O legado do Funcionalismo: a psicologia Aplicada



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O impacto de Cattell sobre a psicologia americana não veio do desenvolvimento de um sistema de psicologia — ele tinha pouca paciência com teorias — nem de uma impressionante lista de publicações. Sua influência veio principalmente do seu trabalho como organizador, executivo e administrador da ciência e da prática psicológicas, e como elo de ligação entre a psicologia e a comunidade científica mais ampla. Cattell tomou-se um embaixador da psico logia, fazendo palestras, editando publicações e promovendo as aplicações práticas do campo.

Ele também contribuiu para o desenvolvimento da psicologia através dos seus discípulos. Durante os seus anos em Colúmbia, treinou, como observamos, mais alunos de psicologia do que qualquer outro nos Estados Unidos, e vários deles, incluindo Robert Woodworth e E. L. Thorndike, alcançaram grande destaque no campo. Mediante seu trabalho com os testes mentais, a medição de diferenças individuais e a promoção da psicologia aplicada, Cattell revigorou energicamente o movimento funcionalista na psicologia americana. Quando ele morreu, o historiador E. G. Boring escreveu a um de seus filhos: ‘Na minha opinião, seu pai fez mais até mesmo que William James para dar à psicologia americana sua fisionomia peculiar, para torná-la distinta da psicologia alemã da qual decorreu” (Bjork, 1983, p. 105).

Lightner Witmer (1867-1956)

Enquanto Hall modificava para sempre a natureza da psicologia americana ao aplicá-la à criança e à sala de aula, e enquanto Cattell aplicava a psicologia à medição de aptidões mentais, um aluno seu e de Wundt a aplicava à avaliação e ao tratamento de certos tipos de comportamento anormal. Apenas dezessete anos depois de Wundt ter fundado a nova ciência da psicologia, outro dos seus ex-alunos a estava usando de uma maneira prática, incompatível com as intenções do mestre. Em 1896, Lightner Witmer, que substituira Cattell na Universi dade da Pensilvânia e insistia que sua sala de aula fosse mantida na temperatura de vinte graus, abriu a primeira clínica psicológica, fundando o campo por ele denominado psicologia clínica.

Witmer ofereceu o primeiro curso universitário na nova área e fundou a primeira revista, Psychologicai Clinic, que editou durante vinte e nove anos. Foi um dos pioneiros da aborda gem funcionalista que acreditava dever a nova ciência ser usada para ajudar as pessoas a resolver problemas, e não para estudar o conteúdo de sua mente.

É importante observar que o que Witmer praticava em sua clínica psicológica não era a psicologia clínica que hoje conhecemos. Veremos que o seu trabalho estava voltado para a avaliação e o tratamento de problemas comportamentais e de aprendizagem de crianças em idade escolar, uma área aplicada hoje chamada de psicologia escolar. A moderna psicologia dinica cuida de uma gama mais ampla de desordens psicológicas, das brandas às graves, em pessoas de todas as idades. Embora Witmer tenha sido fundamental para o desenvolvimento da psicolo gia clínica, e tenha usado esse rótulo livremente, o campo ampliou-se bem além do que ele imaginara.

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A Vida de Witmer



Lightner Witmer nasceu em 1867 em Filadélfia, Pensilv Era filho de um próspero farmacêutico que inculcou nos três filhos a importância da educação. O irmão e a irmã de Witmer se formaram em medicina, e ele doutorou-se com Wilhelm Wundt em Leipzig. Sempre um aluno excelente, Witmer primeiro freqüentou uma escola particular e, em 1884, ingressou na Universidade da Pensilvânia. Depois da graduação, ensinou história e inglês numa escola particular de Filadélfia antes de matricular-se em cursos de direito na Universidade da Pensilvânia.

