O nobre e a Plebéia Surrender To The Devil Lorraine Heath



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O Nobre e a Plebéia

Surrender To The Devil

Lorraine Heath

Londres, 1851.

Um duque sedutor.

Frannie Darling foi uma menina de rua que cresceu rodeada de ladrões, delinquentes e marginais perigosos. Mas embora tenha sobrevivido a esses tempos difíceis de infância e adolescência, e tenha se tornado uma mulher de incomparável beleza. Frannie não quer envolvimento com os homens que se interessam por ela, os cavalheiros que frequentam a casa de jogos onde ela trabalha. Frannie é perfeitamente capaz de tomar conta de si mesma e sabe se cuidar... isto é, até ela retornar ao submundo onde cresceu, e descobrir que, de fato, é um lugar muito perigoso...

Diversão sim, casamento não.

É assim que pensa Sterling Mabry, o duque de Greystone. Frannie, porém, abomina aristocratas arrogantes e egoístas que só pensam em seu próprio prazer. Mas então por que o simples pensamento de um encontro ilícito com o atraente duque a deixa trêmula do desejo? E por que seu solitário coração anseia por se entregar para sempre àquele homem?



Querida leitora,

Frannie Darling cresceu nas ruas de Londres, onde aprendeu a sobreviver. Quando ela fica conhecendo Sterling Mabry, ela lhe rouba o coração com a mesma facilidade com que lhe rouba a carteira, e tudo o que arrogante lorde deseja é possuir aquela mulher. A atração de Sterling é correspondida, e á medida que ele e Frannie se apaixonam, os dois são dragados para o sombrio submundo londrino. Isto, por si só, representa um enorme perigo, mas Sterling guarda um segredo que o coloca num perigo maior ainda...

Leonice Pompônio Editora

Copyright © 2009 by Lorraine Heath

Originalmente publicado em 2009 pela HarperCollins Publishers

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARPERCOLLINS PUBLISHERS.

NY.NY — USA

Todos os direitos reservados.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.
TÍTULO ORIGINAL: SURRENDER TO THE DEVIL
EDITORA

Leonice Pomponio

ASSISTENTES EDITORIAIS

Patrícia Chaves

EDIÇÃO/TEXTO

Tradução: Sulamita Pen

ARTE

Mônica Maldonado



PRODUÇÃO GRÁFICA

Sônia Sassi

PAGINAÇÃO

Ana Beatriz Pádua


Copyright© 2011 Editora Nova Cultural Ltda.

Rua Texas, 111, sl. 20A, Jardim Rancho Alegre, Santana do Parnaíba - SP



www.novacultural.com.br

Impressão e acabamento: Prol Editora Gráfica


Prólogo

Trecho do diário de Frannie Darling.



Minha memória mais remota é Feagan dizendo, com seu sotaque do bairro do extremo leste londrino:

Frannie querida, venha sentar-se no meu colo.



Para ele eu era sempre "Frannie querida".

Frannie querida, pegue o gim.

Frannie querida, esfregue meus pés cansados.

Frannie querida, eu lhe contarei uma história.

Todos me conheciam por Frannie Darling, ou seja, Frannie querida.

Eu morava em um quarto com Feagan e seu notório ban­do de crianças conhecidas pelas mãos leves. Não me lembro de uma época em que Feagan não estivesse em minha vida. Algumas vezes eu imaginava que ele era meu verdadeiro pai. Os cabelos dele eram vermelhos e rebeldes como os meus. Mas ele nunca me chamou de filha. Eu era uma de suas crianças, aquela que se sentava em seu colo e o ajudava a contar os len­ços e as moedas que os outros traziam.

Eu removia cuidadosamente da seda os monogramas bor­dados. Aprendi muitas letras com essa tarefa tediosa, pois os volteios rebuscados me fascinavam. Eu sempre perguntava a Feagan o significado das letras antes de começar a apagar todas as evidências de que elas haviam existido. Pensando nes­sa época, eu me surpreendia ao entender que um pedaço de pano tivesse tanto valor. E tinha.

Suponho que Feagan poderia ter sido um professor em sua juventude, lecionando letras e números, e admirado por seus alunos. Ou talvez, se ele fosse meu pai, eu gostaria que ele fosse mais do que um criminoso.

Ele não falava em seu passado e eu nunca lhe perguntei do meu.

Eu simplesmente aceitava minha vida no triste cortiço como algo que me fosse devido. Os meninos de Feagan tratavam-me como se eu fosse especial, talvez por eu remendar-lhes as rou­pas e aconchegar-me neles quando ia dormir. Quando fiquei mais velha, cozinhava para eles e cuidava de seus ferimentos. E algumas vezes eu os ajudava a furtar.

Mas nada disso havia me preparado para o medo ou o horror quando, aos doze anos, fui raptada e vendida para um bordel. Luke e Jack, na época os meninos mais velhos de Feagan, salvaram-me do pesadelo.

Mas não a tempo. Luke matou o homem que tão cruelmente roubara minha inocência.

Enquanto ele esperava o julgamento, recebeu a visita do pai do morto, o conde de Claybourne, que reconheceu Luke como seu neto há muito tempo sumido e nossas vidas tiveram uma reviravolta drástica. A coroa perdoou Luke, devolveu-o aos cuidados de seu avô que me levou junto.

O conde estava determinado a dar-nos as oportunidades que nunca havíamos tido. Ele contratou tutores, e eu aprendi rapidamente a ler, a escrever e a fazer cálculos complicados. Aprendi etiqueta e bom comportamento, mas sempre me senti constrangida na residência de St. James.

Luke começou a freqüentar o universo da aristocracia, e eu comecei a sentir-me desajeitada a seu lado. Eu ficava muito mais à vontade na companhia de Jack. Quando a sorte lhe sor­riu e ele abriu um clube para cavalheiros, ofereceu-me um belo salário para cuidar da contabilidade. Agradeci ao conde tudo o que ele havia feito por mim e, mesmo sabendo que minha vida melhorara em todos os aspectos devido a seus esforços, foi com certo alívio que deixei a mansão da St. James.

No íntimo eu estava convicta de que não merecia aque­la vida. Eu não fazia parte da aristocracia, onde um lugar raramente era conseguido por meio de esforço ou realiza­ção, e sim por descendência, o que não era meu caso. Fiquei satisfeita por não ter de suportar os olhares, os falatórios e as especulações sussurradas.

Convenci-me de que seria feliz se não tivesse mais de con­viver com os lordes e as damas da aristocracia, e aboli-os de minha vida.

Trabalhei duro para criar um porto seguro onde eu me sen­tisse contente e feliz. Eu sabia ter conseguido o que desejava e não almejava mais nada.

Então, ele entrou em meu mundo pequeno e seguro... que, mais uma vez, tornou-se um lugar muito perigoso.

Capítulo I

Londres, 1851.

Sterling Mabry, o oitavo duque de Greystone, não soube dizer por que a notara.

Mais tarde ele refletiria se não tinha sido atraído pelo ver­melho vibrante de seus cabelos. Ou talvez fosse o fato de ela encontrar-se no altar ao lado de Catherine, irmã dele, que se casava com Lucian Langdon, conde de Claybourne. Ou talvez, quem sabe, fosse a maneira súbita — durante a recepção na residência recém-adquirida do cunhado — com que três homens se aproximaram dela, cada um reivindicando seu território, da mesma maneira como acontecia entre os leões da África que ele vira. Surpreendeu-o nenhum deles ter rugido.

Ao lado da janela da sala de estar, com a taça de champa­nhe na mão e à espera do brinde obrigatório que liberaria sua volta para casa, Sterling observou o sorriso tímido com que ela conversava e a maneira como inclinava a cabeça de lado, como se partilhasse de um segredo escandaloso. Ele desejou saber do que se tratava e mesmo sem escutá-la pela distância que se encontrava, imaginou se a voz seria doce como a de um anjo ou se ela cantava como uma sereia, pois os três pareciam hipnoti­zados pela jovem.

Era óbvio que eles tinham em comum algo de muito espe­cial, pois foi possível ver a afeição que ela demonstrava, em um seu rosto adorável e expressivo, por cada um deles.

Sterling pouco se interessou por aqueles homens, exceto pelo papel que deveriam desempenhar na vida dela. O primeiro ele conhecia muito bem. Tratava-se de Jack Dodger, proprie­tário do notório clube masculino aonde Sterling ia com frequência desde sua volta a Londres. O segundo, o mais alto e corpulento dos três, era uma criatura que ele não gostaria de encontrar em uma viela à noite... nem durante o dia. O terceiro cavalheiro era William Graves, o médico que Luke Claybourne mandara quando Catherine desmaiara no recente velório do pai de ambos.

Sterling notou com interesse a aproximação de Luke e a maneira como o pequeno grupo o saudou, com sorrisos lar­gos, tapinhas nas costas, apertos de mão e uma leve zombaria. Nenhum abraço da dama, apenas um sorriso caloroso que fala­va por si. Ela o admirava, ficava feliz por ele, desejava-lhe as melhores coisas e, sobretudo, o amava.

Os cinco estavam juntos de novo, todos, sem dúvida, pro­venientes das ruas. Ladrões, batedores de carteiras, assassinos e sabe-se lá mais quais outras ligações entre eles. Esse enten­dimento deveria ter posto um fim ao interesse de Sterling pela jovem, mas, ao contrário, a atração só fez aumentar.

Ele escutou os passos leves e conhecidos, e se virou no momento exato em que Catherine chegava perto dele. Com os cabelos louros presos no alto da cabeça, ela estava corada pela excitação do casamento e seus olhos azuis brilhavam como joias.

— Fascinado por eles? — ela caçoou.

Ele se deu conta de que seu olhar fixo poderia ter sido não apenas rude, mas também óbvio, embora tivesse certeza de que outros convidados também notavam o grupo.

Sterling não deveria surpreender-se com a presença de tan­tos membros da aristocracia. A notícia do casamento apressado entre o Conde Diabólico e Catherine corria por toda Londres. A curiosidade da elite lotara a pequena capela e no momento eram muito bem recebidos na casa de Luke. Até mesmo Marcus Langdon, o antigo herdeiro ao título de conde de Claybourne, comparecera. Parecia que ele aceitara seu destino de ex-sucessor. Sem dúvida, todos estavam intrigados e o escândalo era murmurado de boca em boca.

Eu estava apenas curioso, só isso — ele foi lacônico. — Eles não fazem parte de nosso meio. Quem é a mulher estava ao seu lado no altar?

— Frannie. Nós nos tornamos amigas. Se o senhor meu irmão tivesse vindo ao jantar comemorativo que oferecemos ontem à noite, ou chegado à igreja mais cedo, eu poderia ter feito as apresentações.

Sterling ignorou a admoestação — ele não se sentiria bem no jantar, assim como ela não se sentiria à vontade ao lado dele, quando tudo fora dito e feito — e fixou-se no nome. Frannie. Esperava algo mais exótico e, no entanto, o nome combinava com ela.

— Ela se veste com muita simplicidade.

O traje azul de tecido grosso que ela usava não estava de acordo com o ambiente. Sterling imaginou-a com um vestido de seda escarlate ou violeta para destacar as curvas e os pés descalços.

— Ultimamente aprendi a não julgar pelas aparências — Catherine censurou-o.

Sterling julgava as pessoas pela aparência e pelo status. Ele separava a elite daqueles com quem só mantinha uma asso­ciação se fosse absolutamente necessário. Nunca tivera razão nem desejo de reunir-se com antigos criminosos.

— Eles a sustentam? — ele perguntou.

— Como é?

— Os homens que a rodeiam são parentes dela? Do que ela vive?

— Está fazendo perguntas indiscretas, meu irmão.

— Ela é amante de algum deles? — Ele a fitou com seriedade.

Sterling não podia imaginar Catherine relacionando-se com eles, muito menos ela incluir em sua festa de casamento uma mulher de moral questionável, mas se a outra fosse amiga de Luke do tempo em que perambulavam pelas ruas...

— Quem lhe disse isso? — Catherine escarneceu. — Ela é guarda-livros do Dodger’s, o clube masculino de jogo.

Um nome respeitável para um clube de cavalheiros nem tanto, o que deveria ser importante, Sterling supôs.

— Estranho.

— Acho admirável. Nem todas as mulheres têm um pai que as sustente.

— Encolha as garras, Catherine, não estou insultando a jovem, mas admita que as mulheres costumam se ocupar com a casa e não com negócios.

Ela tocou-lhe o braço.

— Perdão, mas eu não gosto que critiquem os amigos de Claybourne. Na sua ausência, Sterling, eles me ajudaram várias vezes.

Então sua longa viagem forçara a irmã a procurar patifes conhecidos? O fato deve ter agradado o pai deles e dado mais um motivo para ele ficar desapontado com o herdeiro, a quem considerava um perdulário.

Sterling admitia que vivera como esbanjador, visando os próprios prazeres acima de tudo. Muitas vezes discutira com o pai sobre as escolhas que fazia, mas o pai fora incapaz de compreender o que representava não estar no controle da pró­pria vida e o que era ter medo de enfrentar um futuro sombrio e solitário.

— Eu deveria tê-lo apresentado. — Catherine procurou animar Sterling, percebendo que os pensamentos do irmão trilhavam caminhos áridos.

— Não é necessário. — Ele não achava que sua aproxima­ção fosse apreciada.

— Uma pena que tenha mudado tanto, Sterling.

— Já a escutei comentar isso antes. Todos mudam, Catherine, e eu poderia dizer o mesmo a seu respeito.

— Não dessa maneira. Tenho a impressão de que o cinismo tomou conta de suas ideias.

— Apenas me tornei realista. Procure seu marido, pois quero fazer o brinde e terminar com minha obrigação.

Os olhos azuis de Catherine, semelhantes ao do irmão, não esconderam o pesar, e Sterling segurou-a pelo braço antes de ela se afastar.

— Perdoe-me. Eu lhe desejo felicidades mais do que merecidas. Como fiquei afastado durante um período e pas­sei a maior parte desse tempo ao ar livre, não me sinto bem confinado em um salão cheio de gente.

Mover-se em meio a tamanha confusão sem colidir com ninguém se tornara uma tarefa desagradável. Se ele soubesse que o número de convidados de Catherine e Luke era excessi­vo, teria se despedido na igreja.

— Por isso não saiu de perto da janela, como se quisesse pular daí a qualquer momento?

— No meio da tempestade? — Sterling olhou a chuva batendo na vidraça. As nuvens negras faziam a manhã parecer noite, e a noite se tornara sua inimiga. — O dia hoje está melancólico.

— Discordo. Este é o dia mais maravilhoso de minha vida. Sterling reconheceu a própria grosseria e resolveu corrigir-se.

— Posso lhe garantir que será o primeiro de muitos dias maravilhosos de sua vida, minha querida.

— Sei que não conto com sua aprovação na minha esco­lha para um marido, pois, como a maioria dos lordes, você só enxerga que o passado está contra ele. Mas tenho a esperança de que o tempo se encarregará de fazê-lo apreciar as melhores qualidades de Claybourne.

Provavelmente não, mas Sterling não queria ofuscar a ale­gria da irmã com a negativa.

— Sterling, suponho que depois de tanto tempo despen­dido nas viagens pelo mundo sua atenção se concentrará na busca de uma esposa.

— Posteriormente. Estamos de luto e até por isso eu não esperava que este evento fosse tão exuberante.

— Pois não foi nem um pouco exagerado. Talvez tenhamos um pouco mais de convidados do que seria apropriado, mas eles facilitarão o caminho de Claybourne em meio à aristo­cracia, depois de anos andando à margem dela. Além disso, os homens não se prendem tão rigorosamente ao luto quanto as mulheres. Se quiser dançar esta noite, ninguém o repreenderá.

— Ah, esse é o poder que vem com o ducado.

— Por acaso alguém ocupou seus pensamentos enquanto esteve fora? — Catherine interessou-se.

— Fazendo o papel de casamenteira? Será melhor pensar em sua viagem de núpcias.

— Não poderemos viajar. Temos alguns assuntos para resolver em Londres.

— Mesmo assim suponho que seu marido estará contando com sua atenção completa por uns tempos. Sou perfeitamente capaz de procurar uma esposa sem perturbá-la.

— Isso não seria perturbação, mas um prazer — Ela aper­tou-lhe o braço. — Senti sua falta, Sterling, e estou muito feliz com sua presença. Agora, se me der licença, vou procurar Claybourne, para que você possa fazer seu brinde.

Catherine afastou-se e ele abafou a culpa que as palavras dela provocaram. Sterling gostaria de estar em qualquer outro lugar, menos ali. Ele bebeu o champanhe, chamou um criado e pediu outra taça. Será que a festa não terminaria nunca?

Catherine aproximou-se do marido e Sterling notou que ele a fitava com adoração. Por que não adorá-la? Ela era a filha de um duque, e sua linhagem era o melhor que a aristocra­cia britânica tinha para oferecer. Catherine entendia seu lugar no mundo e ajustava-se perfeitamente dentro dele. Sterling já não podia afirmar isso sobre si mesmo. A urgência de esca­par dali rugia em sua mente e ele estava no limite de sua paci­ência. Então os murmúrios no salão cessaram e ele aproveitou para erguer a taça.

— À minha irmã, Catherine, a nova condessa de Claybourne e a seu afortunado marido. Minha querida, que o sol sempre a ilumine, mesmo durante o mais escuro dos dias.

Ele tomou o líquido borbulhante enquanto uma roda de aplausos e vivas ecoavam pelo salão. Luke e Catherine beberam o champanhe e beijaram-se. Os presentes riram, aplaudi­ram e desejaram felicidades ao casal.

Sterling tomou mais uma taça de champanhe. Talvez se bebesse além do usual, pudesse afogar a dor de saber que jamais poderia alcançar o que o jovem casal alcançara. A felicidade de um amor verdadeiro.

***

Ele era o aristocrata mais perigoso da recepção.

Frannie Darling entendeu que dava um crédito excessivo ao homem que estava em pé junto à janela, tendo em vista estar rodeada por pessoas que não tinham escrúpulos em infringir a lei se isso lhes fosse conveniente. Mas enquanto seus ami­gos eram perigosos para todos, exceto para ela, aquele homem representava perigo apenas para ela.

Sabia disso da mesma forma que intuía quais eram os bol­sos mais recheados para ali meter a mão, ou da mesma forma que sabia quando uma lista de número fora registrada de for­ma incorreta antes de fazer a soma ou também como a certeza que naquele recinto coalhado de gente, seus amigos eram ape­nas Jack, Jim e Bill.

Havia pouco tempo descobrira que Luke sempre duvidara de que fosse o verdadeiro conde de Claybourne, mas os últi­mos acontecimentos convenceram-no da verdade, e ele não mais questionara a herança do título. Confiante, ele circulava por entre os convidados, sem temer que estivesse vivendo na pele de outro.

Frannie não podia admitir sentir-se tão à vontade em um mundo enorme, importante e que não lhe pertencia. Apesar de seu pequeno universo sumir na comparação, era onde se sen­tia satisfeita. Era possível que o desagrado com os circuns-tantes a tivesse feito notar o homem que estava junto à janela e que parecia querer fugir dali como ela. Sabia de quem se tratava. Era o irmão de Catherine, o recém-sagrado duque de Greystone.

Pensou tê-lo visto olhar para ela e observou-o sorrateira­mente. Tinha pele bronzeada, como se trabalhasse ao ar livre. Não havia um fio fora do lugar dos cabelos louro-escuros que tinham sido penteados para a ocasião, mas Frannie não pôde deixar de imaginá-los soltos ao vento enquanto ele galopava pelos mesmos caminhos explorados por Marco Polo. Greystone era um aventureiro destemido. Havia pouco quando falava com os demais, ele demonstrava polidez, uma certa tolerância, como se desejasse outra fonte de entretenimento.

— Acha que eles serão felizes? — Jack perguntou e ofe­receu-lhe outra taça de champanhe, forçando-a a desviar a atenção do homem que a fascinava.

Ele superava a importância da vida e, por regra geral, ela preferia o pequeno e o rotineiro.

— Tenho certeza disso. Catherine e Luke combinam.

— O que acha do irmão dela?

Ele era tão poderoso quanto a tempestade que inundava a cidade. Alguma mulher certamente descobriria em seus bra­ços prazeres para ela desconhecidos. O calor a invadiu e ela teve de mentir.

— Não sei.

— Ele nos observava — Jim afirmou.

— Muitos convidados estão fazendo a mesma coisa — Bill murmurou.

— Sem perder de vista os próprios bolsos — Jack acres­centou. — Sinto-me tentado a circular por aí e furtar algumas coisas.

Frannie franziu o cenho. O avô de Luke os livrara dos cortiços, mas não fora capaz de tirar completamente os cortiços de dentro deles.

— Não faça nada que possa embaraçar Luke. Ele finalmen­te foi aceito por seus pares e convidar-nos me faz pensar em um pouco de rebelião.

Eles eram os patifes de sua juventude que nunca tinham sido abandonados. O passado deles forjara um liame inquebrantável.

— Ainda à espreita dele? — Jack perguntou.

— Assim como eu espreito todos vocês e vocês fazem o mesmo comigo.

Havia ocasiões em que a observação deles era muito ínti­ma e superprotetora. Frannie os amava muito, mas às vezes ela desejava algo que não podia identificar. Talvez esse fosse o motivo de ela ter vontade de encenar uma rebelião. Espiou o cavalheiro parado junto à janela.

— Creio que vou me apresentar.

— Ele é um miserável duque — Jack lembrou-a.

— Sei disso — Frannie murmurou antes de entregar a ele a taça, suspirar e atravessar o recinto.

Como princípio, ela costumava evitar os nobres, pois eles a lembravam de sua origem humilde, mas algo naquele homem despertava sua atenção e a fazia almejar por um momento de imprudência. Durante toda sua vida ela procurara isolar-se de tudo que a fizesse sofrer, o que tornara sua existência monóto­na, mas nada aquele homem lembrava monotonia.

Frannie sentiu-se observada pelos presentes e poderia ter se aborrecido, mas teve uma sensação de carícia ao notar que ele a analisava e por pouco não tropeçou. Os rapazes de Feagan nunca a olhavam com desejo. E talvez por esse fato, Greystone fosse tão perigoso para ela. Com apenas um olhar, ele a fazia experimentar a transformação de menina desajeitada em uma mulher tentadora capaz de atrair um homem para o pecado.

O mais surpreendente era a atração que sentia por ele. Ela jamais encontrara um homem que lhe despertasse paixão ou que a fizesse desejar ser beijada e acariciada.

Derrotou a vontade de voltar a seu porto seguro e parou diante dele. Os olhos azuis de Greystone a lembraram de uma safira que adornava uma corrente por ela roubada de uma rica mulher. Feagan ficara tão feliz com a peça que lhe compra­ra um morango. Àquela altura ela não conseguia comer a fruta sem lembrar-se de que a mesma representava a recompensa por seu comportamento depravado. Uma noite com Greystone resul­taria em comer uma tigela inteira de morangos deliciosos.

— Creio que nós ainda não fomos apresentados. Sou Frannie Darling.

— A guarda-livros do Dodger’s.

Frannie arregalou os olhos. Ela raramente entrava no recin­to de jogos e poucas pessoas tinham a chave para acesso em seu local de trabalho.

— Eu me recordo de que o senhor é um dos membros do clube.

— E eu me lembro de que seus amigos — ele apontou Jack, Jim e Bill que esperavam ansiosos a volta da parceira — são gatunos.

Desapontada, Frannie concluiu que ele fazia parte do gru­po que desacreditava na ascensão social, o mesmo grupo que a fizera sofrer enquanto morara com o conde de Claybourne. Ela deveria tê-lo deixado entregue à sua mesquinhez, mas sentiu-se compelida a ficar. Talvez quisesse dar a ele a oportu­nidade de se redimir.

— Suponho que tenha desaprovado a lista de convidados, mesmo que seja costume após as núpcias oferecer um café da manhã na casa da família da noiva.

— Pense o que quiser, mas eu valorizo minha propriedade e prefiro não ter mãos leves circulando por aqui.

— Entendo.

Frannie sabia julgar como ninguém o caráter das pessoas, mas o dele não se revelava. Os mendigos eram os melhores ato­res do mundo. Com um olhar para a vítima, eles conquistavam corações e simpatia, e podiam fazer uma pessoa doar sua última moeda. Ao que parecia, Greystone fingia uma atuação que lhe garantia não ter de recompensar ninguém. Ela imaginou quais seriam os motivos.

— Ele a fará feliz? — Ele perscrutou a multidão.

— Luke?

— Claybourne.



Pelo menos ele reconhecia o título de Luke e importava-se com a felicidade da irmã.

— Imensamente.

Ele anuiu com brusquidão.

— Então isso é tudo o que importa. Se me der licença... Ele deu alguns passos e Frannie o chamou.

— Vossa Graça?

Sterling virou-se e Frannie sorriu com malícia, sem saber se pretendia irritá-lo, embora ele o merecesse. Ela não pretendia deixar sem resposta o insulto a seus amigos e tinha sua própria declaração para fazer. Eles não eram os únicos ladrões presen­tes. Frannie levantou a mão e em seus dedos estava pendurado um relógio de ouro preso a uma grossa corrente.

— Milorde esqueceu seu relógio.

Sterling olhou para o colete, apalpou-o sem acreditar e vol­tou para Frannie um olhar ameaçador, estendendo a mão. Ela deixou a peça valiosa na palma da mão dele e não teve como se livrar do aperto em seu pulso.

— Cuidado, srta. Darling — ele a avisou com rispidez. — Fiquei fora muito tempo e agora sou muito menos civilizado do que era antes de minha partida.

Frannie não duvidou da afirmativa e teve a impressão de que seria devorada. Seu coração disparou e as pernas amoleceram.

Com uma mesura brusca, Sterling soltou-a e afastou-se. Frannie observou-o sair pela porta e surpreendeu-se como o feitiço se virara contra o feiticeiro. Não esperava ser deixada sem fôlego pelo encontro, nem muito menos se aborrecer por isso. Um sentimento incomum e poderoso a impediu de dese­jar que ele partisse.

Sterling queria sair logo dali, mas moderou os passos para não colidir com as pessoas e conseguiu deixar o recinto com facilidade. Sua expressão sombria não animou ninguém a detê-lo para uma conversa.

Admitia que seu comportamento com a srta. Darling fora odioso, mas ele não contava com a própria reação diante da proximidade dela. Ela não tinha voz angelical, mas sim um tom que despertava paixões dentro de quatro paredes. Quente, sensual e de tirar o fôlego, como se eles já houvessem feito amor e ela desejasse repetir a dose.

Ele quase gemeu ao lembrar-se dos olhos dela, verdes e fulgurantes. O que mais o atraíra fora a diferença com as outras jovens. O olhar dela não era inocente, mas sim de quem aprendera com a vida. Ela vira muito e provavelmente agira de maneira que faria as outras desmaiar.



Sterling perdia o controle em raras ocasiões, mas enten­deu que se não se afastasse dela, provavelmente a tomaria nos braços, independentemente de onde estivesse.

E ainda por cima não a sentira surrupiar seu relógio de bolso. O que era uma pena, pois ele gostaria de sentir seu toque. Por isso tratou de afastar-se a passos largos.

O encontro com Sterling Mabry, o oitavo duque de Greystone, deixara Frannie inquieta.

Os meninos de Feagan — ela sempre pensava neles como meninos apesar de adultos — não lhe fizeram perguntas. Ela precisava de um pouco de solidão para se recompor. Como a chuva não permitia um pas­seio pelos jardins, ela teria de contentar-se com a imensa resi­dência dos Claybourne. Como os criados a conheciam, não a impediriam de andar pelos corredores e salas onde convida­dos não teriam acesso. Desde que se mudara daquela casa, vie­ra visitar o conde de Claybourne apenas uma vez. Embora não se sentisse muito à vontade ali, havia um dos recintos que ela tinha uma grata lembrança.

Sem hesitar, abriu a porta da grande biblioteca e entrou. Fechou os olhos por um instante e inalou a maravilhosa fragrância dos livros. Livros razão não tinham esse cheiro agradável. Fechou a porta e caminhou por entre as poltronas e pequenas mesas que formavam áreas de leitura individual, passou pelas estantes lotadas de livros e deslizou os dedos pelas lombadas dos muitos volumes que o antigo conde de Claybourne colecio­nara durante anos. Ele havia sido um leitor voraz e apresenta­ra a ela os trabalhos de Jane Austen e Charles Dickens, entre outros. Dentro desse recinto, ela viajara pelo mundo.

Isso a fez lembrar-se de Sterling. Por intermédio de Catherine, soubera que ele explorara o mundo e as maravilhas que ele relatara. Era difícil imaginar a coragem necessária para tal empenho. Viajar de navio pela imensidão do oceano e ter a certeza de chegar ao destino. O que afinal ele fizera para tor­nar-se tão amargo e menos civilizado? E por que ela não podia parar de pensar nele, apesar da rudeza com que fora tratada? E por que achava que ele temia algo?

Ao descobrir que ela levara seu relógio, o medo reluzira por milésimos de segundo em seu olhar antes de brilhar perigo­samente. Ela conhecera muitas almas amedrontadas, inclusive a própria. Podia entender a reação de raiva, mas por que o incomodara não ter percebido o furto? Ou ela estaria fazendo uma interpretação errônea do caso? O que não aconteceria se Sterling fosse um livro.

Recriminou a si mesma por haver se apossado do relógio dele. Ela já havia superado suas origens e se irritara com o fato de ele trazê-las de volta. Por que sentira a necessidade de pro­var que era uma ladra experiente?

Na verdade, não havia motivos para se importar com a opi­nião dele a respeito de seus amigos ou de si mesma. Sterling era arrogante, rude e representava a aristocracia que ela des­prezava. Mesmo o avô de Luke, apesar de toda a bondade que demonstrava, olhava com altivez para os infelizes a quem o neto chamava de amigos. Ainda assim, Frannie não podia dei­xar de pensar nele com carinho.

Foi até a escrivaninha e sentou-se. Passou a mão sobre a superfície polida da mesa e recordou-se da figura imponente do conde de Claybourne que ali se sentava. Até o dia em que ela descobrira a fraqueza dele por balas de limão e a partir de então ele se tornara humano a seus olhos, principalmente quan­do lhe oferecera uma. Abriu a gaveta onde o velho lorde guar­dava seus doces.

— Planejando furtar alguma coisa?

Frannie deu um pequeno grito e pressionou a mão no peito. Com o coração aos saltos, virou-se para encarar o acusador.

Sterling estava encostado na parede de um canto escuro, de braços cruzados, e Frannie não entendeu por que não o notara antes. Os trovões ribombavam e a chuva parecia ter aumenta­do de intensidade.

— Vossa Graça assustou-me.

Ela sempre havia pensado que Luke e Jack possuíam uma presença dominadora, mas tinha de admitir que eles sumiam se comparados ao duque de Greystone. Ele não era um homem acostumado a ser ignorado e a atração que por ele senti­ra no salão tornava a se manifestar, contudo ela se recusava a ceder. Não permitiria que o duque zombasse de sua ternura pelos amigos, mas não cometeria a infantilidade de espernear.

Engoliu em seco, determinada a enfrentá-lo.

— Ele costumava esconder nesta gaveta as balas de que tanto gostava — ela respondeu ao silêncio pesado que se seguiu. — O antigo conde — explicou. — O avô de Luke.

Diante do mutismo de Sterling, Frannie fechou a gaveta e levantou-se da poltrona, recusando-se a se acovardar. Com o coração batendo quase tão forte quanto os trovões, foi até a janela e olhou para fora.

— Quando eu morava aqui, milorde sentava-se nesta pol­trona — ela apontou a cadeira estofada de verde próxima da janela — e fazia com que eu lesse para ele todas as tardes. Estranho. Quando menina, morei com um jovem que eu esta­va certa de ter matado alguém, mas eu não o temia. Porém o velho conde me aterrorizava.

— Por quê?

Finalmente ele falava. Frannie encarou-o, surpresa ao des­cobrir que estavam muito próximos e suspeitou que a pergun­ta havia sido feita para impedi-la de escapar. Por que razão a ideia de ele querer que ela ficasse a deixava tão excitada?

— Talvez por ele ser tão grande. — Frannie sacudiu a cabe­ça, frustrada pela inabilidade de descrever o avô de Luke. Ela era mais experiente no uso de número do que com palavras. — Não fisicamente, é claro. Ele era alto como Luke, porém bem mais magro e curvado pela idade, mas ele era imponente e tudo o que o rodeava era grande. As casas nas quais vivia, tanto na cidade como no campo, ou o coche onde viajava. Quando eu o acompanhava em alguma visita em Londres, notava a deferência como era tratada, o que me dava a certeza de que ele era um homem muito poderoso... assim como Vossa Graça.

— Homens poderosos a assustam?

— Causam-me uma certa hesitação, mas não sou mais crian­ça para ser intimidada por eles. Eu diria que a idade traz uma tendência a não se importar muito com que os outros pensam.

Sterling ergueu um dos cantos da boca, e Frannie teve uma vontade absurda de fazê-lo rir, mesmo que ele houvesse des­confiado da mentira. Não podia negar que a incomodava a opinião degradante da aristocracia a seu respeito e também de seus amigos. Cada um deles, à sua maneira, ajudava os menos favorecidos e todos eram muito leais, capazes de dar a vida um pelo outro. E a incomodava profundamente o fato de pessoas menosprezarem essas boas qualidades e esperarem sempre o pior.

— A senhorita fala como se fosse uma anciã.

— Tenho quase trinta anos.

Frannie se sentiu compelida a revelar a idade, talvez para assegurá-lo de que não se tratava de nenhuma jovem inocen­te, mas sim de uma mulher de opinião própria... pelo menos até aproximar-se dele. Naquele instante não tinha certeza se queria que ele chegasse mais perto ou se afastasse antes de a situação escapar de seu controle. E com ele, ela não garantia um con­trole completo. Teve vontade de desmanchar-lhe os cabelos e deixar vir à tona o aspecto não civilizado a que ele se referira.

— Idade suficiente para estar casada e ter filhos.

— Ah, eu tenho filhos. — Frannie notou a reprimenda em sua expressão e irritou-se por ele pensar o pior a seu respeito. Teve vontade de não explicar nada e deixá-lo imaginar o que quisesse. Por um lado, queria que ele tivesse uma má impres­são, mas, por outro, que a achasse merecedora... de algo inex­plicável. — Quero dizer... recolho órfãos ou o farei uma vez que a casa de minhas crianças esteja terminada.

— Ah, uma reformista.

— Vejo que desaprova. Vossa Graça não crê em boas ações?

— Elas têm seu lugar, mas trabalhar com órfãos parece-me um desperdício para uma mulher tão adorável.

Frannie sentiu um calor percorrer seu corpo dos pés à cabe­ça. Ela sempre se considerara comum e a agradava que assim fosse. Não queria favores masculinos e fazia o possível para não parecer atraente. Até o vestido que ela usava para aque­la ocasião especial fora escolhido para não chamar a atenção, contudo não adiantara.

— Não tenho certeza se devo me sentir insultada ou elogiada.

— Elogiada, eu lhe asseguro. Creio que nós tivemos um início infeliz com nossa apresentação ou talvez pela falta dela. Vim até aqui em busca de solidão para pensar na melhor maneira de me redimir. Em geral não sou tão descortês. — Sterling olhou pela janela. — Quem era o cavalheiro de casaco marrom com quem a senhorita falava há pouco?

Ela se surpreendeu com a mudança súbita de assunto.

James Swindler, um inspetor da Scotland Yard. Frannie poderia jurar que o duque segurava o riso.

— Não me referi à ocupação dele, mas o que ele é seu. Frannie achou a declaração estranha. O que mais ele poderia ser?

— Um amigo. Vossa Graça deseja uma apresentação? Sterling deixou escapar uma risada antes de sacudir a cabe­ça e comprimir os lábios um contra o outro.

— Não. Mas ele agia como seu protetor.

— Todos eles são muito protetores.

— Todos?


— Os meninos de Feagan

— E Feagan é...

— O pai de rua que nos acolheu e criou.

— O que os ensinou a roubar?

— Entre outras coisas.

— A senhorita deve ter sido uma aluna aplicada, pois nem mesmo senti a ação de seus dedos. O problema é que eu gosta­ria muito de conhecer seu contato.

Sem pressa, Sterling tornou a fitá-la como quem fazia um convite e uma promessa. Como responder a isso? Admitir que também gostaria de sentir o toque dele? Aos doze anos Frannie perdera a inocência, porém nunca tivera interesse sexual por homens. Não que os temesse. Aprendera com os meninos de Feagan que nem todos os homens eram brutos. Ainda assim, não se sentira atraída por nenhum, nem queria atraí-los. Nunca sentira aquela estranha agitação no estômago ao olhar para um homem, nunca sentira o coração disparar daquela maneira pela proximidade masculina, nem encontrara dificuldade para respirar ao analisar o contorno de lábios masculinos.

— Nenhuma resposta, nem ao menos para negar que esteja curiosa para saber como eu poderia tocá-la?

— Não tenho habilidade nesses jogos de flerte.

Frannie novamente revelava segredos de sua intimidade. Ela sempre colaborava com os meninos quando o assunto era furto, encontrar um estratagema ou espoliar alguém. Eles sem­pre buscavam sua opinião nos negócios. Mas isso tudo era muito distante do que acontecia ali. Ela se sentia como uma exploradora iniciante viajando sem mapa.

— Não se trata de um jogo, srta. Darling — Sterling dis­se num tom de voz baixo, que repercutiu dentro dela e se alojou nas proximidades do coração.

— E por tocá-la, Vossa Graça quer dizer...

— Simplesmente tocar.

Frannie, que sempre se dera conta do ambiente e de quem a cercava, julgando o melhor momento para tomar ou sair, não percebera a aproximação maior de Sterling com olhos escurecidos de desejo. Com extrema delicadeza, ele passou a ponta dos dedos na face, na testa e no queixo dela.

— Tão suave — ele sussurrou, acariciando-lhe o lábio com a ponta do polegar, seguindo os próprios movimentos com o olhar, como se nunca tivesse visto nada tão fascinante ou como se ela fosse uma criatura rara. — Algum dos cavalheiros que a acompanham... é seu amante?

— Não! — Insultada, ela teria recuado se não estivesse presa pela carícia do polegar sob o lábio.

— A senhorita tem um amante?

— Isso não é de sua conta.

— Tem? — ele insistiu.

— Não.


— Ótimo.

Sterling não tirava os olhos dela e o fogo neles contido intensificou-se e pareceu queimá-la. Frannie pensou que entra­ria em ebulição e teve uma vontade ridícula de abrir alguns botões do corpete e deixar que o duque assoprasse sua pele.

— Por que isso é ótimo? — Ela quase não reconheceu a pró­pria voz, de tão ardente.

— Porque eu gostaria muito de beijá-la, srta. Darling, e ao contrário de seu costume, não tenho o hábito de tomar o que pertence a outrem.

Sterling segurou o rosto de Frannie e aproximou-se devagar, dando-lhe a oportunidade de recuar ou recusar. Mas Frannie inclinou-se na direção dele, cerrando os olhos. E Sterling beijou-a.

Ela já havia recebido beijos forçados e castiços, mas nenhum homem tocara seus lábios com tanta ternura e determi­nação, abrindo-os para permitir sua entrada. Também ela nunca quisera tanto corresponder. Sterling tinha sabor de champanhe e de desejo.

Ele a abraçou e Frannie jamais experimentara estar tão próxima de um homem, nem tivera o busto apertado por um peito sólido ou inalara tão profundamente o perfume mascu­lino. Nunca tivera dentro de sua boca a língua de um homem, nem correspondera àquela dança sensual. E, sobretudo, desejava com desespero o que não conhecia e que deveria amedrontá-la.

Sterling não lhe causava receio. Frannie abraçou-o pelo pes­coço e ficou na ponta dos pés para facilitar o acesso do que ela tanto desejava. Com um gemido surdo, ele mudou o ângu­lo do beijo, aprofundou-o e explorou cada centímetro da boca desconhecida. O calor aumentou e Frannie supôs que pode­ria derreter. A paixão e as sensações arrebatadoras permitiriam que os dois se tornassem um só?

Ele se afastou ligeiramente e fitou-a com intensidade.

— Como a senhorita não tem um amante, eu gostaria de ofe­recer-lhe meus serviços. Pelo visto, nós somos compatíveis.


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