O Último hippie such a long, long time to be gone



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O ÚLTIMO HIPPIE
Such a long, long time to be gone...

and a short time to be there

(Tanto tempo longe...

e tão pouco para estar lá]

Robert Hunter, “Box of rain”
Greg F. cresceu nos anos 50 numa casa confortável em Queens, um garoto talentoso e

atraente que parecia destinado, como o pai, a uma carreira profissional -- talvez como

letrista de músicas, para o que mostrava um talento precoce. Mas tornou-se agitado,

começou a questionar tudo, parecia um adolescente do final dos anos 60; passou a odiar a vida convencional de seus pais e vizinhos, e o governo cínico e belicoso do país. Precisava se rebelar, mas também encontrar um ideal e um guia, um líder, cristalizado no Verão do Amor, em 1967. Podia ir ao Village para ouvir Allen Ginsberg declamar a noite inteira; adorava rock, em especial acid rock, e, sobretudo, o Grateful Dead.

Passou progressivamente a discordar dos pais e professores; era truculento com os

primeiros, reservado com os segundos. Em 1968, quando Timothy Leary exortava a

juventude americana a “se ligar, experimentar todas e cair fora”, Greg deixou o cabelo

crescer e abandonou a escola, onde tinha sido um bom aluno; saiu de casa e foi morar no Village, onde experimentou ácido e juntou-se à cultura da droga do East Village -- em busca, como outros de sua geração, da utopia, da liberdade interior e de uma consciência superior.

Mas “experimentar todas” não satisfez Greg, que continuava com a necessidade de uma doutrina e um tipo de vida mais codificados. Em 1969, foi atraído, assim como tantos jovens consumidores de ácido, para o Swami Bhaktivedanta e sua Sociedade Internacional para a Consciência em Krishna, na Segunda Avenida. E, sob sua influência, Greg, como tantos outros adeptos do LSD, largou o ácido, encontrando na exaltação religiosa um substituto para as viagens. (“O único remédio radical para a dipsomania”, disse William James certa vez, “é a religiomania.”) A filosofia, o companheirismo, os cânticos, os rituais, a figura austera e carismática do próprio swami foram como uma revelação para Greg, e ele se tornou, quase imediatamente, um devoto e prosélito apaixonado. (nota 1: As idéias peculiares do swami são apresentadas, de forma sumária, em Easy journey to other planets, de Tridandi Goswani A. C. Bhaktivedanta Swami, publicado pela liga dos Devotos, Vrindaban (sem data, uma rúpia). Este pequeno manual, com sua capa verde, era distribuído em grandes quantidades pelos discípulos em vestes alaranjadas do swami, e tornou-se a bíblia de Greg neste estágio.) Agora havia um centro, um foco, em sua vida. Naquelas primeiras semanas exaltadas de sua conversão, ele vagou pelo East Village, enrolado em vestes alaranjadas, cantando os mantras de Hare Krishna, e no começo dos anos 70 mudou-se para o templo principal, no Brooklyn. Seus pais desaprovaram de início, depois condescenderam. “Talvez isso o ajude”, dizia o pai, filosoficamente. “Talvez -- quem

sabe? -- seja este o seu caminho.”

O primeiro ano de Greg no templo correu bem; ele era obediente, cândido, devoto e

piedoso. Ele é um dos Eleitos, dizia o swami, um de nós. No início de 1971, já

profundamente integrado, Greg foi enviado ao templo de Nova Orleans. Seus pais o haviam visto esporadicamente enquanto estava no templo do Brooklyn, mas nesse momento a comunicação foi praticamente suspensa.

O problema surgiu no segundo ano de Greg com os krishnas -- queixou-se de que sua

visão estava ficando ofuscada, mas isso foi interpretado, pelo swami e pelos outros, de uma maneira espiritual: ele era “um iluminado”, disseram-lhe; tratava-se do avanço da “luz interior”. Greg se preocupou de início com sua vista, mas acabou se tranqüilizando com a explicação espiritual do swami. Sua visão turvou-se ainda mais, mas ele não mais se queixou. E, de fato, parecia estar se tornando cada vez mais espiritual -- tinha sido tomado por uma espantosa serenidade. Não apresentava mais a impaciência ou as ansiedades de antes e por vezes caía numa espécie de torpor, com um estranho (alguns diziam “transcendental”) sorriso nos lábios. É beatitude, dizia o swami -- está se tornando um santo. O templo sentiu que ele precisava ser protegido nesse estágio: não saía mais nem fazia coisa nenhuma desacompanhado e era enfaticamente dissuadido de manter contato com o mundo exterior.

Embora os pais de Greg não tivessem comunicação direta com ele, recebiam notícias

esporádicas do templo -- notícias cada vez mais pontuadas por relatos de seu “progresso

espiritual”, sua iluminação”, relatos ao mesmo tempo tão vagos e incompatíveis com o Greg que conheciam que, aos poucos, começaram a se alarmar. Certa vez, escreveram

diretamente ao swami e receberam uma resposta tranquilizadora e apaziguante.

Foi preciso esperar mais três anos para que os pais de Greg decidissem ir ver por si

mesmos. O pai não estava bem de saúde e temia nunca mais ver o filho “desaparecido”

caso esperasse mais. Diante disso, o templo finalmente permitiu a visita. Em 1975, portanto, depois de quatro anos sem vê-lo, visitaram-no no templo de Nova Orleans.

Ficaram horrorizados: o filho esguio e cabeludo tinha se tornado gordo e careca; trazia um sorriso permanente e “estúpido” no rosto (foi assim pelo menos que seu pai o descreveu); deixava escapar de repente trechos de canções e versos e fazia comentários idiotas”, sem quase nenhuma demonstração de emoção mais profunda (“como se tivesse sido escavado, oco no interior”, disse o pai); tinha perdido o interesse por qualquer coisa atual; estava desorientado -- e completamente cego. O templo, surpreendentemente, concordou com sua partida -- talvez sentissem que sua ascensão tinha ido longe demais e começassem a se inquietar com seu estado.

Greg foi internado, examinado e transferido para a neurocirurgia. A visualização do

cérebro mostrou um enorme tumor de linha mediana, destruindo a glândula pituitária e a

região do quiasma óptico adjacente e se estendendo para ambos os lados do lobo frontal.

Também atingia, para trás, os lobos posteriores e temporais e, em declive, o diencéfalo, ou prosencéfalo. Na cirurgia, descobriram que o tumor era benigno, um meningioma -- mas que tinha inchado até atingir o tamanho de um pequeno pomelo ou laranja, e embora os cirurgiões tenham podido removê-lo quase por inteiro, não podiam reverter os estragos que já haviam sido feitos.

Greg agora não estava apenas cego, mas seriamente incapacitado neurológica e

mentalmente -- uma desgraça que poderia ter sido evitada se suas primeiras queixas sobre o obscurecimento da visão tivessem sido levadas em conta e ao senso médico, e mesmo ao bom senso, tivesse sido permitido avaliar o seu estado. Já que, tragicamente, não se devia esperar nenhum tipo de recuperação, ou muito pouca, Greg foi levado para o Williamsbridge, um hospital para doentes crônicos, um rapaz de 25 anos cuja vida ativa chegara ao fim e para quem os prognósticos eram considerados desanimadores.

Encontrei Greg pela primeira vez em abril de 1977, quando chegou ao Williamsbridge

Hospital. Desprovido de cabelo e pêlos faciais e com maneiras infantis, parecia mais jovem que seus 25 anos. Estava gordo, como um buda, com um rosto vago e afável, e os olhos cegos vagando ao acaso nas órbitas, enquanto permanecia sentado, imóvel em sua cadeira de rodas. Faltava-lhe espontaneidade e não iniciava qualquer interação, mas respondeu pronta e apropriadamente quando me dirigi a ele, embora termos curiosos por vezes tomassem seu pensamento, fazendo emergir desvios associativos ou fragmentos de canções e rimas. Entre as perguntas, se o tempo não fosse todo preenchido, costumava haver um silêncio profundo, ainda que ele pudesse cair num dos cantos ou mantras suaves e murmurantes de Hare Krishna se o silêncio se prolongasse por mais de um minuto. Continuava a ser, ele dizia, “um completo crente”, devoto das doutrinas e objetivos do grupo.

Eu não conseguia extrair dele nenhuma história conseqüente -- para começar, não sabia direito por que estava no hospital e me deu diferentes razões quando lhe perguntei sobre isso; primeiro, disse: “Porque não sou inteligente”; depois: “Porque tomei drogas no passado”. Sabia ter estado no templo principal dos Hare Krishnas (“uma casa grande e vermelha, na Henry Street, número 439, no Brooklyn”), mas não que posteriormente

estivera no templo deles em Nova Orleans. Também não se lembrava de que passara a

apresentar sintomas lá -- a começar, sobretudo, pela perda da visão. Com efeito, parecia

ignorar ter tido qualquer problema: que estivesse cego, que fosse incapaz de andar com

firmeza ou estivesse de alguma forma doente.

Inconsciente -- e indiferente. Parecia afável, plácido, esvaziado de qualquer sentimento foi essa estranha serenidade que a irmandade dos krishnas percebeu, aparentemente, como um “êxtase”, e de fato, a certa altura, o próprio Greg usou o termo. “Como você se sente?”, eu batia na mesma tecla. “Sinto-me em êxtase”, ele respondeu certa vez, “tenho medo de cair de novo no mundo material.” Nesse período em que esteve internado pela primeira vez no hospital, muitos de seus companheiros Hare Krishnas vieram visitá-lo; eu via com frequência vestes alaranjadas pelos corredores. Vinham visitar o pobre, cego e vazio Greg, e arrebanhar-se em torno dele; viam-no como tendo alcançado a “separação”, como um Iluminado.

Ao perguntar-lhe sobre fatos e personalidades do momento, percebi a profundidade de

sua desorientação e confusão. Quando lhe perguntei quem era o presidente, ele disse:

“Lyndon”, e em seguida: “aquele que foi baleado”. Eu induzi: “Jimmy...”, e ele respondeu: “Jimi Hendrix” -- e quando explodi numa gargalhada ele disse que talvez uma Casa Branca musical fosse uma boa idéia. Outras poucas perguntas me convenceram de que Greg não tinha praticamente nenhuma memória dos acontecimentos posteriores a 1970, certamente nenhuma memória coerente ou cronológica deles. Parecia ter sido abandonado, desamparado, nos anos 60 -- sua memória, seu desenvolvimento e sua vida interior pareciam ter sido interrompidos desde então.

Seu tumor, de crescimento lento, estava enorme quando foi finalmente removido em

1976, mas apenas nos últimos estágios de seu crescimento, quando destruiu o sistema de

memória no lobo temporal, é que impediu realmente o cérebro de registrar novos

acontecimentos. No entanto, Greg tinha dificuldades -- não absolutas, mas parciais -- até

mesmo de se lembrar de acontecimentos do final dos anos 60, que devem ter sido

perfeitamente registrados na época. Assim sendo, para além da incapacidade de registrar

novas experiências, houvera uma erosão das memórias existentes (uma amnésia retroativa) voltando muitos anos antes de seu tumor se desenvolver. Não havia um desligamento absolutamente pontual, mas um decréscimo temporal, de forma que figuras e fatos entre 1966 e 1967 eram lembrados na íntegra, acontecimentos entre 1968 e 1969, apenas parcial e eventualmente, e os posteriores a 1970, quase nunca.

Era fácil demonstrar a gravidade de sua amnésia imediata. Se eu lhe desse uma lista de palavras, era incapaz de se lembrar de qualquer uma delas após um minuto. Quando lhe contei uma história e pedi que a repetisse, ele o fez de uma maneira cada vez mais

confusa, cada vez com mais contaminações” e associações digressivas algumas

cômicas, outras extremamente esquisitas -- até que, em cinco minutos, sua história não

tivesse mais nenhuma semelhança com a que eu lhe contara. Assim, quando lhe contei a

fábula do leão e do camundongo, ele logo se afastou da história original e fez o

camundongo ameaçar devorar o leão -- tinham se transformado num camundongo gigante e num mini-leão. Ambos eram mutantes, explicou Greg quando o questionei sobre suas digressões. Ou talvez, ele disse, fossem criaturas de um sonho, ou de “uma história alternativa” onde os camundongos fossem de fato os reis da selva. Cinco minutos depois, não tinha mais a menor lembrança da história.

Soube, pelo assistente social do hospital, que ele era apaixonado por música,

especialmente as bandas de rock-and-roll dos anos 60; vi pilhas de discos assim que entrei em seu quarto e uma guitarra encostada na cama. Fiz perguntas sobre o assunto e deu-se uma completa transformação -- ele perdeu sua desconexão, a indiferença, e falou com grande animação sobre suas bandas de rock e músicas prediletas -- sobretudo do Grateful Dead. “Fui vê-los no Filímore East e no Central Park”, disse. Lembrava-se em detalhes do programa inteiro, mas “minha predileta”, acrescentou, “é ‘Tobacco Road’ “. O título me evocou a melodia, e Greg cantou a canção inteira com muito sentimento e convicção uma profundidade de sentimento da qual, até então, não dera o menor sinal. Parecia transformado, uma pessoa diferente, inteira, enquanto cantava.

“Quando você os viu no Central Park?”, perguntei.

“Já faz um tempo, mais de um ano talvez”, respondeu -- mas na realidade fazia oito anos que tinham tocado lá pela última vez, em 1969. E o Filímore East, o célebre teatro de rock-and-roll onde Greg também tinha visto a banda, não sobreviveu ao início dos anos 70. Ele prosseguiu dizendo que certa vez ouvira Jimi Hendrix no Hunter College, e o Cream, com Jack Bruce no baixo, Eric Clapton na guitarra e Ginger Baker, “um fantástico baterista”. “Jimi Hendrix”, acrescentou reflexivamente, “onde ele anda? Não tenho ouvido falar nele.” Falamos dos Rolling Stones e dos Beatles -- “Grandes bandas”, comentou Greg, “mas não me deixam ligado como o Dead. Que banda!”, ele continuava, “não há ninguém como eles. Jerry Garcia -- ele é um santo, um guru, um gênio. Mickey Hart, Bill Kreutzmann, os bateristas são demais. Tem Bob Weir, Phil Lesh; mas Pigpen -- eu o adoro.”

Foi o que delimitou a extensão de sua amnésia. Lembrava-se perfeitamente de canções

entre 1964 e 1968. Lembrava-se de todos os membros fundadores do Grateful Dead de

1967. Mas ignorava que Pigpen, Jimi Hendrix e Janis Joplin estavam todos mortos. Sua

memória fora interrompida por volta de 1970, ou antes. Estava preso nos anos 60, incapaz de seguir adiante. Era um fóssil, o último hippie.

No início, não quis confrontar Greg com a enormidade de sua perda do tempo, sua

amnésia, nem dar a entender por alusões involuntárias (que ele certamente teria percebido, já que era tão sensível a anomalias e sinais), por isso, mudei de assunto e disse: “Deixe-me examiná-lo”.

Notei que estava de certa forma fraco e espástico em todos os membros, mais do lado

esquerdo, e mais nas pernas. Não podia ficar de pé sozinho. Seus olhos mostravam uma

completa atrofia óptica -- era impossível para ele ver o que quer que fosse. Mas,

estranhamente, não parecia ter consciência de estar cego e supunha que eu estivesse lhe

mostrando uma bola azul, uma caneta vermelha (quando na realidade tratava-se de um

pente verde e um relógio de bolso). Também não parecia “olhar”; não fazia qualquer esforço para se virar na minha direção, e quando conversávamos freqüentemente deixava de me encarar, de olhar para mim. Quando lhe perguntei sobre a visão, ele admitiu que seus olhos não estavam “tão bem assim”, mas acrescentou que gostava de “assistir” à TV. Assistir à televisão para ele, observei mais tarde, consistia em acompanhar com atenção o som de um filme ou programa e inventar cenas visuais para ele (mesmo se nem estivesse olhando para a TV). Parecia pensar, de fato, que isso era o que significava “ver”, que era isso o que significava “assistir à TV”, e que era o que todos nós fazíamos. Talvez tivesse perdido a própria idéia do que é ver.

Achei esse aspecto da cegueira de Greg, sua singular cegueira da cegueira, seu presente desconhecimento do significado de “ver” e “olhar”, profundamente desconcertante. Parecia indicar algo mais estranho e complexo que um mero “déficit”, evidenciar mais propriamente uma alteração radical na própria estrutura do conhecimento, na consciência, na própria identidade.(nota 2: Outra paciente, Ruby G., era em alguns aspectos semelhante a Greg. Ela também tinha um enorme tumor frontal que, embora removido em 1973, deixou-a com amnésia, uma síndrome do lobo frontal e cega. Também não sabia que estava cega, e quando eu colocava minha mão diante dela e perguntava: “Quantos dedos?”, ela respondia: “A mão tem cinco dedos, é claro”.

Um desconhecimento mais localizado da cegueira pode surgir se houver destruição do

córtex visual, como na síndrome de Anton. Tais pacientes podem não saber que estão

cegos, mas de resto permanecem intatos. Já os desconhecimentos provocados por lesões

do lobo frontal são de uma natureza muito mais global -- assim, Greg e Ruby desconheciam não apenas estar cegos, mas (na maior parte das vezes) estar doentes, terem deficiências neurológicas e cognitivas devastadoras, e sua posição trágica e rebaixada na vida.)

Eu já tinha percebido algo assim quando testei sua memória, ao ver que, na verdade, seu confinamento a um único momento -- “o presente” -- estava desprovido de qualquer sentido de um passado (ou de um futuro). Dada essa falta radical de conexão e continuidade em sua vida interior, tive de fato o sentimento de que ele podia não ter uma vida interior sobre a qual discorrer, que lhe faltava o diálogo constante entre passado e futuro, entre experiência e sentido, que constitui a consciência e a vida interior para nós. Parecia não ter nenhum sentido de “seqüência” e carecer da tensão ansiosa e inquieta da expectativa, da intenção, que normalmente nos impulsiona ao longo da vida.

Algum sentido de seguimento, de “seqüência”, sempre nos acompanha. Mas esse sentido de movimento, de acontecimento, faltava a Greg; parecia emparedado, sem saber, num momento sem movimento, fora do tempo. E enquanto para nós o presente ganha sentido e profundidade pelo passado (daí tornar-se o “presente relembrado”, nas palavras de Gerald Edelman), assim como recebe seu potencial e tensão do futuro, para Greg ele era achatado e (à sua maneira escassa) completo. Esse viver-no-momento, que era tão manifestamente patológico, fora percebido no templo como a conquista de uma consciência superior.

Greg parecia adaptar-se ao Williamsbridge com notável facilidade, considerando-se que era um rapaz internado, provavelmente para sempre, num hospital para doentes crônicos. Não havia nenhum confronto furioso, nenhuma injúria contra o Destino, aparentemente nenhum sentimento de indignação ou desespero. Condescendente e com indiferença, Greg deixou-se cair na estagnação do Williamsbridge. Quando o confrontei com isso, ele disse: “Não tinha escolha”. E, da forma como falou, parecia sensato e verdadeiro. De fato, parecia eminentemente filosófico sobre a questão. Mas era uma filosofia possibilitada por sua indiferença, sua lesão cerebral.

Seus pais, tão distantes quando era rebelde e saudável, vinham vê-lo diariamente,

mimavam-no, agora que estava desamparado e doente; e, no que lhes dizia respeito,

podiam estar certos de que ele estaria sempre no hospital, sorrindo e grato pela visita. Se

não os estivesse “esperando”, tanto melhor -- podiam deixar de ir por um dia ou mais, se estivessem viajando; ele não percebia, e era mais cordial que nunca na visita seguinte.

Greg logo se instalou, com seus discos de rock e sua guitarra, seus terços de Hare

Krishna, seus livros em fita e uma lista de programas -- fisioterapia, terapia ocupacional,

grupos de música, teatro. Logo depois de ser internado, foi transferido para uma ala de

pacientes mais jovens, onde se tornou popular com sua personalidade aberta e solar. Na

verdade, não conhecia nenhum dos outros pacientes ou funcionários, ao menos durante

vários meses, mas era invariável e indiscriminadamente amável com todos. E havia pelo

menos duas amizades especiais, não fortes, mas com uma espécie de total aceitação e

estabilidade. A mãe dele relembra “Eddie, que tinha esclerose múltipla... ambos adoravam música, tinham quartos adjacentes, costumavam ficar juntos... e Judy, que tinha paralisia cerebral, ela também ficava horas ao lado dele”. Eddie morreu e Judy foi para um hospital no Brooklyn; não houve outro tão próximo durante muitos anos. A sra. F. lembra-se deles, mas Greg não, nunca perguntou por eles, ou sobre eles, depois que partiram -- talvez, pensava sua mãe, estivesse mais triste ou, pelo menos, menos animado, já que eles o estimulavam, faziam-no falar, ouvir discos e inventar poeminhas cômicos, contar piadas e cantar; tiravam-no “daquele estado morto” em que, caso contrário, caía. Um hospital para doentes crônicos, onde pacientes e funcionários convivem por anos, é um pouco como um vilarejo ou uma cidade do interior: todo mundo acaba encontrando, conhecendo, todo mundo. Eu via com freqüência Greg nos corredores, sendo levado na cadeira de rodas para diferentes programas ou para o pátio, no rosto o mesmo olhar desemparelhado e cego, e ainda assim penetrante. E aos poucos passou a me conhecer, o bastante para saber meu nome e perguntar toda vez que nos encontrávamos: “Como vai, doutor Sacks? Quando sai o próximo livro?” (uma pergunta que me atormentava no aparentemente interminável ínterim de onze anos entre a publicação de “Despertando” e a de A leg to stand on).

Podia, portanto, aprender nomes, com contatos freqüentes, e em relação a eles ia

recordando uns poucos detalhes sobre cada nova pessoa. Assim, conheceu Connie

Tomaino, a musicoterapeuta -- reconhecia a voz dela, seus passos, imediatamente —‘mas nunca conseguia lembrar onde ou como a conhecera. Um dia, Greg começou a falar de “outra Connie”, uma menina chamada Connie que ele conhecera no ginásio. Essa outra Connie, ele nos disse, também era excepcional, muito musical -- “Por que todas as Connies são tão musicais?”, ele provocava. A outra Connie regia grupos musicais, dizia ele, escrevia partituras, tocava acordeão nos recitais da escola. A esta altura, começamos a nos dar conta de que essa “outra” Connie era na realidade a própria Connie, e isso nos foi confirmado quando ele acrescentou: “Sabe, ela tocava trompete também” (Connie Tomaino é trompetista profissional). Esse tipo de situação acontecia freqüentemente com Greg, quando colocava as coisas num contexto errado ou não conseguia conectá-las com o presente.

Sua idéia de que havia duas Connies, a segmentação de Connie em duas, era

característica da confusão em que por vezes se encontrava, sua necessidade de supor

figuras adicionais por não conseguir manter ou conceber uma identidade no tempo. Com uma repetição consistente, Greg era capaz de aprender alguns fatos, e estes eram

guardados. Mas ficavam isolados, despidos de contexto. Uma pessoa, uma voz, um lugar se tornavam lentamente “familiares”, mas ele continuava incapaz de lembrar onde tinha encontrado a pessoa, ouvido a voz, visto o lugar. Especificamente, era a memória

direcionada para um contexto (ou “episódica”) que tinha sido inteiramente desarranjada em Greg como ocorre com a maioria dos amnésicos.

Outras formas de memória estavam intatas; assim, Greg não tinha dificuldade para

lembrar ou aplicar verdades geométricas que aprendera na escola. Percebia

instantaneamente, por exemplo, que a hipotenusa de um triângulo era menor que a soma

dos lados -- logo, a chamada memória semântica estava nitidamente intata. Além disso, ele não apenas mantinha sua capacidade de tocar guitarra, como na realidade ampliara seu repertório musical, aprendendo novas técnicas e posições com Connie; também aprendeu a datilografar em Williamsbridge -- logo, sua memória processual também não tinha sido afetada.

Por fim, parecia haver um tipo de habituação lenta ou familiarização — de maneira que se tornou capaz, em três meses, de orientar-se dentro do hospital, ir à lanchonete, ao cinema, ao auditório, ao pátio, seus lugares preferidos. Esse tipo de aprendizado era demasiado lento, mas, uma vez alcançado, tenazmente mantido.


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