O mártir das catacumbas



Baixar 481.7 Kb.
Página1/7
Encontro03.08.2016
Tamanho481.7 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7


O MÁRTIR

DAS

CATACUMBAS
Um episódio da Roma antiga

Autor desconhecido


Tradução do espanhol realizada por Daniela Raffo,

Terminada em segunda-feira, 14 de janeiro de 2008, 12:11:04

Baixado da Internet de www.graciasoberana.com

PREFÁCIO

Muitos anos atrás foi publicada uma história anônima intitulada "O mártir das catacumbas: Um episódio da Roma antiga". Um exemplar foi providencialmente resgatado de um barco de vela americano e ficou em poder do filho do capitão Richard Roberts, quem comandava aquela nave e que teve de abandoná-la em alto mar como conseqüência do desastroso furacão acontecido em janeiro de 1876.

Cuidadosamente reimpressa, apresentamos aqui aquela obra, tendo sido zelosamente fiéis ao original ainda em seu título. Tiramos à luz esta edição, animados da viva esperança de que o Senhor vai usá-la para fazer ver aos fiéis que reflexionam, assim como também aos descuidados e desprevenidos e a seus descendentes nestes últimos dias maus, este palpitante quadro de como sofreram os santos dos primeiros tempos pela sua fé em nosso Senhor Jesus Cristo, sob uma das persecuções mais cruéis da Roma pagã, e que num futuro não muito distante podem-se repetir com a mesma intensidade da ira satânica, mediante o mesmo Império Romano de iminente nascimento.

Tomara possa despertar nossa consciência ao fato de que, se o Senhor demora em sua vinda, temos de ver-nos no imperativo de sofrer por Ele, que voluntariamente tanto sofreu por nós.

A Bíblia já não ocupa o legítimo lugar que lhe corresponde em nossas escolas e universidades; a oração familiar é um hábito perdido; nosso Senhor Jesus Cristo, o unigênito e bem-amado Filho do Deus vivente, é desacreditado e desonrado precisamente em casa daqueles que professam ser seus amigos; o testemunho no corpo desapareceu da terra; não se obedece o chamado a Laodicea para o arrependimento; e é assim que a promessa do Senhor da comunhão com Ele está livrada somente ao indivíduo.

E ainda nestes dias pode alcançar-nos a promessa, a Esmirna: "Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida".

O sangue dos mártires de Rússia e Alemanha clama desde a terra, qual admoestação para os cristãos de todos os paises.

Mas ainda podemos arrancar de nossas almas o clamor anelante: "Vem, Senhor Jesus; vem pronto".



Hartsdale, N. Y.

Richard L. Roberts

CAPÍTULO 1

O COLISEU
Cruel carnificina para diversão dos romanos.
Era um dos grandes dias de festa em Roma. De todos os extremos do país as pessoas convergiam para o destino comum. Recorriam o Monte Capitolino, o Fórum, o Templo da Paz, o Arco de Tito e o palácio imperial em seu desfile interminável até chegar no Coliseu, no qual penetravam pelas inumeráveis portas, desaparecendo no interior.

Ali se encontravam frente a um cenário maravilhoso:na parte inferior a arena interminável se estendia rodeada por incontáveis fileiras de assentos que se elevavam até o topo da parede exterior que beirava os quarenta metros. Aquela enorme extensão estava totalmente coberta por seres humanos de todas as idades e classes sociais. Uma reunião tão vasta, concentrada de forma tal, na que somente se podiam distinguir longas fileiras de rostos feros, que iam-se estendendo sucessivamente, constituía um formidável espetáculo que em nenhuma parte do mundo pôde ser igualado, e que tinha sido ideado, sobre tudo, para aterrorizar e infundir submissão na alma do espectador. Mais de cem mil almas haviam-se reunido aqui, animadas por um sentimento comum, e incitadas por uma única paixão. Pois o que as havia atraído a este lugar era uma ardente sede do sangue de seus semelhantes. Jamais se achará um comentário mais triste desta alardeada civilização da antiga Roma, que este macabro espetáculo criado por ela.

Ali estavam presentes guerreiros que tinham combatido em distantes campos de batalha, e que conheciam muito bem o que eram atos de coragem; porém, não sentiam a menor indignação diante das cenas de covarde opressão que se desenvolviam perante seus olhos. Nobres das antigas famílias estavam ali presentes, mas não tinham olhos para ver nestas exibições cruéis e brutais o estigma sobre a honra de seus pátria. Por sua vez os filósofos, os poetas, os sacerdotes, os governadores, os elevados, assim também como os humildes da terra, atestavam os bancos; mas os aplausos dos patrícios eram tão sonoros e ávidos como os dos plebeus. Que esperança havia para Roma quando os corações de seus filhos estavam integramente entregues à crueldade e à opressão mais brutal que se possa imaginar?

O trono elevado sobre um lugar proeminente do enorme anfiteatro estava ocupado pelo Imperador Décio, a quem rodeavam os principais dos romanos. Entre estes se podia contar um grupo da guarda pretoriana, que criticavam os diferentes atos da cena que se desenvolvia em sua presença com ar de expertos. Suas gargalhadas estridentes, seu alvoroço e sua esplêndida vestimenta os fazia objeto de especial atenção de parte de seus vizinhos.

Já se haviam apresentado vários espetáculos preliminares, e era hora de começarem os combates. Apresentaram-se vários combates mão a mão, a maioria dos quais teve resultados fatais, despertando diferentes graus de interesse, segundo o valor e habilidade que demonstravam os combatentes. Tudo isso lograva o efeito de aguçar o apetite dos espectadores, aumentando sua veemência, enchendo-os do mais ávido desejo pelos eventos ainda mais emocionantes que iriam se seguir.

Um homem em particular tinha despertado a admiração e o frenético aplauso da multidão. Tratava-se de um africano de Mauritânia, cuja complexão e fortaleza eram de gigante. Porém sua habilidade igualava sua fortaleza. Sabia brandir sua curta espada com destreza maravilhosa, e cada um dos rivais que até o momento tivera jaziam mortos.

Chegou o momento em que devia medir-se com um gladiador de Batava, homem ao qual somente ele igualava em força e em estatura. Mas os separava um contraste sumamente notável. O africano era tostado, de cabelo resplandecente e cacheado e olhos cintilantes; o de Batava era de tez clara, cabelo loiro e de olhos vivíssimos de cor gris. Era difícil dizer qual deles levava vantagem; tão acertado tinha sido o cotejo em todo sentido. Contudo, como o primeiro havia estado lutando por algum tempo, se pensava que tinha isso como uma desvantagem. Chegou, pois, o momento em que se travou a contenda com grande veemência e atividade de ambas as partes. O de Batava assestou tremendos golpes a seu rival, que foram detidos graças à viva destreza daquele. O africano era ágil e estava furioso, mas nada podia contra a fria e sagaz defesa de seu vigilante adversário.

Finalmente, a um sinal dado, foi suspenso o combate, e os gladiadores foram retirados, mas de nenhuma forma diante da admiração ou comiseração dos espectadores, senão simplesmente pelo sutil entendimento de que era o melhor modo de agradar o público romano.

Todos entendiam, naturalmente, que os gladiadores voltariam.

Chegou então o momento em que um grande número de homens foi conduzido à arena. Estes ainda estavam armados com espadas curtas. Nem tinha ainda se passado um instante, quando já eles tinham começado o ataque. Não era um conflito de dois bandos opostos, senão uma contenda geral, na qual cada um atacava seu vizinho. Tais cenas chegavam a ser as mais sangrentas, e portanto eram as que mais emocionavam os espectadores. Um conflito deste tipo sempre destruiria o maior número no menor tempo. A arena apresentava o cenário da confusão mais horrível. Quinhentos homens na flor da vida e fortaleza, armados de espadas, lutavam em cega confusão uns contra os outros. Algumas vezes se trançavam numa massa densa e enorme; outras vezes se separavam violentamente, ocupando todo o espaço disponível, rodeando uma pilha de mortos no centro do campo. Porém, na distância, se assaltavam de novo com indeclinável e sedenta fúria, chegando a travar-se combates separados em toda a volta do macabro cenário; o vitorioso em cada um corria pressuroso a tomar parte nos outros, até que os últimos sobreviventes se encontravam novamente empenhados num cego combate massivo.

No final, as lutas agônicas pela vida ou a morte se tornavam cada vez mais fracas. Somente uns cem ficavam dos quinhentos que começaram, a qual mais extenuado e ferido. Repentinamente se deu um sinal e dois homens pularam na arena e se precipitaram desde extremos opostos sobre esta miserável multidão. Eram o africano e o de Batava. Já frescos depois do repouso, caiam sobre os infelizes sobreviventes que já não tinham nem o espírito de se combinarem, nem a força para resistir. Tudo se reduzia a uma carnificina. Estes gigantes matavam a destra e sinistra sem misericórdia, até que ninguém além deles ficou em pe no campo da morte e ouviam o estrondo do aplauso da multidão.

Estes dois novamente renovaram o ataque um contra o outro, atraindo a atenção dos espectadores, enquanto eram retirados os despojos miseráveis dos mortos e feridos. O combate voltava a ser tão cruel como o anterior e de invariável similitude. À agilidade do africano se opunha a precaução do de Batava. Porém, finalmente, aquele lançou uma desesperada investida final; o de Batava o parou e com a velocidade do relâmpago devolveu o golpe. O africano retrocedeu agilmente e soltou sua espada. Era demasiado tarde, porque o impacto de seu inimigo tinha-lhe traspassado o braço esquerdo. E conforme caiu, um alarido estrondoso de selvagem regozijo surgiu dos milhares de assim chamados seres humanos. Mas isto não devia considerar-se como o fim, porque enquanto ainda o conquistador estava sobre a sua vítima, o pessoal de serviço se introduziu depressa na arena e o tirou. Contudo tanto os romanos como o ferido sabiam que não se tratava de um ato de misericórdia. Somente se tratava de reservá-lo para o aziago fim que lhe esperava.

— O de Batava é um hábil lutador, Marcelo — comentou um jovem oficial com seu companheiro da concorrência da qual já se falou.

— Verdadeiramente o é, meu querido Lúculo — replicou o outro— . Não creio ter visto jamais um gladiador melhor que este. Em verdade os dois que se bateram eram muito melhores do comum.

— Lá dentro têm um homem que é muito melhor que estes dois.

— Ah! Quem é ele?

— O grande gladiador Macer. Acho que ele é o melhor que jamais vi.

— Tenho ouvido alguma coisa ao seu respeito. Achas que o colocarão nesta tarde?

— Entendo que sim.

Esta breve conversação foi bruscamente interrompida por um tremendo rugido que atravessou os ares, procedente do viveiro, ou seja, o lugar onde se mantinham encerradas as feras selvagens. Foi um daqueles bramidos ferozes e terríficos que costumavam lançar as mais selvagens das feras quando tinham chegado ao cúmulo da fome, que coincidia com o mesmo grau de furor.

Não tardaram em abrir-se as grades de ferro manejadas por homens desde cima, aparecendo o primeiro tigre à espreita na arena. Era uma fera da África, desde onde tinha sido trazida não muitos dias antes 1. Durante três dias não havia provado alimento algum, e assim a fome, juntamente com o prolongado encerro tinham aguçado seu furor a tal extremo que somente olhá-lo aterrorizava. Acoitando-se com a cauda recorria a arena olhando para acima, com sanguinários olhos, para os espectadores. Porém a atenção destes não demorou em desviar-se para um objeto distinto. No outro extremo de onde estava a fera foi arrojado na arena nada menos que um homem. Não levava armadura nenhuma, senão que estava nu como todos os gladiadores, com a única exceção de uma tanga. Portando em sua destra a costumeira espada curta, avançou com dignidade e passo firme para o centro do cenário.

Imediatamente todos os olhares convergiram sobre esse homem. Os inumeráveis espectadores clamaram freneticamente: "Macer! Macer!"

O tigre não demorou em vê-lo, lançando um breve mas selvagem rugido que infundia terror. Macer, com serenidade, permaneceu em pe com seu olhar tranqüilo mas fixo sobre a besta que mexia a cauda com maior fúria a cada vez, dirigindo-se a ele. Finalmente o tigre se encolheu, e desta posição, com o impulso característico se lançou num pulo feroz sobre sua presa. Macer não estava desprevenido. Como um relâmpago voou para a esquerda, e apenas o tigre havia caído em terra, quando lhe aplicou uma estocada curta mas cortante e certeira no mesmo coração. Foi o golpe fatal para a fera! A enorme besta se estremeceu da cabeça aos pés, e, encolhendo-se para tirar toda a força de suas entranhas, soltou seu último bramido, que se ouviu quase como o clamor de um ser humano, depois do qual caiu morta na arena.

Novamente o aplauso da multidão se ouviu como o estrépito do trovão em todo o lugar.

— Maravilhoso! — exclamou Marcelo— Jamais vi uma habilidade como a de Macer!

Seu amigo lhe respondeu, retomando a conversa:

— Sem dúvida tem se passado a vida lutando!

Pronto o corpo do animal morto foi arrastado fora da arena, ao mesmo tempo que se ouvia o chirriar das grades que se abriam novamente atraindo a atenção de todos. esta vez era um leão. Se deslocou lentamente em direção oposta, olhando em seu redor o cenário que o rodeava, em atitude de surpresa. Era este o exemplar maior de sua espécie, todo um gigante em tamanho, tendo sido por longo tempo preservado até lhe encontrar um adversário adequado. A simples vista parecia capaz de enfrentar vitoriosamente dois tigres como o que lhe haviam precedido. A seu lado Macer não era senão uma débil criatura.

O jejum desta fera tinha sido prolongado, mas não mostrava a fúria do tigre. Atravessou a arena de um a outro extremo, e depois todo em volta dela, numa espécie de trote, como se procurasse uma saída de escape. Porém, achando todo fechado, finalmente retrocedeu até o centro, e deitando o rosto no chão deixou ouvir profundo um bramido tão alto e prolongado que as enormes pedras do mesmo Coliseu vibraram com o som.

Macer permaneceu imóvel. Nenhum músculo de seu rosto mudo nem um pouco. Estava com a cabeça erguida com a expressão vigilante e característica, aferrando sua espada em guarda. Finalmente o leão se lançou sobre ele de cheio. O rei das feras e o rei da criação se mantiveram frente a frente olhando-se aos olhos um ao outro. Mas o olhar sereno do homem pareceu provocar a ira própria do animal. Ereta a cauda e todo ele, retrocedeu; com a juba para trás, se agachou até o chão em preparação para pular.

A enorme multidão se deteve, encantada. Eis aí uma cena que merecia seu interesse.

A massa escura do leão se lançou na frente, e outra vez o gladiador em sua habitual manobra pulou de lado e lançou sua estocada. Porém, esta vez a espada como feriu uma das costelas e caiu de suas mãos. O leão foi ferido ligeiramente, mas a pancada serviu só para enaltecer sua fúria até o grau supremo.

Macer, porém, não perdeu nem um ápice de sua característica calma e frialdade neste momento tremendo. Perfeitamente desarmado, em espera do ataque, se plantou diante da fera. Uma e outra vez o leão lançou ferozes ataques, e cada um foi evadido pelo ágil gladiador, quem com seus hábeis movimentos se aproximava engenhosamente ao lugar onde estava sua arma, até conseguir tomá-la novamente. E então, outra vez armado de sua espada protetora, esperava o arranhão final da fera, que respirava morte. O leão se arrojou como a vez anterior, mas esta vez Macer acertou no alvo. A espada lhe traspassou o coração, a enorme besta caiu contorcendo-se de dor. Pondo-se em pe começou a correr na arena, e trás um último rugido agônico caiu morta junto às grades por onde tinha saído.

Agora Macer foi conduzido fora da praça, vendo-se aparecer novamente o de Batava. Se tratava de um público de gosto refinado, que demandava variedade. A este novo lutador lhe soltaram um tigre pequeno, o qual foi vencido. Seguidamente foi solto um leão. Este deu mostras de extrema ferocidade, embora seu tamanho não estava fora do comum. Não cabia a menor dúvida que o de Batava não se igualava a Macer. O leão se lançou sobre sua vítima, tendo sido ferido; porém, ao lançar-se pela segunda vez ao ataque, aferrou seu adversário e literalmente o despedaçou. Então novamente foi tirado Macer, para quem foi tarefa fácil acabar com o filhote.

E desta vez, enquanto Macer permanecia em pe recebendo os intermináveis aplausos, apareceu um homem no lado oposto. Era o africano. Seu braço nem sequer tinha sido vendado, mas pendia de seu lado, completamente coberto de sangue. Se encaminhou hesitante para Macer, com penosos passos de agonia. Os romanos sabiam que este tinha sido enviado simplesmente para que fosse morto. E o desventurado também o sabia, porque conforme se aproximou de seu adversário, jogou fora sua espada e exclamou numa atitude mais bem de desespero:

— Mata-me rápido! Libera-me da dor!

Todos os espectadores a uma ficaram mudos de assombro ao ver Macer retroceder e deixar cair sua espada no chão. Todos seguiam contemplando maravilhados até o máximo, silenciosos. E seu assombro foi tanto maior quando Macer voltou para o lugar onde estava o Imperador, e levantando as mãos bem alto clamou com voz clara, que alcançou a todos:

— Augusto Imperador, eu sou cristão! Eu pelejarei com feras silvestres, porém jamais levantarei minha mão contra meus semelhantes, os homens, sejam da cor que sejam. Eu morrerei gostoso, porém, eu não matarei!

Perante semelhantes palavras e atitude se levantou um crescente murmúrio.

— O que quer dizer esse aí? Cristão? Quando sucedeu a conversão? –perguntou Marcelo.

Lúculo respondeu:

— Soube que o haviam visitado no calabouço os malditos cristãos, e que ele teria-se unido a essa desprezível seita, na qual estão reunidas todas as fezes da humanidade. É muito provável que se tenha feito cristão.

— E preferirá morrer antes que lutar?

Assim costumam proceder aqueles fanáticos.

A surpresa daquela ralé foi substituída por uma ira selvagem. Os indignava que um mero gladiador se atrevesse a decepcioná-los. Os lacaios se apressaram a intervir para que a luta continuasse. Se em verdade Macer insistia em negar-se a lutar, deveria sofrer todo o peso das conseqüências.

Porém a firmeza do cristão era impassível. Absolutamente desarmado avançou até o africano, a quem poderia ter matado simplesmente com um soco. O rosto do africano havia-se tornado nesses breves instantes como o de um maluco endemoninhado. Em seus sinistros olhos reluzia uma mistura de surpresa e louco regozijo. Recolhendo sua espada e aferrando-a firmemente se dispus ao ataque com toda liberdade, afundando-a de um só golpe no coração de Macer.

— Senhor Jesus, recebe meu espírito! — saíram essas palavras entre a torrente de sangue em meio do qual esta humilde porém ousada testemunha de Cristo deixou a terra, unindo-se ao nobilíssimo exército de mártires.

— Costuma haver muitas cenas como esta? — perguntou Marcelo.

— Assim é às vezes. Cada vez que se apresentam cristãos. Eles enfrentam qualquer número de feras. As mulheres caminham de frente desafiando leões e tigres, porém nenhum desses loucos quer levantar sua mão contra outros homens. Este Macer tem desiludido amargamente a nosso povo. Era o mais excelente de todos os gladiadores que se tenham conhecido; porém, ao se converter em cristão, cometeu a pior das bobagens.

Marcelo respondeu meditativo:

— Fascinante religião deve ser aquela que leva um simples gladiador a proceder da forma que vimos!

— Já terás oportunidade de contemplar muito mais que isto que te admira.

— Como assim?

— Não sabes? Estás comissionado para desenterrar alguns desses cristãos. Introduziram-se nas catacumbas e é necessário persegui-los.

— Qualquer um pensaria que já têm suficiente. Somente esta manhã queimaram cinqüenta deles.

-E a semana passada degolaram cem. Mas isso não é nada. A cidade íntegra tem-se convertido num enxame deles. Mas o Imperador Décio 2 resolveu restaurar em toda sua plenitude a antiga religião dos romanos. Desde que estes cristãos apareceram, o império vai em vertiginosa declinação. Em vista disso ele se propus aniquilá-los por completo. São a maior maldição, e como tal devem ser tratados. Pronto chegarás a compreendê-lo.

Marcelo respondeu com modéstia:

— Eu não tenho residido em Roma o suficiente, e assim é que não compreendo o que os cristãos acreditam em verdade. O que tem chegado aos meus ouvidos é que praticamente todo crime que acontece é imputado a eles. Porém, no caso de ser como tu falas, hei de ter a oportunidade de chegar a sabê-lo.

Nesse momento uma nova cena chamou-lhes a atenção. Desta vez entro no cenário um ancião, de figura inclinada e cabelo branco-prata. Era de idade muito avançada. Sua aparição foi recebida com gritos de zombaria e escárnio, embora seu rosto venerável e sua atitude digna até o extremo faziam presumir que era apresentado para despertar admiração. Enquanto as risadas e alaridos de escárnio feriam seus ouvidos, ele elevou sua cabeça ao mesmo tempo que pronunciou umas poucas palavras.

— Quem é ele?

— Esse é Alessandro, um mestre da abominável seita dos cristãos. É tão obstinado que se nega a desdizer-se...

— Silêncio. Escuta o que está dizendo.

— Romanos — disse o ancião— eu sou cristão. Meu Deus morreu para mim, e eu gozoso ofereço minha vida por Ele.

Um bronco uivo de gritos e imprecações selvagens afogaram sua voz. E antes que aquilo tivesse concluído, três panteras apareceram pulando rumo ele. O ancião cruzou os braços, e elevando seu olhar para o céu, podia ver-se seus lábios se mexerem como sussurrando suas orações. As selvagens feras caíram sobre ele enquanto orava de pe, e em questão de segundos o haviam destroçado.

Seguidamente deixaram entrar outras feras selvagens. Começaram a pular em volta da arena, tentando pular contra as barreiras. Em seu furor se trançaram em horrorosa briga umas contra as outras. Era uma cena espantosa.

Em meio da mesma foi arrojado um bando de indefesos prisioneiros, empurrados com rudeza. Tratava-se principalmente de moças, que deste modo eram oferecidas à apaixonada turba romana sedenta de sangue. Cenas como estas teriam comovido o coração de qualquer em quem os últimos traços de sentimentos humanos não tivessem sido anulados. Mas a compaixão não tinha espaço em Roma. Encolhidas e temerosas, as infelizes criaturas mostravam a humana debilidade natural de enfrentar-se com morte tão terrível; porém de um momento para outro, algo como que uma faísca misteriosa de fé as possuía e as fazia superar todo temor. Ao perceber as feras a presença de suas presas, começaram a aproximar-se. Estas jovens, ajuntando as mãos, puseram seus olhos nos céus, e elevaram um cântico solene e imponente, que se levantou com claridade e belíssima doçura para as mansões celestiais:


Ao que nos amou,

Ao que nos lavou de nossos pecados,

Em seu próprio sangue;

Ao que nos fez reis e sacerdotes,

Para nosso Deus e Pai,

A Ele seja glória e domínio

Pelos séculos dos séculos,

Aleluia! Amém!


Uma a uma foram silenciadas as vozes, afogadas com seu próprio sangue, agonia e morte; um a um os clamores e contorções de angústia se confundiam com exclamações de louvor; e estes belos espíritos juvenis, tão heróicos ante o sofrimento e fiéis até a morte, levaram seu canto até uni-lo aos salmos dos remidos nas alturas.

CAPÍTULO 2

O ACAMPAMENTO PRETORIANO
Cornélio, o centurião, varão justo e temeroso de Deus. 3
Marcelo tinha nascido em Gades, e havia sido criado sob a férrea disciplina do exército romano. Tinha estado em destacamentos na África, na Síria e na Bretanha, e em todas partes havia-se distinguido, não somente por seu valor no campo de batalha, senão também por sua sagaz habilidade administrativa razões estas pelas quais tinha-se feito merecedor de honras e ascensões. Quando chegara a Roma, aonde vinha trazendo importantes mensagens, tinha agradado o Imperador de forma tal que o havia destinado para um posto honorário entre os pretorianos.

Lúculo, ao contrário, jamais tinha saído das fronteiras da Itália, apenas talvez da cidade. Pertencia a uma das mais antigas e nobres famílias romanas, e era, naturalmente, herdeiro de abundantes riquezas, com a correspondente influência que a essas acompanha. Tinha sido atraído pelo ousado e franco caráter de Marcelo, e sendo assim os dois jovens se converteram em firmes amigos. O conhecimento minucioso que da capital possuía Lúculo, lhe deparava a facilidade de servir seu amigo; e as cenas descritas no capítulo precedente foram uma das primeiras visitas que Marcelo fazia ao renomado Coliseu.

O acampamento pretoriano estava situado junto à muralha da cidade, à qual estava unido por outra muralha que o circundava. Os soldados viviam em quartos a modo de com celas perfuradas na mesma parede. Era um corpo integrado por numerosos homens cuidadosamente selecionados, e sua posição na capital lhes concedeu tal poder e influência que por muitas eras mantiveram o controle do governo da capital. Um posto de mando entre o pretoriano significava um caminho seguro para a fortuna, e Marcelo reunia todas as condições para que lhe fosse augurado um futuro pletórico de perspectivas e todas as honras que o favor do Imperador podia depará-lhe.

Na manhã do dia seguinte, Lúculo ingressou em seu quarto, e depois de ter trocado as saudações usuais e de confiança, começou a falar a respeito da luta que tinham presenciado.

Marcelo disse:

— Tais cenas não são das que em verdade me agrado. São atos de crassa covardia. A qualquer pode lhe comprazer ver dois homens bem treinados travar-se numa luta parelha e limpa; mas aquelas carnificinas que se vêem no Coliseu são detestáveis. Por que deviam matar Macer? Ele era um dos mais valentes dos homens, e eu tributo toda a minha homenagem à sua valentia inimitável. E por que deviam arrojar às feras selvagens àqueles anciãos e crianças?

— É que esses eram cristãos. E a lei sagrada é inquebrantável.

— Essa é a resposta de sempre. Que delito cometeram os cristãos? Eu me encontrei com eles por todas partes no império, mas jamais os vi entregues nem comprometidos sequer em perturbações ou coisa semelhante.

— Eles são o pior da humanidade.

— Essa é a acusação. Mas, que provas há?

-Provas? Que necessidade temos de provas, se sabemos até a saciedade o que são e fazem. Conspiram em segredo contra as leis e a religião de nosso estado. E tanta é a magnitude de seu ódio contra as instituições que eles preferem morrer antes que oferecer sacrifício. Não reconhecem rei nem monarca algum na terra, senão àquele judeu crucificado que eles insistem que vive atualmente. E tanta é sua malevolência para nós que chegam a afirmar que devemos ser torturados toda a nossa vida futura nos infernos.

— Tudo isso pode ser verdade. Disso não entendo nada. Respeito a eles não conheço nada.

— A cidade está atestada deles; o império foi invadido. E tem presente isto que te digo. A declinação de nosso amado império que vemos e lamentamos por todas partes, o fato de que se tenham difundido a debilidade e a insubordinação, a contração de nossas fronteiras; tudo isso aumenta conforme aumentam os cristãos. A quem mais se devem todos esses males, senão a eles?

— Como assim eles chegaram a originar isso tudo?

— Por meio de seus ensinos e práticas detestáveis. Eles ensinam que o pelejar é mau, que os soldados são os mais vis dos homens, que nossa gloriosa religião sob a qual prosperamos é uma maldição, que nossos deuses imortais não são senão demônios malditos. Em suas práticas privadas eles realizam os mais tenebrosos e imundos dos crimes. Eles sempre mantêm entre si o mais impenetrável segredo, mas as vezes temos chegado a escutar seus perniciosos discursos e seus impudicos cantos.

Em verdade que, de ser isso assim, é algo sumamente grave e merecem o mais severo castigo. Mas, de acordo com tua própria declaração, eles mantêm o segredo entre eles, e portanto se sabe muito pouco deles. Dize-me, aqueles homens que sofreram o martírio ontem, tinham a aparência de tudo isso? Aquele ancião, tinha algo que demonstrasse que havia passado sua vida entre cenas de vício? Eram acaso obscenos os cantos que elevaram essas belíssimas moças enquanto esperavam ser devoradas pelos leões?


Ao que nos amou;

Ao que nos lavou de nossos pecados com seu sangue...


E Marcelo cantou em voz baixa e suave as palavras que tinha ouvido.

— Te confesso, amigo,que eu no fundo de minha alma lamentei a sorte deles.

Ao que Marcelo agregou:

— E eu teria chorado se não tivesse sido soldado romano. Detém-te um momento e reflexiona. Tu me dizes coisas a respeito dos cristãos que ao mesmo tempo confessas que somente sabes de ouvidos, de lábios daqueles que também ignoram o que dizem. Te atreves a afirmar que são infames e vis, o lixo da terra. Eu pessoalmente os contemplo quando afrontam a morte, que é a que prova as qualidades mais elevadas da alma. A enfrentam com nobreza, ao extremo de morrer alegremente. Roma em toda sua história não pode exibir um único exemplo de cena de maior devoção que a que presenciamos ontem. Tu dizes que eles detestam os soldados, mas são sobremodo valorosos; me dizes que eles são impuros, porém, se pode se dizer que existe pureza em toda a terra, correspondente às belíssimas donzelas que morreram ontem.

— Te entusiasmas excessivamente por aqueles párias.

— Não é mero entusiasmo, Lúculo. Eu desejo saber a verdade. Toda a minha vida tenho ouvido estas referências. Mas diante do que vi ontem juntamente contigo, pela primeira vez cheguei a suspeitar de sua veracidade. E agora te pergunto com todo meu empenho, e descubro que teu conhecimento não se fundamenta em nada. E hoje bem me lembro que estes cristãos por todo o mundo são pessoas pacificas e honestas a toda prova. Jamais tomam parte em levantamentos ou perturbações, e estou convencido que nenhum destes crimes que lhes são imputados poderá ser provado contra eles. Por que, então, são mortos?

— Porém o Imperador deve ter boas razões para tê-lo disposto assim.

— Bem pode ele ter sido instigado por conselheiros ignorantes ou maliciosos.

— Tenho entendido que é uma resolução tomada por ele mesmo.

— O número dos que foram entregues à morte dessa forma e pelo mesmo motivo é enorme.

— Ah, sim, são alguns milhares. Restam ainda muitos mais; mas é que não podem ser capturados. E precisamente isso me lembra a razão de minha presença aqui. Te trago a comissão imperial.

Lúculo extraiu das dobras de sua capa militar um rolo de pergaminho, o qual entregou a Marcelo. Este último examinou com avidez seu conteúdo. Era ascendido a um grau maior, ao mesmo tempo que ficava comissionado para buscar, perseguir e deter os cristãos onde fosse que estivessem ocultos, fazendo menção particular das catacumbas.

Marcelo leu preocupado e depois colocou o rolo de lado.

— Não pareces estar muito contente.

— Te confesso que a tarefa é desagradável. Sou um soldado e não gosto disso de andar à caça de velhos débeis e crianças para os carrascos. Porém, como soldado, devo obedecer. Fala-me algo acerca das catacumbas.

— As catacumbas? É um distrito subterrâneo que existe embaixo da cidade, e cujos limites ninguém conhece. Os cristãos fogem às catacumbas cada vez que se encontram em perigo; também estão já habituados a enterrar seus mortos ali. Uma vez que conseguem penetrar ali, podem-se considerar fora do alcance dos poderes do estado.

— Quem fez as catacumbas?

— Ninguém sabe com exatidão. O fato é que estiveram ali durante muitos séculos. Eu acredito que foram escavadas com o objeto de extrair areia para edificações. Pois na atualidade todo o nosso cimento provém dali, e poderás ver inumeráveis operários trazendo cimento à cidade por todos os caminhos. Na atualidade têm que ir até uma grande distância, porque com o transcurso dos anos foi escavado tanto sob a cidade que a deixaram sem fundamento.

— Existe alguma entrada regular?

— Existem inúmeras entradas. Precisamente essa é a dificuldade. Pois se existisse somente umas poucas, então poderíamos capturar os fugitivos. Porém, assim não podemos distinguir desde que direção devemos avançar sobre eles.

— Há algum distrito do qual se suspeita?

— Sim. Seguindo pela Via Ápia, umas duas milhas para a frente, perto do túmulo de Cecília Metella, a grande torre redonda que conheces, ali foram achados muitos cadáveres. Fazem-se conjecturas de que se trata dos corpos dos cristãos que foram resgatados do anfiteatro e levados para lá para dar-lhes sepultura. Ao se aproximarem os guardas os cristãos deixaram os cadáveres e fugiram. Mas, depois de tudo, isso não ajuda de muito, porque depois que alguém penetra nas catacumbas, não pode considerar que esteja mais perto do objetivo que antes. Não existe ser humano que possa penetrar naquele labirinto sem o auxílio daqueles que moram ali mesmo.

— Em mora ali?

— Os escavadores, que ainda se dedicam a cavar a terra em busca de areia para as construções. Quase todos eles são cristãos, e sempre estão ocupados em escavar tumbas para os cristãos que morrem. Esses homens viveram ali sua vida toda, e não somente pode se dizer que estão familiarizados com todas aquelas passagens, senão que têm uma espécie de intuito que os conduz.

— Entraste algumas vezes nas catacumbas, verdade?

— Uma vez, faz muito tempo, quando um escavador me acompanhou. Mas só permaneci ali um curto tempo. Deu-me a impressão de ser o lugar mais terrível que existe no mundo.

— Eu tenho ouvido falar das catacumbas, mas em realidade não sabia nada a respeito delas. É estranho que sejam tão pouco conhecidas. Não poderiam esses escavadores comprometer-se a guiar os guardas por todos esses labirintos?

— Não, eles não entregariam os cristãos.

— Mas, tentaram fazê-lo?

— Oh, sim. Alguns obedecem e guiam os oficiais da justiça através da rede de passagens, até que chega um momento em que quase perdem o sentido. As tochas quase extinguem, chegando eles a aterrorizar-se. E então pedem para voltar. O escavador expressa que os cristãos devem ter fugido, e assim volta o oficial ao ponto de partida.

— E ninguém tem a suficiente resolução de seguir até chegar a encontrar os cristãos?

— Se insistem em continuar a busca, os escavadores os conduzem até onde desejem. Mas o fazem pelas incontáveis passagens que interceptam alguns distritos particulares.

— E não foi achado nem um só que entregue os fugitivos?

— Sim, algumas vezes. Mas, de que serve? Ao primeiro sinal de alarme todos os cristãos desaparecem pelos condutos laterais que se abrem por toda parte.

— Minhas perspectivas de êxito parecem muito poucas.

— Poderão ser poucas, porém muita esperança está cifrada em tua ousadia e sagacidade. Pois se chegas a ter êxito nesta empresa que te é comissionada, terás assegurado a tua fortuna. E agora, boa sorte! Disse-te tudo o que sei. Não terás dificuldades em aprender muito mais de qualquer dos escavadores.

Assim falava Lúculo, enquanto ia embora. Marcelo escondeu o rosto entre as mãos, e sumiu-se em profundos pensamentos. Porém, na metade de sua meditação o perseguia, como envolvendo-o, as primeiras frases, cada vez mais penetrantes, daquela gloriosa melodia que evidenciava o triunfo sobre a morte: "Ao que nos amou. Ao que nos lavou de nossos pecados".

  1   2   3   4   5   6   7


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal