O leitor e os caminhos de memórias de emília, de monteiro lobato



Baixar 42.98 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho42.98 Kb.
O LEITOR E OS CAMINHOS DE MEMÓRIAS DE EMÍLIA, DE MONTEIRO LOBATO

Alice Áurea Penteado Martha (UEM)



Introdução

A leitura de Memórias de Emília (1936), de Monteiro Lobato, proposta aos alunos da 5ª série E, da Escola Estadual Índia Vanuíre (5ª a 8ª série do Ensino Fundamental), de Tupã, cidade do interior paulista, não obteve os resultados esperados, como comprova o material coletado pelo Grupo de pesquisadores da UNESP/Assis. Os 22 (vinte e dois) alunos da série em questão deveriam fazer o resumo e elaborar um comentário sobre o livro lido. Entretanto, 21 (vinte e um), 95,5% dos alunos confessaram que não leram o livro, ou que leram apenas o início, porque não havia exemplares disponíveis ou porque não houve tempo suficiente para a leitura. Apenas um aluno tentou resumir a narrativa, mas seu texto também deixou patente a falta da leitura. As respostas dos alunos indicam muito claramente, ainda, a atuação negativa do professor da sala no processo de mediação de leitura, o que pode levar a uma reflexão sobre o papel desempenhado pela instituição escolar, especialmente pelo professor, na formação de leitores.

A escassez absoluta de material para a análise da recepção de Memórias de Emília, pelos alunos, acarretou uma correção de rota em relação às propostas do Projeto gerador desta sessão coordenada, e, neste trabalho, então, buscamos reconhecer trilhas que o leitor poderá percorrer no itinerário da construção dessa obra de Lobato. Acreditando, com Wolfang Iser (Der Akt des Lesens, 1976), que o texto apresenta um efeito potencial, atualizado pelo leitor implícito, construção teórica diferente do leitor real, e que texto e leitor interagem a partir de uma construção de mundo e de suas convenções compartilhadas, pretendemos observar elementos que, na narrativa em pauta, contribuem para a intersecção entre o repertório do leitor e o repertório do texto, de modo que o leitor de Lobato, inserindo-se nos acontecimentos narrados, possa compartilhar do universo de sensações, emoções e das mais variadas experiências de vida representadas na obra.

Caminhos de Lobato

O leitor contemporâneo à publicação de Memórias de Emília estava, sem dúvida, familiarizado com os fatos do mundo criado por Lobato, em razão da proximidade entre o seu repertório e o repertório do texto, o que pode justificar a ansiedade com que aguardava novas peripécias das personagens do Sítio, como revelam, inclusive, as cartas dos pequenos leitores, enviadas ao escritor, divulgadas em trabalhos recentes como Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia (1997), de Carmen Lúcia de Azevedo, Márcia Camargos e Vladimir Sacchetta; Os filhos de Lobato: o imaginário infantil na ideologia do adulto (1997), de José R. Whitaker Penteado e a tese de doutoramento de Eliane Santana Dias Debus, O leitor, esse desconhecido: Monteiro Lobato e a formação de leitores ( 2002- PUC/RS), entre outros que estudam a recepção das obras do escritor pelo leitor de seu tempo.