Aparentemente sem intenção de fazer carreira em psicologia, ele freqüentava as aulas de psicologia experimental de Cattell, por razões que permanecem obscuras, e tornou-se assistente de ensino do departamento de psicologia. Witmer começou a fazer pesquisas sobre as diferenças individuais quanto ao tempo de reação sob a orientação de Cattell, esperando conseguir seu Ph.D. na Pensilvânia. Cattell tinha outros planos. Ele tinha Witmer em tão alta conta que o escolheu como sucessor quando foi para a Universidade Colúmbia. Era uma oportunidade ímpar para o jovem, mas Cattell impôs uma condição: Witmer teria de ir para Leipzig doutorar-se com Wundt. O prestígio de um Ph.D. alemão ainda era fundamental, e Witmer concordou.

Ele estudou com Wundt e com Oswald Külpe; um dos seus colegas, recém-chegado da Inglaterra, foi E. B. Titchener. Witmer não se impressionou com a abordagem wundtiana de pesquisa, tendo mais tarde comentado que a única coisa que conseguiu com a experiência de Leipzig foi o grau. Wundt se recusou a permitir que Witmer prosseguisse com o trabalho sobre o tempo de reação que ele iniciara com Cattell, e o obrigou a fazer pesquisas introspectivas tradicionais sobre conteúdos conscientes.

Witmer criticava o que chamava de “métodos displicentes de pesquisa” usados por Wundt, descrevendo como este fizera Titchener repetir uma pesquisa... porque os resultados obtidos por ele não eram os que Wundt tinha esperado. Do mesmo modo, ele me excluiu como sujeito... porque, em sua opinião, minha reação sensorial ao som e ao toque era breve demais para ser uma verdadeira reação sensorial” (O’Donnell, 1985, p. 35).

Mesmo assim, Witmer recebeu seu grau e voltou para ocupar seu novo cargo na Univer sidade da Pensilvânia no verão de 1892, o mesmo ano em que Titchener obteve o seu e foi para Corneli, e em que outro aluno de Wundt, Hugo Miinsterberg, era levado para Harvard por William James. Também nesse ano, Hall deu inicio à Associação Psicológica Americana, tendo Witmer como um dos seus membros fundadores. Foi a época em que os espíritos funcionalista e aplicado começaram a tomar conta da psicologia americana.

Nos dois anos seguintes, Witmer trabalhou como psicólogo experimental, fazendo pes quisas e apresentando artigos sobre as diferenças individuais e a psicologia da dor. Enquanto isso, no entanto, ele buscava meios de aplicar a psicologia ao comportamento anormal. O impulso para fazê-lo veio num certo dia de março de 1896, como resultado de um incidente que se originou nas circunstâncias econômicas antes mencionadas — a verba disponível para o campo da educação pública, que estava em franca expansão.

Muitos conselhos estaduais de educação estavam estabelecendo departamentos de peda gogia (instrução nos princípios e métodos de ensino) em seus colégios e universidades, e os psicólogos estavam sendo chamados a dar cursos para um número crescente de profissionais que se especializavam em educação, bem como para professores públicos em busca de títulos mais elevados de graduação. Também se pedia aos psicólogos que deixassem a pesquisa em laboratório e descobrissem maneiras de treinar alunos para se tornarem psicólogos educacio nais. Os departamentos de psicologia se beneficiaram muito desse súbito influxo de alunos, já que, então como agora, os orçamentos departamentais dependiam do número de matrículas.

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A Universidade da Pensilv estabeleceu cursos para professores públicos em 1894, ficando Witmer responsável por alguns deles. Dois anos mais tarde, uma aluna, Margaret Maguire, consultou Witmer sobre os problemas que tinha com um dos seus alunos, um garoto de catorze anos que estava encontrando dificuldades para aprender a soletrar, embora estivesse indo bem em algumas outras matérias. Poderiam os psicólogos ajudar a resolver esse proble ma? “Pareceu-me”, escreveu Witmer, “que se a psicologia valesse alguma coisa para mim ou para os outros, ela teria de ser capaz de servir a um caso de retardamento dessa espécie” (McReynolds, 1987, p. 853). Montou uma clínica incipiente e assim começou o trabalho de sua vida.

