O magníficat (Lc 1, 46-55)



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O Magníficat

(Lc 1, 46-55)
O Magnificat, retrato, para assim dizer, da sua alma, está bordado por inteiro com os fios da Escritura Santa, com fios tirados das palavras de Deus. Vê-se, assim, aparecer que, na palavra de Deus, Maria está verdadeiramente na sua casa; Maria dela sai e aí entra com muita naturalidade. Ela fala e pensa por meio da palavra de Deus. A palavra de Deus torna-se a sua palavra, e a sua palavra nasce da palavra de Deus. Ademais, assim se manifesta que os seus pensamentos estão no diapasão dos pensamentos de Deus, que a sua vontade consiste em querer com Deus. Estando profundamente penetrada pela palavra de Deus, ela pode tornar-se a mãe da Palavra encarnada. Enfim, Maria é mulher que ama. Como poderia ser de outra maneira? Ela, como crente que, na fé, pensa com os pensamentos de Deus e quer com a vontade de Deus, só pode ser uma mulher que ama. (Bento XVI, Encíclica Deus cáritas est, n. 41, 25-12-2005).
O canto de Maria, resposta ao hino de Isabel, é conhecido sob o nome de Magnificat. Maria, louvada, orienta todo o seu canto para Deus, que ela glorifica do primeiro ao último versículo. É a perfeita característica de Maria: ela torna a centrar-se sempre ou no seu Filho Jesus, como em Caná, ou em Deus, como é o caso aqui. Nos lugares de peregrinação, onde ela é honrada, celebra-se a Eucaristia, proclama-se a Palavra e, de contínuo, anuncia-se e canta-se o seu Filho.
O Magnificat inscreve-se nos salmos de louvor; nessa grande corrente, entre os chamados cânticos novos. Um cântico novo era um salmo improvisado, tecido de uma seqüência espontânea de citações bíblicas. Com efeito, Maria aqui é como uma Bíblia aberta. É a teóloga protestante France Quéré que o diz no seu livro “Maria”. O seu canto desliza de uma citação a outra, como se todo o Antigo Testamento quisesse fazer-se presente na voz de Maria e, mediante ela, passar ao Novo Testamento.

Mas, se o Magnificat é um canto improvisado, então podemos perguntar-nos que retrato espontâneo e cotidiano de Deus Maria leva em si e, como ricochete, que é do retrato que emerge neste canto da jovem mulher que o improvisa?



1-O retrato de Deus
É retrato muito rico, cujos matizes principais se explicitam em seguida.
1- É um Deus salvador. Não é salvador teórico, por ouvir dizer, ou de experiência e convicção repetidas no povo de Israel; é um Salvador pessoal. “Deus, meu Salvador”. É fácil adivinhar quem é esse Salvador para Maria, pois ela ouviu do anjo que o nome do seu Filho é Jesus: Deus que salva, Deus Salvador.

2- É o Deus habituado em fazer maravilhas. Maria olha o que está para lhe acontecer. É extraordinário. Ela torna-se mãe do Filho de Deus. É a maravilha das maravilhas que Deus fez para o seu povo: a libertação da escravidão do Egito, o dom da Aliança, da Lei, a assunção de Israel como povo e propriedade particular de Deus, povo santo, povo de sacerdotes... O Deus das maravilhas dá em abundância vida, liberdade, nobreza.
3- Isso é próprio de um Deus cuja natureza é ser santo. “Santo é o seu nome”. Tudo o que Deus faz em Maria, tudo o que ele faz em favor do povo, é porque ele é Santo.
4- Deus escolhe os pequenos. Ele dispersa os soberbos, ele derruba os poderosos, ele despede os ricos de mãos vazias. Davi e Acab sabem-no bem, quando se prevalecem do poder contra os fracos e vão no rumo dos crimes. Deus os humilha por meio dos seus profetas e os ameaça de destruição. Os salmos recordam, muitas vezes, esta escolha em favor dos pequenos e contra os homens de coração de ferro.
5- Maria, lendo a história do seu povo, proclama que Deus está presente, é ativo, preocupa-se dos seus. Ele já é no Antigo Testamento aquilo que será no Novo Testamento, o Emanuel, aquele que caminha com o seu povo.
6- No seu canto, Maria percorre toda a história de Israel e se une a Abraão, o pai que recebe as promessas. Deus é o Deus fiel. O que ele prometeu a Abraão ele o realiza de geração a geração e o leva ao seu termo no menino que se forma nela.
7- Sobretudo, para Maria, Deus é o Deus de amor. Toda a história da humanidade está constantemente envolta do seu amor, como o mostra a inclusão a seguir, que encerra sete ações que sumariam a perfeição do agir de Deus. (Cf. Marie, la Mère de Jésus, p. 180)
Quando ela reza, contempla o rosto de Deus, quando então já sonha de ver o rosto do seu filho.

2- O retrato de Maria
Mas então Maria, inconscientemente, deixa emergir a sua própria identidade espiritual.
1- É mulher de alegria, alegria plena de gratidão e encantamento. A primeira palavra de Gabriel havia sido: Alegra-te. Maria não vai deixar cair tal saudação e convite. Ela se deixa esclarecer por essa mensagem de alegria. O menino que se forma nela é a sua maior fonte de alegria. Maria não é tocada pelos perigos possíveis: ser despedida, perder o bom nome, em sociedade e perante os pais, ser lapidada. Ela está estabelecida na alegria e a sua força vem do céu: “Nada é impossível a Deus”. É desta mulher ditosa que dizemos: Causa da nossa alegria, porque o filho que ela traz no seio é toda a nossa ALEGRIA.
2- Maria é mulher inteligente. Ela compreende e proclama o que Deus fez nela: “O Senhor fez em mim maravilhas”. A sua característica será sempre refletir, procurar compreender, deixar as coisas amadurecerem no coração, santuário da oração. Ela tem, ademais, a sua justa intuição: a maravilha que Deus fez nela é de tal grandeza que “doravante todas as gerações a proclamarão ditosa”.
3- Não é orgulho, porque Maria se havia proclamado “humilde serva”, o nada contemplado pelo amor, pequena como todos os ‘anauim’ de Israel.
4- É a mulher cujo coração já está modelado pelo Espírito, pautado pelo coração do Filho. Como ele, ela escolhe os humildes, os famintos. Ela toma distância dos soberbos, dos tiranos, dos ricos. Ela faz escolhas corajosas.

5- É mulher profundamente enraizada na história do seu povo. O seu Magnificat não é o canto de solitária, mas de mulher solidária. Partindo do seu caso, ela percorre, em linha reversa, todas as gerações do seu povo, até Abraão, o homem primordial dessa aventura com Deus. No coração de Maria, vive a história e a esperança de Israel. Bate nela o coração do seu povo.
6- É mulher de fé profunda. Somente a fé permite ler a história, descobrindo a presença e a ação de Deus. Somente a fé permite ler o seu caso pessoal como obra de Deus: o menino que ela leva em si não é um acidente, senão o dom do amor sem limites de Deus que vem salvar. O retrato de Deus que emerge do seu canto é por inteiro o fruto da sua fé.
7- É sobremodo a mulher que sabe dizer o seu muito obrigado. Entre os judeus, a gratidão exprimia-se sempre em louvores e na bênção; a palavra obrigado não existia no idioma hebraico. Mas cantar os louvores de alguém não seria a opção para substituir o obrigado inexistente? Ser reconhecido, amado, abençoado, venturoso para sempre não seria o equivalente do obrigado? Em Maria, a gratidão irrompe espontânea, abundante e jubilosa.
Lemos, rezamos ou cantamos, muitas vezes, o Magnificat. Fazemos nossa a fé, a alegria e o louvor mediante os quais Maria glorifica a Deus. Sempre que redizemos todas as gerações me chamarão venturosa, muito bem adivinhamos que no grande louvor de Deus, esta pequena frase e esta profecia constituem o louvor reservado à Mãe. Reiteramos esta profecia com júbilo, dando-lhe uma espécie de cumprimento. Hoje somos a geração que diz com alegria e reconhecimento: Todas as gerações me chamarão venturosa. Sim, Mãe de Jesus, declaramos-te bem-aventurada; tu és a causa da nossa própria alegria.
Lutero, no seu comentário do Magnificat, escreveu: “Este santo cântico da bem-aventurada e doce mãe de Deus deveria ser aprendido e decorado por todos. Neste canto Maria nos ensina como devemos amar e louvar a Deus, com o coração desapegado, sem buscar o nosso interesse”.

Sugestão de atividade :

A palavra amor ou misericórdia aparece duas vezes no Magníficat. Entre essas duas palavras há 7 ações. O que você descobre nisso?


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