O mundo de São Paulo Bibliografia1



Baixar 24.46 Kb.
Encontro25.07.2016
Tamanho24.46 Kb.
Quem és Tu, Senhor

Curso Bíblico sobre São Paulo


1ª Sessão, 30 de Outubro de 2008

O mundo de São Paulo
Bibliografia1:

AUZOU,G., La tradition biblique. Histoire des écrits du peuple de Dieu, Éditions de l'orante, Paris, 1957

ORLANDIS, J., História breve do cristianismo, Rei dos Livros, Lisboa, 1985

CARCOPINO, J., La vie quotidienne à Rome à l'apogée de l'empire, Lib. Hachete, [Paris?] 1939


GOODMAN, M., The Roman World 44 BC – AD 180, “Routledge History of the Ancient World”, Londres – Nova Iorque, 1997*


GRIMMAL, P., A civilização romana, Col. Lugar da História nº 34, Ed. 70, Lisboa, 1993*

ARENS, E., Asia Menor en tiempos de Pablo, Lucas y Juan. Aspectos sociales y económicos para la comprensión del Nuevo Testamento, El Almendro, Córdova, 1995*




  1. O mundo judaico




  1. Paulo, como qualquer um de nós, era cidadão de duas cidades, e pertencia de pleno direito e com toda a alma a dois mundos, que embora não necessariamente opostos, muitas vezes se opuseram: o mundo judaico, ao qual pertencia pela ascendência e pela fé, e o mundo pagão, ao qual pertencia, por ser cidadão romano.

  2. O mundo judaico, desde o século VI a.C. tinha conhecido uma profunda transformação com a deportação para a Babilónia. Desde então muitos Judeus tinham tido que escolher como pátria adoptiva outra terra que não a Palestina. Para tal muito tinha contribuído a pregação de Jeremias2.

  3. Assim vamos ver Judeus não só na Babilónia e na Pérsia como também no Egipto, para onde tinham fugido muitos dos que viam aproximar-se o exército de Nabucodonosor, e em toda a extensão do Império Macedónio e depois do Império Romano, embora com precedência das cidades mais acessíveis. Deste modo encontraremos grandes comunidades em Alexandria, no Egipto, em Damasco e Antioquia, na Síria, em Tarso, na Cilícia, em toda a ilha de Chipre, em Éfeso, na Ásia, em Corinto, na Grécia e em Roma, na Itália.

  4. Todo o mundo romano, sobretudo o mundo citadino, conhece o fenómeno das comunidades judaicas, com a sua sinagoga e as suas reuniões ao Sábado. Estes Judeus eram cidadãos exemplares e foram conquistando, ao longo destes séculos o estatuto de privilégio, que os Romanos também reconheceram. Este estatuto consistia nas seguintes isenções:

    1. isenção de serviço militar, porque estava ligado ao culto dado aos deuses, sobretudo Marte;

    2. isenção do culto cívico, ao deus ou deusa da cidade;

    3. isenção de trabalho aos Sábados.

  5. Para além destas isenções, os Judeus gozavam também do privilégio de poder cotizar-se para a sustentação do culto no Templo de Jerusalém, o único Templo permitido pela Lei, através de um imposto cobrado em todo o Império chamado a didracma, porque consistia em duas dracmas ou quatro denários.

  6. Os Judeus da Diáspora gozavam, além disso, de uma condição em tudo igual aos outros cidadãos livres e ocupavam-se em ofícios honrados. Podiam beneficiar-se da cultura helenística e, em geral, falavam grego, uma vez que a sua presença era maior na parte oriental do Império. Também falariam as línguas locais.

  7. Os Judeus da diáspora, no entanto, tinham uma grande desvantagem em relação àqueles que habitavam a Judeia e a Galileia: não podiam cumprir a sua triple peregrinação anual de acordo com a prescrição da Lei de Moisés: pela Páscoa (em Março ou Abril), pelo Pentecostes (sete semanas depois) e pelos Tabernáculos (em Setembro). A viagem era muito longa e o mar, que era a forma mais expedita de viajar, nem sempre estava aberto: fechava nos fins de Outubro ou inícios de Novembro, e só voltava a abrir em fins de Março ou inícios de Abril.

  8. Muitas vezes a peregrinação anual da Páscoa era mesmo uma impossibilidade física para os Judeus da diáspora, pelo que se conhecia o Pentecostes, a altura em que o mar já estava aberto, como a «segunda Páscoa», ou a Páscoa dos gregos. Por isso vemos tantos Judeus de origem vária no dia de Pentecostes (cf. Act 2,5-13).

  9. Os Judeus da diáspora também aproveitavam a sua peregrinação a Jerusalém para permanecer na cidade e instruir-se na Lei através do ensino que dava nos pórticos do Templo. Aí, os grandes mestres, chamados Rabi, ministravam as suas aulas e tinham as suas discussões. Aos seus pés sentavam-se os discípulos, e como tudo isso se passava ao alcance das mulheres, no seu átrio ou no átrio dos Gentios, é possível que, quer elas quer estes últimos pudessem seguir essas lições desde longe.

  10. Nas suas comunidades de origem, os Judeus possuíam sobretudo o culto sinagogal, o qual consistia nas leituras da Lei e dos Profetas, da homilia que traduzia, explicava e aplicava o conteúdo das leituras aos presentes e nas preces. Mas onde não existia nenhum sacrifício já este se deveria realizar somente no Templo. Uma sinagoga, portanto, podia funcionar sem sacerdotes, unicamente com leigos, uma vez que os sacerdotes só eram requeridos para o sacrifício. O resultado é que, muitas vezes, faltava quem pudesse fazer a homilia. O chefe da sinagoga via-se obrigado a convidar aquelas pessoas da sua comunidade que mostravam maiores conhecimentos da Lei e dos Profetas, por terem estudado em Jerusalém, ou aqueles pregadores itinerantes que passavam pela sua cidade.

  11. Desde cedo os Judeus mantiveram um contacto harmonioso com os seus anfitriões, sentindo-se cidadãos de igual direito e com as mesmas responsabilidades pelo progresso dos respectivos povos. E esse contacto fazia nascer uma preocupação de proselitismo: como poderiam os pagãos obter a salvação que estava só em Yahvé?

  12. Esta preocupação teve duas consequências: a primeira foi a tradução da Bíblia para o grego, realizada no Egipto e que tomou o nome dos LXX ou Septuaginta; a segunda foi a de admitir ao culto sinagogal aqueles pagãos que já tinham aderido completamente à fé judaica e se tinham circuncidado (os prosélitos).




  1. O mundo pagão




  1. O mundo pagão tinha evoluído com certa independência em relação à Revelação bíblica. Tinham existido alguns pontos de contacto mas eram escassos e não de forma persistente. O Egipto tinha procurado apagar a memória da saída do povo Judeu. A Babilónia e a Pérsia tinham feito outro tanto. O império helenístico nunca se tinha interessado pela cultura dos bárbaros, e Roma olhava para os Judeus com reservas embora reconhecesse elementos positivos. Pareciam, aos olhos dos pagãos, um povo excessivamente teimoso nas suas crenças.

  2. Por outro lado, o mundo pagão estava esgotado do ponto de vista intelectual. Todos os focos de referência se tinham mostrado infrutíferos para produzir a felicidade: a magia egípcia, a grandeza dos reis orientais, o humanismo grego, o materialismo e pragmatismo romano, tinham produzido um fastio global.

  3. O mundo pagão agonizava e procurava um alívio para o seu mal. Esse alívio era procurado de uma forma dispersa, normalmente com certa conflituosidade. Cada corrente de pensamento tornava-se facção, partido, seita, com grande facilidade e digladiava-se com as outras.

  4. Por um lado, estava a facção tradicionalista. Este partido defendia que todos os males que tinham caído sobre Roma se deviam a ter abandonado os cultos ancestrais e a sobriedade própria da Roma primitiva. Defendiam uma filosofia apoiada no estoicismo, embora não fossem grandes filósofos.

  5. Por outro, apareciam as filosofias mais recentes, de carácter niilista como os cínicos e os epicuristas. Esta tendência defendia o aproveitamento dos prazeres da vida entre os quais se contava a troça, o marginalismo em relação à sociedade, o parasitismo.

  6. Do lado feminino sobretudo, surgia a ânsia de poder contar com sensações e não tanto com ideias. Foi entre as mulheres que teve mais êxito o surto de religiões mistéricas, de origem oriental, embora sincretistas. Aí o iniciado era introduzido no culto de uma divindade que lhe produzia sensações fortes ou suaves, ao seu desejo.

  7. Finalmente, surgia também o judaísmo. Cada vez mais as sinagogas se viam assediadas por homens e mulheres que buscavam a verdade. Eram os «temerosos de Deus», homens que ainda não tinham recebido a circuncisão e não se podiam considerar prosélitos, e mulheres piedosas, que aderiam à fé do Deus de Israel.

  8. Ao mesmo tempo, a sociedade decompunha-se. Os seus elementos mais frágeis, aqueles que necessitavam de maior protecção – as crianças e as famílias – conheciam os piores momentos desde que havia memória de civilização. O aborto e a contracepção eram vulgares, o divórcio e a infidelidade matrimonial bem como a união de facto, eram pratica comum. Todo o tipo de promiscuidade e comércios sexuais eram permitidos. A única bandeira que unia esforços era o dinheiro. A obediência fazia-se exclusivamente por esse motivo.

  9. Não se pode deixar de reconhecer, no entanto, que o mundo tinha dado saltos impressionantes no plano tecnológico. Podia-se falar de uma rede de cidades, de uma globalização do comércio e da indústria, de uma acessibilidade nunca antes vista. Existia até um certo bem-estar económico que contrastava com o resto.

  10. Roma assegurava este estado de coisas com um exército implacável. As suas legiões consumiam mais de metade do orçamento do estado e ajudavam activamente a cobrar os impostos que as companhias privadas de publicanos executavam.




  1. Um pouco de história




  1. O grande arquitecto deste mundo globalizado tinha sido Augusto, morto em 14 d.C. Augusto fôra um homem extremamente hábil. Tinha conduzido Roma ao status de mãe que assegura a paz e a concórdia entre todos os povos agora ligados numa sorte comum. Tinha governado quase trinta e cinco anos.

  2. Sucedeu-lhe Tibério. Tibério era um excelente militar mas um homem que se reconhecia desconfortável na política. Acabou por se isolar em Capri e por criar uma imagem distante e marcial do Príncipe. Morreu no ano 37. O Império conheceu então governadores de estilo militar, duros mas também leais.

  3. Em contraste com Tibério sucedeu-lhe Calígula por quatro anos apenas. Volúvel e amigo dos que eram como ele, Calígula não governou. Deixou que os seus amigos ocupassem os lugares-chave enquanto ele procurou divertir-se. Se não tivesse durado tão pouco tempo poderia ter originado uma das crises mais graves.

  4. Morto Calígula no ano 41, sucedeu-lhe Cláudio. Cláudio tinha a prudência de um grande chefe. Pode ter sido o maior estadista deste século. Assegurou estabilidade mesmo que com o uso de medidas duras. Na cidade de Roma expulsou os Judeus. Não se conhece exactamente o motivo mas pode ter acontecido que, com o advento do cristianismo à capital as divisões entre Judeus fanáticos e Judeus convertidos à nova religião tenham provocado distúrbios como aqueles que se conhecem pelos Actos noutras cidades e o Imperador tenha tomado essa medida para apaziguar.

  5. Cláudio morreu no ano 54. Sucedeu-lhe Nero, que governou até ao ano 68. Inicialmente parecia um bom Imperador. Tinha como conselheiro Séneca e parecia escutá-lo. Mais tarde, porém, Nero revela-se um homem louco, um maníaco, um homem que deu origem à primeira perseguição brutal aos cristãos.




  1. Um pouco de geografia




  1. Roma nasceu virada para o Ocidente, tal como Atenas para o Oriente. Mas Roma teve sempre pelo Oriente um fascínio e um complexo de inferioridade que a levaram a relacionar-se com dificuldade. Temia o Oriente que a considerava inculta e plebeia. Embora o Oriente a idolatrasse.

  2. Roma continha um milhão e meio de habitantes. Era uma cidade excessivamente grande. Para a contentar os Imperadores instituíram mais de 200 dias feriados ao ano em que davam jogos e espectáculos públicos, e distribuíam gratuitamente a annona, trigo para os pobres a mais de 200.000 pessoas.

  3. Alexandria era a segunda cidade do Império. Habitada por uma população de um milhão de habitantes era temida por Roma por ser a principal fornecedora de trigo. A sua riqueza era invejada e a sua importância combatida através da diversificação para trigo proveniente de fora do Egipto.

  4. Antioquia, na Síria era a terceira cidade com 750.000 habitantes. Esta cidade, se bem que de fundação anterior, era, no entanto, o grande centro militar do Oriente. Roma estava praticamente sempre em guerra com os Partos. Era uma cidade pouco oriental por ser tão militarizada.

  5. Corinto e Éfeso, capitais respectivamente das províncias da Acaia e da Ásia, eram cidade de 500.000 habitantes. Corinto possuía dois portos e situava-se num ponto estratégico de primeira importância. Estava muito corrompida pelo culto a Afrodite, com 1.000 prostitutas sagradas. No Império viver «à coríntia» era sinónimo de viver de forma depravada. Éfeso tinha também a sua deusa – Artemisa – mas não estava tão deteriorada do ponto de vista moral, embora fosse uma cidade com grande orgulho de si mesma.

  6. Em contraste com estas cidades existiam em todo o Império, as chamadas colónias, cidades criadas directamente por Roma, onde os talhões urbanos eram atribuídos aos veteranos de guerra, como prémio pelo seu serviço nas legiões. Aqui não há sinagogas. É o caso de Filipos na Macedónia e de Listra na Licaónia.

17-XI-08


1 Nem toda a bibliografia que apresentamos é igualmente proveitosa, nem nos identificamos com toda ela, embora toda ela tenha influído o nosso pensamento. Assinalamos com um asterisco (*) aquelas obras que, embora contendo elementos válidos, de uma forma gratuita, i.e., sem demonstração, defendem teses que apresentam algum inconveniente para a doutrina da fé.

2 Jeremias sempre exortou ao arrependimento do Povo para evitar a catástrofe que Deus lhe tinha anunciado de antemão e que se iria cumpri por intermédio de Nabucodonosor. Mas uma vez consumada a tragedia exortou os Judeus deportados a assentar arraias na nova pátria e a considerar-se cidadãos da sua terra de exílio (cf. Jr 27,1ss; Bar 6,1ss).





©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal