O novo ateísmo militante



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O novo ateísmo militante


O novo ateísmo ou ateísmo militante é uma expressão nova a designar uma realidade também nova. Como fato individual, a negação de Deus é quase tão antiga como a humanidade. Como fato social, o ateísmo é um fenômeno inédito na vida da humanidade. A etnografia e a história não conhecem povos sem religião. Com o advento do comunismo que, a todo transe, pretendia traduzir em realidade social o materialismo dialético de Marx, a irreligiosidade passa a ser o ideal de uma nova civilização, e o combate à divindade, a condição preliminar de seu triunfo na história. O marxismo era essencialmente um ateísmo militante. (ver http://permanencia.org.br)

Na parte superior: Nietzsche, Freud e Marx.
Na parte inferior: Hitchens, Harris e Dawkins.


Hoje porém assistimos a uma viragem. Já não se trata dum ateísmo de matriz filosófica, mas dum novo ateísmo alimentado pela referência ao discurso científico. Depois dos “mestres da suspeita” (Marx, Nietzsche e Freud), hoje é a vez do neodarwinismo e das neurociências de fornecer argumentos a fim de que se acredite que Deus não existe.

O novo ateísmo é também militante (combatente) porque condena não apenas a crença em Deus, mas também o respeito pela crença em Deus. Segundo eles, toda religião é má! Não está apenas errada. Ela é perversa: “Com ou sem religião, haverá sempre pessoas boas a fazer coisas boas e pessoas más a fazer coisas más. Mas, para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião” (Steven Weinberg, físico). Para o ateu-militante tudo pode e deve ser explicado e resolvido pela ciência. Eis porque o novo ateísmo militante vem promovendo uma auténtica “cruzada contra a religião”.

A face mais visível dessa cruzada são os inumeráveis livros lançados nestes últimos anos, particularmente desde 2004, por cientistas influentes, tais como: o biólogo britânico Richard Dawkins, um dos mais conhecidos pesquisadores do evolucionismo e principal ícone do novo ateísmo; o escritor e jornalista inglês Christopher Hitchens (falecido em 2011), conhecido pelo seu espírito irreverente e anticlerical, e pela sua hostilidade a qualquer forma de religião (num livro contra Madre Teresa trata-a de “anjo do inferno”); o neurocientista americano Sam Harris; o filósofo estadunidense e estudioso da mente Daniel Dennett; o célebre físico inglês Stephen Hawking ... Dawkins vive em Oxford, na Inglaterra, mas foi nos Estados Unidos que o grupo de militantes ateus se tornou mais ruidoso.

A principal crítica aos novos ateus é que, junto com Deus, eles retirariam a espiritualidade da vida das pessoas. A resposta deles é que a espiritualidade pode vir da contemplação da natureza. Até os ritos poderiam ser preservados, com novos significados. Como faz, por exemplo, o administrador de empresas gaúcho Roberto Moschen. Ateu, ele criou uma versão alternativa do Natal: o Newtal, um natal para o cientista Isaac Newton, que nasceu em 25 de dezembro. (http://revistaepoca.globo.com).


1. O desafio do ateísmo contemporâneo


O que aconteceu com o ateísmo contemporâneo? Se até há poucos anos, com a cumplicidade da viragem filosófica moderna que tornava dogmaticamente impossível, por definição, o discurso dedicado às provas da existência de Deus, o ateísmo se apresentava em primeiro lugar no espaço pragmático da irreligiosidade e da indiferença, hoje assistimos a uma dupla viragem.

A primeira diz respeito à retomada do ateísmo teórico alimentado pela referência ao discurso científico. Depois das estações clássicas dos mestres da suspeita (Marx, Nietzsche e Freud), hoje é a vez do neodarwinismo e das neurociências de fornecer argumentos a fim de que se acredite que Deus — que alguns escritores preferem escrever com letra minúscula — não existe.

A segunda, mais interessante, talvez, é a que se esforça por afirmar que o ateísmo pode constituir uma nova forma de moralidade. Também neste caso seria possível encontrar alguns antecedentes históricos, na obra moderna, citando o debate entre Pascal e a libertinagem erudita, ou pensando no célebre panfleto de Sartre sobre o ateísmo como humanismo. A nova apologética do ateísmo privilegia a referência às ciências empíricas a fim de justificar a tese segundo a qual sem Deus é possível viver moralmente bem e, aliás, pode-se e deve-se tomar nas próprias mãos o futuro de uma evolução que até esta data foi, por assim dizer, cega, mas que agora poderá finalmente ser governada pelo projecto humano emancipado dos conjuntos confusos de interdições ancestrais formuladas sob a autoridade divina.

O novo ateísmo militante coloca-se deste modo ao serviço das biotecnologias, substituindo a fórmula antiga da filosofia ancilla theologiae com a do ateísmo como ancilla technologiae . Esta mudança de perspectiva não deve ser absolutamente subestimada. Por um lado, purificada dos tons polémicos e dos ressentimentos indefinidos, muitas vezes condicionados por uma má compreensão da questão de Deus como Criador (que deveria ser considerado como Fundamento do presente e não só como iniciador do passado), o ateísmo contemporâneo manifesta uma perturbação implícita em relação ao novo poder do homem. Com efeito, como é possível interpretar o esforço de acalmar o homem na sua obra auto-referencial de construção de novas possibilidades de manipulação da vida (e não apenas da saúde) do homem, a não ser nos termos de uma consciência inteligível do que está em jogo, isto é, do significado último da existência e do próprio sentido de toda a realidade? Hoje, como nunca antes, o poder do homem sobre si mesmo e sobre o real é capaz de fazer-nos perceber a exigência de encontrar critérios éticos que não sejam puramente arbitrários e subjectivos: e o ateísmo militante desejaria colocar-se exactamente como este horizonte último de sentido, capaz de justificar o discurso ético sobre uma verdadeira metafísica da imanência e, por conseguinte, da negação de Deus (com letra maiúscula, porque é muito fácil livrar-se de um «deus» escrito com letra minúscula).

Neste sentido, o ateísmo constitui uma solicitação poderosa para o crente, a fim de que volte a expressar as razões de um acreditar, apto a restituir a forma a um saber sobre a existência de Deus capaz de modelar o sentido do ethos humano, por muito tempo cultivado no seio de uma autonomia incapaz de compreender a dimensão histórica do desafio prático e teórico, que precisamente o homem modelou com as suas mãos.

Quanto à tentativa, sob um certo ponto de vista clássico, de tranquilizar sobre a relação positiva que pode existir entre ciência e fé, actuada pela visão apologética do acreditar, a apologia do ateísmo requer um enraizamento mais essencial sobre a questão das verdades últimas, porque esclarece que o lugar originário do debate é, além das próprias ciências, o seu agir e interpretar o mundo: coloca-se, originariamente, no âmbito da pergunta que une o significado da história e o fundamento último da realidade e, portanto, da vida. Aos argumentos da nova apologética do ateísmo, que efectivamente é tudo menos que pós-metafísica, pode-se e deve-se responder, confiando nos grandes recursos de que precisamente a razão humana, salvada pelo evento da Encarnação, dispõe.

Após o período do pensamento débil, das identidades fluidas, propõe-se de novo, no espaço público da cultura, a questão da seriedade da existência no seu enraizar-se necessário com ou contra Deus.

26 de Novembro de 2011

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2. "Deus não existe": polêmica antologia sobre ateísmo


O livro"Deus não existe", antologia de artigos de pensadores e escritores de todas as épocas, é outra ação militante contra a religião, fonte de violência e submissão para o organizador britânico Christopher Hitchens.

Deus está morto: assim sentenciou F. Nietzsche em seu livro "A Ciência Gaia", em 1882, há mais de um século. No entanto, as discussões contemporâneas em torno do pensamento religioso e da presença de deus nas práticas humanas parecem contradizer essa proclamação e inaugurar o retorno de um problema filosófico que a modernidade, supúnhamos, havia despachado para sempre. (…)

Por quê? Qual é a necessidade desse retorno? Não estava claro que o pensamento crítico exige o fim das religiões ou de qualquer outra forma de clausura transcendente? Não é o suficiente a ciência para a verdade, com o acordo para a moral, com a democracia para a política, ou com a psicanálise para a angústia existencial? Depois de Nietzsche, de Freud e de Marx, é preciso voltar a pensam em Deus ou na religião ou em uma força divina para edificar o nosso pensamento humano?

