O mistério da trindade deus é a Trindade



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O MISTÉRIO DA TRINDADE

Deus é a Trindade

Pe. Alfeu Piso


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Introdução
a. “Na plenitude dos tempos” (Gl 4,4), Deus protagoniza a história da salvação, como Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas distintas, mas tão em comunhão entre si, que a experiência desse evento salvífico e a fé cristã sempre os viram como um só Deus. A experiência cristã não precisou negar a sua herança judaica do Deus Uno e Único, mas completou sua compreensão de Deus, a partir de sua experiência de Jesus. Em todo o evento salvífico no tempo de Jesus, principalmente nos seus momentos fundamentais, como a encarnação e o mistério pascal, aparecem as três pessoas divinas em plena comunhão entre si.
b. Agora, ao falar de Deus, assim como Ele se revela e como Ele age nos eventos salvíficos, é preciso estar atento para não interpretar a revelação, ouvindo-a de dentro de um politeísmo reduzido em forma de triteísmo, nem de dentro de um jogo de linguagem como no modalismo e muito menos dentro do subordinacionismo. A revelação última de Deus, no mistério de Cristo, exige que estejamos abertos à novidade de Deus e não o escutemos nem dele nos aproximemos para ouvir e ver o que já sabíamos ou o que pensávamos saber sobre ele.
c. Portanto, vamos falar de Deus. Não simplesmente de Deus, mas falar do Deus de nossa fé cristã. Deus no singular, não um singular de solidão, mas um singular de comunhão. Falamos já de Jesus como Filho, falamos do Pai e do Espírito Santo. Aos três se atribui o nome de Deus sem multiplicar a divindade. Falar aquilo que é possível falar. A palavra humana, criada para falar das coisas de nosso mundo, não consegue falar sem muita humildade e sem muito esforço sobre Deus. A palavra humana só consegue apontar a presença do mistério e nos convidar a contemplá-lo e adorá-lo.
d. Contudo, Deus, ao se revelar e se autocomunicar a nós, ele se configurou e configurou sua palavra com a nossa gramática de comunicação. Ele nos ofereceu o dom de sua Palavra na palavra humana e agraciou-nos com a audição da fé, para que pudéssemos ouvir a Palavra como Sua Palavra e fez essa palavra dar tudo de si mesma, para que pudéssemos também falar algo de Deus com a nossa palavra humana. Mesmo assim, é preciso muita humilde e prudência para se falar do Deus, que se revelou e se comunicou “muitas vezes e de diversos modos aos nossos pais pelos profetas e agora, nesses dias que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho” (Hb 1,1-2). Em Jesus a Palavra se fez carne, habitou entre nós e nos revelou a glória de Deus. A Palavra armou tenda entre nós e nós vimos a sua glória (cf Jo 1, 14). E é do que ouvimos, vimos, contemplamos e apalpamos que falamos (cf 1Jo 1,1).

Sem a ousadia do vidente,

mas sem preguiça
a. Suponhamos que um copo vazio e ressequido tenha consciência de não poder conter toda a água do oceano. E, por não poder conter todo o oceano, renuncie de antemão, aproximar-se e colher a água que pode conter. Nesse caso ficará sempre vazio e o oceano continuará o oceano. Mas, se num ato de reconhecimento de seu limite e reconhecimento da soberania do oceano, o copo pedir emprestado o que ele puder conter, ele sairá satisfeito, pleno. Não perdeu por tentar, mas ganhou tudo o que podia ganhar, e, o oceano continua o oceano.
b. De semelhante proporção é a inteligência humana com relação ao mistério de Deus. Aí existe a distância entre finito e o infinito. A inteligência humana limitada, mas real e exigente, e a infinitude de Deus. A inteligência pode conter tudo o de que é capaz desse mistério, e, ficará satisfeita, porque não precisa dominar o mistério para se satisfazer, e o mistério de Deus continuará mistério, pois, Deus é sempre o maior, sempre o mistério, que se autocomunica sem se esgotar e sem deixar-se dominar. Ele se revela e se autocomunica, mas a revelação e autocomunicação serão recebidas dentro dos limites do humano. O que Deus revela de si vai muito além de tudo o que a inteligência e a resposta de amor humanos podem conter. Deus sempre se revela e se autocomunica como mistério, de forma superabundante.
c. Por isso, há quem renuncie qualquer discurso sobre Deus. Mas há quem fale demais, como se fosse vidente. E há quem não renuncia a falar, mas não fala demais, fala com modéstia. Esta última é a atitude apostólica, aquela que fala só o que Deus revela de si mesmo. Não fala como vidente nem como aquele que é capaz de, por si mesmo, chegar lá, pois, o conhecimento de Deus não vem “da carne nem do sangue” (cf. Jo 1, 13; Mt 16,17), mas vem de Deus mesmo que se dá a conhecer e se autocomunica, iluminando e plenificando o ser humano.

O Mistério: a fonte e o horizonte
a. Para nós cristãos, falar de Deus é falar do mistério de Deus, que se apresenta como Mistério da Santíssima Trindade. O mistério de Deus Uno e Trino. E aí surge o termo mistério. Termo que pode inicialmente inibir a vontade de pensar e de falar, se não for bem entendido. Na linguagem de cada dia, usa-se o termo mistério, para dizer que uma coisa é complicada, de difícil acesso e de difícil compreensão. “Isso é um mistério – fulano é um mistério”. E daí, para se chegar à conclusão que é perda de tempo refletir sobre o mistério de Deus, é um passo.
b. Quando falamos de Deus como mistério, estamos falando de uma realidade inacessível aos recursos humanos, inesgotável. Uma realidade a quem ninguém jamais viu: “Ninguém jamais viu a Deus” (Jo 1,18). Mas estamos falando também de uma realidade que se revelou, isto é, que se deu a conhecer e se autocomunicou no amor: “O Filho único que está no seio do Pai, foi quem o revelou” (Jo 1,18). Portanto, uma realidade infinita que, gratuitamente, por amor, veio até nós.
O mistério é semelhante a uma fonte
O mistério de Deus é semelhante a uma fonte de água. O mistério se derrama, se revela e se doa. Dele todos podem beber e se saciar, mas ninguém pode esgotar o mistério, pelo fato de todos se aproximarem da fonte, todos beberem e todos se saciarem, mas ninguém pode esgotar a fonte nem beber a fonte, mas beber da fonte e na fonte. Esta permanece a mesma.
O mistério é semelhante ao horizonte
O mistério de Deus é também semelhante ao horizonte. O horizonte é lá onde parece que o céu a terra se encontram. Você pode ir até onde o horizonte aparece para você. Pode ir até aquele ponto em que parece que se encontram o céu a terra. Mas quando você pisa naquele ponto de referência do horizonte, ele já está à sua frente, talvez ainda maior. E você se senta e contempla alegre, descansando para mais uma caminhada.
É preciso beber da fonte e buscar o horizonte
É preciso aproximar-se para beber, mesmo sabendo que não se pode esgotar a fonte. É preciso aceitar o desafio do horizonte, para se poder andar. Só se vai para frente, tendo o horizonte sempre à frente. Não se perdeu, por não esgotar a fonte, mas se saciou. Não se perdeu, por não tocar o horizonte, mas se andou. Deixou-se o topus, ou seja, o lugar fixo, e se foi para a utopia, ou seja, para o lugar a ser conquistado, sempre aberto, sempre maior.
O mistério da Trindade fonte inesgotável
O mistério da Trindade é a fonte inesgotável na qual todos podem-se saciar. É o horizonte aonde todos chegam, mas está sempre à frente. Mistério que se revela e se doa, mas permanece mistério, sempre maior do que tudo o que se pode imaginar e pensar. E isso, sobretudo, quando estamos falando, não simplesmente de Deus, mas do Deus da fé cristã, do Deus revelado em Jesus Cristo e por Jesus Cristo, ou seja, o Deus uno e trino.

No Antigo Testamento
a. Do antigo povo de Deus, o cristianismo herdou a fé no Uno e Único Deus. Dadas as circunstâncias do Antigo Testamento, foi bastante que Deus se revelasse e que fosse percebido, como Deus uno e único, diante dos povos e culturas politeístas, que afirmavam uma multiplicidade de deuses e deusas. Na fé amadurecida do Povo de Israel, Deus é uno e único (cf Dt 6). É uma fé monoteísta. Não quer dizer que Deus tenha-se mudado no percurso da história da revelação e da salvação. Deus sempre foi o Deus uno e trino. Mas ainda não se havia revelado como tal. Tinha agido como Deus uno e trino, mas não tinha sido percebido como tal, pois, o problema a que a fé devia responder, não era a Trindade, mas a Unicidade.
b. É claro que hoje, os cristãos, podemos, com prudência, ler o Antigo Testamento e interpretá-lo de forma trinitária, pois, já possuímos a plenitude da revelação. Hoje, sim, porque o mistério de Cristo iluminou tudo aquilo que já estava presente, mas ainda de forma velada, devido às condições dos crentes (cf Lc 24,27).

Em o Novo Testamento
a. Em o Novo Testamento, foi revelado o ser trinitário do Deus uno. No tempo de Jesus, sempre aparecem três pessoas divinas agindo em comunhão. O Deus do Antigo Testamento, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó é o Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. O mesmo único Deus. Mas as pessoas já aparecem distintas e sempre relacionadas entre si. O mistério da Trindade aparece para nós. Aparece no mistério de Jesus de Nazaré: em sua encarnação, na sua vida pública, no mistério pascal plenificado com o dom do Espírito Santo.
b. Desde a encarnação, aparecem três distintas pessoas, agindo em plena comunhão, ou seja, agindo como Uno. Aparece o Pai, enviando o Filho, concebido no seio de Maria, pelo Espírito Santo. O mistério da encarnação só se pode explicar, sendo Deus Trindade. É o Pai que envia o Filho ao mundo e cria sua humanidade no seio de Maria pelo Espírito Santo.
c. No batismo, Jesus recebe o Espírito Santo e é revelado pela Voz Celeste como Filho. No batismo, a humanidade de Jesus de Nazaré é revelada como humanidade filial e é pneumatizada para a missão. Durante o tempo de missão, Jesus age em comunhão com uma outra pessoa, o Espírito Santo (Lc 4) e, nele, Jesus se refere a outra pessoa, o Pai: “Naquele momento, ele exultou de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse: ´Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, e quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar´” (Lc 10, 21-22). No Evangelho de João, Jesus promete que, ao chegar de volta ao Pai, enviará o Espírito Santo, para ser o Paráclito dos discípulos e o Mestre da verdade sobre ele (cap. 14). E Jesus recomenda que os discípulos não iniciem a sua missão, enquanto não receberem também a força do alto, o Espírito Santo, que o Pai enviará em seu nome (At 1).
d. Na cruz, Jesus entrega o Espírito ao Pai e se aliena na morte (Lc 23,46). O Pai acolhe o Espírito e o devolve numa nova dimensão ao Filho-homem e reconhece essa humanidade de Jesus, como humanidade assumida pelo Filho. Desse abraço de reconhecimento da humanidade de Jesus, como humanidade filial, o Espírito Santo é derramado sobre toda a humanidade (cf. Jo 20, 19ss). Derramado porque, ao reconhecer a humanidade de Jesus, como filial, toda a humanidade recebe o Espírito de adoção, pelo qual clama “Abba, Pai” (cf. Rm 8,16; Gl 4,6). O mistério pascal, cruz e ressurreição, envio do Espírito, só se pode aceitar como atuação do mistério trinitário. O Pai reconhece o humano, como humano filial e o pneumatiza com o Espírito Santo. Incorporada na humanidade filial de Jesus e pneumatizada pelo mesmo Espírito que o ressuscitou dos mortos, a humanidade passa a habitar o mistério da Trindade.
e. Todo o tempo de Jesus e todo o tempo da Igreja, em o Novo Testamento, acontece pela proximidade do Deus Único, do Deus da Promessa e da criação, que se revela em três pessoas. Jesus, o Filho enviado ao mundo pelo Pai, o Espírito Santo que fecunda o seio de Maria, unge corporeidade de Jesus, impulsiona-o na missão e completa sua obra no tempo da Igreja.
f. A fé trinitária é constitutiva da fé cristã. Está nas origens da fé cristã. Não foi inventada depois. Pois, a fé cristã é a afirmação de que Jesus é o Cristo, Senhor e Filho de Deus, enviado ao mundo pelo Pai e concebido no seio da Virgem Maria pelo poder do Espírito Santo.
g. Desde de que se inicia, o cristianismo é trinitário. O ingresso à vida cristã se dá pelo batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28). A comunidade se reúne para a eucaristia na graça do Senhor Jesus Cristo, no amor de Deus e na comunhão do Espírito Santo (2 Cor 13,13).
h. Mas no ambiente do Novo Testamento não encontramos explicações para esse modo espontâneo de crer e celebrar. Só mais tarde vão surgindo as perguntas sobre como conciliar a fé trinitária com o monoteísmo herdado e como falar do um só Deus e das três pessoas.

A vida cristã é trinitária
a. Toda a vida cristã é trinitária, ao menos verbalmente, pois, a fé cristã não esclarecida parece ser muitas vezes, ou, monoteísta, ou, triteísta. E ainda, muitas vezes, relaciona-se com as pessoas divinas, transferindo para elas o jeito devocional com que tratam os demais santos, preferenciando ora o Pai, ora o Filho, ora o Espírito Santo. Ainda mais, para uma tendência de concentração cristológica, parece que não faz tanta falta o Pai e o Espírito Santo.
b. O mistério da Trindade está presente e acompanha a vida do cristão, desde a manhã até o por do sol. Ele se levanta e se deita “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Ele, ao passar diante de uma igreja, se benze com o sinal da cruz; diante do perigo, ele se benze; ao sentar e ao levantar-se da mesa de refeição; ao iniciar uma viagem e em tantas outras ocasiões durante o dia, ele se benze com o sinal trinitário da cruz. O sinal da cruz sempre acompanhado com o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, como sempre a afirmar que na cruz de Cristo está revelado o mistério de Deus uno e trino.
c. São tantas as orações, cantos que celebram no dia a dia o mistério da Trindade. Se o cristão reza o rosário, sempre inclui a sua ave maria e sua meditação do mistério da redenção, no mistério da Trindade: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”.
Toda celebração cristã é trinitária
a. O cristão católico não começa uma atividade eclesial sem antes fazer o sinal trinitário da cruz. Principalmente as celebrações da comunidade começam com esse sinal, acompanhado da saudação do presidente, saudação que normalmente é trinitária: “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito santo, estejam convosco!”. Se o começo da celebração é trinitário, também o final é trinitário: “Abençoe-vos o Deus todo poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo”.
b. O núcleo da celebração batismal é trinitário: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O perdão é proclamado em nome da Trindade: “Eu te absolvo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Aliás, todos os sacramentos aparecem como atuações da Trindade. Mas, principalmente, a eucaristia, é toda ela uma grande celebração da Trindade. Toda ela é dirigida ao “Pai, por Nosso Senhor Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo”. A oração eucarística suplica ao Pai que envie o Espírito Santo para que a eucaristia seja possível como corpo e sangue de seu Filho, Jesus Cristo. Na II Oração Eucarística se reza: “Ó Pai, vós sois santo e fonte de toda santidade. Santificai, pois, estas oferendas, derramando sobre elas o vosso Espírito, afim de que se tornem para nós o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso”. Suplica ao Pai para que o Espírito faça da comunidade comungante o corpo do Filho: “E nós vos suplicamos (ó Pai) que, participando do Corpo e do Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo”. O sacrifício, a ação de graças, as súplicas, o louvor oferente se dirigem ao Pai, “por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória, agora e para sempre”.
c. A Igreja deve sua existência e sua configuração última ao mistério da Trindade. No mistério da Trindade está a raiz última da Igreja, e aí se explica a sua unidade e sua diversidade (cf. LG n.2), por isso, tudo nela é trinitário. O mistério da Trindade é vivido e celebrado de modo espontâneo, como experiência espontânea de um evento salvífico. Mas chega a hora em que é preciso falar, explicar. E essa hora chegou.

A linguagem do discurso trinitário
a. Depois de um longo processo de busca e tentativas para se falar desse mistério, e até com erros de interpretações (modalismo, subordinacionismo, triteísmo), se adotaram algumas palavras das culturas da época para se elaborar um discurso sobre o Deus cristão. Algumas destas palavras vem da cultura de língua grega (oriente) e outras vem da cultura de língua latina (ocidente). A maior parte das palavras, antes de virem a falar do mistério de Deus, elas já falavam dentro de correntes de pensamentos filosóficos e, por isso, precisaram passar por certas transformações de sentido para falarem do mistério de Deus. Algumas poucas palavras foram criadas pelo gênio dos pensadores cristãos e só se dão bem quando falam do mistério de Deus.

b. Seria exaustivo tentar resumir todo o processo de seleção e de adequação da linguagem no corpo de um simples artigo. Mas, mencionemos apenas alguns exemplos de palavras adotadas para se falar do mistério trinitário. Algumas palavras foram selecionadas, purificadas e estão aí para nos ajudar a balbuciar o mistério: Trindade, substância, natureza, essência; hipóstase, subsistência, pessoa, relações, processão, pericórese.


c. Além das palavras que foram se juntando e se irmanando de duas culturas básicas, há também a lógica própria dessas duas culturas. Então, surgem tendências possíveis para se articular a unidade em Deus e a trindade de pessoas. Os teólogos de cultura grega partem da substância do Pai. O Pai é o princípio fontal, do qual se afirmam o Filho e o Espírito Santo. Os teólogos de cultura latina partem da substância divina una compartilhada pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo. É claro que nós, ocidentais, temos mais familiaridade com o modo de dizer da cultura latina. Há uma terceira tendência que parte da trindade de pessoas e conclui a unidade com o termo pericóse, comunhão.
d. Algumas dessas palavras, após uma longa e conflitiva história de ajustamento, foram adotadas para dizer o que em Deus é um: substância, natureza, essência. Outras foram adotadas para dizer o que em Deus é três: hipóstase, subsistência, pessoa. A palavra relação indica o que é próprio a cada pessoa e como as pessoas se ordenam uma a outra: paternidade, filiação, espiração ativa e espiração passiva. Na linguagem mais comum se deu preferência para natureza e pessoa e se anuncia: uma só natureza divina em três pessoas iguais e distintas.
e. E, ao falar do mistério da Trindade, logo nos vem à mente a idéia de três. De fato Deus é três pessoas. Três pessoas que se revelaram e agiram na história, como Pai, Filho e Espírito Santo. Não sendo nenhuma mais, nenhuma menos que a outra, mas iguais, embora distintas, de modo que devemos continuar sendo fiéis à antiga fé de Israel, confessando um só Deus, mas completando a fé de Israel e tornando-a cristã, confessando a Trindade de Pessoas.

f. Mas quando a linguagem cristã usa o termo Trindade, além de dizer três, também diz UM. Por que? Porque ao falar da pessoa do Pai e olhar para a pessoa do Filho, existe a distinção. O Pai não é o Filho, o Filho não é o Pai, mas tudo o que o Pai é, o Filho também é. Nenhum é mais que o outro, nenhum é menos que o outro; nem um é antes que o outro, nenhum é depois do outro; O Pai gera o Filho e o Filho é tudo o que o Pai é, menos o que lhes é próprio a cada um: ser Pai e ser Filho. Mas, para que sejam assim, Pai, Filho, distintos, iguais em tudo, menos na relação de paternidade e filiação, na mesma divindade, é preciso que exista uma terceira pessoa, que seja a pessoa de união, ou seja, do mútuo reconhecimento e amor, o Espírito Santo.


g. Portanto, o termo Trindade diz que Deus é três pessoas iguais e distintas. Não três deuses, mas Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. A palavra Deus indica um e indica três. O Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. Não três deuses, mas um só Deus.
h. Ninguém inventou o Mistério da Trindade. Esse mistério não é o resultado de um pensamento filosófico que se derrapou para a dimensão religiosa. Nem podia ser esse resultado, pois, a racionalidade humana não seria capaz disso, pois, mesmo quando esse mistério lhe é dado, ela não consegue compreender. A racionalidade humana só é capaz de trabalhar nessa área, quando envolvida no evento da revelação e iluminada e elevada pela faculdade da fé.
A palavra DEUS
Quem pensa Deus como realidade impessoal, ou, pessoal solitária, carente do louvor humano e criacional, ainda não está pensando o Deus cristão. O Deus cristão, ou seja, aquele que atua o mistério de Cristo, nele se revela e se autocomunica, realiza todas as condições para ser o verdadeiro e único Deus, como dizia Santo Agostinho: “A Trindade é o único Deus verdadeiro”. Deus é amor. Três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Cada pessoa é tudo o que a outra é. Nenhuma mais, nenhuma menos que a outra. Nenhuma antes, nenhuma depois da outra. Nenhuma superior, nenhuma inferior. Nenhuma só, nenhuma sem a outra. Uma não é a outra, pelo fato de que o Pai é Pai, o Filho é Filho, o Espírito Santo é Espírito Santo. Elas, as pessoas, se distinguem, mas não se separam nem se anulam. Vivem um intercâmbio tão profundo, inimaginável, perfeito e absoluto de ser assim, que são um só Deus. A Palavra Deus se diz do Pai, se diz igualmente do Filho e se diz igualmente do Espírito Santo. O Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. Diz com a mesma intensidade as três pessoas, mas diz um só Deus, um só absoluto, um só eterno, um só onipotente, um só criador e Redentor.

O símbolos da fé são trinitários
a. A profissão de fé da comunidade cristã é trinitária: “Creio em Deus Pai, creio em seu único Filho e creio no Espírito Santo”. Por isso, terminamos com um convite à oração. Convite a uma profissão de fé contemplativa e serena, tomando três símbolos de fé da Igreja. O primeiro, o mais conhecido e mais presente em nossas celebrações, chamado símbolo apostólico. O segundo, chamado símbolo niceno-constantinopolitano, porque fruto dos Concílios de Nicéia (325) e de Constantinopla (381), também adotado na liturgia eucarística, ainda que usado mais raramente. O terceiro, com o nome Quicumque, atribuído a Santo Atanásio ((295-373), não teve a mesma sorte de divulgação e o mesmo espaço litúrgico. Mas o tomamos, pela sua densidade, abrangência e pelo seu poder de convite à contemplação. É como se fosse uma catedral gótica da linguagem. Sua leitura atenta desafia a inteligência, exalta a dignidade humana e desperta a consciência do limite de todo ser diante daquele que é o Ser por excelência, “Uno e Trino”.
b. Por que símbolo? São fórmulas confessionais fixas, expressão precisa da fé da Igreja que, professadas, une a todos na mesma realidade da fé. Os símbolos, ou, credos, como preferimos chamar, evitam também que a fé cristã se desvie para a subjetivação de seus dados fundantes e fundamentais. Os símbolos ou profissões de fé começam com o Creio, não com o Cremos, por que sujeito da fé é a Igreja, não uma soma de fiéis.


O Símbolo Apostólico

Creio em Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo. Nasceu da Virgem Maria. Padeceu sob Pôncio Pilatos. Foi crucificado, morto e sepultado. Desceu à mansão dos mortos. Ressuscitou ao terceiro dia. Subiu aos céus. Está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo. Na santa Igreja Católica. Na comunhão dos santos. Na remissão dos pecados. Na ressurreição da carne. Na vida eterna. Amem!




O Símbolo Niceno-Constantinopolitano
Creio num só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai, antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado não criado, consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas. E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus: e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus, onde está sentado à direita do pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: ele que falou pelos profetas. Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amem.


O Símbolo “Quicumque”

“Todo aquele que quiser salvar-se, antes de tudo é necessário que mantenha a fé católica; e quem não a guardar íntegra e inviolada sem dúvida perecerá para sempre. Ora bem, a fé católica é esta: que veneremos a um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade; sem confundir as pessoas nem separar a substância. Porque uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho e outra a do Espírito Santo; porém, o Pai, o Filho e o Espírito Santo tem uma só divindade, glória igual e coeterna majestade.


Qual o Pai, tal o Filho e tal (também) o Espírito Santo; incriado o Pai, incriado o Filho e incriado (também) o Espírito Santo; imenso o Pai, imenso o Filho, imenso (também) o Espírito Santo. E não obstante, não são três eternos, senão um só eterno, como não são três incriados, nem três imensos, senão um só eterno, e um só imenso. Igualmente, onipotente o Pai, onipotente o Filho, onipotente (também) o Espírito Santo.
E no entanto, não são três onipotentes, senão um só onipotente. Assim Deus é Pai, Deus é Filho, Deus é (também) Espírito Santo; e, no entanto,não são três deuses, senão um só Deus.
Assim, Senhor é o Pai, Senhor é Filho, Senhor é (também) o Espírito Santo; e, no entanto, não são três Senhores, senão um só Senhor: porque assim como pela verdade cristã somos compelidos a confessar como Deus e Senhor a cada pessoa em particular, assim a religião católica nos proíbe dizer três deuses e senhores.
O Pai por ninguém foi feito nem criado nem engendrado. O Filho foi somente pelo Pai, não feito nem criado, mas engendrado. O Espírito Santo, do Pai e do Filho, não foi feito nem criado nem engendrado senão que procede. Há, consequentemente, um só Pai, não três pais;um só Filho, não três filhos; um só Espírito Santo, não três espíritos santos; e nesta Trindade nada é antes nem depois, nada maior ou menor, senão que as três pessoas são entre si co-eternas e co-iguais, de sorte que, como antes se disse,por tudo deve-se venerar tanto a unidade na Trindade quanto a Trindade na unidade. Quem quiser, pois, salvar-se assim deve pensar da Trindade

Concluindo

a. A revelação e a autocomunicação do Mistério da Trindade lança luz em primeiro lugar ao mistério de Deus e nele iluminamos a nós mesmos. Somos imagens e semelhança de Deus. No mistério de Cristo, ficamos sabendo de que Deus somos imagens e semelhança. Não apenas do Deus Uno, mas do Deus Uno e Trino. Diante dessa realidade afirmamos a nossa identidade, defendemos nossa originalidade, nossa distinção do outro, mas afirmamos a nossa igual dignidade, o direito de ser diferente, nossa igual origem e nossa igual vocação. Somos nós mesmos, com o outro, para o outro, chamados não apenas a viver, mas a conviver, a partilhar, a amar, a buscar a comunhão, na qualidade de filhos e de irmãos.


b. Sendo Deus assim, Uno e Trino, tal qual se revelou e se autocomunicou, o homem e a mulher se quiserem atingir o máximo de sua humanidade, fica-lhes proibido todo individualismo, todo poder de domínio, todo poder de exclusão e só lhes resta um jeito de realização: o amor, a comunhão. E o novo mandamento de Jesus aponta para esse jeito de viver a fé trinitária. Quem acolhe esse mistério na sua fé, ganha luz para o projeto de edificação da sociedade, porque sabe que, se existe comunhão entre as três pessoas divinas, tudo o que provém do mistério fontal da Trindade só pode realizar-se como imagem da Trindade: uma única família humana, diferenciada nas suas mil diferenças que se completam, que se solidarizam, que buscam a comunhão.
c. Não posso dizer mais nada. Só esperar! Espero que o Deus que se revela e se oculta, que se autocomunica e se reserva, se mostre. Espero que nunca possa esgotá-lo. Mistério! Eternamente mistério nutrindo a criação e a eternidade. Graças a Deus, que Deus seja assim: mistério inesgotável. O Deus que é sempre maior do que todas as possibilidades da criatura, mesmo quando essa criatura estiver perante esse mistério na grande festa da eternidade. Mistério que alimenta o céu, o eterno momento de surpresa, num ah! eterno de gozo e felicidade.
d. No céu, graças ao Deus que é, ele será sempre mistério, sempre eternidade. Eu creio! Eu amo! Eu espero! Sou feliz assim! Será assim! Há de ser assim! Não seria capaz de inventar, se não fosse assim na experiência cristã.
e. Eu creio, há sempre alguém maior. Um! Três! Seu nome para nós é Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai só é Pai, porque o Filho é Filho. Só é Pai relativo a tal Filho, havendo reconhecimento e amor entre ambos, é o Espírito Santo, o eterno abraço de amor do Pai e do Filho, que se derrama sobre toda a humanidade.


Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

Como era no princípio, agora e sempre. Amem!

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Bibliografia

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A Santíssima Trindade é a melhor comunidade, Petrópolis: Vozes, 1988.

CATECISMO da Igreja Católica, artigo 1, parágrafos 1 e 2.

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