O lugar do fantástico em machado de assis



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O LUGAR DO FANTÁSTICO EM MACHADO DE ASSIS


Darlan Lula (Doutorando em Literatura Comparada – Universidade Federal Fluminense)
Estudar Machado de Assis é sempre um desafio. Desafio maior ainda é encontrar um tema em sua vasta obra que ainda não tenha sido explorado à exaustão.

Tentando encontrar um caminho adequado de estudo, que explorasse justamente algo que pudesse contribuir para a análise da obra machadiana, encontramos uma obra que nos inspirou na escolha da temática a ser estudada: a publicação pela Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora do 1º volume de Contos Completos de Machado de Assis, organizado por Djalma Cavalcante. Nesse volume, figuram 38 contos do nosso escritor que vão de 1858 a 1870. Dentre estes contos, interessou-nos em particular o seguinte: “O país das quimeras”, publicado originalmente no jornal O Futuro em 1862. E interessou-nos por conta da classificação que lhe foi dada pelo próprio Machado de Assis: a de “conto fantástico”.

Cavalcante nos lembra que a primeira obra brasileira dentro desse modelo literário foram os contos de Noite na taverna, de Álvares de Azevedo (Ver PIMENTEL, 2001). Também nos informa que Machado leu e apreciou esses contos, e que seu contato com esse tipo de gênero não se restringiu aos escritores locais, sendo leitor também de Ernst-Theodore-Amadeus Hoffmann (1776-1822) e Edgar Allan Poe (1809-1849). Cavalcante chega a nos dizer que Machado de Assis “é um dos nomes maiores do conto fantástico nas literaturas em língua portuguesa e figura dentre os grandes nomes mundiais do gênero (Contos Completo de Machado de Assis, 2003, p. 60)”.

Dar crédito a esta afirmação nos leva à indagação seguinte: como Machado de Assis pode ser afirmado dentre os grandes nomes mundiais do gênero do conto fantástico sem que se saiba haver um criterioso estudo sobre o assunto?

Ao pesquisarmos, descobrimos dois fios condutores para guiar o nosso estudo. O primeiro deles é um livro organizado pelo crítico Raymundo Magalhães Júnior (1907-1981) e originalmente publicado em 1973 e relançado pela editora Bloch em 1998 com o seguinte título: Contos fantásticos: Machado de Assis. Nele estão organizados onze contos do escritor. O segundo fio condutor, que nos colocou em definitivo na rota de nossa proposta de estudo, é uma dissertação de mestrado escrita por Marcelo José Fonseca Fernandes, defendida em novembro de 1999 na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e intitulada “Quase-macabro: o fantástico nos contos de Machado de Assis”. Nela, ele nos diz que há em Machado “a ocorrência de um fantástico mitigado, diferenciado, quase sempre ambientado em sonhos e, na maioria das vezes, explicável (FERNANDES, 2004, www.netterra.com.br/poieses/85/machadodeassis.htm)”i. Ele ainda acrescenta quatro contos aos já classificados como fantásticos por Magalhães Júnior.

Há, ainda, um ponto importante a acrescentar. Em 2003, o escritor e compositor Braulio Tavares organizou um livro intitulado Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros, onde estão inseridos dezesseis contos de dezesseis escritores brasileiros, e Machado de Assis figura entre os escritores com o conto “As academias de Sião” (1884). Apesar de Tavares hesitar em definir o conceito do gênero fantástico a ponto de dizer que “não se deve esperar destas páginas sequer uma tentativa de estabelecer uma teoria unificada do fantástico (TAVARES, 2003, p. 7)”, a referência torna-se importante, pois reconhece Machado de Assis como um dos principais expoentes do fantástico no Brasil.

Assim sendo, falamos até o momento de dezesseis contos fantásticos machadianos. São eles: “O imortal”, “A chinela turca”, “Um esqueleto”, “A segunda vida”, Marianna” e “As academias de Sião”, que encontramos facilmente por estarem inseridos na Obra Completa de Machado de Assis da Editora Nova Aguilar. “O anjo Rafael”, “O capitão Mendonça”, “A vida eterna”, “O país das quimeras” e “O anjo das donzelas” foram encontrados no livro já citado, organizado por Djalma Cavalcante: Contos Completos de Machado de Assis. “Os óculos de Pedro Antão” e “A mulher pálida” estão, respectivamente, em Contos Avulsos e Contos sem data, livros organizados por Raymundo Magalhães Júnior. Os três restantes “Decadência de dois grandes homens”, “Sem Olhos” e “Um sonho e outro sonho” só encontramos disponibilizados para leitura pela internet (ver www.uol.com.br/machadodeassis)ii. Podemos notar o quão ainda é difícil o acesso irrestrito aos contos machadianos, já que ainda não possuímos uma publicação que contemple plenamente, através do meio impresso, toda a obra do nosso contista brasileiro.
DEFININDO O GÊNERO FANTÁSTICO
Segundo Todorov, o gênero fantástico antes parece se localizar no limite de dois gêneros, o maravilhoso e o estranho, do que ser um gênero autônomo.

De forma resumida, temos que no gênero maravilhoso:


os elementos sobrenaturais não provocam qualquer reação particular nem nas personagens, nem no leitor implícito. Não é uma atitude para com os acontecimentos narrados que caracteriza o maravilhoso, mas a própria natureza desses acontecimentos (TODOROV, 1975, p. 60).
Já nas obras que pertencem ao gênero estranho:

relatam-se acontecimentos que podem perfeitamente ser explicados pelas leis da razão, mas que são, de uma maneira ou de outra, incríveis, extraordinários, chocantes, singulares, inquietantes, insólitos e que, por esta razão, provocam na personagem e no leitor reação semelhante àquela que os textos fantásticos nos tornaram familiar. [...] O estranho não é um gênero bem delimitado [...]; mais precisamente, só é limitado por um lado, o do fantástico; pelo outro, dissolve-se no campo geral da literatura (os romances de Dostoievski, por exemplo, podem ser colocados na categoria do estranho) (TODOROV, 1975, p. 53).


Assim, ainda segundo Todorov, teríamos o gênero maravilhoso como o sobrenatural aceito e o gênero estranho como o sobrenatural explicado. Então, se o gênero fantástico se localiza no limite desses outros dois gêneros, ele ocorre na incerteza:
Ao escolher uma ou outra resposta, deixa-se o fantástico para se entrar num gênero vizinho, o estranho ou o maravilhoso. O fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural (TODOROV, 1975, p. 31).
O fantástico pode, portanto, se desvanecer a qualquer instante. Todorov estabelece, então, alguns parâmetros para a sua consolidação. Um deles é a hesitação. Porém, quem hesita no fantástico? Segundo Todorov:
é ele [personagem] quem, ao longo de toda a intriga, terá que escolher entre duas interpretações. Mas se o leitor fosse alertado sobre a “verdade”, se soubesse em que terreno está pisando, a situação seria completamente diferente. O fantástico implica, pois, uma integração do leitor no mundo das personagens; define-se pela percepção ambígua que tem o próprio leitor dos acontecimentos narrados. É necessário desde já esclarecer que, assim falando, temos em vista não este ou aquele leitor particular, real, mas uma “função” de leitor, implícita no texto. A percepção desse leitor implícito está inscrita no texto com a mesma precisão com que o estão os movimentos das personagens (TODOROV, 1975, p. 37).
O leitor implícito materializa o conjunto das preorientações que um texto ficcional oferece, como condições de recepção, a seus leitores possíveis. Designa uma construção textual que antecipa a presença do receptor. O leitor implícito dará pistas ao leitor real e poderá conduzi-lo a uma compreensão e interpretação adequadas da obra. Nesse caso, o fantástico comporta inúmeras indicações a respeito do papel que o leitor irá representar, pois esse gênero “produz um efeito particular sobre o leitor – medo, ou horror, ou simplesmente curiosidade –, que os outros gêneros ou formas literárias não podem provocar (TODOROV, 1975, p. 100)”. Será essa “função” de leitor que irá fazer com que se instaure a percepção ambígua no texto, e a hesitação do leitor, um elemento necessário à concepção do gênero fantástico.
O SURGIMENTO DA LITERATURA FANTÁSTICA
A literatura fantástica surgiu para introduzir certos temas caros à sociedade da época que proibia a abordagem de determinados assuntos. Machado de Assis, por exemplo, no conto “O anjo das donzelas” afirma decoroso: “Descanse leitor, não verá neste episódio fantástico nada do que não se pode ver à luz pública. Eu também acato a família e respeito o decoro (Contos Completos de Machado de Assis, 2003, p. 66)”. O respeito do escritor pelo decoro faz com que este apresente o “indecoroso” sob as vestes decorosas do fantástico. A opção pela vestimenta fantástica evita a condenação social.

Com o surgimento da Psicanálise, a literatura fantástica, nos moldes tradicionais, torna-se obsoleta porque desde então não se tem mais necessidade de recorrer ao diabo para falar de um desejo sexual excessivo, nem aos vampiros para designar atração exercida pelos cadáveres, nem aos sonhos para descrever certas atitudes sociais condenáveis, pois a Psicanálise provocou o levantamento da censura social que proibia abordar certos temas. O escritor contemporâneo, nesse caso, não precisa mais da vestimenta fantástica, já que agora a Psicanálise e a própria literatura passam a tratar disso tudo em termos indisfarçados: os temas da literatura fantástica do século XIX são retomados pelas investigações psicológicas do século XX.

A literatura fantástica tradicional “recebeu com isto um golpe fatal; mas desta morte, deste suicídio nasceu uma nova literatura (TODOROV, 1975, p. 177)”: o fantástico moderno. Machado de Assis desenvolveu em suas narrativas curtas o fantástico tradicional. No entanto, foi além do seu tempo e desenvolveu também o fantástico moderno em tempos de fantástico tradicional em suas Memórias Póstumas de Brás Cubas. Iremos nos ater neste trabalho à sua vertente tradicional, com o estudo do texto Sem Olhos, com o intuito de sublinhar a perspicácia do autor ao se apropriar do gênero, sem deixar de imprimir um estilo próprio, que não expõe a narrativa como uma mera cópia do que se produziu pelos grandes escritores seguidores do fantástico.
“SEM OLHOS”
O conto “Sem olhos” de Machado de Assis foi publicado originalmente no Jornal das Famílias em 1876 e é pouco conhecido entre os leitores e críticos do escritor, talvez pela dificuldade em ser encontrado.

O texto possui como cenário inicial a casa do casal Vasconcelos, que recebe quatro visitas para uma conversa íntima regada a chás e alguns charutos. São elas as figuras do sr. Bento Soares, sua esposa D. Maria do Céu, o bacharel Antunes e o desembargador Cruz. Tratam de assuntos amenos, quando a conversa envereda para temas como a morte de um conhecido, almas do outro mundo, contos de bruxas, lobisomem e superstições dos índios. Nesse momento da conversa, há uma cisão no grupo, já que o sr. Bento Soares não dá crédito, segundo ele, a essas “tolices”; enquanto que o desembargador Cruz acredita em manifestações sobrenaturais. Isso acaba gerando uma discussão entre os presentes, pois a maioria acredita que tudo isso não passa de mera especulação imaginativa. Assim temos o sr. Bento Soares:


Pela minha parte, disse o sr. Bento Soares, nunca pude compreender como o espírito humano pôde inventar tanta tolice e crer no invento. Vá que uma ou outra criança dê crédito às suas próprias ilusões; para isso mesmo é que são crianças. Mas, que um homem feito... (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis)
Nesse episódio, ele diz claramente que é infantil acreditar em coisas sobrenaturais. Ao que o desembargador Cruz retruca: “- Que tem isso? [...] A vida do homem é uma série de infâncias, umas menos graciosas que as outras (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis)”.

O sr. Bento Soares diz que o desembargador mofa da razão ao acreditar em almas de outro mundo, enquanto este diz que a existência de fantasmas não é coisa que absolutamente se pode negar. Temos aí dois modos de ver o mundo: um está impregnado pelas sujeições ao conhecimento empírico e às leis naturais; enquanto o outro vivencia o lado misterioso, supersticioso e sobrenatural dos fenômenos, chegando a afiançar a sua realidade.

E não é somente Bento Soares que considera simplória e inculta essa crença em fantasmas. Maria do Céu diz: “Fantasmas! [...] Pois há quem tenha visto fantasmas?”, enquanto Vasconcelos observa: “É o desembargador quem o diz”. Já o bacharel diz que o desembargador deve estar querendo dizer que esses fenômenos extraordinários acontecem “na imaginação”. Porém o nosso desembargador afiança: “- Na realidade”. E a descrença se opera quando os ouvintes dão risadas do dito e Maria faz um gesto de desdém.

Nesse momento, o desembargador afirma que, se eles tivessem vivenciado o que ele vivenciou, a opinião de todos seria diferente. Isso lhes atiça a curiosidade e todos pedem para que ele conte o ocorrido. Assim, resolve contar-lhes:


O que eu vi foi há muitos anos, disse ele; ainda assim conservo a memória fresca do que me aconteceu. Não sei se poderia ir até o fim; e desde já estou certo de que vou passar uma triste noite... (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis)
O começo de sua história não poderia ser mais enigmático. Ele revela um certo receio de contar o que se passou, como se, ao contar, os fatos presenciados pudessem retornar em sua forma física e palpável, dando a impressão ao leitor de algo verdadeiramente assustador. O desembargador conta, então, aos presentes que, enquanto estudante em São Paulo, conhecera uma figura chamada Damasceno Rodrigues, seu vizinho. Eis como Damasceno é descrito:
Mas o que ele [Damasceno Rodrigues] tinha naquele lugar das pernas eram dois verdadeiros pregos, tão magro estava. A cara angulosa e descarnada, os olhos cavos, o cabelo hirsuto, as mãos peludas e rugosas, tudo fazia dele um personagem fantástico. [...] O riso de Damasceno era pior que a seriedade; sério, dava ares de caveira; rindo, havia nele um gesto diabólico (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis).
Todas as descrições do personagem Damasceno perpetram um ar sombrio, verdadeiramente fantástico. A ocasião singular do primeiro encontro entre o ainda estudante Cruz e o Damasceno fez o jovem Cruz atinar com a idéia de que seu vizinho seria um doido: “A idéia de que o vizinho era doido apoderou-se logo de meu espírito. Que outra coisa seria, vindo consultar a semelhante hora, a um vizinho de três dias, sobre um texto de Jonas (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis)?” Porém a certeza de Cruz se dissipou diante das palavras convictas de Damasceno sobre Jonas:
- Jonas não alude às crianças, mas aos canhotos que são os homens que não podem discernir a direita da esquerda. Sendo assim, veja o senhor a importância da minha interpretação. Duas coisas se concluem dela: 1ª que os ninivitas eram geralmente canhotos; 2ª que o ser canhoto era no entender dos hebreus um grande mérito. Desta última conclusão nasceu uma terceira, a saber, que chamar canhoto ao diabo é estar fora do espírito bíblico. Isto é claro como a água e evidente como a luz.

A profunda convicção com que ele disse tudo isto, e o ar de triunfo com que ficou a olhar para mim, confesso que me impressionaram singularmente. Não sabia que dizer; o melhor era concordar, declarando que a sua opinião era por força verdadeira (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis).


A figura do vizinho misterioso, com o seu convicto modo de “conversar e atrair” fizeram com que Cruz duvidasse da loucura de Damasceno, instaurando-se a dúvida - a hesitação – perceptível no seguinte trecho: “Durante quinze dias encontrei-o duas vezes, na escada; cumprimentou-me e falou-me como se tivera intactas todas as molas do cérebro (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis)”. E também: “A gravidade com que ele proferiu estas palavras excluía toda a idéia de loucura. A própria fisionomia parecia revelar o regresso da consciência (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis)”.

Damasceno caiu enfermo e Cruz foi o único que se preocupou com a sua doença. Ficou em sua companhia o tempo todo, fazendo com que o vizinho lhe confiasse um segredo da sua vida. Entregou-lhe um maço de papéis e um retrato de uma formosa mulher, dizendo ao estudante para guardar e queimar caso ele morresse. Cruz guardou no bolso o maço enquanto Damasceno, reclinando o corpo, ficou tranqüilo:


Durante cinco minutos nada disse; começou a murmurar palavras sem sentido, com esgares próprios de louco. Esta circunstância chamou-me à realidade. Não seriam os papéis e o retrato coisas sem valor, a que ele em seu desvario atribuía tamanha importância (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis)?
Daí em diante, o enfermo começou a narrar a sua estória. Disse que ambos, ele e Lucinda, foram moços e o que os matara foi um olhar. O marido os pegara entre olhares sinuosos e concupiscentes. Encolerizara-se a princípio, logo se aquietara. Porém, diante do acontecido, Damasceno resolvera contar ao marido os sentimentos que ele nutria por sua esposa. O marido de Lucinda apenas riu e nada disse. Então, Damasceno saiu em viagem.

Algumas semanas depois, Damasceno retornou à Jeremoabo, e, pensando em Lucinda, resolveu procurá-la. Ouviu rumores que diziam que ela havia morrido, outros diziam que havia cometido suicídio, alguns que desaparecera, ou seja, estas notícias diversas eram claro indício de que algo grave acontecera. Nesse momento da narrativa, Damasceno interrompeu a sua elocução. Estava cansado e opresso. Cruz pensa: “admirava a perfeita lucidez com que ele me referia àquelas coisas, a comoção das palavras, que nada tinha do vago e desalinhado da palavra dos loucos (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis)”. A hesitação começa a ganhar força na narrativa. Cruz estava ligado de forma impreterível aos fatos contados pelo senhor acamado, estava convencido de que a história devia ser levada em conta, pois poderia pertencer ao mundo do tangível. E foi justamente neste instante que Damasceno chegou ao clímax da sua história. Ele procurou o marido de Lucinda para saber dos acontecimentos e este lhe disse


que Lucinda estava viva, mas podia morrer no dia seguinte; que, depois de cogitar na punição que daria ao olhar da moça resolvera castigar-lhe simplesmente os olhos... Não entendi nada; tinha as pernas trêmulas e o coração batia-me apressado. Não o acompanharia decerto, se ele, apertando-me o pulso com a mão de ferro, me não arrastasse até uma sala interior... Ali chegando... vi... oh! é horrível! vi, sobre uma cama, o corpo imóvel de Lucinda, que gemia de modo a cortar o coração. “Vê, disse ele – só lhe castiguei os olhos”. O espetáculo que se me revelou então, nunca, oh! nunca mais o esquecerei! Os olhos da pobre moça tinham desaparecido; ele os vazara, na véspera, com um ferro em brasa... Recuei espavorido. O médico apertou-me os pulsos clamando com toda a raiva concentrada em seu coração: “Os olhos delinqüiram, os olhos pagaram” (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis).
Esta é uma temática recorrente em narrativas fantásticas: a do olhar. Primeiro vimos que o olhar foi decisivo para o marido de Lucinda descobrir as redes amorosas entre ela e Damasceno, fato este que culminou na vingança do traído. O mesmo olhar que manifestou o amor, agora é retirado de suas órbitas, gerando uma figura assustadoramente fantástica. O próprio Machado se utiliza dessa temática em um outro conto seu: “Decadência de dois grandes homens”, em que um certo gato de nome Júlio é ferido e arrancam-lhe os olhos, deixando-os vazados.

Um outro escritor que se utilizou dessa temática foi o alemão Theodor Hoffmann, cuja influência Machado absorveu. Sobre o escritor alemão, Todorov chega a nos dizer que:


Em Hoffmann, [...] há realmente coincidência entre o “tema do olhar” (tal qual se colocou em nosso léxico descritivo) e as “imagens do olhar”, tal como se descobrem no próprio texto; eis por que sua obra é particularmente reveladora (TODOROV, 1975, p. 131).
No conto, “O homem da areia”, de Hoffmann aparece claramente a temática do olhar através das “imagens do olhar”. Somos invadidos, literalmente, em sua obra, por microscópios, binóculos, olhos falsos e verdadeiros, espelhos e etc. Vejamos um exemplo no conto:
... perguntei por fim à velha governanta de minha irmãzinha quem era mesmo o Homem da areia.

  • Pois é, meu pequeno Natanael, então você não sabe? É um homem mau, que vem procurar as crianças que não querem ir para a cama. Joga punhados de areia em seus olhos, que tombam ensangüentados, e os apanha, os enfia numa bolsa, e os carrega para a lua para alimentar seus netinhos. Eles estão lá, empoleirados em seu ninho, com os bicos recurvados como o da coruja. E bicam os olhos das crianças que não são boazinhas (HOFFMANN, 1986, p. 15).

[...]

Tive a impressão de perceber à sua volta rostos humanos, mas sem os olhos, com espantosas cavidades negras e profundas em seu lugar.



  • Olhos! Dê-me olhos! – gritava Coppelius com voz surda, ameaçadora (HOFFMANN, 1986, p. 22).

Vejamos, agora, o que o olhar psicanalítico de Sigmund Freud pensa sobre esse assunto:


O medo de ferir ou perder os olhos é um dos mais terríveis temores das crianças. Muitos adultos conservam uma apreensão nesse aspecto, e nenhum outro dano físico é mais temido por esses adultos do que um ferimento nos olhos. Estamos acostumados, também, a dizer que estimamos uma coisa como a menina dos olhos. O estudo dos sonhos, das fantasias e dos mitos ensinou-nos que a ansiedade em relação aos próprios olhos, o medo de ficar cego, é muitas vezes, um substituto do temor de ser castrado (FREUD, [200-], 1 CD).
Freud ainda nos diz que essa relação substitutiva entre o olho e o órgão masculino verifica-se, em parte, por estar presente nos sonhos, mitos e fantasias. Se formos interpretar a reação do marido de queimar com um ferro em brasa os olhos da esposa e ainda obrigar o seu pretenso amante a assisti-la com os olhos vazados, diremos que fez isso com um intuito de causar um temor ao Damasceno, que veria naquela imagem a figura substitutiva da castração. Essas afirmações acabam por confirmar ainda mais o que já foi dito anteriormente: que os temas da literatura fantástica, dentre os quais se destacam aqui o da loucura e o do olhar, tornaram-se os mesmos das investigações psicanalíticas.

Voltando ao conto, temos que, após a cena horrível descrita pelo enfermo, ele teve uma visão da amada: “Olhe!... Olhe! lá está ela! lá está!... O dedo magro e trêmulo apontava alguma coisa no ar, enquanto os olhos, naturalmente fixos, resumiam todo o terror que é possível conter a alma humana (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis)”. Novamente o olhar é uma figura chave e domina essa parte da narrativa, pois o estudante Cruz teve a mesma visão do moribundo:


Olhei; e podem crer que ainda hoje não esqueci o que ali se passou. De pé, junto à parede, vi uma mulher lívida, a mesma do retrato, com os cabelos soltos, e os olhos... Os olhos, esses eram duas cavidades vazias e ensangüentadas (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis).
O próprio Cruz, que não acreditava, ou, pelo menos, manifestava algum ceticismo em relação à história, acabou “vendo” a figura descrita por Damasceno. E foi tomado pela hesitação:
Naquela meia luz da alcova, e no alto de uma casa sem gente, a semelhante hora, entre um louco e uma estranha aparição, confesso que senti esvairem-se-me a força e quase a razão. Batia-me o queixo, as pernas tremiam-me tanto, eu ficara gelado e atônito. Não sei o que se passou mais; não posso dizer sequer que tempo durou aquilo, porque os olhos se me apagaram também, e perdi de todo os sentidos (ASSIS, 2004, www.uol.com.br/machadodeassis).
A hesitação surge em seu estado pleno, juntamente com o clímax do conto; há um embate no espírito do jovem entre a razão e o acontecimento sobrenatural presenciado, onde as forças de uma e de outro fazem-no perder os sentidos. Os ouvintes do desembargador Cruz, nesse momento, também são tomados, junto com ele, pelo movimento indescritível e indecifrável dos acontecimentos, contribuindo para a engrenagem de uma narrativa cujo gênero fantástico de fato se manifesta.

O episódio teve um epílogo: Damasceno morreu e, algum tempo depois, o desembargador descobriu que o morto aos vinte e dois anos casara-se em Santa Catarina e nunca havia estado em Jeremoabo, cidade de Lucinda e seu esposo. E que a mulher descrita por Damasceno era, na verdade, uma sobrinha sua. No entanto, fica um fenômeno extraordinário a atormentar o espírito de Cruz: a aparição da moça na sua própria frente com os olhos vazados e ensangüentados.


CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do que foi estudado, acredita-se que o estudo do gênero fantástico em narrativas machadianas passe a contribuir para o aprofundamento das análises sobre a obra do autor.

Assim, analisamos o conto “Sem olhos”, tentando comprovar nele a ocorrência do gênero fantástico. Deu-se destaque, também, para a relação com um nome relevante do gênero como Hoffmann, ressaltando a inserção da obra machadiana no cenário dos grandes autores da literatura mundial.



A maior pretensão deste trabalho, no entanto, é despertar o interesse dos pesquisadores da obra de Machado de Assis para a relevância, até hoje pouco considerada, do estudo do fantástico em Machado de Assis.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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FERNANDES, Marcelo J. Machado de Assis quase macabro. Disponível em: < http://www.netterra.com.br/poieses/85/machadodeassis.htm>. Acesso em: 2 mar. 2004.
FREUD, Sigmund. O estranho. In: ______. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, [200-]. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVII) 1 CD.
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______. Memórias Póstumas de Brás Cubas: análise de uma realidade dinâmica. In: CES REVISTA. Juiz de Fora, Esdeva, 2004. v. 18.
MAGALHÃES JR., Raymundo [Org.]. Contos fantásticos: Machado de Assis. Rio de Janeiro: Bloch Ed., 1998.
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RODRIGUES, Selma Calasans. O fantástico. São Paulo: Ática, 1988.
TAVARES, Braulio [Org.] Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1975.


 Esse trabalho é parte do resultado obtido com a dissertação de mestrado com o título Machado de Assis e o gênero fantástico, sendo fomentado pela CAPES e tendo como orientadora a professora Doutora Teresinha Vânia Zimbrão da Silva, membro do corpo docente do Mestrado em Letras, área de concentração em Teoria da Literatura da Universidade Federal de Juiz de Fora.

i Essa dissertação teve como orientador o professor Doutor Sérgio Fuzeira Martagão Gesteira e está disponível na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

ii Apesar de encontrarmos, durante a nossa pesquisa, esses contos somente na internet, descobrimos posteriormente que eles também foram publicados, respectivamente, em: Contos Esquecidos, Relíquias da casa velha (segundo volume) e Relíquias da casa velha (primeiro volume), embora não diminua a dificuldade em encontrá-los.


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