Parece interessante ressaltar que, mesmo antes da publicação de A menina do Narizinho arrebitado, Lobato manifestava sua preocupação com as leituras destinadas às crianças brasileiras e, arquitetando um modo diferente de levar a fantasia aos pequenos leitores, posicionava-se decisivamente contra o pensamento literário da época. Se, por exemplo, em 1912, Francisca Júlia e Júlio César da Silva escreviam no prefácio de seu livro, Alma infantil, que nenhum dos textos apresentados ali era supérfluo, já que todos continham além de um flagrante interesse anedótico, uma edificante lição de moral e concluíam que o livro satisfazia a todas as exigências, pois, além de didático, era, ao mesmo tempo, uma obra de arte, Lobato discordava de semelhante postura. Em correspondência a Godofredo Rangel, datada de 1916, o escritor relatava suas inquietações literárias, demonstrando concepções extremamente arrojadas para a época:
Ando com várias idéias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para crianças. Veio-me da atenção curiosa com que meus pequenos ouvem as fábulas que Purezinha lhes conta. Guardam-nas de memória e vão recontá-las aos amigos – sem, entretanto, prestarem nenhuma atenção à moralidade, como é natural. A moralidade nos fica no subconsciente para ir-se revelando mais tarde, à medida que progredimos em compreensão. Ora, um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa preciosa. (Lobato, 1957, p.104)
As palavras endereçadas ao amigo revelam uma consciência atenta aos interesses e desejos dos pequenos leitores. Cioso da necessidade de adaptação, antecipa, na produção infantil, o processo antropofágico que caracterizaria mais tarde o Modernismo brasileiro:
As fábulas em português que conheço, em geral traduções de La Fontaine, são pequenas moitas de amora no mato – espinhentas e impenetráveis. Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo da literatura que nos falta. Como tenho um certo jeito para impingir gato por lebre, isto é habilidade por talento, ando com idéia de iniciar a coisa. É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos. Mais tarde só poderei dar-lhes o Coração de Amicis – um livro tendente a formar italianinhos... (Idem, idem, p. 104-05)
Como podemos notar, se as preocupações com a leitura da garotada começam em casa, não se esgotam nesse espaço restrito e culminam em uma obra infantil verdadeiramente singular, muito além do plano inicial de adaptação das fábulas. Em 1921, em A onda verde: jornalismo, livro publicado pela Editora Monteiro Lobato e Cia, a partir da recolha de artigos, ensaios e crônicas em jornais e revistas, o escritor aborda também questões relativas à leitura, procurando explicar a aversão dos brasileiros pelos livros. No artigo Livros fundamentais, trata acidamente do que denomina de uniformização dos cérebros, pois não há respeito à individualidade ou ao gosto pessoal: a leitura de um poeta, de um romancista ou de um filósofo, no Brasil de então, segundo ele, é questão de moda. A seleção do repertório de leitura se dá pelos mesmos critérios com que as pessoas escolhem gravatas ou chapéus. Lobato, discordando dos métodos de ensino, critica de modo veemente o trabalho de leitura realizado na escola:
O menino aprende a ler na escola e lê em aula, à força, os horrorosos livros de leituras didáticas que os industriais do gênero impingem nos governos. Coisas soporíferas, leituras cívicas, fastidiosas patriotices. Tiradentes, bandeirantes, Henrique Dias, etc. Aprende assim a detestar a pátria, sinônimo de seca, e a considerar a leitura como um instrumento de suplício. (Lobato, 1957, p. 84)
Conhecendo as preocupações de Lobato, compreendemos as razões pelas quais expurga de seus textos, desde as primeiras publicações, normas de bom comportamento, delega à criança nova forma de atuação e, concedendo-lhe voz ativa (uma das maiores inovações nas obras dirigidas à infância), valoriza, sobretudo, o universo infantil. Desse modo, não é mais a voz adulta, seja do narrador ou de alguma outra personagem, a responsável pelo comando do comportamento dos pequenos; na obra de Lobato, predominam voz e visão da criança. E essa é uma das trilhas abertas pelo escritor no bosque da literatura infantil brasileira e por onde enveredaram, depois, nomes como Ruth Rocha, Ana Maria Machado, João Carlos Marinho, Sylvia Orthof, Ziraldo, entre muitos outros.

Trilhas do leitor

Lobato, em mais uma de suas correspondências a Rangel, de 30/01/1915, ao discorrer sobre o trabalho do escritor, sugere que se dê ao leitor a tarefa de encontrar seu caminho nos emaranhados do texto que lê. O autor não deve descrever tudo, o certo, segundo ele, é sugerir apenas: Fazer com que o leitor puxe o carro sem o perceber. Sugerir. Arte é só isso. (Lobato, 1957, p.13). Com essas palavras, parece antecipar um conceito bastante atual de leitura, ou seja, a noção de que o texto é um esquema virtual, cujos pontos de indeterminação devem ser preenchidos pelo leitor, como uma partitura. A essa estrutura textual, que pede respostas, Iser denomina leitor implícito e, às respostas do leitor a tais esquemas textuais, intitula ato estruturado, ou a leitura real. Nas palavras de Compagnon:


Baseado no leitor implícito, o ato da leitura consiste em concretizar a visão esquemática do texto, isto é em linguagem comum, a imaginar os personagens e os acontecimentos, a preencher as lacunas das narrações e descrições, a construir uma coerência a partir de elementos dispersos e incompletos. (Compagnon, 2001, p.152)

Na narrativa que ora nos ocupa, Emília decide escrever suas memórias e, para tanto, convoca o Visconde, transformando-o em ghost-writer, ainda que nem sempre tão invisível quanto deveria ser um escritor desse tipo, ou quanto a boneca gostaria que ele fosse. Depois de filosofar sobre conceitos e modos de produção do gênero memórias, incumbe o sabugo cientista de narrar a história do anjinho de asa quebrada, Flor das Alturas, como passou a ser chamada a criaturinha que veio com as crianças para o sítio, depois da Viagem ao céu. Em Memórias de Emília, crianças inglesas chegam ao Pica-pau amarelo para visitar o novo habitante do local; viajam no transatlântico Wonderland, sob o comando do Almirante Brown e têm como companheiros de viagem Peter Pan, o garoto da Terra do Nunca, Alice, a do País das Maravilhas, além do Capitão Gancho, inimigo mortal de Peter Pan, e de Popeye, o marujo encrenqueiro cuja força provém do espinafre. As relações entre as personagens do sítio e tais criaturas, oriundas dos contos clássicos, dos comics e das telas do cinema e que povoam o imaginário dos leitores, inclusive das criaturas de Lobato, em razão das histórias que ouvem de Dona Benta, estreitam-se e são mantidas com a cumplicidade de ações, como a luta de Pedrinho e Peter Pan contra Popeye, ou a aventura quixotesca vivida por Emília, Shirley Temple, Flor das Alturas e o Visconde, em Hollywood.

As citações e os intertextos da narrativa foram, com certeza, mais facilmente assimilados pelo leitor contemporâneo de Lobato. Entretanto, a questão da distância entre o mundo narrado e aquele experimentado pelo leitor de hoje pode gerar dúvidas quanto à eficácia da leitura. É possível que a criança do século 21 se reconheça nas personagens de Lobato? O que há de semelhante entre uma garota de 10 anos, aproximadamente, e Narizinho? E Pedrinho? A narrativa consegue encantar crianças que têm seus heróis prediletos protagonizando eletrizantes aventuras, veiculadas em games, sites, CD- ROM e outras modalidades high-tech? É possível que uma troupe, formada por uma boneca de pano, dois garotos – Pedrinho e Narizinho – um Visconde de sabugo, um leitão, um rinoceronte e outros bichos, ainda possa garantir o prazer da leitura ainda hoje? E a criança, que trilhas pode buscar na narrativa do escritor para alcançar a fantasia, o imaginário e seu próprio mundo interior?

As questões formuladas não pretendem absolutamente enfatizar dificuldades encontradas pelo leitor de hoje, apontando a inviabilidade da leitura da obra do escritor, mas tão somente valorizar o ato de leitura, o percurso do leitor para chegar à desejada intersecção com o texto, uma vez que, segundo Iser (1996), a ficção, paradoxalmente, não denota a realidade nem copia o repertório de seu possível leitor; ela não se refere a nenhum código cultural comum ao leitor; entretanto, se o texto não é idêntico nem ao mundo empírico, nem aos hábitos do leitor, o sentido deve ser constituído pelos elementos que traz consigo. (Idem, idem, p.129)



Memórias de Emília organiza-se em 15 episódios, todos com títulos que sintetizam os acontecimentos e desempenham a função de chamariz para o leitor. Mesmo com o encaixe da narrativa “O anjinho da asa quebrada”, no segundo episódio, que tem o Visconde como narrador, constatamos que os demais apresentam os tais títulos-síntese e esses títulos podem tanto ser de autoria do narrador situado fora da história quanto do Visconde, incumbido por Emília de escrever as memórias, já que não trazem marcas de subjetividade: III- A estória do anjinho corre mundo./ O rei da Inglaterra manda ao sítio de Dona Benta um navio cheio de crianças. XI- A fuga do anjinho. Grande tristeza. Despedida da criançada e do Almirante Brown. A exceção aparece no décimo terceiro episódio, narrado por Emília e denominado Minha viagem. Com o emprego do pronome de primeira pessoa, notamos, de imediato, a alteração do foco narrativo, que passa a interno, memorialista e emilista, se for palatável o neologismo.

Assim, recortando as possibilidades de entrada no mundo narrado, queremos destacar o caráter lúdico do texto de Lobato, estabelecido, especialmente, pelo jogo de vozes e visões, responsável pelo caráter dinâmico da narrativa, cuja construção, ambígua, oscila entre realidade e fantasia, ou entre verdade e mentira, como prefere Emília. Esse jogo será a tônica das memórias, que, segundo a Marquesa de Rabicó, serão escritas ao “longo de sua vida” e a única mentira é que não morrerá verdadeiramente:


_ [...] Finjo que morro, só. As últimas palavras têm de ser estas: “E então morri...”, com reticências. Mas é peta. Escrevo isso, pisco o olho e sumo atrás do armário para que Narizinho fique mesmo pensando que morri. Será a única mentira das minhas Memórias. Tudo mais verdade pura, da dura – ali na batata, como diz Pedrinho. (Lobato, 1984, p.7-8)
Na fala de Emília, uma importante pista, primeira trilha para o leitor: as memórias devem ser lidas como peta, para usar a expressão da boneca, uma mentira com muita manha, para dar a idéia de que é verdade pura. Palavras de Emília que, desafiada por Dona Benta sobre o sentido da verdade, filosofa: Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso. (Idem, p.8) E é por onde o leitor pode entrar no mundo narrado: uma mentira bem pregada, uma história bem contada, escrita em papel cor do céu com todas as suas estrelinhas; com tinta cor do mar com todos os seus peixinhos e com pena de pato, com todos os seus patinhos. (Idem, p. 9)

O narrador, situado fora dos eventos que relata, com focalização externa, portanto, narra as artimanhas da boneca para preparar suas memórias. Contudo, sua postura não se mostra autoritária uma vez que concede voz às personagens, já no primeiro episódio, recorrendo ao discurso direto, no momento em que Emília discute com Dona Benta e com o Visconde questões relativas ao gênero a que pretende dedicar-se. No segundo episódio, a boneca concede liberdade total ao Visconde, que se transforma, então, em narrador e focalizador interno, na medida em que é ele quem escolhe, inclusive, a estória do anjinho de asa quebrada como assunto das memórias. Diz Emília: Fique escrevendo. Vá escrevendo. Faça de conta que estou ditando. Conte as coisas que aconteceram no sítio e ainda não estão nos livros. (Idem, p.15) Parece importante ressaltar o modo como os episódios continuam sendo intitulados, pois é por meio dos títulos que o leitor percebe que o narrador externo mantém-se atuante no relato, mesmo quando, com a mudança de nível, a voz é do Visconde, configurando-se o jogo de vozes e visões: IX- A grande luta. Pedrinho e Peter Pan batem Popeye. Palavras do almirante para Emília.

As Memórias da Marquesa de Rabicó, sob o comando do sabugo-escritor, principiam com marcação bem definida, inclusive, com subtítulo, “O anjinho de asa quebrada”. Após uma pequena introdução para situar seus leitores, remetendo-os às obras Reinações de Narizinho e Viagem ao céu, o sabugo-memorialista explica a construção do texto: Não recordarei, portanto, nada disso [aventuras citadas]. Só direi que houve lá por cima tais estripulias que os astrônomos da Europa vieram queixar-se a Dona Benta das brincadeiras que estavam perturbando a harmonia celeste. (Idem, p.16)

Como pudemos observar, ainda que, a partir desse ponto, o Visconde narre os acontecimentos, como um bom escritor de memórias alheias, privilegia as ações e atitudes de Emília, valorizando os ensinamentos que a boneca, com muito humor, disponibiliza à criaturinha celeste bem como sua esperteza para vencer o marinheiro Popeye. Em relativa harmonia com a Marquesa de Rabicó, ausenta-se, praticamente, da narrativa, sustentando o relato com o discurso direto, os diálogos entre Emília e as demais personagens. Portanto, mesmo que não seja a responsável pela “escritura”, é da boneca o predomínio da voz e da visão no texto.

Embora em alguns momentos, o narrador externo retome o controle do relato, como podemos notar desde o título, no episódio X, Diálogo entre a boneca e o Visconde. A esperteza de Emília e a resignação do Milho, ele continua promovendo a mudança de nível, tanto no que se refere à voz, com o emprego do discurso direto, sem sua intervenção, como no que diz respeito ao ponto de vista, ainda que as concepções das personagens provoquem arrepios no senso comum, como no momento em que Emília revela seu conceito de esperteza:
- Sabe escrever Memórias, Emília? Repetiu o Visconde ironicamente. – Então isso de escrever memórias com a mão e cabeça dos outros é saber escrever memórias?

- Perfeitamente, Visconde! Isso é que é o importante. Fazer as coisas com a mão dos outros, ganhar dinheiro com o trabalho dos outros, pegar nome e fama com a cabeça dos outros: isso é que é saber fazer as coisas.

[...]

- E como lhe explicar [ao filhinho de Emília] o que é ser esperto? Indagou o Visconde?



- Muito simplesmente – respondeu a boneca. – Citando o meu exemplo e o seu, Visconde. Quem é que fez a Aritmética? Você. Quem ganhou nome e fama? Eu. Quem é que está escrevendo as Memórias? Você. Quem vai ganhar nome e fama? Eu... (Idem, p. 76)
No episódio seguinte, o Visconde reassume a narrativa, e, insatisfeito com a atitude da espertinha, decide pregar-lhe uma peça, registrando tudo o que considera defeito nela (tirana, interesseira, egoísta). Mas, evitando concepções maniqueístas, a vê também como uma criaturinha incompreensível, que faz coisas de louca e também coisas sensatas, e conclui que ela é, na verdade, uma independência de pano. Emília chega repentinamente e surpreende o Visconde, que interrompe a redação das memórias mais uma vez, e o relato volta à responsabilidade do narrador externo. Entretanto, depois de ler o trecho escrito, a boneca de retrós admite: [...] pensando bem, vejo que sou assim mesmo. Está certo.(Idem, p.89)

Após meditar um pouco, Emília resolve concluir ela mesma a redação das memórias. A partir daí, a peta, anunciada no primeiro episódio, toma conta da construção narrativa. Se, nos relatos anteriores, o Visconde conseguira manter a história entre parâmetros de verossimilhança, agora, o nonsense e o humor desbragado dominam, já que, inconformada com a fuga do anjinho, ela decide mudar o rumo dos acontecimentos. Assumindo o controle, Emília narra, então, como partiu para Hollywood, no Wonderland, na companhia do anjinho, das crianças inglesas, de Peter Pan e Alice, do almirante e, naturalmente, do Visconde, sua vítima preferida. Ela, muito inteligente, aprende inglês, sem qualquer sotaque, durante a viagem; o pobre sabugo, por sua vez, enjoa o tempo todo e joga no mar metade de sua ciência: Vomitou logaritmos, ângulos e triângulos, leis de Newton – uma trapalhada. (Idem, p. 91) Na terra do cinema, a bonequinha decide fazer carreira na Paramount e, para começar, prepara e encena o roteiro de Dom Quixote de la Mancha, transformado em pastelão, naturalmente, pela irreverência da adaptadora. Na distribuição dos papéis, percebemos a intenção de vingar-se do pobre Visconde: a ela cabe ser o moinho de vento, o Anjinho é Sancho e, Shirley Temple, o Rocinante, ficando o sabuguinho incumbido de protagonizar Dom Quixote. Logo percebemos que não se trata de um prêmio, mas de artimanha de Emília para castigá-lo, uma vingança pelo tratamento dispensado a ela, nos episódios anteriores das memórias. Exercendo seu papel com extrema vitalidade, deixa o sabugo memorialista em má situação:

Quando vi aproximar-se de mim aquele cavaleiro andante de tampinha de lata na cabeça e lança apontada, regirei o braço com mais força . E quando ele chegou ao meu alcance, dei-lhe tal peteleco que ele voou pelos ares, indo cair de ponta-cabeça dentro de uma caixa de bombons vazia. Ficou lá de pernas para o ar, mudo, sem poder dizer o que tinha de dizer. (Idem, p. 95)
Contudo, a narrativa de Emília perde os freios e o narrador de primeiro nível, de fora dos acontecimentos, resgata sua função, com o intuito de organizar o relato e interromper os desvarios da boneca. Mas é interessante observarmos o grau de interação desse narrador com os fatos narrados por ela, quando, focalizando Dona Benta, que ouve a incrível aventura vivida em Hollywood, vê a cara de Dona Benta igualzinha à cara que a mãe da Shirley fez na sala de jantar, quando viu aquele bando de louquinhos passar por lá. (Idem, p. 99 – 100)

Emília, impaciente, convoca os serviços do Visconde novamente, e ele, sob ameaças de “depenamento”, decide continuar a tal história de Hollywood, ainda que confesse: Nunca estive em Hollywood, nem nunca você me contou essa passagem. (Idem, p. 102). Obrigado a aceitar a farsa proposta, registra seus sentimentos em relação ao Moinho, o papel desempenhado vivido pela boneca na pantomima: Dom Quixote lançou um olhar de ódio contra o moinho malvado que o tinha reduzido àquela triste situação. (Idem, p. 103) A revanche de Sabugosa acontece justamente com a aparição de Mr. John, o governador da Paramount, que poderia realizar o sonho de estrelato de Emília. Entretanto, sob a letra do sabuguinho, o grande homem do cinema não se interessa por ela, apenas pelo Anjinho e pelo próprio Visconde: Podemos fazer negócio com Dom Quixote e o anjinho. Mas a tal boneca de pano pode limpar as mãos às paredes. Vade retro!... (Idem, p. 105) A espevitada boneca, no entanto, retorna e exige que ele reescreva os fatos que lhe foram desfavoráveis, ditando: [...] o tal Mr. John aceitou como estrela de máxima grandeza no céu de Hollywood primeiro Emília, Marquesa de Rabicó, depois o anjinho. Ao último, o tal Visconde de Sabugueira ou Sabugosa, recusou imediatamente [...]. (Idem, p. 105) Além de recusar o pobre estropiado, segundo Emília, Mr. John atira o sabugo bolorento para bem longe.

No último episódio, Emília faz um longo desabafo sobre sua natureza e sentimentos e sobre pessoas e coisas do Sítio; vê-se injustiçada, comparando-se a Dom Quixote e Jesus Cristo; discorre sobre Dona Benta, Tia Nastácia, Pedrinho e Narizinho, sobre animais como Quindim, a Vaca Mocha, o Burro Falante e Rabicó e sobre pitangueiras, jabuticabeiras e porteiras, mas, quanto ao Visconde, nem uma palavra. O silêncio sobre o sabugo revela sua mágoa pelo retrato de “boneca sem coração”, descrito por ele na narrativa. Em resposta, finalizando suas memórias, escreve:

Antes de pingar o ponto final quero que saibam que é uma grande mentira o que anda escrito a respeito do meu coração. Dizem todos que não tenho coração. É falso. Tenho, sim, um lindo coração – só que não é de banana. (Idem, p.107)


Concluindo

Podemos dizer que a criança que lê Memórias de Emília, percebe suas virtualidades infinitas, as inumeráveis oportunidades de entrada no texto; sente que, como um intrincado bosque, para usar a imagem de Umberto Eco, ele se abre a novas aventuras, a outras explorações.

Um dos modos de sintonia entre leitor e texto é a alternância do foco narrativo. O narrador de Lobato, posicionado fora do mundo narrado, ao promover a mudança de nível de voz e visão na estrutura narrativa, permitindo que os fatos sejam narrados também sob a perspectiva do Visconde e de Emília, propicia a interação entre personagens e leitor. Sob esse aspecto, pode ser considerado liberal, já que não impõe seus pontos de vista, estabelecendo o equilíbrio entre o universo adulto e o infantil. O leitor, ao perceber semelhanças entre sua voz e a desses narradores, sente-se representado e estimulado a reunir elementos dispersos no texto, convertendo-se em conquistador do livro que o conquistou.
Referências bibliográficas
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria.Literatura e senso comum. Trad.: Cleonice Paes Barreto Mourão, Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte: UFMG, 2001.

ISER, Wolfang. O ato de ler (Vol. 1). Trad.: Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed. 34, 1996.

LOBATO, José Bento Monteiro. A onda verde. 8.ed. São Paulo: Brasiliense, 1957.

_______. A barca de Gleyre. 2º tomo. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1957.



_______. Memórias de Emília. São Paulo: Brasiliense, 1984.


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal