O nanquim e o curso de Comunicação da uepg cíntia Xavier da Silva Pinto1 resumo



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O Nanquim e o curso de Comunicação da UEPG

Cíntia Xavier da Silva Pinto1
RESUMO

Quase um capítulo à parte quando se trata de mídia alternativa, os fanzines surgem da necessidade de pequenos grupos demonstrarem insatisfação, ou opiniões geralmente minoritárias, de maneira irreverente e irônica. No curso de Comunicação – Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa diversos fanzines marcaram sua história, entre eles O Trabuco, Acracia, Tratos ao tesão, Paralelo 25 e o Nanquim. Este último é o objeto desse artigo, lançado no final da década de 1980, foi o caminho para alunos do curso de Jornalismo denunciarem os problemas existentes no recém criado curso de Comunicação. O Nanquim surgiu num período de carências para os estudantes de Jornalismo da UEPG, não havia um Departamento de Comunicação e o curso funcionava de maneira precária. O fanzine foi idealizado por três estudantes de Jornalismo, era vendido, e vinha lacrado. Uma das edições do Nanquim foi polêmica porque trazia uma imagem de Nossa Senhora nua e de pernas abertas. Seus autores tentaram escandalizar a sociedade conservadora que girava em torno da UEPG. Para resgatar a história do fanzine foram realizadas entrevistas não-diretivas, buscando valorizar a memória dos diretamente envolvidos com o veículo. Outra forma de relatar a história é a verificação dos exemplares para trazer exemplos de linguagem e da abordagem do fanzine.



Palavras-chave: comunicação alternativa, fanzine, história, jornalismo

  1. Introdução

Para compreender um pouco a importância dos fanzines ou zines, como têm sido chamados, para a comunicação e em especial a contribuição do Nanquim para o curso de Jornalismo da UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa) é necessário apontar para a história dessa produção alternativa e para o conceito de alternativo. Para fazer uma leitura sobre o papel dos fanzines e suas contribuições foi necessário buscar entender o contexto de seu surgimento e também sua transformação ao longo do tempo. Pois é esse aspecto de modificação da essência do fanzine que faz com que ele passe a ser produzido como forma de dar voz para pequenos grupos. Os zines deixam de ter o caráter de revistas de fãs, para ganharem outros conteúdos e traduzir uma nova forma de comunicação que está longe dos veículos voltados para a grande massa.

Outro ponto a ser trabalhado no presente artigo é o resgate do passado, que é recente na UEPG, uma vez que o curso de Comunicação – Jornalismo não tem ainda 20 anos de história, mas que está se perdendo sem que exista qualquer preocupação em manter uma memória. A sorte é que os seus protagonistas ainda estão próximos e é possível revisitar a história a partir de seus relatos. Essa é a contribuição importante que os estudos da chamada nova história podem trazer para esse tipo de estudo. Especialmente porque consideram a imprecisão dos dados e diferenças de relatos um ganho e não uma perda para a construção do processo histórico.

Uma constatação é a falta de um arquivo, no Departamento de Comunicação, das publicações alternativas que surgiram com os acadêmicos que passaram por Jornalismo. Os únicos arquivos existentes são dos jornais laboratórios ou das publicações que fizeram parte de projetos de extensão ou de pesquisa. Somente as publicações oficiais é que fazem parte do arquivo de documentos do curso.


  1. A história e a comunicação alternativa

Para o presente trabalho que se propõe a resgatar a história de um fanzine, o Nanquim, dentro do curso de Jornalismo da UEPG foi necessário antes entender alguns conceitos de história, já que a autora não é historiadora. Fez-se fundamental também resgatar os conceitos de comunicação alternativa.

Para o primeiro ponto é necessário destacar o apoio da chamada história nova especialmente no que se refere aos conceitos de fonte, de documento e também de “história imediata”. A natureza do objeto estudado, o fanzine Nanquim, já dá mostras de que outros conceitos e metodologias para “fabricação” da história não dariam conta, pois nem se quer há interesse por esse tipo de documento para sua inclusão na história tradicional.

Trabalhar com o conceito de “história imediata” confunde-se também com a idéia do papel jornalista, que de alguma forma aponta para algumas questões. A primeira delas é que não há história imediata do ponto de vista da imediação, ou seja, sem qualquer mediador, conforme aponta Jean LACOUTURE (1988, p.215). Outro aspecto é que o jornalista e o historiador se aproximam do acontecimento histórico, embora as abordagens podem ser distintas há duas questões pelo menos em que os dois estão próximos, que é a imersão no acontecimento.

Do jornalismo bem pouco rigoroso, praticado por homens imersos no acontecimento a ponto de serem, ao mesmo tempo, participantes e reflexos dele, à pesquisa propriamente histórica que tem por objeto um período bastante recente e recorre aos métodos da enquete-entrevista (...) passa-se aquém e além de certa linha específica que seria da história imediata, cujos componentes irredutíveis são, a um só tempo, proximidade temporal na redação da obra em relação ao tema tratado e proximidade material do autor em relação à crise estudada. (LACOUTURE,1988, p.216)

Nesse aspecto o estudo do Nanquim traduz esse imediatismo pois 13 anos separam os acontecimentos relativos ao fanzine e o curso de Jornalismo no presente. Parece um tempo significativo, mas é muito pouco do ponto de vista histórico. Uma vez que os fatos descritos prosseguem no presente e a autora teve alguma ligação com os acontecimentos, o que são condicionantes para essa proximidade conforme aponta o Jean LACOUTURE. A finalidade da chamada “história imediata” não é ser somente esse exercício de tentar fazer uma primeira interpretação do acontecimento da vida das sociedades, segundo LACOUTURE. A “história imediata” busca também “dar a palavra aos que foram os atores dessa história. Ela não aspira apenas à rapidez dos reflexos. Ela quer se elaborar a partir desses arquivos vivos que são os homens.” (LACOUTURE, 1988, p.217) Nesse aspecto entram nesse trabalho as entrevistas realizadas para tentar montar com os relatos um pouco do contexto histórico em que o fanzine esteve inserido.

Os conceitos de história nova dão conta de refletir também sobre “uma nova concepção de documento, acompanhada de uma nova crítica desse documento. O documento não é inocente, não decorre apenas da escolha do historiador, ele próprio parcialmente determinado por sua época e seu meio” (LE GOFF, 1988, p.55). A partir desse aspecto pode-se trabalhar com os textos presentes no Nanquim, assim como outros textos de jornal, que são usados como documentos históricos. É necessário perceber também que foram concebidos com uma intencionalidade e com a pretensão estarem refletindo os acontecimentos e uma sociedade em particular. A própria escolha do autor como trabalha Le Goff demonstra uma tendência sobre o aspecto histórico que esse documento pode apresentar.

Outra questão é tentar rapidamente discutir um conceito para comunicação alternativa, ou mídia alternativa. Num primeiro momento é possível pensar em alternativo para tudo aquilo que foge aos meios de comunicação de massa. O alternativo estabelece uma forma diferenciada de comunicação, especialmente porque se destaca a partir de um grupo que quer expor idéias e atitudes que não fazem parte do universo contemplado pelos veículos considerados de grande massa. Passa a ser um objeto que coloca o outro na conta da comunicação, afinal o alter seria o outro do ponto de vista psicanálitico. Nesse processo entra não somente o conceito de alternativo, mas também de contra-informação.

A alternativa é um processo que abarca tudo, desde o discurso até à organização do meio de comunicação e às formas sociais em que este é utilizado. Por sua vez, o discurso contra-informativo é o elemento que, seja como intervenção política de urgência ou como reflexão mais profunda, manifesta as necessidades da conjuntura política e os objectivos da organização político-social, por sua vez encarnados na própria prática do medium. De maneira que existe uma relação dialéctica entre comunicação alternativa e contra-informação que não pode ser deixada de lado. (VINELLI e ESPERÓN apud ALZAGA, 2005, p. 3)

Isso se deve especialmente porque não dá para deixar de lado que a comunicação alternativa acontece quando há necessidade de oferecer uma informação que não é a tradicional apresentada pelos meio de comunicação convencionais. Para ALZAGA (2005, p.3)

A alternativa não se define apenas pela prática ou pelo desenvolvimento de determinado projecto, mas fundamentalmente pela sua inserção numa perspectiva de combate ao sistema. Esta perspectiva traduz-se num tipo de relação com os leitores, em métodos de gestão, em formas de financiamento e sobretudo em conteúdos concretos.

Assim podemos observar no fanzine Nanquim as características da alternativa e também como contra-informação, uma vez que os mecanismos de produção passam tanto pelo combate ao sistema, num âmbito mais local: Ponta Grossa. Outro aspecto é a existência dessa necessidade de oferecer a informação que não é a tradicional.

2.1. Breve relato

A palavra fanzine surgiu a partir do agrupamento das palavras fanatic (fã) e magazine (revista). O termo foi criado em 1941, por Ruzz Chauvenet, para dar nome às formas de comunicação produzidas artesanalmente. Os primeiros fanzines eram mimeografados. Essas informações foram retiradas do site http://www.contrac.hpg.ig.com.br/zine.htm, mas estão em inúmeros outros que fazem alguma abordagem sobre essa produção alternativa e tem relação com contracultura e movimento punk.

Para esse trabalho estamos chamando de fanzine qualquer publicação alternativa, que tenha formato A4, que seja reproduzido por fotocópias e que tratem de assuntos de forma irreverente, com ironia.

Se utilizam de colagens, desenhos feitos à mão e de muita criatividade para criar o formato desejado; é comum possuírem uma aparência poluída. No início tratavam de assuntos como ficção científica e na década de 70 falavam de bandas do cenário punk, depois evoluíram para assuntos como política, literatura, sexo, quadrinhos, poesias, feminismo, jornalismo investigativo, e o que mais puder ser expresso em uma folha de papel. (DANTAS, 2005, p.1)

Essa transformação no conteúdo dos fanzines é que possibilita usar a denominação para as publicações que estamos resgatando nesse artigo. Como veremos mais adiante a política e as características sociais são talvez os grandes motivadores do Nanquim. Seus autores buscavam chamar a atenção para o cenário em que a UEPG estava inserida, a partir de uma sociedade conservadora.

O curso de Comunicação – Jornalismo da UEPG foi criado no segundo semestre de 1985, e passou por muitas dificuldades durante a fase de implantação. Entre as mais comuns estavam a falta de laboratórios e falta de professores, conforme aponta Eliete Marochi, aluna do curso de 1988 a 1992. Ivan Santos, aluno do período e um dos editores do Nanquim, também aponta para as dificuldades de um curso que ainda estava nas primeiras turmas:

Quando entramos a primeira turma ainda não tinha se formado, e havia uma série de problemas de infra-estrutura, sem falar na qualidade de ensino propriamente dita. A maioria dos professores era de Curitiba, tinha outros empregos (em geral, cargos de confiança no governo do Estado), vinha à tarde pra PG e voltava no mesmo dia. Muitas vezes não tinham tempo/disposição para se envolver com o curso, a cidade, os alunos, etc. (claro que havia exceções). (SANTOS, 2005, p.1)

Uma das formas de demonstrar as mazelas da universidade e também do curso foi com a produção de pequenos jornais alternativos e de baixo custo, que eram confeccionados pelos próprios alunos. Várias publicações surgiram como forma de denunciar a situação, ou como manifestação de opiniões, e de idéias sobre outros assuntos, entre eles a literatura ou o sexo.

O Nanquim contou com cinco edições ao longo de três anos. Quatro alunos assinaram a última edição que circulou em maio de 1991. Ivan Santos editor do fanzine explica que o surgimento da publicação acontece a partir da convivência de um grupo:

O Nankim é uma criação do Fábio Riesemberg, que como eu entrou no curso de Jornalismo da UEPG no segundo semestre de 1988. Nos conhecemos aí, ele vindo de União da Vitória eu de Paranavaí. Logo fizemos amizade e inclusive já no final de 88 fomos morar juntos, em uma república no conjunto Monteiro Lobato. Ele na época já desenhava bem e lançou a idéia. O fato da gente morar junto e ter desenvolvido uma amizade fez com que eu entrasse na história, escrevendo, editando, dando idéias, pautas, etc. A mesma amizade fez com que também participassem a Adriane Perin, e de maneira um pouco mais discreta, o Ney Davi Hermann – ambos estudantes da mesma turma. (SANTOS, 2005, p.1)

Sua linguagem forte e direta usava termos coloquiais, para nas entrelinhas fazer a crítica ao modelo conservador de condução das políticas da universidade. O texto do Nankim era marcado pela irreverência e apesar da linguagem direta o teor ácido vinha das entrelinhas, dos trocadilhos.

Uma situação que pode ser usada como exemplo é a eleição para a reitoria, onde o candidato era João Carlos Gomes e o então reitor era João Lubczik. Na edição de maio de 1991 o Nanquim trouxe um texto onde questiona a mudança do João para João, mas na verdade estava ironizando a troca de cargo por integrantes da mesma corrente ideológica. Outro ponto que destaca a ironia é o texto “A Bíblia é pornográfica!” onde os autores descrevem:

“Encontramos nas Escrituras Sagradas adultérios descarados, mortes envolvendo sexo, muita sedução e poemas em louvor a amada, que às vezes dão a impressão de terem sido escritos logo depois de uma boa trepada.” (RIESEMBERG, 1991, p.6)

Chamar a Bíblia de pornográfica foi uma tentativa de mostrar para a cidade conservadora que não eram os palavrões do livro “Mil corações solitários” que poderiam comprometer o conteúdo do livro. A polêmica surgiu quando uma professora do ensino médio, de uma escola de Ponta Grossa, indicou o livro do escritor Hugo de Almeida para leitura de classe. Na época “a professora junto com a diretora da escola chegaram a ser repudiadas e até mesmo na Câmara municipal, que só não votou uma moção condenando uma pedagoga por discordância de um vereador” (Folha de Londrina, 1991, p.3) Com a repercussão negativa da sugestão à leitura do livro, o fanzine saiu em defesa das professoras e do livro denunciando e chamando a comunidade de Ponta Grossa de puritana, o texto faz menção de um dos jornais que também criticaram a iniciativa da professora:

“O que mais me deixa admirado é o fato de certo jornal (que não foge a característica da comunidade local) classificar o livro “Mil corações solitários”, do jornalista Hugo Almeida como “pornográfico”. Ora, se nem a Bíblia escapou de produzir suas páginas picantes, me responda agora, oh conceituado jornal: será ela também pornográfica?” (RIESEMBERG, 1991, p. 6)

Ao descrever a cidade e o contexto social em que a universidade estava inserida Ivan Santos reforça esse caráter conservador no cenário ponta-grossense. Para ele, a cidade tinha vários aspectos de típica do interior.

Ao mesmo tempo, a universidade em geral ainda respirava um ambiente de ranço provinciano reacionário típico de uma cidade do interior do Paraná, nos anos imediatamente posteriores ao fim dos governos militares. Mais ainda em se tratando de uma cidade conhecida como “capital cívica do Paraná”, onde esses humores repressivos eram ainda mais presentes. (SANTOS, 2005, p.1)

As edições do Nanquim e até mesmo o episódio das professoras repreendidas em função da escolha do livro renderam uma matéria no jornal Folha de Londrina de junho de 1991. Na reportagem o jornal aborda ainda o processo pelo qual o editor do Nanquim Fábio Riesemberg estava respondendo.

Com tanta repercussão, Fábio Riesemberg escreve sua opinião no jornal, de um jeito bem humorado, faz em forma de entrevista. No texto escrito em forma de ping-pong diz que a edição número 5 não será a última e que não será o “aparelho repressivo” da UEPG que vai lhe botar medo. Entre os questionamentos feitos ao editor estava questão do fanzine não ser imparcial e de expressar pontos de vista particulares de seus editores, na resposta Fábio tenta levantar algumas discussões relevantes para o processo da comunicação

Nos meios de comunicação não existe imparcialidade. Sempre há uma tentativa. Por menor que seja. Se todos fizessem fanzine como o Nanquim não haveria só o nosso ponto de vista. Um jornal alternativo é um jornal que impõe uma idéia. Nós estamos impondo a nossa. E o que é melhor sem concorrência. (RIESEMBERG, 1991, p.4)

Uma avaliação um tanto superficial do que foi o Nanquim pode parecer que tudo foi muito bem articulado em cada uma das edições. Que todas as críticas e os textos tinham a exata noção do que provocariam nos criticados e no próprio contexto em que o fanzine estava inserido. Mas é somente aparência do risco calculado que foi editar o Nanquim, para o editor Ivan Santos, escrever o fanzine foi mais por diversão do que para mudar as estruturas do curso de Jornalismo, ou da própria sociedade local.

Até por isso [pela sociedade conservadora da época], era natural que o Nankim também explorasse questões comportamentais, da nossa época, nossa geração, da cidade e do meio acadêmico. E com um tipo de humor iconoclasta, irônico e ao mesmo tempo até certo ponto ingênuo. A gente era franco atirador e se orgulhava disso e exercitava isso seja criticando o próprio curso, a burocracia da universidade, a apatia dos estudantes, o imobilismo do movimento estudantil, e por aí vai. Mas tudo isso é muito mais uma análise feita a posteriori, porque na essência o que nos movia era a vontade de romper com o tédio e fazer algo que a gente considerasse relevante pra nós mesmos. (SANTOS, 2005, p.1)

A necessidade de expressão, de trazer assuntos da própria experiência também fez parte da dinâmica de criação do Nanquim. O fanzine foi uma alternativa mesmo para o grupo que o compunha para discutir o que normalmente a mídia convencional não discute, por falta de espaço, interesse e até mesmo porque considera passado.

Também havia a vontade de poder escrever, falar, comentar o nosso dia a dia em um veículo próprio, onde a gente teria uma liberdade e autonomia que seria inviável, por exemplo, em um jornal laboratório do curso. Até porque, fazíamos questão de usar uma linguagem coloquial, de rua, e uma abordagem crítica, sem se prender à pretensa e falsa objetividade e imparcialidade jornalísticas. No Nankim e em outros fanzines que fizemos/participamos, como o Tratos ao Tesão, a gente tinha a ilusão de que podia tudo. O tempo demonstrou que essa era uma visão parcial e ingênua, misturada com uma pitada de prepotência e arrogância típica da adolescência. (SANTOS, 2005, p.1)

Ainda na avaliação de Ivan Santos, sobre o contexto onde os fanzines surgiram no curso de Jornalismo da UEPG dois aspectos têm que ser considerados: o primeiro é que o grupo que compôs o Nanquim eram de alunos que vinham de fora da cidade, todos vieram para Ponta Grossa cursar Jornalismo; outra questão é o processo de redemocratização que o país vinha sofrendo no período em que eles estavam matriculados na UEPG. Para ele, esses dois aspectos também vão influenciar no modo de ver o mundo dos editores do fanzine, e também nos temas que foram abordados nas edições do Nanquim.

Pesa também o fato de chegávamos a uma universidade pública justamente no momento em que o País vivia sua fase de redemocratização e retomada das liberdades públicas depois de vinte anos de governos militares – o que fazia com que a gente tivesse esse sentimento de estar desbravando um novo tempo, uma nova forma de viver e se relacionar, com o ambiente ou com o outro e com a própria noção de estar vivendo naquele momento histórico. (SANTOS, 2005, p.2)

O Nanquim, e não somente ele mas outros contemporâneos, tiveram um assim um papel importante na mídia alternativa que circundou o curso de Jornalismo da UEPG. A polêmica dos textos do fanzine fez com que algumas mazelas viessem à tona, aspectos que normalmente a maioria sabe mas prefere silenciar. Talvez o aspecto mais marcante tenha sido a suspensão de 30 dias determinada por uma Comissão de Inquérito Disciplinar da UEPG. Oficialmente nada constou de que a motivação para a suspensão e para o inquérito tenha sido o Nanquim, mas as constantes ofensivas à reitoria promovidas pelas edições do fanzine irritaram a administração da universidade. Mas o principal motivador da suspensão teria sido um panfleto de protesto distribuído por Fábio Riesemberg. No panfleto o autor afirma Ter sido impedido de realizar um trabalho para a disciplina de Radiojornalismo, dentro do laboratório de rádio.

Essas e outras polêmicas giravam em torno de Fábio Riesemberg e do Nanquim. Eliete Marochi explica que o fanzine era vendido e vinha lacrado, então os opositores e os que eram citados não poderiam criticar e querer impedi-lo de circular. “Essa questão era o que deixava o Fábio mais revoltado, porque sabia então que as pessoas estavam lendo o Nanquim e não admitiam”. Segundo a Folha de Londrina a edição número cinco do fanzine foi tão polêmica que chegou a vender 400 exemplares.

3. Conclusão

Apesar de não ter mudado o mundo e nem a universidade o Nanquim entra para a história do curso de Jornalismo da UEPG pela polêmica e pelos desdobramentos que suas edições tiveram. O Nanquim conseguiu espaço na mídia estadual, e rendeu a pelo menos um de seus editores uma suspensão que lhe custou o semestre letivo.

Inegável também é o aspecto que pode apontar a necessidade que os estudantes têm de sistematicamente usar do formato do fanzine para mostrar os próprios pontos de vista e o que lhes parece mais interessante. A função do fanzine talvez seja muito mais a de produzir um discurso próprio capaz de demonstrar a concepção de mundo de quem o faz do que alterar de fato o processo histórico. Nesse aspecto quem olha para o passado pode conseguir alguns registros deste que não fizeram parte do processo convencional. O documento (no nosso caso o fanzine) não oficial também passa a fazer parte da história, e passa a ter relevância dentro desse processo.

Sem dúvida esses aspectos fazem com que seja importante tentar resgatar a memória histórica a partir da mídia alternativa. No caso do fanzine talvez ele seja ainda mais recriminado ou desacreditado, em função do seu formato, da sua linguagem e até mesmo de sua periodicidade incerta, quando não é única.

O Nanquim trouxe e traz reflexões a respeito da sua época, do contexto histórico em que foi idealizado. Nesse aspecto deve ser visitado como rica fonte de informação sobre a sociedade e comunidade universitária do período e até mesmo dos ideais dos seus editores e apoiadores.
4. BIBLIOGRAFIA

ALZAGA, Luciano. Meios de comunicação: ferramenta fundamental de opressores e oprimidos. Disponível em http://resistir.info. Acesso em 12/02/05.

DANTAS, Luciano. Zine ou fanzine, o que são? qual a diferença?. Disponível em http://www.contrac.hpg.ig.com.br/zine.htm. Acesso em 12/02/05.

LACOUTURE, Jean. A história imediata. IN: A história nova. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

LE GOFF, Jacques. A história nova. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

O fanzine da discórdia. IN: Folha de Londrina. Edição de 13 de Abr. 1991.

MAROCHI, Eliete. Entrevista concedida em 20 de Fev. 2005.

RIESEMBERG, Fábio. Nanquim. Edição de Mai. 1991.

SANTOS, Ivan. Entrevista concedida por e-mail. Fev. 2005.



1 A autora é mestre em comunicação e linguagens e professora universitária.



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