu a psicologia com entusiasmo, e essa disciplina logo se

firmou nas aulas das faculdades e na vida cotidiana das pessoas. O seu alcance é hoje bem

mais amplo do que os seus fundadores podiam imaginar — ou desejar.

Influências Contextuais sobre a Psicologia Aplicada

O Zeitgeist americano, o espírito intelectual e o temperamento da época, ajudou a promover o surgimento da psicologia aplicada. Mas forças contextuais mais práticas também foram responsáveis pelo seu desenvolvimento. No Capítulo 1, vimos como fatores econômicos afastaram o foco da psicologia americana, da pesquisa pura, para a aplicação. Vimos que, enquanto o número de laboratórios de psicologia crescia perto do final do século XIX, o número de doutores americanos em psícologia crescia numa velocidade três vezes maior. Muitos desses Ph.D.s, em especial os que não dispunham de uma fonte independente de renda, tinham de olhar para além da universidade para sobreviver economicamente.

O psicólogo Harry Hollingworth (1880-1956), por exemplo, não conseguia viver com o salário anual de 1.000 dólares que recebia por suas aulas no Barnard Coilege da cidade de Nova York para complementá-lo, dava aulas em outras universidades e era inspetor de exames por meio dólar a hora. Fazia palestras de psicologia para executivos da área de publicidade e fazia tudo o que considerava capaz de lhe dar condições de ter uma vida dedicada à pesquisa e às atividades acadêmicas. Contudo, descobriu que sua única opção para viver era dedicar-se à psicologia aplicada (Benjamin, Rogers e Roseubaum, 1991).

Hollingworth não foi um caso isolado. Outros pioneiros da psicologia aplicada também foram motivados pela necessidade econômica. Isso não quer dizer que eles não considerassem esse trabalho prático, estimulante e desafiador. A maioria o considerava, além de reconhecer que o comportamento humano e a vida mental podiam ser estudados, em ambientes do mundo real, com a mesma eficácia com que eram estudados nos laboratórios acadêmicos. Deve-se observar que alguns desses psicólogos se empenharam em campos aplicados a partir de um interesse genuíno e de um desejo de trabalhar na área. Permanece contudo o fato de muitos membros da primeira geração de psicólogos aplicados americanos terem sido compelidos a abandonar seus sonhos de pesquisa experimental pura como única alternativa a uma vida de pobreza.

A situação era ainda pior para os que davam aulas nas universidades estaduais, menos dotadas de recursos, do Meio-Oeste e do Oeste, na virada do século. Perto de 1910, um terço dos psicólogos americanos trabalhavam nelas e, com o aumento do número de profissionais nessas condições, cresceram as pressões para que eles se voltassem para problemas práticos e, assim, provassem o valor financeiro da psicologia.

Em 1912, Christian A. Ruckmick fez um levantamento entre os colegas psicólogos e concluiu que a psicologia, apesar de sua popularidade junto aos alunos, não tinha uma boa imagem nas instituições de ensino americanas. Os fundos a ela dedicados e os equipamentos que lhe eram fornecidos eram deficientes, havendo apenas uma pequena esperança de melhoria no futuro (Leary, 1987). A melhor maneira possível de remediar a situação — a fim de aumentar os orçamentos e salários departamentais — era demonstrar aos administradores universitários e legisladores estaduais que a ciência psicológica podia ajudar a curar muitos males sociais.

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G. Stanley Hall aconselhou um colega do Meio-Oeste a fazer a influência da psicologia ser sentida ‘fora da universidade, evitando que algum homem ou partido irresponsável, dado ao sensacionalismo, a criticasse no legislativo”. Cattell incitou seus colegas a “fazer aplica ções práticas e desenvolveruma profissão de psicologia aplicada” (O’Donnell, 1985, pp. 215,221).



A solução, portanto, era evidente: tomar a psicologia mais valiosa mediante sua aplica ção. Mas aplicá-la a quê? Felizmente, a resposta logo se tomou clara: as matrículas nas escolas públicas sofriam um crescimento dramático; entre 1870 e 1915, o número de alunos matricu lados elevou-se de sete para vinte milhões. A quantidade de dinheiro gasta na educação pública no período passou de 63 para 605 milhões (Siegel e White, 1982). A educação de repente se tomava um grande negócio e chamou a atenção dos psicólogos.

Hall proclamou em 1894 que “o campo principal e imediato de aplicação da [ era a educação” (Leary, 1987, p. 323). Mesmo William James, que não podia ser considerado um psicólogo aplicado, escreveu um livro sobre o uso da psicologia em situações de sala de aula (James, 1899). Perto de 1910, mais de um terço dos psicólogos americanos se mostravam interessados pela aplicação da disciplina a problemas educacionais. Três quartos dos que se intitulavam psicólogos aplicados já trabalhavam na área. A psicologia encontrara o seu lugar no mundo real.

Discutiremos neste capitulo as carreiras e as contribuições de cinco pioneiros no campo da psicologia aplicada; eles estenderam a nova ciência não apenas à educação, mas também aos negócios e à indústria, aos centros de testes, aos tribunais e às clínicas de saúde mental. Esses cinco homens tinham sido treinados em Leipzig por Wilhelm Wundt para se tomarem psicólogos acadêmicos puros; todos, contudo, se afastaram dos ensinamentos do mestre quando iniciaram a carreira em universidades americanas. São exemplos notáveis de como a psicologia americana veio a ser influenciada mais por Darwin e C3alton do que por Wundt, e de como a abordagem wundtiana foi reformulada quando do seu transplante para o solo americano.

Depois de examinar a obra desses destacados profissionais, descreveremos os primór dios de três áreas importantes da psicologia aplicada: os testes psicológicos, a psicologia

industrial/organizacional e a psicologia clínica.

Granville Stanley Hall (1844-1924)

Embora William James tenha sido o primeiro grande psicólogo americano, o explosivo desenvolvimento da psicologia nos Estados Unidos entre 1880 e 1900 não resultou apenas do

seu trabalho. Outra figura notável na história da psicologia americana foi Granville Stanley Hall.

A carreira psicológica de Hall foi uma das mais interessantes e variadas. Hall trabalhava com arroubos de energia e entusiasmo em várias áreas, que logo deixava, entregando os detalhes à investigação de outros. Não foi um fundador do funcionalismo, mas as suas contribuições aos novos campos e atividades da psicologia aplicada tinham um pronunciado sabor funcional.

A psicologia americana tem uma dívida com Hall em virtude da sua notável coleção de primeiros lugares. Foi ele quem recebeu o primeiro grau de doutor em psicologia da América e afirmava ter sido o primeiro aluno americano do primeiro ano do primeiro laboratório de psicologia. (Novos dados da história revelam que ele foi, na verdade, o segundo; ver Benjamin, Acord, Durkin, Link e Vestal, 1992.) Hall deu inicio ao que muitos consideram o primeiro laboratório de psicologia dos Estados Unidos e fundou a primeira revista americana de psicologia. Foi o primeiro presidente da Universidade Clark, o organi zador e primeiro presidente da Associação Psicológica Americana e um dos primeiros psicólogos aplicados.

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A Vida de Hall



G. Stanley Hall nasceu numa fazenda de Massachusetts e desde cedo desenvolveu urna sucessão de interesses que mais tarde caracterizariam a sua vida. Também era característica sua grande ambição. Aos catorze anos, jurou deixar a fazenda e ‘fazer e ser algo no mundo’... Seu mais intenso medo na adolescência era o da mediocridade” (Ross, 1972, p. 12). Em 1863, ingressou no Wíllíarns Coliege. Ao graduar-se, Hall já acumulara várias honrarias e tinha desenvolvido um entusiasmo pela filosofia, pela teoria evolutiva em especial, o que iria influenciar sua carreira na psicologia.

Em 1867, inscreveu-se no Seminário Teológico União, de Nova York, embora não tivesse grande vocação para ministro. Seu interesse pela evolução em nada ajudava, além de ele não se fazer notar por uma ortodoxia religiosa. Diz a história que, quando Hall fez seu sermão de prova diante de professores e alunos, o presidente do Seminário ajoelhou-se e rezou pela sua ahna.

A conselho do pregador Heniy Ward Beecher, Hall foi para a Universidade de Bonn, Alemanha, estudar filosofia e teologia. Dali, foi a Berlim, onde fez estudos no campo da fisiologia e da fjsica. Essa fase da sua educação foi complementada por interlúdios românticos e pela freqüência assídua a cervejarias e teatros, experiências essas que, para um jovem de formação puritana, exigiam coragem. Ele se referiu a sua surpresa e alegria ao ver um dos seus professores de teologia tomando cerveja num domingo. O tempo que Hall permaneceu na Europa foi para ele urna época de liberação.

Voltou para casa em 1871, com vinte e sete anos, nenhum grau e uma grande dívida. Obteve o diploma em teologia e pregou numa igreja rural de Cowdersport, Pensilvânia, por... dez semanas. Depois de ser preceptor por mais de um ano, Hall conseguiu um cargo de professor no Antioch Coilege, de Ohio. Ensinava literatura inglesa, língua e literatura francesa e alemã, e filosofia; servia como bibliotecário, dirigia o coro e pregava na capela. Em 1874, depois de ler Psicologia Fisiológica, de Wundt, teve despertado seu interesse pela nova ciência, o que o deixou meio indeciso sobre sua carreira. Tirou uma licença do Antioch, instalou-se em Cambridge, Massachusetts, e tornou-se instrutor de inglês em Harvard.

Além de dedicar-se ao trabalho monótono e cansativo de ensinar inglês a calouros, Hall estudava e fazia pesquisas na escola médica. Em 1878, apresentou sua dissertação sobre a percepção muscular do espaço e recebeu o primeiro grau em psicologia dos Estados Unidos. Ele chegou a conhecer muito bem William Jarnes, mas os dois homens, embora próximos em idade, eram muito distantes em formação e temperamento.

Tão logo se doutorou, Hall foi para a Europa; lá, estudou fisiologia em Berlim e foi aluno de Wundt em Leipzig. A expectativa de trabalhar com Wundt foi, ao que parece, melhor do que a realidade. Embora Hall fosse às palestras do mestre e cumprisse suas obrigações de sujeito do laboratório, suas pesquisas seguiam linhas mais fisiológicas, e sua carreira ulterior demonstra que Wundt, em última análise, teve pouca influência sobre ele. Quando voltou à América em 1880, Hall não tinha perspectiva de emprego; contudo, num espaço de dez anos, tornou-se uma figura de renome nacional.

Hall reconheceu, ao retomar da Alemanha, que a melhor oportunidade de satisfazer a sua ambição estava em aplicar a psicologia à educação. Em 1882, fez uma palestra numa reunião da National Education Association (Associação Nacional de Educação — NEA), em que insistia para que se fizesse do estudo psicológico da criança um componente nuclear da profissão de docente. Ele repetia essa mensagem em todas as oportunidades, e isso logo levou ao primeiro passo de sua rápida saída da obscuridade. O presidente de Harvard o convidou a fazer uma série de palestras sobre educação nas manhãs de sábado. Essas conferências bem

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recebidas deram a Hall muita publicidade favorável, e um convite para lecionar em tempo parcial na Universidade Johns Hopkins, estabelecida há seis anos como a primeira escola de graduação dos Estados Unidos.

As palestras de Hall foram um grande sucesso e lhe valeram o cargo de professor efetivo da Hopkins em 1884. No tempo que ali passou, Hall deu início ao que costuma ser considerado o primeiro laboratório de psicologia da América (formalmente estabelecido em 1883), que ele chamou do seu “laboratório de psícofisiologia” (Pauly, 1986, p. 30). Foi professor de alguns alunos que se tornariam psicólogos proeminentes, incluindo John Dewey e James McKeen Cattell. Em 1887, Hall fundou a Anierkan Journal of Psychology, a primeira revista de psicologia dos Estados Unidos, ainda hoje uma publicação importante. Essa revista servia de plataforma de idéias teóricas e experimentais, e funcionava como eixo de solidariedade e independência para os psicólogos americanos. Numa explosão de entusiasmo, Hall imprimiu uma quantidade excessiva de exemplares do primeiro número; ele e a revista precisaram de cinco anos para cobrir esses custos iniciais.

Em 1888, Hall tomou-se o primeiro presidente da Universidade Clark em Worcester, Massachusetts. Antes de assumir o cargo, fez uma longa viagem para estudar em universidades européias e contratar professores para a sua nova escola. A viagem serviu também a outro propósito. ‘Hall parece ter considerado a viagem uma combinação de Grand Tour e férias remuneradas por trabalhos ainda não começados... ela incluiu algumas paradas totalmente irrelevantes do ponto de vista da tarefa que ele iria realizar, tais como academias militares russas, antigos sítios históricos gregos e o roteiro-padrão de bordéis, circos e curiosidades” (Koelsch,, 1987, p. 21).

Hall desejava fazer de Clark urna universidade nos moldes da Johns Hopkins e das universidades alemãs, com ênfase primordial na pesquisa, e não no ensino. Infelizmente, o fundador — o abastado comerciante Jonas (3ilman Clark — tinha idéias diferentes e não forneceu tanto dinheiro quanto Hall esperava. Com a morte de Clark em 1900, a dotação foi dedicada à fundação de urna faculdade tradicional, a que Hall se opunha, mas que Clark há muito tempo defendia.

Hall tornou a Universidade Clark mais receptiva a mulheres e a grupos minoritários do que a maioria das escolas dos Estados Unidos na época. Embora partilhassem da oposição nacional à co-educação para graduandos, admitia mulheres à graduação. Também teve a incomum iniciativa de encorajar estudantes asiáticos (japoneses em especial) a se inscrever em Clark, e teve o gesto inédito de estimular os afro-americanos a entrar no programa de gradua ção, O primeiro americano negro a obter um Ph.D. em psicologia, Francis Sumner, estudou com Hall. Hall se recusou a impor restrições à contratação de judeus como professores, numa época em que a maioria das instituições não os contratava (Guthrie, 1976; Sokal, 1990).

Além de presidente, ele era professor de psicologia e deu aulas na graduação por vários anos. Hall ainda encontrou tempo para fundar, às suas próprias custas, em 1891, a revista Pedagogicai Seminary (hoje Joumal of Genetíc Psychology), para servir de veículo a pesquisas sobre o estudo das crianças e de psicologia educacional. Em 1915, fundou a Jowiial ofApplíed Psychology, elevando o número de revistas psicológicas americanas a dezesseis.

A Associação Psicológica Americana (APA) foi fundada em 1892, principalmente graças aos esforços de Hall. A convite seu, cerca de urna dúzia de psicólogos se reuniram em seu gabinete para planejar a organização e o elegeram o primeiro presidente. Por volta de 1900, o grupo tinha 127 membros.

O interesse de Hall pela religião persistiu. Fundou a Jownal of Religíous Psychology (1904), que só durou uma década. Em 1917, publicou um livro intitulado Jesus, the Christ, ia

the Light of Psychology (Jesus, o Crista, â Luz da Psicologia). Sua descrição de Jesus como

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uma espécie de “super-homem adolescente” não foi bem recebida pela religião oficial (Ross,

1972, p. 418).

A psicologia prosperou em Clark sob a direção de Hall. Durante seus trinta e seis anos ali, foram conferidos oitenta e um doutorados em psicologia. Seus alunos se lembram dos seminários noturnos cansativos, mas estimulantes, realizados às segundas-feiras em sua casa; neles, os doutorandos eram questionados pelos docentes e pelos colegas. No final das reuniões, que duravam até quatro horas, um criado trazia uma gigantesca porção de sorvete.

Os comentários de Hall sobre os textos dos alunos costumavam ser devastadores. ‘Hall resumia as coisas”, lembra-se Lewis Terman, “com uma erudição e uma imaginação fértil que sempre nos espantavam e nos faziam sentir que sua percepção imediata do problema ia imensuravelmente além da do aluno que lhe dedicara vários meses de trabalho intenso.” E quando as sessões terminavam, Terman “sempre ia para casa atordoado e intoxicado, tomava um banho quente para acalmar os nervos e ficava acordado durante horas rememorando a cena e formulando as coisas inteligentes que deveria ter dito e não dissera” (Sokal, 1990, p. 119).

Os graduandos de certo modo adoravam Hall. Um deles se lembrou recentemente da

impressão que tinha de Hall há setenta anos. “Hall era um homem de compleição forte, com

O laboratório de psicologia de Hall na Universidade Johns Hopkins é considerado o primeiro laboratório dos Estados Unidos.

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mais de 1,80 m de altura. Era visto freqüentemente com seu cortador manual de grama ao longo do declive que ia do jardim da frente de sua casa até a calçada... Percorrendo com facilidade a parte superior da inclinação, com a mão esquerda no bolso, ele manipulava o cortador para cima e para baixo com a direita, num sucessivo empurrar e puxar vigoroso de urna extremidade da elevação à outra, o que dava uns bons trinta metros de distância. Às vezes, enquanto ia andando, mantinha conversa com um aluno que caminhava pela calçada ao seu lado” (Averili, 1990, p. 125).

Favorável a estimular estudantes brilhantes, desde que mostrassem a deferência adequa da, Hall era capaz de ser generoso e de dar apoio. Num certo momento, podia-se dizer que a maioria dos psicólogos americanos estivera associada com Hall na Clark ou na Johns Hopkins, embora ele não fosse a fonte primordial de inspiração para todos eles. Talvez sua influência pessoal se reflita melhor no fato de um terço dos seus alunos de doutorado terem terminado por ser administradores universitários como ele.

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