O movimento Budista Tao Pan no Brasil



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O Movimento Budista Tao Pan no Brasil

Neide Miele1

Minha viagem a Taiwan começou com uma inesperada mudança de rota. Há tempos eu vinha me preparando para ir à Índia, atraída pela estranha e doce figura de Sai Baba. Não estava em busca de nenhum milagre, nem de resolver qualquer problema pessoal, queria apenas ter o privilégio de poder estar em contato com a energia de um ser cujos ensinamentos me tocavam tão profundamente. Um pequeno grupo começou a ser formado, capitaneado por uma amiga. Depois de uma longa preparação o projeto veio abaixo um mês antes da data fixada.
Num certo domingo de fevereiro de 2000, mais ou menos 20 dias depois de saber que não iria viajar para a Índia, o telefone tocou e era Mestra Liu, responsável pelo Santuário Kuan Yin - de Salvador - ligado ao Instituto Buda Maitreya, de Taiwan, China Nacionalista. Eu havia conhecido Mestra Liu há pouco tempo, numa de minhas viagens à capital baiana. Pelo telefone, ela me convidava para integrar um grupo de 12 pessoas que estava se preparando para ir à China, ciceroneado por ela. Poucos detalhes me foram dados naquele momento, apenas que era uma reunião internacional promovida pela sede central do Instituto Buda Maitreya, em Taiwan, para homenagear o “Mestre Iluminado”, que havia partido deste mundo no dia 25 de dezembro de 1999, aos 80 anos de idade. Sem titubear, aceitei gratificada o convite.
No dia 23 de março, confesso que entrei no avião que me levaria à China recriminando meu temperamento impulsivo e o fato de ter aceito o convite para participar de um evento no outro lado do mundo sem saber exatamente do que se tratava. Bem, tentei abrandar minha auto-crítica e invoquei a proteção divina para enfrentar as 40 horas de vôo para a Ilha de Formosa.

Um pouco da história do Tão Pan
No início da década de 90, Shi Mu Taza e Yê Huei Puçá, dois jovens nascidos na China continental receberam a ordem divina para iniciar um movimento para a expansão de uma nova consciência, baseado nos seguintes princípios:


  • Todos os seres humanos fazem parte de uma só família, a humanidade.

  • As diferenças de cor, raça, idioma, status etc., são apenas aparências.

  • Em essência somos apenas UM.

  • Todos os seres vivos devem ser tratados com misericórdia, inclusive os animais.

  • Os seres humanos não precisam se alimentar da carne dos animais.

  • O planeta Terra foi agraciado com uma imensa quantidade de vegetais, ideal para a nutrição humana.

  • É chegada a hora da colheita e de preparação do”Tempo de Buda Maitreya”.

A filosofia do Tão Pan está fundamentada em dois grandes pilares: misericórdia e gratidão. O ser humano deve pautar sua vida pela compaixão, que resultará em atitudes misericordiosas para com todos os seres, desenvolvendo assim a gratidão por tudo o que tem. Gratidão pelos genitores, gratidão pelos antepassados, gratidão pelos que plantam os alimentos, gratidão por aqueles que fabricam todos os objetos que o ser humano necessita, gratidão pelos ensinamentos dos Mestres, gratidão pelo Céu que ilumina a todos, gratidão ...


Ocupando a mente em reconhecer e agradecer por tudo o que tem, o ser humano se preocupará menos em desejar o que não tem.
Ensinam os mestres do Tao que, antigamente, a transmissão do Tao estava reservada apenas aos grandes seres, santos e budas. A iluminação era um verdadeiro acontecimento na vida de uma criatura, invariavelmente conseguida através de muitos esforços e austeridades. Sendo o coroamento de um processo, a iluminação era o ponto de chegada na longa caminhada da ampliação da consciência.
Impulsionados pelas orientações vindas do Alto, estes dois jovens acreditavam que eram chegados os tempos da “Grande Colheita”. Foi-lhes dito que nos períodos de escuridão, a humanidade precisa de uma ajuda suplementar para poder realizar o grandioso destino que lhe está reservado, por isso, mesmo sem merecimento, a iluminação seria transmitida a todos que tivessem “bom coração”.
Ensinam os Mestres que é somente nos tempos de colheita - e a humanidade já conheceu vários - que a misericórdia divina permite a transmissão massiva do Tao, ou seja, da iluminação, que é uma grande expansão da consciência. Apesar de disponível a todos, a transmissão continua sendo unitária.

Com estes ensinamentos e lutando contra toda sorte de adversidades Shi Mu Taza e Yê Huei Puçá, iniciaram o trabalho de difusão do Tao Pan na velha China Continental, movimento que se expandiu até a chegada da revolução comunista, ocasião em que tiveram que se refugiar na Ilha de Formosa, a chamada China Nacionalista. Em outubro de 1949, depois da tomada de Pequim pelo Kuomintang, os adeptos do Tao Pan tiveram que fugir da China, assim como os seguidores de qualquer religião. Juntamente com o governo nacionalista de Chiang Kai-Shek, os adeptos do Tao Pan se refugiaram em Taiwan.


A expansão do Tao Pan
Lentamente, mas com a certeza que só a sabedoria proporciona, os Mestres começaram a longa jornada de expansão do Tao-Pan. Encontraram muitos adeptos na Ilha de Formosa e daí o trabalho passou a se irradiar por toda a Ásia. Hoje, existem centenas de templos espalhados por todos os países asiáticos. Só no Japão são mais de mil templos. Porém, foi na Indonésia que o Movimento teve o crescimento mais expressivo.
Por volta de 1970, o Tao Pan começou a se expandir também para o Ocidente. Hoje, seus templos existem em inúmeros países, em todos os continentes. Contudo, sua penetração ainda permanece restrita às comunidades orientais que vivem nesses países.

No Brasil, o Tao Pan chegou pelas mãos do Mestre Tsâng Tienzan. Ele chegou em nosso país no final da década de 70. Sem saber o idioma, ele trabalhou no interior de São Paulo como um simples agricultor, tendo passado por inúmeras provações para iniciar o trabalho de difusão do Tao. Nesta tarefa, ele foi auxiliado pela família de Mestra Liu, cujos integrantes também haviam imigrado para o Brasil no mesmo período que ele. Depois de ter passado alguns anos em São Paulo, Mestre Tsâng Tienzan escolheu a cidade de Salvador para fundar o Santuário Mãe Kuan Yin, sede do Movimento Tao Pan no Brasil. Mestra Liu o acompanhou nesse empreendimento e o substituiu depois de sua morte. Além do santuário de Salvador, existem mais dois em São Paulo e um em Santa Catarina.


Apenas a título de observação, gostaria de mencionar o papel ainda não decifrado que a cidade de Salvador tem na propagação de várias manifestações religiosas orientais no Brasil. Além do Tao Pan, foi a partir de Salvador que começou a propagação do Movimento Hare Krishna, e local da primeira sede da Sociedade Teosófica em terras brasileiras. Este é um bom enigma!
O que é o Tao Pan
Dizem os Mestres do Tao Pan que, apesar de conter em si as verdades difundidas pelo Taoismo, o Tao Pan não deve ser confundido com essa crença milenar. Ele não faz parte do passado, mas do futuro.
O Tao significa a resolução da dualidade contida no Yin-Yang, principal característica da dimensão em que vivemos. O símbolo do Tao é uma circunferência com um ponto no meio. O Tao não é uma religião, porque todas as religiões estão contidas na dimensão da dualidade. O Tao é a superação da dualidade, é a essência do movimento, é a energia pura, nem onda, nem partícula, são ambos, simultaneamente. O Tao é a síntese entre o masculino e o feminino, entre o Oriente e o Ocidente, entre o passado e o futuro, entre todos os pares de opostos que caracterizam a atual dimensão em que o Planeta Terra vive. O Tao é a plenitude, é o novo tempo, é a nova humanidade, é a era dourada de Buda Maitreya.