Dentro de poucos meses, Witmer estava preparando cursos sobre métodos de tratamento de crianças com distúrbios mentais, cegas e com outros problemas, e publicou um artigo sobre o assunto, intitulado “O Trabalho Prático em Psicologia”, na revista Pediatrics. Apresentou uma comunicação sobre o tópico na reunião anual da APA, e foi ali que usou o termo psicologia clínica pela primeira vez. Em 1907, fundou a revista Psychological Clinic, que foi a primeira, e por muitos anos a única, no campo. No seu primeiro número, Witmer propôs uma nova aplicaçâo da psicologia — na verdade, uma nova profissão — a ser chamada psicologia clínica. No ano seguinte, fundou um internato para crianças retardadas e perturbadas, e, em 1909, sua clínica universitária expandiu-se e tomou-se uma unidade administrativa independente.

Witmer ficou na Universidade da Pensilvânia durante toda sua vida profissional, lecio nando, promovendo e praticando sua psicologia clínica. Aposentou-se em 1937, vindo a morrer em 1956, aos 89 anos — o último do pequeno grupo de psicólogos que se reunira em 1892 no gabinete de G. Stanley Hall para fundar a Associação Psicológica Americana.

A Clínica Psicológica

Na qualidade de primeiro psicólogo clínico do mundo, Witmer não tinha exemplos, nem precedentes, em que basear suas ações, e desenvolveu seus próprios métodos de diagnóstico e tratamento no transcorrer do próprio trabalho. Com seu primeiro caso, o garoto que tinha problemas de soletração, Witmer examinou o nível de inteligância, o raciocínio e a capacidade de leitura do menino e concluiu que esta última era deficiente. Depois de análises exaustivas que duraram muitas horas, Witmer concluiu que o menino sofria daquilo que ele denominou amnésia visual verbal. Embora pudesse lembrar-se de figuras geométricas, ele tinha problemas para se lembrar de palavras. Witmer desenvolveu um programa paliativo intensivo que produ ziu alguma melhoria, mas o garoto nunca conseguiu dominar a leitura ou a ortografia.

Os professores enviaram à nova clínica de Witmer muitas outras crianças portadoras de um amplo espectro de deficiâncias e problemas, entre os quais hiperatividade, várias deficiân cias de aprendizagem e desenvolvimento motor ou verbal inadequado. Conforme se tornava cada vez mais experiente, Witmer pôde desenvolver programas-padrão de avaliação e trata mento, e, além de admitir médicos e assistentes sociais para a clínica, contratou mais psicólogos.

Witmer reconhecia que problemas médicos podem interferir no funcionamento psicoló gico, razão por que submetia as crianças a um exame clínico para determinar se a subnutrição

ou defeitos visuais e auditivos contribuíam para as suas dificuldades. Os pacientes eram

testados e entrevistados amplamente por psicólogos; ao mesmo tempo, os assistentes sociais preparavam históricos de caso acerca de sua situação familiar.

A princípio, Witmer acreditava que os fatores genéticos eram amplamente responsáveis por muitos dos distúrbios de comportamento e déficits cognitivos que via; mais tarde, porém, com o aumento da sua experiância clínica, percebeu que os fatores ambientais eram mais importantes. Ele enfatizou a necessidade de oferecer, ainda em tenra infância, uma variedade

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de experiências sensoriais à criança, antecipando os programas de enriquecimento Head Start de tempos mais recentes. Ele também acreditava na intervenção direta na vida dos pacientes e da sua família, alegando que, se as condições em casa e na escola fossem melhoradas, o comportamento da criança também melhoraria.



O desenvolvimento na educação pública ofereceu à nova psicologia amplas oportunida des -. e generosas recompensas — a quem tirasse seus métodos e descobertas do laboratório acadêmico. O exemplo de Witmer foi seguido e ampliado por muitos outros psicólogos. Por volta de 1914, havia quase vinte clínicas psicológicas em operação nos Estados Unidos, a maioria das quais inspirada na de Witmer. Além disso, os alunos que ele treinara divulgaram a sua abordagem, ensinando à geração seguinte de estudantes o trabalho clínico.

Witmer também foi influente na área da educação especial, treinando muitos dos primei ros profissionais desse campo. Um dos seus alunos, Morris Viteles, ampliou o trabalho de Witmer ao fundar, em 1920, uma clínica dedicada à orientação vocacional, a primeira dos Estados Unidos. Outros incluíram adultos no trabalho clínico. Além disso, abordagens mais novas de psicoterapia, desenvolvidas por Sigmund Freud e seus seguidores, fizeram com que o campo crescesse consideraveimente além de suas origens. Esse desenvolvimento, que ocorre naturalmente em todos os campos, de forma alguma reduz a importância de Lightner Witmer em termos da elaboração e evolução da psicologia clínica.

Waiter Dili Scott (1869-1955)

Outro aluno de Wundt, Walter Dili Scott, deixou o mundo da psicologia introspectiva pura que aprendera em Leipzig para aplicar a nova ciência à publicidade e aos negócios. Jogador universitário de rúgbi e quase missionário, Scott dedicou boa parte da sua vida adulta a tornar o mercado e o ambiente de trabalho mais eficientes e a determinar como os lideres empresariais poderiam motivar os empregados e consumidores.

A obra de Scott reflete a crescente preocupação da psicologia funcional com o lado prático das coisas. “Ao retornar da Leipzig de Wundt para a Chicago da virada do século, Scott fez suas publicações passarem da teorização gerniânica à utilidade prática americana. Em vez de explicar as motivações e impulsos em geral, Scott descrevia como influenciar pessoas, incluindo consumidores, públicos de palestras e trabalhadores” (Von Mayrhauser, 1989, p. 61).

Scott reuniu um impressionante número de primeiros lugares. Foi o primeiro a aplicar a psicologia à publicidade e à seleção e administração de pessoal, o primeiro a ostentar o título de professor de psicologia aplicada, o fundador da primeira empresa de consultoria psicológica e o primeiro psicólogo a receber a Distinguished Service Meda], uma condecoração do Exér cito dos Estados Unidos.

A Vida de Scott

Walter Dili Scott nasceu numa fazenda em Illinois, no ano de 1869. Ele começou a se dedicar à idéia do aumento da eficiência aos doze anos quando atava o campo. Como seu pai ficava doente com freqüência, o garoto basicamente dirigia a pequena fazenda familiar. Um dia, ele fez uma pausa no final de um sulco para deixar os dois cavalos descansar. Contem plando os edifícios da Universidade Normal Estadual de Illinois, a distância, ele percebeu de repente que, se quisesse conseguir alguma coisa, tinha de parar de perder tempo. E ali estava ele, perdendo dez minutos de cada hora para deixar os cavalos descansar! Isso equivalia a mais ou menos uma hora e meia por dia, tempo que ele podia usar lendo e estudando. A partir daquele dia, Scott sempre levava ao menos um livro consigo e lia em todos os momentos de folga.

Para pagar os estudos, ele colhia e enlatava amoras, vendia ferro-velho e aceitava

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empregos estranhos. Guardava parte do dinheiro e, com o resto, comprava livros. Aos dezeno ve anos, inscreveu-se na universidade e iniciou sua longa jornada para longe da fazenda. Dois anos depois, conseguiu uma bolsa para a Universidade Northwestern, em Evanston, Illinois, onde aceitou empregos de preceptor para ganhar um dinheiro extra, jogou rúgbi, conheceu a mulher com quem iria se casar e decidiu ser missionário na China.

Essa carreira, contudo, significaria mais três anos de estudo e, quando se graduou num seminário teológico de Chicago e estava pronto para ir para a China, Scott descobriu que não havia vagas; a China estava cheia. Foi então que pensou numa carreira em psicologia. Havia feito um curso na área e gostara. E já tinha lido artigos em revistas sobre a nova ciência e o laboratório que Wundt instalara em Leipzig. Graças às suas bolsas, atividades de preceptor e vida frugal, Scott economizara vários milhares de dólares, o suficiente não apenas para ir à Alemanha como para casar-se.

Em 21 de julho de 1898, Scott e sua noiva partiram. Enquanto ele estudava com Wundt em Leipzig, a senhora Scott fazia seu Ph.D. em literatura na Universidade de Halie, a trinta quilômetros de distância. Eles só se viam nos fins de semana. Os dois se doutoraram dois anos depois e voltaram para casa, onde Scott foi dar aulas na Universidade Northwestern na área de psicologia e pedagogia. Ele já estava sob a influência da tendência de aplicar psicologia a problemas da educação.

Sua passagem para um campo novo e distinto de aplicação ocorreu em 1902, quando um líder na área da publicidade procurou Scott, que fora recomendado por um ex-professor, e lhe pediu para aplicar princípios psicológicos à publicidade a fim de torná-la mais eficaz. Ele ficou muito interessado na idéia. Na melhor tradição do espírito do funcionalismo americano, ele já se afastara da psicologia wundtiana e buscava um modo de tornar a psicologia mais aplicável a preocupações do mundo real. E tinha agora a sua chance.

Scott escreveu The Theory and Practice ofAdvertising (Teoria e Prática da Publicidade), o primeiro livro sobre o tópico, seguido por uma torrente de artigos em revistas e livros, publicados à medida que sua experiência, sua reputação e seus contatos com a comunidade empresarial se ampliavam. Depois, voltou sua atenção para os problemas de seleção e admi nistração de pessoal. Em 1905, passou de instrutor a professor na Northwestern e, em 1909, assumiu o cargo de professor de publicidade na escola de comércio da universidade. Em 1916, foi nomeado professor de psicologia aplicada e diretor da divisão de pesquisa de vendas na Universidade Técnica Carnegie, de Pittsburgh.

Em 1917, quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra, Scott ofereceu seus préstimos ao exército para ajudar na seleção de pessoal militar. No início, ele e suas propostas não foram bem recebidos; nem todos estavam convencidos do valor prático da psicologia. Além disso, o general com quem Scott falou desconfiava de professores, tendo quase explodi do de raiva. ‘Ele disse que sua função era fazer com que os professores universitários não se pusessem no caminho do progresso, que estávamos em guerra com a Alemanha e que ele não tinha tempo para brincar com experiências; disse ainda que muitas pessoas achavam que o exército era um grande cachorro no qual aplicar experimentos, e que ele faria o que fosse preciso para nenhum professor universitário consegui-lo” (Von Mayrhauser, 1989, p. 65). Scott acalmou o irado oficial, levou-o para almoçar e o persuadiu do valor de suas técnicas de seleção. Perto do fmal da guerra, ele provou que tinha razão e terminou por receber do exército a mais importante medalha concedida a civis.

Em 1919, fundou sua própria empresa (chamada, imaginativamente, The Scott Com pany), que fornecia serviços de consultoria a mais de quarenta empresas importantes nos setores de seleção de pessoal e métodos de aumento da eficiência do trabalhador. No ano seguinte, ele se tomou presidente da Northwestern, tendo se aposentado em 1939.

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Publicidade e Seleção de Pessoal

As marcas deixadas pelo treinamento em psicologia experimental wundtiana e sua ten tativa de estendê-la ao domínio prático são dois traços evidentes nos primeiros escritos de Scott

sobre a publicidade. Ele escreveu, por exemplo, que os órgãos dos sentidos eram as

janelas da alma. Quanto maior o número de sensações que recebemos de um objeto, tanto melhor o conhecemos. A função do sistema nervoso é nos tornar conscientes das visões, sons, sensações, sabores, etc. dos objetos do nosso ambiente. O sistema nervoso que não responde ao som ou a qualquer outra qualidade sensível é deficiente.

Consideram-se os anúncios, por vezes, o sistema nervoso do mundo dos negócios. O anúncio de instrumentos musicais que não contenha nada que desperte imagens de sotia é um anúncio deficiente... Assim como o nosso sistema nervoso é organizado para nos fornecer todas as sensações possíveis de qualquer objeto, assim também o anúncio, que é comparável ao sistema nervoso, deve despertar no leitor tantos tipos distintos de imagens quantos sejam os que o próprio objeto pode suscitar (Jacobson, 1951, p. 75).

Scott afirmava que os consumidores são não-racionais e facilmente influenciáveis, e concentrou-se na emoção e na simpatia como fatores importantes para o despertar dessa sugestionabilidade. Ele também acreditava, como era comum na época, que as mulheres eram mais facilmente influenciadas do que os homens por anúncios que jogavam com as emoções e os sentimentos. Aplicando o que denominou a lei da sugestionabilidade à publicidade, ele recomendava que as empresas usassem ordens diretas — tais como “Use o Sabão X” — para vender seus produtos. Scott também promoveu o uso de cupom porque estes exigiam uma ação específica e direta dos consumidores, que tinham de destacar o cupom da revista ou jornal, preenchê-lo e enviá-lo para receber uma amostra grátis. Essas duas técnicas — as ordem diretas e o envio de cupom — foram rapidamente adotadas pelos publicitários e, por volta de 1910, já eram uma estratégia generalizada (Kuna, 1976).

Para o seu trabalho em seleção de pessoal, com vendedores, executivos e militares em particular, Scott desenvolveu escalas de avaliação e testes de grupo para medir as caracterís ticas de pessoas já bem-sucedidas nessas ocupações. Assim como fora com Witmer na psico logia clínica, não havia trabalhos precedentes nos quais Scott pudesse basear sua abordagem, tendo ele mesmo de desenvolvê-la. Ele pedia a oficiais superiores e a supervisores que fizessem listas dos seus subordinados e os classificassem segundo categorias de aparência, comportamento, sinceridade, produtividade, caráter e valor para a instituição/organização. Os candidatos eram hierarquizados com base nas qualidades consideradas necessárias ao bom desempenho do trabalho em questão, um procedimento não muito diferente do empregado hoje.

Scott concebeu testes psicológicos para avaliar a inteligência e outras capacidades, mas, em vez de julgar cada candidato individualmente, como era prática corrente, elaborou testes passíveis de aplicação a grupos. O mundo dos negócios e a corporação militar exigiam a rápida avaliação de grande número de candidatos, e era mais eficaz e barato testá-los em grupo.

Os testes de Scott diferiam dos desenvolvidos por Cattell e outros por mais razões ainda. Ele não tentava avaliar a natureza da inteligência geral da pessoa como um conteúdo ou faculdade; o que lhe interessava era o modo como a pessoa usava sua inteligência. Em outras palavras, ele queria medir o funcionamento da inteligência num ambiente real. Para ele, a inteligência não se defmia em termos de capacidades cognitivas específicas, mas em termos práticos como julgamento, rapidez e precisão — as características necessárias à boa realização de um trabalho. O seu interesse se restringia à comparação entre os índices alcançados pelos candidatos e os índices de funcionários já bem-sucedidos no trabalho; não era sua intenção

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determinar o que esses índices poderiam representar em termos de conteúdo mental. Essa abordagem prática dos testes tipificou o homem e toda a sua obra.

Tal como Witmer, Scott só tem recebido uma atenção passageira por parte da história da psicologia. Várias razões explicam esse relativo desdém. Como a maioria dos psicólogos aplicados, Scott não formulou teorias, não fundou uma escola de pensamento, não treinou um grupo leal de alunos para dar prosseguimento ao seu trabalho, fez poucas pesquisas acadêmicas e raramente publicava nas revistas dominantes da época. Seu trabalho para corporações priva das e para os militares era estritamente prático, voltado para atender as necessidades do cliente. Além disso, muitos psicólogos acadêmicos, particularmente aqueles detentores de posições de destaque em universidades importantes e que contavam com generosas verbas para seus laboratórios, tendiam a menosprezar o trabalho dos psicólogos aplicados, acreditando que ele não contribuiria para o progresso da psicologia como ciência.

Scott e outros psicólogos aplicados contestavam essa posição. Para eles, não havia conflito entre as aplicações utilitárias e o progresso da ciência. Na verdade, eles acreditavam que “o progresso empírico da psicologia dependia muito dos resultados da experiência extra acadêmica” (Von Mayrhauser, 1989, p. 63). Os psicólogos aplicados alegavam que a divulga ção da psicologia para um público maior demonstrava o seu valor, o que, por sua vez, aumentava o reconhecimento da importáncia da pesquisa psicológica nas universidades. Logo, os primeiros psicólogos aplicados estavam refletindo o legado e o impacto do espírito funcio nalista na psicologia americana, tentando torná-la uma ciência útil.

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