O negro e o trabalho no Brasil



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Encontro29.07.2016
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O negro e o trabalho no Brasil

Sou negro de Angola, Moçambique, Nigéria e outras tantas Áfricas;

fui negro cativo no engenho, na mina, no cafezal, tinha na senzala a morada.

Tenho o corpo cansado, a pele marcada de chibata e descaso;

tanto lutei, tanto fugi que um dia encontrei no quilombo a liberdade.

Mas o engano maior não tardou a chegar, pela mão do branco senhor, também obra do imperador, a libertação!

Me tirou da lida, da história sofrida mas, sem direitos, trabalho ou terra garantida, jogou-me na sorte dessa mestiça Nação.
Yorùbá, Banto, Mandinga, e outras etnias trouxeram para o Brasil conhecimentos como a metalurgia, cerâmica, técnicas de cultivo e artesanato que foram incorporados à nossa cultura, como o candomblé- rico nos seus ritos, na sua relação entre homem/natureza, na sua cosmologia- um sistema de crenças que está arraigado em grande parte da população brasileira assim como a comida e o patrimônio musical. Essa rica diversidade entrou para o cenário da história brasileira numa condição de dependência.

Assim como os índios eram tratados inicialmente por “negros da terra”, o que significava ser diferente do europeu, ser o outro que não branco, os negros e seus descendentes mestiços foram sendo classificados por vários critérios que recorriam ao matiz da cor da pele (pardo, chocolate, mulato, jambo, escurinho, etc.). Essa distinção valorativa, subjetiva e moral, criou uma gama de designações que possibilitaram colocar os sujeitos (segundo interesses das classes dominantes) mais próximos ou mais distantes do brancos, numa escala onde o que passou a pesar muito na relação entre os indivíduos, é o critério da consideração – pois quem determina se vai considerar o negro ou o mestiço, é o estatuto social do branco, e a partir daí tecer o tipo de relação que convém. É um jogo.

Produziu-se um sistema de discriminação racial no Brasil que incorpora a partir da mestiçagem o não branco, e que imediatamente o classifica segundo gênero, faixa etária e condição social que ocupa. É um sistema que exclui a partir da integração, misturando para subordinar.

Desde o período colonial, o negro como força de trabalho, mobilizou e possibilitou a acumulação de capital pelas metrópoles mercantilistas. A África, berço antigo de civilização, foi transformada num celeiro de mão de obra escrava pelo tráfico negreiro, permitindo que se estruturasse em várias regiões coloniais o “sistema de plantation”.

O cativeiro não deixou herança para os negros e seus descendentes mestiços, muito menos isso foi garantido pela libertação, pois perdendo inclusive a morada, foram lançados para fora das fazendas sem direitos e sem trabalho. Foi um grande contingente populacional que se espalhou em torno das cidades em busca de ocupação remunerada, em busca também do trabalho no campo, mas o mercado de trabalho não absorveu a todos, deixando que uma parcela considerável passasse a exercer pequenos serviços, de baixa remuneração. Deixou uma outra parcela marginalizada.
Condição essa que atribuiu aos negros e mestiços o caráter de ‘não trabalhador”, mais um qualificador negativo ao seu status, que se levarmos em última instância, chegou a criar o esteriótipo do “malandro”.

Considerando a região metropolitana de São Paulo, onde a população negra (incluindo os mestiços) representa 33% do total (17.039.000); sendo 31% da população ocupada e 1/3 da população economicamente ativa.

As oportunidades de trabalho são seletivas segundo sexo, cor e faixa etária, atribuindo a elas diferencialmente as faixas de salário. Por exemplo: a taxa de participação no mercado de trabalho dos indivíduos de 10 anos e mais na região metropolitana de São Paulo(sexo, faixa etária, posição na família, instrução segundo raça), corresponde a 63,2% dos negros, contra 60,9% dos não negros. Onde a mulher negra tem uma taxa de participação de 53,8%, contra 49,5 das não negras; além de continuar no trabalho mais que as não negras após os 40 anos – 60,1% contra 53,4%.

Também é bom considerar a questão da marginalidade dos jovens e adolescentes, pois entre os negros em idade de 10-17 anos, esses participam no mercedo de trabalho com 26,4%, contra 22,7% dos não negros. Entre o total dos assalariados nessa mesma região, 45,3% dos negros trabalham mais que a jornada, enquanto os não negros chegam a 38,6%. ( Fonte: INSPIR/DIEESE 1998).

Mas se tomarmos o rendimento salarial teremos uma forte discriminação quanto ao trabalho da população negra e seus mestiços; na faixa entre 1-3 salários mínimos negros e pardos* contam com 58,8% e brancos 37,3%; na faixa mais de 5 salários mínimos, negros e pardos contam com apenas 6,6% e brancos com 14,1%. ( *segundo Pnad 1999/DIEESE 2000):

Esse processo de exclusão foi ao mesmo tempo econômico e moral, um condicionando o outro, pois mesmo quando os dados mostram o contrário, que há uma grande participação dos negros no mercado de trabalho, ainda é taxado de indolente, e isso motiva a impedir o acesso de negros e mestiços a melhores posições no trabalho, melhor remuneração e estudos.

Entretanto, a categoria trabalho é construída culturalmente, pois seu significado na vida de um determinado grupo varia bastante, de acordo com os objetivos do trabalho, ou melhor, de acordo com a finalidade dos bens produzidos por ele.

O modo de incorporação do negro à sociedades brasileira definiu para ele uma posição subalterna na estrutura de classes; ser escravo sob o grande fardo da lavoura ou da mina, o trabalho manual, a segregação religiosa, a consideração de marginalidade, deu condições para o esteriótipo do negro como inferior.

Bernadete Castro Oliveira - antropóloga

Profa. de Antropologia – Depto. De Planejamento Territorial



e Geoprocessamento – IGCE/UNESP/Rio Claro e pesquisadora do

Instituto Iánde: educação ,pesquisa e meio ambiente.


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