Situando Historicamente as Religiões na China

A luz da antiga China concentra-se em três focos: Confúcio, Lao Tse e Sidartha Gautama, o Buda Sakia Muni.


Confúcio é a forma ocidental dada ao nome Kong Fu Tse (551-479 a C.). Ele é o mais influente pensador da história chinesa. Escreveu os Analectos ou Ditos Seletos, cuja maior contribuição consiste na aproximação entre a ética e a política, pois acreditava que o governo era, antes de tudo, uma questão de responsabilidade moral e não simplesmente de manipulação do poder.
Quanto a Lao Tse, uma cortina de fumaça o envolve. Em todo o seu opúsculo, ele não cita qualquer nome histórico, por isso ele desaparece em nebulosas distâncias, onde se misturam facilmente a realidade e o mito. Apesar disso, acredita-se que ambos tenham sido contemporâneos e adversários, pois Lao Tse critica os valores confucianos relativos à política. Coerente com seus ensinamentos sobre a manutenção da paz interna através da aceitação daquilo que é inexorável, diz a lenda que Lao Tse teria se retirado para as montanhas, pois a situação política da velha China piorara tanto que no seu entender já não havia mais esperança de restabelecimento da ordem. Diz a tradição que, chegando ao desfiladeiro Han Gu, cavalgando um boi preto, o guarda da fronteira teria pedido a ele que deixasse por escrito as coisas tão belas que havia acabado de lhe dizer. Foi assim que ele teria escrito o Tao-Te King. Lao Tse significa "velha orelha comprida", cujo sentido é '"velho professor".
Embora Sidartha Gautama, o Buda Sakia Muni, tenha vivido na Índia entre os séculos VI e V a C., o budismo só penetrou efetivamente na China no século I d.C., através do Mestre Shih Kao, fundador da escola Dhyana, que enfatizava a prática da meditação. A época de maior florescimento do budismo na China foi entre os séculos V e VIII d.C.(Hinnels, 47)
Apesar de serem reconhecidos como as três grandes figuras de expressão religiosa, é reconhecidamente insuficiente a costumeira divisão da religiosidade chinesa em confucionismo, Taoismo e budismo. O confucionismo não é uma religião e sim uma filosofia política, que aplicou em seu sistema social os elementos religiosos pré-existentes na China.
O uso do termo Taoismo exige um certo cuidado, pois pode designar coisas bem diferentes, como uma antiga seita animista, uma filosofia, ou uma religião. Embora diferentes, todas têm em comum o reconhecimento de que a realidade terrena é dual, embora cada uma proponha caminhos singulares para sua superação.
Taoismo pode designar uma seita milenar, de caráter animista, que nada mais é do que uma antiga seita popular da China, anterior ao século V a C, que ao ser mesclada com doutrinas hindus acabou construindo um determinado sistema religioso, divulgado por sacertodes-mágicos que prometiam aos crentes a aquisição de poderes sobre-humanos. Segundo Alexandra David Neel2, a China antiga, bem como toda região circunvizinha, foi dominada pela seita Bön, oriunda do Tibet, antes da criação do budismo lamaísta. A seita Bön se caracteriza pelo uso da magia, exorcismo, mediunidade e pelo sacrifício animal. É conhecido o fato de Hitler ter sido assessorado por um grupo de monges tibetanos da seita Bön para a escolha do milenar símbolo religioso da suástica, transformando-o na imagem da destruição, da morte e dos campos de concentração. Depois de Hitler, o emprego benéfico deste símbolo ficou inutilizado para sempre.
Temos ainda a chamada religião taoísta, sendo sua fundação erroneamente atribuída a Lao Tse e aos ensinamentos contidos no livro Tao-Te King. De cunho filosófico, os aforismos do Tao-Te King dizem muito sobre o caminho a ser trilhado para a superação da dimensão terrena, porém nada dizem a respeito de uma prática litúrgica ou ritualística. Essas foram acrescentadas ao conteúdo filosófico elaborado por Lao Tse, dando surgimento à inúmeras seitas taoístas.

O Taoismo proveniente do Tao-Te King

Toda a metafísica do Tao-Te King baseia-se fundamentalmente na intuição, tão inacessível à tradução rigorosa quanto a palavra Tao. Desde as primeiras tentativas, sempre houve divergência de opiniões quanto à tradução correta dessa palavra: "caminho", "razão", "verbo", "logos", são algumas traduções propostas por alguns, enquanto outros tradutores simplesmente levam a palavra Tao para as línguas européias, sem traduzi-la. No fundo, pouco importa a expressão, pois para o próprio Lao Tse, essa palavra era apenas uma espécie de sinal algébrico para algo impronunciável.


Em linhas gerais, Tao designa a energia cósmica universal que se manifesta em toda a Natureza. Tal energia é abstrata, onipresente, eterna, responsável pela formação de todas as coisas, dela se originando o processo dialético da existência que opõe, de forma complementar e não excludente, todos os pares de opostos que caracterizam a realidade dimensional em que vivemos. E isso evoca forçosamente sua negação. Por isso, desse ponto de vista, a razão não está com aquele que se identifica com um dos lados de qualquer um desses pares de opostos. Para compreender o Tao é preciso um mergulho interior. Qualquer princípio resultante da experiência externa será desmentido no curso do tempo, porque o progresso modifica o reconhecimento do mundo. Mas, o que é reconhecido a partir da experiência central da luz interior, permanecerá imutável.
Tomando emprestadas as palavras de Richard Wilhelm3, o que Lao Tse pretende não é o "reconhecer", mas o "contemplar" a "iluminação interior". Dessa forma, a natureza humana constitui uma unidade coerente que se volta sempre para o seu interior, dentro da qual toda manifestação encontra complementação no seu oposto. Essa harmonia de compensação coloca o ser para além da influência do nascimento e da morte. Ele não vive, mas se deixa viver. Daí, a ênfase colocada na não-ação. Essa não-ação não é o mesmo que inatividade, ela é a mais absoluta aceitação daquilo que emana da existência.
Resta ainda mencionar que a eternidade do Tao baseia-se no fato de que todos os seus movimentos retomam para o interior de si mesmo. Através dele anulam-se todos os antagonismos, porque esses se compensam mutuamente, convertendo-se cada movimento no seu oposto. Quando as coisas ficam fortes, então elas morrem. Todo excesso origina o seu contrário. A vida está sempre no todo e jamais na parte isolada. Todos os seres participam da sua abundância, porém, se quiserem reter algo dela para si mesmos, cairão à mercê da morte. Encarado ontologicamente, o Tao é a raiz de toda a existência; no entanto, como o ser é diferente do não-ser apenas no nome e não na essência, o Tao age sempre dentro do ser na forma do maternal, que dá a vida aos indivíduos e os recolhe outra vez para dentro de si na morte.
O ponto de partida para se compreender o Tao é a unidade. Ela é o ponto para onde ascende o mistério dos mistérios e a porta da revelação de todas as energias... Desdobrada na variedade, a unidade é representada na forma do movimento circular. O Tao pode ser encontrado em perpétuo estado de fluidez, agindo na totalidade das energias invisíveis e atuantes. Emanando daí, elas transcendem, chegando aos mais distantes lugares e fecundando a Terra. Finalmente, voltam a si mesmas no homem, fechando a eterna espiral formada pelo Céu, Terra Homem. Nesse contexto, o Céu representa as forças espirituais, enquanto a Terra está mais próxima da matéria. O Homem faz a ligação entre ambas.
O Taoismo filosófico e o Taoismo religioso
O cânone do Taoismo filosófico é o Tao-Te King, que não pode ser considerado um texto de inspiração religiosa, embora todas as vertentes religiosas do Taoismo tenham absorvido os fundamentos filosóficos explicitados por Lao Tse. Um bom trabalho classificatório sobre as seitas taoístas foi escrito por John R. Hinnells4, no qual nos apoiamos.

O Taoismo religioso apareceu no fim da dinastia Han (23-220 d.C). O mais importante foi a seita Mestre Divino (Tien Tsun) ou Celamins de Arroz, fundada por Chang Tao-Ling (34-156 d.C.). Diz-se que Chang alcançou a imortalidade logrando o domínio de centenas de espíritos cujos nomes e funções identificou e preservou para seus discípulos nos Registros Canônicos da Aliança Auspiciosa. À testa desse panteão estão os “Três Puros” ou os Senhores do Céu, da Terra e do Homem.


A seita da Jóia Sagrada (Ling-Pao) foi um movimento pacífico, surgido no princípio do século IV. Seus adeptos desenvolveram rituais taoístas importantes, como o rito da renovação cósmica. Esses rituais foram adotados pela seita do Mestre Divino, no século V, e mais tarde, por todas as seitas que se proclamavam ortodoxas.
A seita do Puro Mais Elevado (Shang Ching), que apareceu no começo do século IV d.C, enfatizou métodos de controlar os espíritos através da meditação, mais do que pelo ritual. Muitas seitas de graus variados de ortodoxia emergiram durante as dinastias T'ang e Sung (618-1126 dC). Descritas coletivamente como Taoístas da Nuvem do Espírito (Shen Shiao), contam com a maioria dos sacerdotes taoístas na moderna Taiyuan, onde são chamados Mestres dos Métodos (Fa Shih) ou taoístas de cabeça vermelha e se distinguem dos Mestres do Tao (Tao Shih) ou taoístas de cabeça preta, mais ortodoxos.
Tao Tsang - O cânon Taoísta (Tao Tsang) logrou a sua forma presente de 1120 volumes, em 1436 d.C. Uma forma anterior do cânon era mais extensa; muitos volumes, porém, foram destruídos e sua ordem rompida, quando Kubilai Khan o mandou queimar em 1281 d.C. A classificação do Tao Tsang no San Tung (Três Abóbadas) e no Ssu Fu (Quatro Suplementos) data, pelo menos, do princípio do século IV e do princípio do século V d.C, respectivamente. Essa forma de classificação foi aplicada às versões subseqüentes do Tao Tsang, embora o conteúdo preciso das categorias tenha sofrido algumas variações.
O primeiro dos San Tung, o Tung Chen (Abóbada Verdadeira) contém, sobretudo, a meditação e os textos rituais da seita Yu Ching (Capital de Jade) ou Shang Ch'ing (Puro Mais Elevado) de Mao Shan. O segundo, o Tung Hsuan (Abóbada Misteriosa), em grande parte dedicado aos textos Ling Pao (Jóia Sagrada), fornece pormenores sobre muitos rituais e talismãs. A terceira seção é o Tung Shen (Abóbada dos Espíritos), que continha inicialmente o San Huang Wen (Mandado dos Três Imperadores) e o Meng Wei Ching Lu (Registros Canônicos da Aliança Auspiciosa), os 24 registros dos nomes e funções dos espíritos descobertos por Chang Tao-Ling (34-156 d.C) da seita do Divino Mestre.
No livro O Segredo da Flor de Ouro, Richard Wilhelm apresenta a tradução de dois textos alquímicos chineses, publicados no Ocidente, em 1926, e prefaciados por Jung. São eles: O Hui Ming Ging ou Livro da Consciência e da Vida, editado por Liu Hua Yang, em 1794. A tradução foi baseada numa nova edição, aparecida em 1921, que alguém, sob o pseudônimo de Hui Dschen Dsï (aquele que se tornou consciente da Verdade), imprimiu juntamente com O Segredo da Flor de Ouro, numa tiragem de mil exemplares. Essa obra reúne instruções budistas e taoístas de meditação. (Wilhelm, 83)
Diz Wilhelm, “A concepção fundamental consiste no pressuposto de que, pelo nascimento, as duas esferas anímicas do consciente e do inconsciente são separadas uma da outra. O consciente é o elemento da diferenciação individual e o inconsciente, o elemento da união cósmica. O princípio da obra se baseia na integração de ambos os elementos, pelo caminho da meditação. O inconsciente deve ser como que fecundado pela submersão do consciente, deve ser trazido à consciência; juntamente com o consciente assim ampliado, acede então a um plano de consciência supra-pessoal, na forma de um renascimento espiritual. Tal renascimento determina primeiro uma contínua diferenciação interior do estado de consciência, a modo de formas de pensamento que se tornam independentes. No entanto, o desfecho da meditação leva necessariamente à dissolução de todas as diferenças numa unidade última e vital, sem dualidade.
Wilhelm continua: “Estes textos são provenientes de um círculo esotérico da China e que foi transmitido oralmente durante muito tempo cujos manuscritos remontam à época de Kién-Lung, no século XVIII. Por fim, em 1920, foi reimpresso em Pequim, aparecendo numa edição de 1000 exemplares, juntamente com o Hui Ming Ging; sua distribuição limitou-se a um pequeno círculo de pessoas. Foi assim que me chegou às mãos um exemplar. A nova edição e a divulgação do opúsculo são devidas a um novo despertar de correntes religiosas num momento em que a China atravessa um estado de penúria política e econômica. Surgiram várias seitas esotéricas, cuja meta era alcançar um estado anímico que libertasse o homem de todas as misérias da vida, através de exercícios práticos oriundos das antigas tradições secretas.”. (Wilhelm, 83-84) (grifos meus)
Fiz questão de grifar o texto acima, pois ele faz duas conexões importantes. A primeira conexão é com relação à data, 1920, época marcada pelo aparecimento de várias correntes esotéricas na China, inclusive o Tao Pan.
A segunda conexão remete a análise diretamente para o confronto político entre as idéias de Confúcio e de Lao Tse. Confúcio defendia a ação, Lao Tse a não-ação. Confúcio pregava a moral e a ética na política, Lao Tse afirmava que quando a situação já se degradou além do suportável, nada mais há para fazer a não ser retirar-se...
Wilhelm entende que Confúcio considerava o povo como crianças que, por falta de cautela, teriam se aproximado demais do fogo e que deveriam ser salvas a todo custo. Ele tentou aplicar os ensinamentos dos santos antigos, por isso, andou incansavelmente, em busca de um príncipe disposto a pôr em prática esses ensinamentos. Não foi uma atividade sem sentido ou a busca vaidosa da fama que o teriam levado a esses desesperados esforços, mas a inexorável obrigação de ajudar e por saber que possuía os meios para isso. Mas tudo foi em vão, porque a situação se agravava mais e mais e as circunstâncias não contribuíram para ajudá-lo. Apesar de tudo, nunca se resignou, criando, através da sua atividade literária, as bases da boa organização social, que deveriam ser conservadas como sementes, quando um dia as condições novamente se tornassem favoráveis e houvesse um ponto de apoio para reconduzir o mundo à ordem. Ao contrário disso, Lao Tse teria reconhecido no ser humano a mesma doença de que o reino sofria. Ele teria reconhecido que, em períodos anteriores, também haviam predominado condições péssimas, mas, nada igual àqueles tempos, onde o mal teria sido quase que incorporado. O povo sofria a pressão dos seus superiores, mas não tinha força para um ato enérgico de vontade, uma profunda falsidade interior corroera todos os relacionamentos, de modo que aparentemente ainda se falava do amor humano, da justiça e da moral como de ideais elevados, enquanto internamente a ganância e a sede de poder envenenavam tudo. Nessas circunstâncias, todo movimento com vistas a querer ordenar as coisas só poderia aumentar a desordem. Esse tipo de doença não pode ser tratado por meios exteriores. O melhor seria deixar que o corpo enfermo pudesse relaxar, a fim de se refazer pelas energias restauradoras da natureza. Teria sido esse o sentido do Tao-Te King.
Assim, como uma volta na espiral da história, no alvorecer do século XX, o povo Chinês estava vivendo novamente um profundo período de crise provocado pela Inglaterra, na chamada “Guerra do Ópio”, iniciada por volta de 1840, época em que a milenar China viu-se invadida pelo terror e pela decadência moral, terreno perfeito para a rediscussão dos velhos preceitos confucianos e taoístas: Ação ou Não-Ação? A resposta a essa pergunta foi a proliferação de seitas esotéricas surgidas no período, tal como foi assinalado por Wilhelm, entre elas o Tao Pan.

O Movimento Tao Pan pode ser considerado como resultante do sincretismo entre o confucionismo, o Taoismo e o budismo. Diferentemente de Lao Tse, ele optou pela Ação, tal como foi pregada por Confúcio, no sentido de convencer os governantes a realizarem um governo justo, com base no “Bom coração”. Mas adotou, igualmente, os ensinamentos filosóficos de Lao Tse para a superação da dualidade e a busca incessante da unidade. Do budismo, ele incorporou a profecia da reencarnação do décimo Buda, o Buda Maitreya. Para o Tao Pan, o tempo da meditação já passou, agora é hora de agir, de preparar os alicerces do novo tempo, de preparar a vinda do Senhor Buda Maitreya.


Quem é Buda Maitreya?
No Bhagavad-Gitâ, um outro Grande Avatar, Krishna, afirmou: “Ó filho de Bhârata! Todas as vezes que o Dharma (a Lei Justa) declina e Adharma (a Lei injusta) se levanta, Eu me manifesto para a salvação dos bons e a destruição dos maus. Para o restabelecimento da Lei, Eu renasço em cada Yuga”.
Não é apenas do Oriente que nos vêm a concepção da volta de um Ser iluminado, com a tarefa de recompor a ordem do mundo. Todas as grandes religiões mundiais aguardam a vinda de um Ser Supremo que faça justiça e restaure o paraíso. Os Cristãos aguardam a vinda do Cristo para julgar os vivos e os mortos, os muçulmanos esperam Iman Mahdi, os judeus, crêem na vinda do Messias, e todo o Oriente aguarda a vinda do 10º Buda, O Buda Maitreya, também chamado de “Kalki-Avatar” pelo hinduismo. Literalmente, Maitreya significa “Senhor dos Três Mundos”.
Buda Sakia Muni foi o 9º Buda. No Oriente, principalmente nas tradições budistas tibetanas, Buda Maitreya é também conhecido como O Buda Branco do Ocidente, O Avatar do Cavalo Branco, O Décimo Avatar de Vishnu, Aquele que vem com a missão de realizar a grande síntese das manifestações da Divindade na Terra. Aquele que ao mesmo tempo fecha um ciclo e inaugura uma outra fase da vida universal com características renovadas, baseados em novas premissas e novos referenciais. Esse é, essencialmente, o papel dos Avatares que vêm ao mundo para renovar, restaurar antigos ensinamentos já esquecidos pela humanidade e revelar novos aspectos da Realidade Universal.
Buda Maitreya é a síntese da Luz de Buda e do Amor do Cristo, unirá o Oriente e o Ocidente, inaugurará uma nova era de paz, compreensão e fraternidade entre todos os homens. A representação chinesa de Buda Maitreya é de um Ser sorridente e bonachão, que simboliza um estado de consciência mais ampliado, uma vibração mais sutil, uma oitava acima, um estágio mais elevado na grande espiral da evolução humana.

As últimas homenagens ao Mestre Iluminado
Mestre Iluminado ganhou este nome por causa dos seus ensinamentos e da enorme energia de misericórdia que todos os que estivessem ao seu lado podiam sentir. Durante mais de 20 anos ele acompanhou Shi Mu Taza em seu trabalho de expansão do Tao, permanecendo ao seu lado até 1973, época em que ela deixou o plano físico. Depois da partida de Shi Mu Taza, ele a substituiu e trabalhou incansavelmente até o momento de deixar seu corpo físico. Seu nome era Wang Shi Tsuan, que significa Alta Montanha Divina. Antes de se dedicar inteiramente à propagação do Tao, Wang Shi Tsuan foi proprietário de um conglomerado ligado à indústria de seda na China Continental, com grande influência no setor financeiro.
Aos 80 anos de idade, o Mestre Iluminado gozava de ótima saúde e, no dia 25 de dezembro de 1999, encontrando-se na Indochina, em missão, partiu. Seu corpo foi levado para Taiwan, numa urna cristã que portava o símbolo da cruz em todas as suas faces, inexplicavelmente, a única disponível. Em Taipei, capital de Taiwan, ele foi recebido com honras de Chefe de Estado.
Cumprindo o ritual oriental, o funeral foi marcado para três meses depois, tendo sido convidados representantes dos seguidores do Tao de todos os continentes. Eram mais de duas mil pessoas vindas de todas as partes do mundo, orientais em sua esmagadora maioria. Além do grupo de brasileiros, encontramos não mais do que quatro ou cinco ocidentais entre os convidados.
A cerimônia realizou-se numa localidade chamada Ameh (fonética da palavra chinesa que designa a cidade onde o Mestre Iluminado nasceu, na China continental). Ameh é o nome da propriedade onde será construída a nova sede do Instituto Buda Maitreya, na cidade de Suton, situada ao sul de Taipei. A cerimônia de sua despedida foi realizada no dia 27 de março, num templo provisório, armado em estrutura metálica, todo revestido em seda branca e ornamentado com flores, onde as delegações de todos os países presentes prestaram sua última homenagem. Essa cerimônia foi restrita aos convidados estrangeiros. Uma semana antes havia sido feita a cerimônia de despedida para os moradores de Taiwan, que reuniu mais de 10 mil pessoas.
Dois dias depois, 29 de março, os convidados estrangeiros (mais de 2 mil) foram transportados em uma imensa caravana de ônibus fretados, até o Santuário Lin Kuan Than, templo dedicado aos ancestrais, onde foi realizada a cerimônia de reverência aos antepassados do Mestre Iluminado.
O grupo de brasileiros foi convidado a permanecer mais 15 dias em Taiwan, onde ficou hospedado em vários Templos do Instituto Buda Matreya, ocasião ímpar para participar da vida cotidiana dos chineses e dos seus Templos.5
Nas 40 horas de vôo de volta às terras brasileiras, a mente estava cheia de imagens raras e o coração cheio de agradecimento pela oportunidade. Foi uma viagem inesquecível.
* * *


Ele era chamado de Mestre Iluminado porque todos os que se aproximavam dele sentiam uma luz, uma energia tal, que chegou a ser registrada fisicamente, como nesta foto. (retirada de um livro em sua homenagem) Eu tive oportunidade de ver mais duas fotos deste tipo no Instituto Buda Maitreya.


Traje de luto, usado por familiares. Visão lateral do Templo Lin Kuan Than.



O Mestre Iluminado está de branco, sentado ao centro de um grupo de monges tibetanos, que foi em busca de apoio para a dramática situação em que vive o Tibet, depois da invasão chinesa. Hoje, Taiwan está sendo ameaçada de invasão pela China Comunista, desejosa de controlar o parque industrial dos componentes eletrônicos existente em Taiwan.

Na parede, ao fundo, vê-se as fotos de Shi Mu Taza, à esquerda, e Yê Huei Puçá, à direita.


Grupo de brasileiros em frente ao Memorial Chiang Kai-Shek



Notas:

1 Professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, da UFPB

2 DAVID-NEEL, Alexandra. Tibet: Magia e Mistério. SP: Hemus, 1978.

3 WILHELM, Richard. Tao-Te King. SP: Pensamento, 1993.

4 HINNELLS, J.R. Dicionário das Religiões. SP: Cultrix, 1991.

5 O site do Instituto Buda Maitreya é: www.pro-maitreya.org.tw e

o endereço do Santuário Kuan Yin, em Salvador é: 2ª Travessa da Rua Emiliano Galiza, 23, Boca do Rio. Fone (Oxx71) 231.7459.






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