O lugar das greves na luta de classes segundo a teoria bakuninista



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O lugar das greves na luta de classes segundo a teoria bakuninista
Selmo Nascimento da Silva*
1. Introdução
O anarquista russo Mikhail Bakunin (1814-1876) teve uma participação fundamental na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), fundada em 1864, não só contribuindo para a sua expansão, com a fundação de seções da AIT em vários países e regiões da Europa e dos Estados Unidos, mas também para a construção da orientação revolucionaria da AIT. Sua importância na construção da perspectiva revolucionária é destacada por pesquisadores como Gaston Leval (2007), que defende a tese de que Bakunin seria o “fundador” do sindicalismo revolucionário. Entretanto, as contribuições do anarquista russo são sistematicamente ignoradas pelos pesquisadores brasileiros, que, quando muito, se limitam a reproduzir as visões preconceituosas e superficiais sobre a teoria bakuninista.

Um exemplo dessa abordagem superficial é o artigo do sociólogo Frederico Lisbôa Romão, Da “greve geral de massas” à “greve vaca brava”1, onde o autor se proponho debater e analisar as diversas formas e estratégias das greves, mas ao se referir às teorias anarquistas se limita em reproduzir as críticas de Karl Marx à abordagem do Pierre-Joseph Proudhon às coalizões operárias e as concepções bakuninistas são analisadas a partir das críticas feitas por Geoffrey Ostergaard ao escrever o verbete “anarquismo” do Dicionário do pensamento marxista (ROMÃO, 2010). Ou seja, Romão não analisa os textos originários dos teóricos anarquistas, apenas reproduz as críticas marxistas ao anarquismo.

Portanto, o presente artigo tem por objetivo contribuir para a superação dessa lacuna, ou seja, apresentar e analisar o lugar das greves na luta de classes segundo a ideologia, a teoria, a estratégia e o programa revolucionário anarquista. Para isso, são estudados, a partir de seus textos, as intervenções de Bakunin e de seus demais companheiros da Fraternidade Revolucionária Internacional, especialmente James Guillaume e Adhémar Schwitzguébel, no interior da Associação Internacional dos Trabalhadores.
2. As greves na perspectiva anarquista
A abordagem anarquista sobre as greves desenvolvida por Proudhon e Bakunin pressupõe a perspectiva teórica e metodológica do materialismo social e da dialética serial antinômica. Andrey Cordeiro Ferreira explica o materialismo social e a dialética serial antinômica anarquistas da seguinte maneira:

Podemos dizer que Bakunin faz uma análise dialética que lança mão de um conjunto de oposições dialéticas que ao mesmo tempo englobam e materializam suas categorias, indo do abstrato ao concreto e do lógico ao histórico, da unicidade à multiplicidade, começando pela dialética autoridade-liberdade e se materializando em oposições como natureza/sociedade e reação revolução. De maneira geral, existe outro componente fundamental, que é a centralidade do conceito de sociedade. A ideia de sociedade é assim uma categoria ontológica (pois ela diz respeito à teoria do ser e do sujeito em Bakunin) e política, pois dessa perspectiva ele considera que sendo a sociedade parte do mundo material e criadora das formas de pensamento e instituições, ela deve ser a protagonista dos processos revolucionários. E aqui chegamos à análise da parte final do documento em que Bakunin vai apresentar o programa e as tarefas práticas da organização. A centralidade da ideia de sociedade e de coletividade no plano ontológico e teórico, vai se expressar no plano político na ideia de revolução social. É por isso que chamamos a concepção materialista de Bakunin de materialismo sociológico. (FERREIRA, 2013: 7-8).


Portanto, é possível afirmar que na teoria anarquista, as greves fazem parte das estratégias de luta e resistência da classe trabalhadora contra a exploração e a opressão impostas pelo sistema capitalista. O antagonismo entre as classes sociais, resultante da exploração burguesa sobre a força de trabalho da classe trabalhadora, gera não só as disparidades sociais e econômicas entre as classes, mas sobre tudo o antagonismo político entre burgueses e trabalhadores. Portanto, a luta de classes é a principal expressão do antagonismo entre as classes sociais na sociedade capitalistas, pois explicita as contradições sociais, econômicas e políticas entre burgueses e trabalhadores, entre capital e trabalho.

No materialismo social de Bakunin a vida e a dinâmica social são resultantes da dialética entre a ação e a reação perpétuas, “que combinando-se num único movimento constituem o que chamamos de solidariedade, vida causalidade universais” (BAKUNIN, 1988: 57). A dialética ação-reação também permite que Bakunin entenda vida social não só como o produto de múltiplas combinações, mas também como uma totalidade. “A ação e a reação incessante do todo sobre cada ponto e de cada ponto sobre o todo constituem, como já dissemos, a vida” (BAKUNIN, 1988: 57 e 62). Portanto, pode-se, a partir dessa perspectiva bakuninista, entender a contradição entre capital e trabalho, e, consequentemente, a luta de classes como resultantes da dialética da totalidade dos fatores sociais e históricos, em diferentes combinações numa série ininterrupta de ações e reações. Assim, o sistema capitalista e suas contradições são o produto histórico e social da pluralidade de combinações do movimento contínuo das ações e reações e da multicausalidade dos fenômenos sociais.

Todas as contradições e conflitos entre a classe trabalhadora e a burguesia para Bakunin, são resultantes da dialética ação-reação e, ao mesmo tempo, são responsáveis pelo desenvolvimento de outras séries de contradições da dialética criação-destruição, resistência-dominação, ruptura-assimilação, revolução-contrarrevolução, que se combinam e se anulam, assumindo os contornos e os conteúdos das diversas formas de luta e organização da classe trabalhadora que entram em choque com as diversas formas de repressão e controle desenvolvidas pela classe burguesa.

As séries de contradições que se desenvolvem a partir da dialética ação-reação e da dialética criação-destruição podem ser melhor entendidas analisando a dialética bakuninista do trabalho.

O Homem só se emancipa da pressão tirânica, que sobre todos exerce a natureza exterior, pelo trabalho coletivo; isso porque o trabalho individual, impotente e estéril, nunca poderia vencer a natureza. O trabalho positivo, aquele que criou todas as riquezas e todas a nossa civilização, sempre foi um trabalho social, coletivo; apenas, até o presente, ele foi iniquamente explorado por indivíduos em detrimento das massas operárias. (BAKUNIN, 2008: 76).
O trabalho é, portanto, ação humana criadora, eminentemente emancipatória, entretanto, a exploração do trabalho é a reação destrutiva das classes dominantes, que converte o trabalho coletivo em escravidão, em fonte de privilégio e riqueza de poucos e em fonte de opressão e miséria de muitos.

Como se vê, o anarquista russo recorre à dialética serial de Proudhon que, segundo Georges Gurvitch, é uma dialética que se opõe à dialética hegeliano, uma vez que se trata de uma “dialética antinômica, negativa, antitética, que rejeita qualquer síntese”, “um método dialético que procura buscar a diversidade em todos os seus detalhes” (GURVITCH, 1987: 100). A filiação da dialética bakuninista à dialética proudhoniana fica ainda mais explícita quando Gurvitch explica a dialética do trabalho do anarquista francês, para qual o trabalho

pode ser, segundo as circunstâncias, a maior alegria ou o maior sofrimento; o trabalho é a libertação do homem, mas igualmente a ameaça constante de sua escravidão. (…) A dialética inerente ao trabalho torna-se trágica, quando a organização do trabalho é imposta de cima aos trabalhadores, seja pela vontade dos proprietários ociosos (senhores feudais e padres), dos patrões privados ou do Estado e seus funcionários. (GURVITCH, 1987: 103).
São sobre esses marcos que Bakunin, e também Proudhon, analisam a luta de classes, os conflitos e contradições entre capital e trabalho. As greves, portanto, são produtos desse movimento incessante de ação-reação que se combina à dialética criação-destruição. Portanto, as greves, ao lado dos motins, das sabotagens, das revoltas, das barricadas, das insurreições, das diversas formas de ação direta e de resistência, são reações, respostas da classe trabalhadora diante da exploração e da opressão do regime capitalista. Constituem rupturas com a ordem vigente, uma vez que questionam e suspendem, mesmo que temporariamente, o contrato de trabalho. Como não poderia ser diferente, os movimentos grevistas são considerados parte da estratégia revolucionária. Isso fica explícito no texto de Bakunin intitulado a Dupla greve de Genève, publicado em 1869 no Jornal L'Egalité.

As notícias relativas ao movimento operário europeu podem resumir-se numa palavra: greves. Na Bélgica, greve dos tipógrafos em várias cidades, greve dos fiandeiros em Gande, greve dos tapeceiros em Bruges; na Inglaterra, greve iminente dos distritos manufatureiros; na Prússia, greve dos mineiros de zinco; em Paris, greve dos pedreiros e pintores; na Suíça, greves em Basileia e em Genebra. À medida que avançamos as greves multiplicam-se. Que quer dizer isto? Que a luta entre o trabalho e o capital se aguça cada vez mais, que a anarquia econômica é cada vez mais profunda, e que caminhamos a passos largos para o fim inevitável a que nos conduz esta anarquia: a revolução social. (BAKUNIN, 1979: 10-11).


É importante ressaltar que a dupla greve de Genebra e as demais greves destacadas por Bakunin ocorreram num contexto de expansão da Associação Internacional do Trabalhadores, enquanto alternativa de organização e de luta da classe trabalhadora. A multiplicação das greves fazia parte da estratégia da própria AIT. Assim, Bakunin recorre mais uma vez à teoria proudhoniana, para afirmar que as greves pressupõem o desenvolvimento da força coletiva dos trabalhadores (BAKUNIN, 1979: 11), isto é, pressupõem a organização e o desenvolvimento de estratégias de resistência e de ruptura com a ordem capitalista.

As greves assumem a dimensão de “guerra social”, ou seja, de conflitos entre classes antagônicas. Portanto, na dialética antinômica bakuninista, as greves cumpririam uma dupla função: intensificariam as contradições entre a classe trabalhadora e a burguesia e, simultaneamente, fortaleceriam os laços de solidariedade entre os trabalhadores. A série dialética iniciada por essa dupla função das greves, produziriam uma dupla ação: a negação da ordem burguesa e afirmação de uma nova ordem social.

Et la grève, c’est le commencement de la guerre sociale du prolétariat contre la bourgeoisie, encore dans les limites de la légalité. Les grèves sont une voie précieuse sous ce double rapport, que, d’abord, elles électrisent les masses, retrempent leur énergie morale, et réveillent en leur sein le sentiment de l’antagonisme profond qui existe entre leurs intérêts et ceux de la bourgeoisie, en leur montrant toujours davantage l’abîme qui les sépare désormais irrévocablement de cette classe; et qu’ensuite, elles contribuent immensément à provoquer et à constituer entre les travailleurs de tous les métiers, de toutes les localités, et de tous les pays, la conscience et le fait même de la solidarité: double action, l’une négative et l’autre positive, qui tend à constituer directement le nouveau monde du prolétariat, en l’opposant d’une manière quasi-absolue au monde bourgeois. (BAKUNIN, 1910: 438-439).
A partir da dialética serial antinômica, a teoria bakuninista pressupõe que os movimentos grevistas podem assumir formas e conteúdos revolucionários. Entretanto, o caráter revolucionário das greves depende do desenvolvimento das forças coletivas do proletariado. Por essa razão, Bakunin considerava a organização da Internacional era central para a luta emancipacionista dos trabalhadores.

L’Internationale, en mettant ainsi le prolétariat en dehors de la politique des États et du monde bourgeois, constitue un monde nouveau, le monde du prolétariat solidaire de tous les pays. Ce monde est celui de l’avenir; c’est d’un côté l’héritier légitime, mais en même temps le démolisseur et l’enterreur de toutes les civilisations historiques, privilégiées, et comme telles complètement épuisées et condamnées à mourir; par conséquent le créateur obligé d’une civilisation nouvelle, fondée sur la ruine de toutes les autorités divines et humaines, de tous les esclavages et de toutes les inégalités. (BAKUNIN, 1910: 437).


Na tese bakuninista as formas de organização e luta dos trabalhadores são partes constitutivas das forças coletivas dos trabalhadores, uma força destrutiva ao se colocar em oposição inconciliável com a ordem burguesa. Porém, dialeticamente, as forças coletivas também são construtivas, pois estabelecem um programa revolucionário de construção de uma nova sociedade, ou seja, da sociedade socialista. Entretanto, se as organizações e as formas de luta não assumirem um caráter efetivamente classista, uma ação política própria da classe trabalhadora, podem contraditoriamente, ser convertidas em obstáculos para a luta dos trabalhadores, como resultante da ação das forças conservadoras que aponta para a assimilação sistêmica das organizações e das lutas proletárias.

Existem, portanto, diferenças fundamentais com a perspectiva marxista que entende as greves e as organizações sindicais com as primeiras tentativas de resistência dos trabalhadores diante da exploração capitalistas, constituindo uma etapa no processo educativo dos trabalhadores na luta de classes. Como explicita Friedrich Engels na sua obra A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, publicado em 1845. Engels estuda as condições de vida dos trabalhadores ingleses nas primeiras décadas do século XIX, analisando e descrevendo as condições de miséria e exploração a que estavam submetidos pelo desenvolvimento da indústria capitalista. Ao voltar sua análise para os movimentos operários, o comunista alemão destaca que a “revolta dos operários contra a burguesia seguiu de perto o desenvolvimento da indústria e atravessou diversas fases” (ENGELS: 2008: 248), sendo que as formas de revolta teriam evoluído do crime, passando pela destruição das máquinas, chegando à conquista do direito à livre associação operária em 1824 (ENGELS: 2008: 248-250), até alcançar uma forma superior de protesto do movimento operário, que para Engels seria o movimento cartista. As greves teriam um papel eminentemente pedagógico.

Essas greves são em geral pequenas escaramuças de vanguarda e, às vezes, combates mais importantes; não solucionam nada definitivamente, mas são a prova mais segura de que se aproxima o confronto decisivo entre o proletariado e a burguesia. Elas são a escola de guerra na qual os operários se preparam para a grande batalha, agora inevitável; são os pronunciamentos das distintas categorias de operários, consagrando sua adesão ao grande movimento proletário. (…) E as greves, como escola de guerra, têm uma eficácia insuperável – nelas se desenvolve a coragem própria dos ingleses. (ENGELS: 2008: 258-259).
Nos debates no interior da Primeira Internacional, a perspectiva anarquista sobre as greves assume os contornos e conteúdos específicos da estratégia revolucionária do anarquismo. Diferenciando-se das demais correntes e tendências que confluíam para a AIT, os anarquistas construíram as bases, os princípios, as estratégias e o programa do sindicalismo revolucionário.
3. O debate sobre as greves no interior da Primeira Internacional: a contribuição anarquista
Em 1864, depois de fugir do exílio na Sibéria, Bakunin retorna para a Europa e atua para aglutinar militantes revolucionários para formar uma organização anarquista clandestina. Assim, em 1864, em Florença, é fundada a Fraternidade Revolucionária Internacional, que reuniu militantes de diversas nacionalidades em torno de uma ideologia, teoria, estratégia e programa anarquista da revolução social2. No mesmo ano, operários franceses e ingleses fundaram a Associação Internacional dos Trabalhadores. Considerando a importância de uma organização internacional da classe trabalhadora, os militantes da Fraternidade Internacional se inserem nas suas lutas e contribuem de maneira decisiva para a sua organização e para a construção da sua linha política coletivista e revolucionária. Os bakuninistas organizam uma tendência coletivista no interior da AIT, trata-se da Aliança da Democracia Socialista, que não era uma organização especificamente anarquista, mas reunia militantes anarquistas e coletivistas revolucionários.

A atuação dos bakuninistas e aliancistas foi fundamental para a orientação revolucionária da AIT. Como destaca Jean Maitron (1975) entre a sua fundação e o seu segundo congresso, realizado em Lausanne no ano de 1867, a AIT estava sob a hegemonia das tendências mutualistas do sindicalismo francês. Entretanto, a partir do terceiro congresso, realizado em Bruxelas no ano de 1868, as orientações coletivistas passam a assumir a sua direção política, coincidindo com a participação ativa dos bakuninistas e aliancistas (MAITRON, 1975: 42-47).

Foi no congresso de Bruxelas que os debates sobre as estratégias das greves dos trabalhadores passam a ter um lugar relevante, como mostram as revoluções sobre o tema:

Le Congrés déclare que la grève n'est pas un moyen d'affranchir complètement le travailleur, mais qu'elle est souvent une nécessité dans la situation actuelle de lutte entre le travail et le capital.

Qu'il y a lieu de soumettre la grève à certaines regles, à des conditions d'organisation, d'opportunité et de légitimité.

Qu'au point de vue de l'organisation de la grève, il y a lieu, dans le professions qui n'ont pas encore de sociétés de resistance..., de créer de instituions, puis de solidariser entre elles le sociétés de resistance de toutes le professions et tous les pays; qu'en un mot, il faut continuer dans ce sens l'oeuvre entre prise par l'Internationale et s'efforcer de faire entre le prolétariat en massa dans cette association.


Qu'au point de vue de l'opportunité et de la légitimité, il y a lieu de nommer dans la Fédération des groupes de résistance de chaque localité une Commission formée de délégués de ces divers groups, qui constituerait un Conseil d'arbritrage, pour juger de l'opportunité et la legitimité de gréve éventuelles; du reste, qu'il est necessaire de laisser, pour le mode de formation de ce Conseil d'arbitrage, une certaine latitude aux différentes section, , suivant les moeurs, de les habitudes et les législations particulières. (COMPÈRE-MOREL, 1912: 509).
Como se vê, o congresso da AIT de 1868 concluiu que as greves estão incluídas entre as formas de luta da classe trabalhadora, resultante do conflito entre capital e trabalho e são parte, portanto, da luta pela emancipação dos trabalhadores. Entretanto, a organização dos trabalhadores para a deflagração de movimentos grevistas aparece como fundamental e essa organização passaria necessariamente pelas sociedades de resistência, enquanto instrumento para garantir a solidariedade política e econômica não só entre os trabalhadores de uma determinada categoria em greve, mas também e principalmente entre os trabalhadores de todos os países, reforçando a perspectiva internacionalista. No congresso seguinte, realizado em Basileia em 1869, há a orientação para a criação das caixas de resistência por todos os trabalhadores em todos os países, deixando mais explícita a solidariedade econômica, além disso, o Conselho Geral passaria a servir, se necessário, de intermediário para a união das sociedades de resistência de todos os países (COMPÈRE-MOREL, 1912: 509-510).

Outro destaque é a proposta de organização do movimento grevista a partir de uma federação dos grupos de resistência e a constituição de um Conselho, cujas funções seriam a orientação da direção do movimento, respeitando a pluralidade das diferentes seções. Sobre essa estrutura de organização e a preocupação com a legitimidade das greves, o historiador Victor Garcia que os delegados presentes ao Congresso de Bruxelas estavam preocupados em garantir o caráter classista para impedir influências externas à classe trabalhadora, uma vez que as câmaras sindicais, especialmente na França, eram compostas pelos trabalhadores e pelos representantes dos empresários.

Los consejos de arbitraje, por ejemplo, deben ser integrados por obreros exclusivamente ya que el congreso, cuando se debatió este punto, se manifestó abiertamente enemigo a un arbitraje en el que interviniera el capitalista o el burgués. En cuanto a la legitimidad y a la legislación se hace referencia concretamente a una legitimidad productora y a una legislación emanada de los congresos obreros. (GARCIA, 2003).
O relato de Oscar Testut, em sua obra Association Internacionale des Travailleurs, publicada em 1870, reforça o papel da AIT na expansão das greves naquele período. Depois de enumerar diversos movimentos grevistas do ano de 1869, Testut analisa o papel da AIT:

L'Internationale a joué un rôle important dans toutes ces grèves; elle em a suscité quelquers-unes, lorsqu'il lui a paru opportun de les provoquer; la plupart ont été subventionnées par elle. Par son influence colossale et les capitaux dont elle dispose, elle procure aux grévistes des secours, des moyens de lutter avec avantage contre les patrons et les capitaliste; par ses ramifications dans toutes les contrées, elle empêche les ouvriers d'un pays de venir faire la concurrence aux coalisés d'un autre, ou même fournit à ces derniers les renseignements et le crédit nécessaires pour se déplacer et aller dans une autre localité où leur assure du travil; tantôt elle délègue aux grévistes des chefs de l'Internationale pour les encourager et les souténir dans leur lutte; met tout en œuvre pour prolonger et étendre la cessation du travail dans le but d'amener les patrons à composition. Tantôt des comités occultes sont orgnisés: les métiers, les usines, les ateliers sont mis en interdit; des amendes sont décrétées contre les patrons qui refusent d'adhérer au tarif proposé ou à l'augmentation demandée; à la fin de la gréve, les patrons sont obligés de s'acquitter du montant des condamnations prononcées contre eux. Ces sommes sont destinées à opérer le remboursement des prêts qui ont été faits aux grévistes soit par le Conseil général lui-même, soit par les Chambres ou Comités fédéraux, soit même par des corporations affiliées à l'Internationale. (TESTUT, 1870: 69).


Considerando o relato de Testut, a AIT logrou, no mínimo, relativo sucesso na aplicação da sua política para a estratégia das greves dos trabalhadores, constituindo uma rede de solidariedade e cooperação econômica para financiar os movimentos grevistas, bem como a constituição de uma articulação política que significou a presença de lideranças sindicais para auxiliar na deflagração e manutenção das greves. Outra política fundamental do internacionalismo da classe trabalhadora foi o esforço para impedir a contratação de trabalhadores para substituir os grevistas. O modelo de organização das federações de trabalhadores também tem êxito, como afirma Jacques Droz (1977: 716).

É fundamental, para a tese aqui defendida, destacar que a política da AIT sobre as greves aprovada no congresso de 1869 é o resultado da sistematização e do esforço de internacionalizar práticas e estratégias de luta e organização dos trabalhadores desenvolvidas ao longo do século XIX na Europa. Diversas experiências concretas contribuíram para a construção da linha política da AIT sobre as greves. A já cita dupla greve de Genebra é um bom exemplo de como as experiências concretas de luta se converteram em linha política. O relato feito por James Guillaume, professor e militante anarquista da seção suíça da AIT e companheiro de Bakunin, mostra a importância dessa greve:

Na primavera de 1868 foi deflagrada em Genebra (março) a famosa greve dos operários da construção civil, que teve tão grande repercussão. Essa greve foi a ocasião de um belo élan de solidariedade: as Seções genebresas da “fábrica” apoiaram as corporações da construção civil, e serviram-se generosamente de seu fundo de greve para ajudar os grevistas; nas outras localidades da Suíça francesa abriram-se subscrições, e somas mais ou menos importantes foram reunidas. Um delegado genebrês, Graglia, operário gravador, foi enviado a Paris e a Londres; os operários de Paris, respondendo ao apelo caloroso da Comissão parisiense (apelo assinado por Varlin, publicado em 5 de abril), participaram amplamente das despesas da greve; entretanto, Graglia fala com amargura, em suas cartas, da atitude egoísta das Trade Unions inglesas, “verdadeiras fortalezas”, das quais ele não pôde obter nenhuma ajuda. (GUILLAUME, 2009: 147-148).
Como se vê no relato de Guillaume, a AIT, a partir das políticas aprovadas em seu terceiro congresso, converteu em política internacional dos trabalhadores experiências de luta e de organização que tiveram êxito e marcaram aquele contexto do conflito entre as classes.

Uma análise superficial poderia levar à conclusão e de que todas as correntes e tendências do movimento dos trabalhadores que confluíram para a formação e constituição da AIT tinham o mesmo entendimento sobre a noção de greve, seu significado e seu lugar na luta de classes. Mas um estudo um pouco mais aprofundado mostra que as diferentes correntes e tendências não só tinham entendimentos distintos sobre as greves, mas também divergiam significativamente sobre o papel das greves na luta dos trabalhadores contra a exploração burguesa.

A própria resolução denuncia essas divergências, uma vez que a definição das greves é feita na forma de ressalva, isto é, afirmando que as greves não são o instrumento para a emancipação completa dos trabalhadores, mas sim uma necessidade da luta de classes. De fato, essa formulação parece ser um esforço para conciliar o movimento grevista com o objetivo final da AIT, isto é, com a luta pela emancipação econômica dos trabalhadores3.

Entre as tendências fundadoras da AIT estavam os mutualistas proudhonianos da França, cuja liderança mais expoente era Henri Tolain, cinzelador do setor de bronze de Paris. Diversos pesquisadores e historiadores defendem que os mutualistas constituíram a tendência que hegemonizou a política da AIT na sua fundação e nos seus primeiros congressos. E a concepção dos mutualistas sobre as greves é interpretada por determinados pesquisadores como uma posição de contrariedade aos movimentos grevistas. Jacques Droz está entre aqueles que defendem a tese de que os mutualistas seriam contrários às greves. Ele escreve no seu clássico Historia Geral do Socialismo:

No Congresso de Genebra (3-8 de Setembro de 1866), o primeiro congresso real, o tom dos debates foi dado pela delegação francesa, toda ela proudhoniana, ou quase toda. Dirigida por Tolain, defende a ideia da emancipação operária pela generalização do “mutualismo”: é preciso estabelecer “a troca baseando-se na reciprocidade, pela organização de um sistema de crédito mútuo e gratuito, primeiro nacional e depois internacional; não é destruir a sociedade existente, mas sim ordená-la”. Não à revolução, não à greve. (DROZ, 1977: 837).
Droz desenvolve seus argumentos apontando para certa evolução na política da AIT nos congressos seguintes, Congresso de Lausanne, em 1867, e, no já citado, Congresso de Bruxelas, onde a prática sistemática das greves pelos trabalhadores teria superado as concepções das tendências que seriam contrárias aos movimentos grevistas (DROZ, 1977: 837).

G. M. Stekloff é outro historiador que defende a tese de que os mutualistas proudhonianos seriam contrários aos movimentos grevistas. Em sua argumentação, Stekloff afirma que o programa dos proudhonianos apontava para as organizações de apoio mútuo e cooperativas, através da organização de crédito gratuita e de troca equitativa entre os produtores, como o caminho para a emancipação dos trabalhadores a lutar por libertação, portanto, não seria uma luta efetivamente pela política, mas sim por métodos econômicos corporativistas (2012 [1928]: 40). Ele conclui que os proudhonianos seriam radicalmente contrários às greves, mantendo-se presos às formas de luta e organização pré-modernas e o fundamento das concepções proudhonianas seria de origem pequeno-burguesa:

The Proudhonists were horrified by the development of the strike movement, which jarred with their utopian ideas and frustrated all their fantastic schemes. “Strikes, more strikes, and yet again strikes; no longer any study, or anything like study ...,” exclaims the disgusted Fribourg, referring to the events of 1870, writing only a few months before the Commune. “In the workshops, members were recruited for the International and adhesions were accepted in the spirit in which a friendly glass is offered and accepted”. Such “leaders” of the workers’ movement as Fribourg were hopeless. He was perfectly honest, but simply did not understand the mass struggle of the contemporary proletariat. He belonged to the past movement, not to the future. His point of view was not proletarian but petty bourgeois. (STEKLOFF, 2012 [1928]: 53).
Mas se é possível afirmar que é um equívoco a suposição de que todas as correntes e tendências da AIT tinham o mesmo entendimento sobre as greves, também estão equivocadas as conclusões de Dorz e Stekloff em afirmar que simplesmente a corrente proudhoniana seria contrária aos movimentos grevistas. Primeiramente, teve-se que considerar que existiam ao menos duas tendências proudhonianas francesas, a tendência mutualista, formada por Tolain e seus correligionários e a tendência coletivista, formada por Louis-Eugène Varlin, encadernador e que se tornaria uma das principais lideranças da insurreição de 1871 – a comuna de Paris e seus aliados, também denominada de coletivista antiautoritária (MATION, 1975). Georg Douglas H. Cole explica as diferenças entre as correntes de Tolain e Varlin da seguinte maneira:

Sin embargo, estaban divididos entre sí en dos grupos, los moderados, dirigidos por Tolain, que deseaba organizar un movimiento político obrero a base de los sindicatos y luchar en las elecciones con independencia completa de los radicales de la clase media, y el ala izquierda de los sindicatos, dirigida por Eugéne Varlin, que no tenía fe en la acción parlamentaria y esperaba convertir a los sindicatos, a través de federaciones locales y regionales, en una fuerza revolucionaria independiente, lo bastante fuerte para arrebatar la dirección de la revolución a los radicales de la clase media. (COLE, 1974: 107).


A posição “moderada” de Tolain e dos mutualistas se expressou no episódio das “candidaturas operárias”, cuja posição de participação operária nas eleições burguesas foi defendida no Manifesto dos Sessenta, do qual ele é um dos signatários, publicado em 1864 por ocasião das eleições parisienses do mesmo ano. Édouard Dolléans destaca o debate entre Proudhon e os sessenta operários signatários do manifesto, onde o anarquista francês critica a política de participação operária nas eleições, considerando um grande erro a via eleitoral com estratégia do movimento operário. Dolléans também afirma que o Manifesto dos Sessenta é um desdobramento das posições políticas de Tolain presentes no seu texto Quelques vérités sur les élections de Paris, publicado um ano antes (DOLLÉANS, 2003a: 220-222).

De fato, o Manifesto dos Sessenta tinha um teor efetivamente reformista, entretanto, o aprofundamento sobre as concepções de Tolain e dos demais mutualistas, permite o entendimento de que eles não seriam necessariamente contrários aos movimentos grevistas. Para uma melhor compreensão da concepção da corrente mutualista sobre as greves deve-se considerar o seu programa, sua atuação diante da deflagração das várias greves dos trabalhadores e seu posicionamento durante dos debates sobre as greves no interior da AIT.

Georg Douglas H. Cole procurou sintetizar o programa dos mutualistas da seguinte maneira:

Tolain y su grupo eran mutualistas. En la sociedad a que ellos aspiraban todo hombre sería propietario, y recibiría todo el fruto de su propio trabajo, ya sea que lo realizase individualmente o como miembro de una cooperativa de producción. Los proudhonistas confiaban, como el medio para llegar a este fin, en un sistema de “crédito gratuito”, es decir, adelantos de capital libres de interés, que se concederían a los productores, individualmente o en grupo, a través de un banco de crédito popular que sería una institución pública autónoma, incluida en la constitución, pero que en ningún sentido estaría bajo el control del Estado. (COLE, 1974: 95-96).


Seguramente, o aspecto central do programa mutualista estava na constituição de um sistema de apoio mútuo que permitisse a distribuição equânime dos bens produzidos em sociedade. Isso distingue, entre outros aspectos, o programa mutualista do programa coletivista, anarquista ou comunista, que pressupunha a coletivização dos meios de produção. E durante as intervenções dos mutualistas nos movimentos dos trabalhadores, inclusive nas greves, eles tentavam implementar seu programa, como ocorreu no caso da greve dos trabalhadores do setor de bronze, categoria a qual pertencia Tolain.

En 1865, à la suite d'une grève grâce à laquelle les bronziers avaient obtenu la réduction de la journée de travail de 11 à 10 heures, ils avaient créé la Société de crédit mutuel et de solidarité des ouvriers du Bronze, qui comprend bientôt 5 000 membres. En face d'elle, une Association de Fabricants du Bronze s'organise pour assurer l'indépendance et la liberté du travail. En février 1867, les fabricants du bronze s'engagent à souscrire un capital de garantie afin d'assurer du travail et une indemnité journalière à tous les ouvriers qui déclareraient vouloir rester indépendants. (DOLLÉANS, 2003a: 238).


Além do caso da greve dos trabalhadores do setor de bronze seguida pelos esforços de implementação de uma sociedade de apoio mútuo, o Dolléans também relata a intervenção dos mutualistas franceses em outros movimentos grevistas, como das duas greves sucessivas dos mineiros de carvão Fuveau (Bouches-du-Rhône) e da greve dos trabalhadores da fábrica de tecidos Roubaix. Em ambos os casos, os mutualistas Tolain e Fribourg assinaram juntamente com Varlin, representantes da Seção da AIT em Paris, notas de apoio às greves dos trabalhadores. (DOLLÉANS, 2003a: 236-238).

Oscar Testut reuniu na obra Le livre blue de l'Internationale, publicada em 1871, diversos documentos e relatórios das várias seções da AIT referentes aos congressos da Associação, onde se encontra o seguinte posicionamento de Tolain sobre as greves:

La gréve est une coalition, dit-on, donc elle est condamnable. Mais pourquoi donc le industriels ne la condamnent-ils pas également entre banquiers, commissionnaires, exportateurs, qui pésent pourtant sur toutes les relations commerciales? La gréve c'est ça guerra, mais à côté de la guerre mauvaise, injuste, il y a la guerra pour défendre ses droits, et celle-là la guerre saint. (TOLAIN apud TESTUT, 1871: 221).
Analisando esse trecho do posicionamento de Tolain pode-se considerar que o sindicalista francês não condena a greve em si, porém encontrava-se preocupado com os limites dos movimentos de greve e com as possíveis contradições de uma luta por aumento salarial, uma vez que os mutualistas tinham por objetivo final a construção de uma sociedade sem salários, construída a partir das relações de mutualidade. Porém, o centro de suas preocupações são as questões morais, de justiça e legitimidade. Além disso, a perspectiva mutualista não foi capaz de elaborar a articulação entre as lutas resultantes das demandas e reivindicações dos trabalhadores com seus objetivos finalistas a partir das relações de mutualidade, sendo assim, a via eleitoral é defendida como uma alternativa estratégica.

Outras correntes e tendências da AIT estavam preocupadas com os limites das greves e da sua articulação com a luta pela emancipação da classe trabalhadora. O próprio posicionamento de Tolain reproduzido anteriormente trata-se de um comentário sobre o documento da Seção de Bruxelas, redigido por César De Peape, tipógrafo e proudhoniano de orientação coletivista (DROZ, 1977, p. 738), no qual a liderança belga desenvolveu uma longa análise sobre o lugar das greves na luta emancipatória dos trabalhadores e concluiu que:

Là nous apparaît l'avenir réel et positif des trade's unions, car la grève, nous l'avouons, n'est utile qu'à titre provisoire; la grève perpétuée serait l'éternisation du salariat, et nous voulons l'abolition du salariat; la grève perpétuée serait la lutte sans trêve ni fin entre le capital et le travail, et nous voulons, non pas précisément ce que l'on a appelé de nos jours l'association du travail et du capital (combinaison hybride, en vertu de laquelle le capitaliste, bailleur de fonds, s'entend avec des ouvriers pour éliminer le patron, tout en continuant à prélever intérêts et dividendes sur le travail), mais nous voulons l'absorption du travail par le travail; car le capital étant du travail accumulé qui ne doit avoir qu'une simple valeur d'échange égale à la valeur du travail qu'il a coûté, ne peut dès lors entrer em ligne de compte dans la répartition des produits ; produit du travail, le capital ne peut qu'être la propriété du travailleur, il ne peut en être l'associé. (DE PEAPE apud TESTUT, 1871: 216-217).
Valin também considerava que as greves poderiam se converter num “ciclo vicioso”, um paliativo para melhorar temporariamente os salários e as condições de trabalho. O lugar das greves na luta dos trabalhadores segundo Varlin pode ser entendida a partir da análise do seu artigo Greve e resistência, publicado no jornal Le Travail, nº 22, 31 de outubro de 1869.

Hoje, perante a obstinação com que os detentores dos capitais defendem os seus privilégios, a greve não passa de um círculo vicioso, no qual os nossos esforços parecem não levar a parte nenhuma. O trabalhador pede um aumento de salário para responder à carestia causada pela especulação; os especuladores respondem ao aumento do preço da mão-de-obra mediante uma nova subida do valor dos produtos. E assim por diante, os salários e os [preços dos] produtos aumentando sem parar. (VARLIN apud BERNARDO, 2000:95)


Eugène Varlin interveio e organizou importantes movimentos grevistas, com destaque para as greves dos encadernadores de 1864 e 1865. De acordo como João Alberto da Costa Pinto a greve de 1865 marcou um avanço em termos organizativos, uma vez que Varlin organizou um comitê de greve, responsável pela direção do movimento que significou uma ruptura com o “antigo modelo corporativista das associações que reuniam patrões e empregados” (PINTO, 2011: 97).

Em retaliação à intensa militância política e às mobilizações dos trabalhadores, o governo do Imperador Napoleão III moveu processos criminais contra os dirigentes da AIT, incluindo Tolain, e o fechamento da sua seção de Paris. Na sequência dos acontecimentos, Tolain e os demais dirigentes optam pela renúncia com o objetivo de que os trabalhadores elegessem uma nova comissão para dirigir a seção da AIT. Assim, Varlin e mais oito são escolhidos para formar a nova comissão e mantêm a seção de Paris, que será novamente fechada pelo governo, restando aos trabalhadores a filiação à AIT a partir da Seção de Londres (GUILLAUME, 2009: 150-151). A partir de então, Varlin e os coletivistas parisienses se tornam a força política hegemônica da AIT na França (DOLLÉANS, 2003a: 242).

Seguindo a estratégia insurrecionalista, oposta à via eleitoral, Varlin considerava que as greves funcionavam como instrumento de aglutinação e de desenvolvimento da solidariedade entre os trabalhadores, ou seja, pré-requisitos para a insurreição e a revolução social.

Em todas as greves o que nos preocupa não é tanto o insignificante aumento salarial, a pequena melhoria das condições de trabalho. Tudo isso é apenas secundário; são paliativos que servem enquanto se espera por alguma coisa melhor. Mas o supremo objectivo dos nossos esforços é o agrupamento dos trabalhadores e a sua solidariedade. Até agora fomos maltratados e explorados impiedosamente porque estávamos divididos e sem força. Hoje já se começa a contar conosco, já podemos defender-nos. É a época da resistência. Em breve, quando todos estivermos unidos, quando nos pudermos apoiar uns aos outros, então, como somos os mais numerosos e como, afinal, toda a produção resulta do nosso esforço, poderemos exigir, tanto na prática como legalmente, a totalidade do produto do nosso trabalho, como é justo. (VARLIN apud BERNARDO, 2000: 95-96).


De fato, as tendências coletivistas de atuação no interior da Primeira Internacional encontravam-se diante de um grande desafio: atender as demandas e revindicações dos trabalhadores por melhores salários e condições de trabalho, pela redução da jornada de trabalho, contra a exploração do trabalho infantil e feminino, contra a insalubridade e a insegurança nos locais de trabalho e ao mesmo tempo construir os meios para a emancipação da classe trabalhadora. Na tentativa de responder a esse desafio, o relojoeiro Adhémar Schwitzguébel, militante anarquista da seção suíça da AIT e companheiro de Bakunin e Guillaume, elabora a tática da greve.

Considerando que as greves são verdadeiras guerras, Schwitzguébel argumenta que do mesmo modo que se desenvolveram táticas de guerra, é necessário que os trabalhadores desenvolvam táticas para as greves (SCHWITZGUÉBEL, 1908: 83-84). A tática da greve deve, segundo o anarquista suíço, entender o lugar dos movimentos paredistas no conflito entre capital e trabalho, suas contradições e seus limites e, principalmente, sua articulação com a luta pela emancipação dos trabalhadores.

En résumé, nous savons que c'est une arme plutôt défensive qu'offensive. En effet, qu'on se rappelle quels sacrifices ont dû s'imposer les ouvriers pour aboutir à une réduction minime des heures de travail et à une élévation également très minime des salaires; combien de métiers sont restés absolument dans la même situation, malgré des efforts héroïques pour améliorer leur position; et enfin qu'on pense à l'augmentation continuelle du prix des objets nécessaires à l'entretien de l'existence de êtres humains, augmentation qui annule les résultats des luttes pour l'élévation des salaires. En constatant ces résultats généraux, nous devons, non pas nous abandonner au découragement, mais travailler à perfectionner nos moyens d'action et à faire mieux que par le passé. Si nous savons profiter des enseignements que nous donnent nos déceptions et nos efforts inutiles, si nous voulons sérieusement notre émancipation, nous comprendrons que la pratique de la résistance doit nous conduire à la pratique révolutionnaire. Puissent les indifférents et les timides secouer leur torpeur, et nos associations marcheront plus sûrement vers la réalisation de leur but. (SCHWITZGUÉBEL, 1908: 84).
Recorrendo à dialética serial antinômica de Proudhon, Schwitzguébel identifica quatro fatores que podem determinar o fracasso das greves e, dialeticamente, quatro fatores que podem determinar o sucesso das mesmas. Os quatro fatores responsáveis pelo fracasso seriam dialeticamente negados pelos quatro fatores que podem ser responsáveis pela vitória dos movimentos paredistas.

O primeiro fator que determinaria o fracasso das greves é a falta de organização dos trabalhadores. Para o anarquista suíço a capacidade de organização determina o poder de ação da classe trabalhadora. Apesar de reconhecer que, no momento da publicação do seu texto – 1874, os trabalhadores avançaram em termos organizativos, com associações, federações e, especialmente, com a AIT, milhões de trabalhadores ainda estavam desorganizados, destacando os trabalhadores camponeses.

Mais combien de millions de prolétaires, tant ouvriers que paysans, sont restés sans organisation, et n'en ont pas même l'idée! Et, parmi ces millions, combien n'ont pas même conscience de la situation misérable qui leur est imposée Lorsque l'exploitation bourgeoise atteint ses dernières limites, que la misère devient la faim, alors ces masses non organisées refusent leur travail mais le capital, qui est tout-puissant par l'organisation de l'Etat, les contraint, après quelques jours de lutte, à se soumettre aux mêmes conditions. La mitraille a quelquefois mis fin à ces conflits entre patrons et ouvriers. Même dans les métiers les mieux organisés, le manque d'une organisation généralisée empêche très souvent les revendications ouvrières de triompher de l'obstination et de l'égoïsme bourgeois. (SCHWITZGUÉBEL, 1908: 85).
O segundo fator de fracasso identificado por Schwitzguébel foi a falta de recursos financeiros para a subsistência dos trabalhadores durante o movimento grevista. Os recursos materiais eram entendidos como complementares à organização dos trabalhadores, pois a organização seria insuficiente sem os recursos necessários para sustentar o movimento. (SCHWITZGUÉBEL, 1908: 85-86).

O terceiro foi a falta de solidariedade moral entre os trabalhadores e a falta de convicções fortes. Ele afirmava que a solidariedade moral era o esforço comum realizado por todos os trabalhadores em nome da causa coletiva. Schwitzguébel atribui a ausência de solidariedade às orientações políticas voltadas exclusivamente para os interesses materiais, negligenciando as dimensões intelectuais e morais do trabalho e ignorando as questões sociais.

Et si cette solidarité morale n'existe pas, c'est que dans les associations ouvrière on s'est généralement borné jusqu'à ce jour à s'occuper exclusivement des intérêts matériels, on a négligé le côté intellectuel et moral de leur oeuvre, on a fait fi de l'étude des questions sociales, et il ne s'est pas encore dégagé, au moins généralement, de leur sein ces convictions bien trempées qui produisent les abnégations personnelles, les sacrifices complets à une cause. Il faut l'avouer pour beaucoup d'ouvriers, bien des grèves furent une simple fête, au lieu d'être une lutte sérieuse dans laquelle étaient engagés des intérêts sacrés. (SCHWITZGUÉBEL, 1908: 86-87).
O quarto fator foi a deflagração prematura dos movimentos grevistas, ou seja, sem a devida preparação considerando os três primeiros fatores identificados e sem a devida análise da conjuntura econômica. A deflagração de uma greve numa conjuntura desfavorável para os trabalhares pode facilitar a resistência dos capitalistas (SCHWITZGUÉBEL, 1908: 87).

Os quatro fatores que o anarquista suíço identificou como determinantes para o sucesso correspondem às ações da classe trabalhadora num esforço de superação dos quatro fatores responsáveis pelo fracasso dos movimentos paredistas. Sendo assim, para Schwitzguébel o primeiro pré-requisito para o sucesso de uma greve é a completa organização geral dos trabalhadores, isto é, não se trata simplesmente de uma organização limitada ao local de trabalho, mas sim a organização que agrupe os trabalhadores independentemente da categoria e em escala nacional e internacional (SCHWITZGUÉBEL, 1908: 87-88). Outro aspecto fundamental da organização é a solidariedade econômica.

La pratique de la solidarité, nécessitant des sacrifices financiers, doit être organisée positivement, de manière à ce que l'on sache toujours exactement sur quelles ressources on peut compter, non pas dans le sens d'une centralisation des ressources financières, mais en maintenant au contraire le principe de l'autonomie de l'administration par groupe, les organisations établissant, par des contrats ou pactes fédératifs, dans quels cas et dans quelle mesure elles veulent s'engager solidairement. (SCHWITZGUÉBEL, 1908: 88).
A segunda condição identificada para a realização de uma greve com possibilidades de vitória foi a necessidade de enfraquecer o “inimigo”, ou seja, os capitalistas. A terceira condição foi o desenvolvimento das convicções socialistas entre os trabalhadores e o conhecimento das questões sociais. Na concepção defendida por Schwitzguébel as greves devem contribuir para a ampliação das relações de solidariedade de classe e, consequentemente, para a consciência da necessidade de ações para os interesses classistas.

Les grèves ne doivent pas être un jeu léger auquel on prend part parce qu'on y gagne à peu prè autant que si l'on travaille, mais une action générale à laquelle on participe par devoir de solidarité, avec la conscience d'agir dans l'intérêt commun des ouvriers, et pour le triomphe de laquelle on est prêt à s'imposer les privations les plus dures. (SCHWITZGUÉBEL, 1908: 89).


Para completar sua teoria sobre a tática da greve e seu lugar na luta pela emancipação da classe trabalhadora, o militante anarquista da Seção suíça da AIT coloca a estratégia da greve geral. Schwitzguébel apresenta a greve geral como a principal estratégia da corrente anarquista, incorporada também por outras correntes coletivistas, para a articulação entre as lutas reivindicativas dos trabalhadores com a ruptura revolucionária.

En suite du peu d'améliorations réelles qui ont été obtenues par tes grèves partielles, malgré les grands sacrifices qu'ont faits les ouvriers, l'idée d'une grève générale des travailleurs, qui mettrait fin aux misères qu'ils subissent, commence à être sérieusement discutée par des associations ouvrières mieux organisées que tes nôtres. Ce serait certainement là un acte révolutionnaire capable de produire une liquidation de l'ordre social actuel et une réorganisation conforme aux aspirations socialistes des ouvriers. (SCHWITZGUÉBEL, 1908: 90-91).


Portanto, na teoria anarquista a greve geral é um movimento insurrecional, isto é, de ruptura com a ordem burguesa. Para o anarquismo o desenlace revolucionário é o resultado do desenvolvimento da organização dos trabalhadores levada às últimas consequências e da radicalização das formas de luta, do desenvolvimento da força coletiva dos trabalhadores a partir de experiências concretas de luta e de solidariedade classista. A solidariedade de classe deve romper as barreiras das categorias e as fronteiras nacionais.
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* Professor do Departamento de Sociologia do Colégio Pedro II, pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Ensino de Sociologia/CPII e do Núcleo de Estudos do Poder/UFRRJ.

1 Esse artigo é uma parte atualizada do quarto capítulo de sua tese de doutorado, A greve do fim do mundo: petroleiros 1995 - a expressão fenomênica da crise fordista no Brasil, defendida em 2006 junto à Unicamp.

2 Na organização das Obras completas de Bakunin, o International Institute of Social History de Amsterdã atribui títulos aos três “documentos secretos” da Fraternidade Internacional: Programa de uma sociedade internacional secreta da emancipação da humanidade; Projeto de organização da Família dos Irmãos escandinavos: Projeto de uma organização secreta internacional e Programa provisório convencionado pelos irmãos fundadores, conferir Bakunin, M. Oeuvres Complètes. International Institute of Social History, Netherlands Institute for Scientific Information Services, Royal Netherlands Academy of Arts and Sciences, 2000. (CD-ROM).

3 Assembleia Geral realizada em setembro de 1864, em Londres, aprovou o regulamento provisório para a fundação da AIT que define o objetivo político da Associação Internacional: “Que l'émancipation économique des travailleurs et conséquemment le grand but auquel tout mouvement politique doit être subordonné comme moyen” (TESTUT, 1870: 4). E mesmo essa formulação dos objetivos da AIT gerou interpretações divergentes e disputas entre anarquistas e comunistas, como indica o historiador G. D. H. Cole (1974: 102-103).


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