Ao longo da modernidade, e particularmente no século XX, aprendemos a pensar sem deus: a antropologia, a política, a sociologia, a psicanálise, a pedagogia, enfim, todas as formas contemporâneas de pensar excluem deus de seu quadrado de explicações. Quais são as razões desse retorno do religiosa à reflexão teórica?

Não há dúvida de que habitamos o fim de uma época. A crise do pensamento moderno, anunciada em milhares de páginas sob o prefixo pós (pós-modernidade, pós-humanos, pós-industrial etc.) implica em um giro e em uma metamorfose nos conceitos e nos valores sobre os quais o sentido das práticas humanas havia se edificado desde o século XVII em diante. Depois da morte teórica de Deus, assistimos o fim da Verdade, dos grandes relatos, da objetividade, da história, das ideologias, da ética humanista. O pensamento contemporâneo parece se referir à queda como um modo de afirmar a incerteza à qual está exposto quando perde a sustentação que a razão lhe ofereceu por mais de 300 anos. A demolição do edifício moderno deixa escombros: culpas, ausências, reconstruções, críticas, obsessões, abandono, reordenamentos. O fim da metafísica e do niilismo que lhe seguiu, anunciado por Nietzsche e depois por Heidegger, é um de seus efeitos. (…)

Diante de posições em que o religioso é visto e recuperado a partir do fim da modernidade, outras leituras insistem em levar Deus a juízo e a submetê-lo ao tribunal da razão. O motivo principal dessas interpretações de corte iluminista é a de enfrentar os totalitarismos políticos de base religiosa, em que o fundamento divino transcende necessariamente as fronteiras da religião e se faz violência terrorista, atentado e morte.

A queda das Torres Gêmeas em setembro de 2001, além de uma reflexão sobre suas derivações na política do Ocidente, abriu novamente o debate sobre a existência de Deus e os efeitos que as crenças religiosas produzem na vida dos homens. Longe de abandonar os postulados da modernidade, aqui se afirma o poder da razão e a verdade da ciência como um princípio que permite desarticular o obscurantismo religioso e demonstrar a falsidade de todos os seus enunciados. Isto é, "aumentar as luzes", como afirma o filósofo Michel Onfray em seu "Tratado de ateologia" (2007), insistir no iluminismo moderno, levá-lo ao extremo, com o fim de libertar os homens da barbárie e da ignorância.

Trata-se, de alguma maneira, de seguir mantendo a vocação higiênica que a modernidade manifesta com relação às crenças religiosas, mediante a clareza argumentativa e a verdade luminosa que a razão nos oferece. Se o fanatismo do crente produz guerras, atentados e morte; se sob o nome de Deus se realizam sacrifícios, mutilações ou abusos; se os argumentos religiosos se opõem aos argumentos de cientistas, não se trata então de incorporar Deus de um modo mais pacífico e privado, mas sim de demonstrar uma e outra vez a falsidade de sua existência; de compreender que todas as religiões não são mais do que superstições inventadas pelos homens com o fim de continuar sustentando uma forma de domínio cruel sobre seus semelhantes.

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3. Christopher Hitchens: “A crença em Deus é uma peste”


Essa é a perspectiva que defende o livro "Dios no existe. Lecturas esenciales para el no creyente" (Debate, 2009), do escritor e jornalista inglês Christopher Hitchens. Esse ensaio é uma extensa antologia de textos que vão de Lucrécio, poeta e filósofo romano do século I a.C., até autores do século XXI, em que todas as reflexões escolhidas compartilham de um pensamento crítico e, em muitos casos, devastador contra a existência de Deus.

Na introdução, Hitchens afirma de imediato seu olhar sobre a religião e a preocupação que o leva a publicar seu livro: a crença em Deus é uma peste (o texto começa com uma referência à novela de Albert Camus), e "esta antologia pretende identificar e isolar esses bacilos com maior precisão". Com a mesma urgência, refere-se aos atentados com carros-bomba do ano 2007 em Londres (sua cidade natal), em que, em nome da religião, "o ódio e a violência estão envenenando todas as vidas".

Isto é, o livro se apresenta não apenas como uma defesa do ateísmo militante que o autor defende, mas sim como uma necessidade de tomar consciência dos efeitos terroríficos que a religião produz na vida contemporânea. Esse livro é, de certa forma, a continuação de um livro anterior de Hitchens ("Dios no es bueno. Alegato contra la religión"; Debate, 2008), em que o autor, depois de uma análise crítica da religião e de seus efeitos – "A religião mata?", "A religião como pecado original", "A religião é uma modalidade de abuso de menores?" são alguns de seus capítulos – faz um apelo à resistência da razão e à necessidade de uma novo Iluminismo que sustente, como único objeto de estudo, não Deus ou seus messias ou seus livros sagrados, mas sim o homem e a mulher. No entanto, e apesar da clareza que a ciência atual oferece, Hitchens acredita que é "necessário também reconhecer o inimigo [deus] e dispôr-se a combatê-lo".

Nessa batalha iluminista em que "Deus não existe" se inscreve, já não não como um discurso, mas sim como uma genealogia do ateísmo que inclui autores dos diversos ramos do pensamento e dos diversos períodos históricos da cultura ocidental. Desde a prosa dos "Rubáiyat", de Omar Jayam, do final dos anos mil, à voz de Darwin em sua "Autobiografia"; filósofos como David Hume ou Karl Marx; escritores como Joseph Conrad, George Orwell ou John Updike; S. Freud, Carl Sagan, Anatole France, Einstein, Lovecraft ou Mark Twain, em uma extensa e muita completa reconstrução cronológica de pensamentos que, de um modo ou outro, criticaram a ideia de Deus ou diretamente afirmaram sua inexistência.

A antologia finaliza com a escritora de origem islâmica Ayaan Hirsi Ali, que, atualmente, vive oculta e ameaçada de morte pela jihad por causa de sua defesa dos direitos das mulheres muçulmanas. Seu artigo "Como (e por que) me tornei infiel" é um pequeno ensaio autobiográfico que descreve o caminho que a levou da submissão religiosa muçulmana ao ateísmo que hoje defende. Não é só um pensamento, mas também a descrição de uma prática concreta de abandono da ideia de Deus, uma emancipação que teve a razão como guia e o respeito a si mesma como "bússola moral". Uma experiência de infidelidade que Christopher Hitchens escolhe para encerrar seu livro, talvez como uma forma de dizer que não só é possível viver sem Deus, mas que, tratando-se do "inimigo mais antigo da humanidade", é vital e necessário.

Para defender a religião ou para devastar definitivamente o poder de deus, o certo é que a filosofia do século XXI continua administrando as consequências do fim da modernidade e do ingresso em uma nova época para a qual ainda não temos um pensamento. O ressurgimento de certos problemas é um sinal da devastação teórica com a qual nos enfrentamos. Enquanto isso, tanto a razão quanto a fé continuam trocando suas cartas e acusando-se mutuamente dos monstros que produzem.



A reportagem é de Gustavo Varela, publicada na Revista Ñ, do jornal Clarín, 07-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto

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4. Richard Dawkins: "Acredito na racionalidade"


Richard Dawkins é um biólogo, divulgador cientifico, ensaísta e ativista britânico, considerado um dos maiores expoentes do neo-darwinismo e do "novo ateísmo". O autor de "Deus, um delírio", quando esteve no Brasil em 2009, concedeu uma entrevista ao jornal O Globo.

O tema de sua apresentação é “Deus, um delírio”. O que o senhor espera da resposta da audiência no Brasil que, como o senhor sabe, é o maior país católico do mundo e marcado pelo sincretismo com religiões africanas?



Dawkins - Minha experiência nos Estados Unidos é que, embora se trate de um país muito religioso, abriga também muita gente que não tem religião, que é ateia e que vem sendo mal representada, que não tem voz. Um dos efeitos dos meus livros, e de minhas palestras, tem sido dar voz a essas pessoas, fazer com que elas falem. Talvez o mesmo seja verdade para o Brasil, vamos ver.

Desde o lançamento de “Deus, um delírio”, o senhor vem se dedicando à causa do ateísmo. Seu novo livro, a ser lançado mundialmente em setembro, “The greatest show on Earth” (“O maior show da Terra”, em tradução livre), segue a linha de ataque ao criacionismo, ao se dedicar a apresentar provas da Teoria da Evolução. Por que toda essa dedicação?



Dawkins - “Deus, um delírio” é um ataque às religiões. “The greatest show on Earth” é um ataque ao criacionismo. É verdade que tenho me devotado muito ao ateísmo, mas estou de volta à ciência neste livro. Tanto ele quanto “A grande história da evolução” são livros científicos, sobre evolução, não religião.

Sim, mas o senhor tem se dedicado muito à defesa do ateísmo, com sites e debates.E ao oferecer provas científicas da evolução contribui diretamente para este debate, derrubando argumentos religiosos.



Dawkins - Sim, tem razão. Isso tem a ver com a busca pela verdade, e sempre me preocupo muito com isso quando posso. Acho que muito do mal do mundo tem a ver com a religião.  Acreditar em algo sem evidências é muito pernicioso.

Alguns de seus críticos dizem que o senhor é tão radical quanto as pessoas que combate. Mesmo alguns evolucionistas dizem que, ao agir desta forma, o senhor estaria dando munição ao inimigo. Como o senhor responde a essas críticas?



Dawkins - Não acho que haja nada de errado em ser radical em busca da verdade. Eu busco provas científicas. Busco provas para explicar por que o Universo é como é — é isso que me interessa. Algumas dessas acusações podem ser explicadas por questões políticas. Mas não estou interessado em política. Além disso, eu não ofendo pessoas. Quem leu “Deus, um delírio” sabe que é um livro cheio de humor. Bem diferente da Bíblia, que é um livro horrível. Como ateu, gosto de encorajar as pessoas a lerem a Bíblia para verem o quanto é horrível.

Deus nunca teve tanto apelo editorial desde que o senhor, Sam Harris e Christopher Hitchens deram início a sua cruzada pelo ateísmo. O senhor acha isso bom ou ruim?



Dawkins - É verdade, nossos livros vendem muito bem. Há algo sobre a oposição a Deus que vende muito. E foram publicados pelo menos uns 20 livros que tentam responder ao meu livro. Há uma indústria do lado religioso que foi atiçada pela publicação. Não sei se é bom ou ruim. Acho que todos têm direito de publicar livros, não sei se são bons ou se vendem bem.

Alguns críticos também dizem que o Novo Ateísmo, como é chamado esse movimento, é uma religião. Uma religião sem um Deus formal, mas, ainda assim, uma religião, repleta de ícones.



Dawkins - Nós não acreditamos em Deus, assim como há gente que não acredita em fadas. Há uma série de coisas em que não acreditamos. Não precisamos criar uma religião para coisas nas quais não acreditamos. Eu também não acredito em Apolo, Thor, ou qualquer outro deus. Acredito na ciência, na racionalidade, numa visão de mundo que manifestamente funcione, que possa ser provada cientificamente.

“A origem das espécies”, de Charles Darwin, foi lançado em 1859. Desde então, a evolução é aceita como um fato por todos os cientistas. Ainda assim, milhões de pessoas em todo o mundo continuam a questionar sua veracidade. Por quê? O que há de tão poderoso nos argumentos criacionistas e nos partidários do design inteligente?



Dawkins - A ignorância da população. O que não é um crime. As pessoas, em geral, não sabem nada sobre a evolução. Se olharmos para o sistema educacional na maioria dos países, veremos que é muito ruim. Então as pessoas são contra algo que sequer conhecem.

Por isso o senhor resolveu escrever “The greatest show on Earth”? Para oferecer essas respostas?



Dawkins - Sim, por isso resolvi escrever sobre as provas da evolução. E o livro é escrito para leigos, de uma forma que me parece bem interessante e divertida.

No livro novo, o senhor explica a importância dos registros fósseis e como a biologia molecular e a genética confirmaram a teoria de Darwin. Mas um dos argumentos preferidos dos fundamentalistas religiosos para atacar a evolução é a origem da vida. Eles argumentam que, até hoje, a ciência não conseguiu reproduzir esse evento. Recentemente, um estudo chegou muito perto disso, ao conseguir criar partes de RNA, mas não ainda à vida propriamente dita. Como o senhor responde a isso em seu novo livro?



Dawkins - A origem da vida é o ponto de partida, não exatamente a evolução. E não se trata de um fenômeno muito comum. Na verdade, é um fenômeno muito raro, improvável, que aconteceu uma vez em 4 bilhões de anos. Algo que talvez tenha acontecido apenas uma vez em todo o Universo — não sabemos ainda, mas, se o advento da vida fosse tão comum, provavelmente já teríamos descoberto algo ou sido descobertos. É um argumento frequente, mas que eu acho muito bobo. É o Deus das lacunas: quando não conseguem explicar algo, dizem que foi Deus. Ainda assim, continuariam tendo que explicar Deus.

Grupos humanos em qualquer época ou lugar, em áreas completamente isoladas, sempre apresentam algum tipo de fé no sobrenatural. O senhor acredita que a fé tenha raízes genéticas? Que seja um produto da evolução?



Dawkins - Sim, acho. Provavelmente não diretamente. Acredito que os seres humanos tenham uma predisposição psicológica para a fé religiosa, e que isso deve ter uma raiz genética. E que as pessoas, sob determinadas condições, desenvolvem as religiões porque, de alguma forma, isso as ajuda a sobreviver.

Nos últimos milhares de anos a religião aparece por trás, direta ou indiretamente, de diversas guerras e atrocidades. Como o senhor situa o que está ocorrendo agora no Irã?



Dawkins - Meus amigos iranianos acham que o que está ocorrendo agora é sintomático de uma revolta contra o Islã que oprime as mulheres e força as pessoas a viverem numa teocracia. Há inteligência no Irã bem longe de mulás e aiatolás.

Muitos de seus críticos lembram que ateus, em estados seculares, igualmente, já levaram a cabo grandes atrocidades, como alguns regimes comunistas. Será que tais barbaridades seriam ligadas à religião ou apenas à natureza humana?



Dawkins - Não é apenas a natureza humana. Você provavelmente está pensando em Stalin, que, por sinal, tinha desenvolvido uma espécie de religião ateísta, totalitária, marxista. Mas ele não era motivado pelo ateísmo, o que é bem diferente. As cruzadas foram motivadas pela religião. Os sequestradores do 11 de Setembro foram motivados pela religião. As guerras do Oriente Médio também. Assim como algumas das guerras na Europa, mas não todas, não a Primeira e a Segunda guerras. Há um caminho lógico que leva da fé religiosa a coisas muito ruins, como violência e guerras. E isso é lógico quando aceitamos a premissa de que se está lidando com a vontade de Deus. Para os sequestradores dos aviões do 11 de Setembro isso era bem lógico. Eu não acho que vamos encontrar um caminho lógico do ateísmo para tais atrocidades.

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5. Michel Onfray: As ficções religiosas existirão enquanto houver humanos


Para Michel Onfray, autor do Tratado de ateologia: física da metafísica (São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007), que na entrevista à IHU On-Line, classifica sua filosofia como uma filosofia das Luzes para a atualidade, a fonte do sentimento religioso é a negação da condição de mortal. Em sua opinião, “é fácil crer: tem-se resposta para tudo, a religião oferece uma metafísica, uma ontologia, uma filosofia, chaves na mão. Todas as respostas já foram dadas a todas as questões possíveis. Basta para isso ser instruído na ordem cristã. Ao passo que o ateu que reflete deve construir sozinho sua visão do mundo e isso é mais complicado”. E continua: “o recurso às ficções religiosas também terá lugar enquanto houver humanos. Somente alguns espíritos fortes viverão sem Deus, mas estes serão sempre minoritários”.

O filósofo que assegurou ter “menos animosidade contra os ajoelhados do que contra os que fazem ajoelhar” escreveu cerca de 30 obras, nas quais formula um projeto hedonista ético, político, erótico, pedagógico, epistemológico e estético. Fundou a Université Populaire de Caen, onde leciona contra-história da filosofia.
Você identifica na origem dos três monoteísmos uma mesma “pulsão de morte genealógica”, uma matriz niilista. Para você, então, a premissa básica da religião é o “nada endeusado”?

Não. Em primeiro lugar é menos a pulsão de morte do que o medo da morte, a vontade de não morrer, o temor desesperado de dever desaparecer um dia, a impossibilidade de enfrentar o nada face a face, olhando-o diretamente em seus olhos, se posso expressar-me assim. A negação da condição de mortal, eis a fonte do sentimento religioso.
Violência, intolerância e religião andam, necessariamente, lado a lado? Por quê?

Não exatamente. Eu não sou tão caricatural a ponto de ter essa idéia, e eu nunca pensei que, se as religiões não tivessem conduzido o mundo, jamais teria havido nem guerras, nem violência, nem intolerância! Mas eu constato que as três religiões monoteístas que se dizem de paz, de tolerância e de amor, paradoxalmente geraram muitas guerras, muita intolerância e ódio, em nome de sua pretendida mensagem de paz, de tolerância e de amor.
Dawkins, Dennet e Harris são acusados de combater o fundamentalismo religioso com um fundamentalismo ateísta. Qual é o seu ponto de vista a respeito?

Eu constatei que aqueles que censuram o fundamentalismo de tal ou tal orientação são com elinquent… fundamentalistas! É uma velha lei da psicologia que quer que se censure no outro o que não se quer nem se pode censurar em si próprio. A mesma lei quer que se seja muito lúcido quanto à palha que se encontra no olho de seu vizinho, mas absolutamente incapaz de ver que há uma trave no nosso. Que se deixe de insultar (pois “fundamentalista” nesta configuração é um insulto) e que se discuta realmente, verdadeiramente, os argumentos em torno de uma mesa. E que os religiosos, tão ciosos de paz, de tolerância e de amor, comecem dando o exemplo!
Nessa mesma linha de raciocínio, como você classificaria a sua filosofia?

Como uma filosofia das Luzes para a atualidade. Eu me inscrevo na radicalidade do pensamento de, por exemplo, Meslier, La Mettrie ou D’Holbach, que são os filósofos do século XVIII. Eles fazem uso da razão sem nenhuma concessão e se propõem a acabar com todo pensamento mitológico.
Você afirma que o ateísmo reconcilia com a terra, o outro nome da vida. O que nos garante que o ateísmo promova essa união se, como dizia Ivan Karamazov, “se Deus não existe, tudo é permitido”?

É precisamente porque Deus existe que tudo é permitido! Lembrai-vos do convite de Simon de Monfort por ocasião do massacre dos albigenses: “Matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus”. Se Deus existe, ele sabe e vê tudo, e ele restaurará no Céu a ordem que não se soube instaurar na Terra, desde que se tenha querido instaurá-la em seu nome, como dizem e pensam os crentes. Opostamente, o ateísmo afirma que, já que Deus não existe, tudo não é permitido e que, por conseguinte, é preciso estabelecer um código, regras, uma moral, uma ética contratual para viver juntos.
Por que a “fé é delinquente” e a “razão preocupa”? O cristão é um ser infantil, alguém que se furta da verdade?

Porque é fácil crer: tem-se resposta para tudo. A religião oferece uma metafísica, uma ontologia, uma filosofia, chaves na mão. Todas as respostas já foram dadas a todas as questões possíveis. Basta para isso ser instruído na ordem cristã. Ao passo que o ateu que reflete deve construir sozinho sua visão do mundo e isso é mais complicado.
Em Tratado de ateologia, você diz não recriminar os homens “que consomem experiências metafísicas para viver”, mas deplora os “vigários dos Deuses monoteístas”. Poderia explicar quais são os elementos pelos quais você elin essa argumentação?

Eu de fato digo que tenho menos animosidade contra os ajoelhados do que contra os que fazem ajoelhar. Em outras palavras: eu tenho compaixão por aqueles que foram postos de joelhos, mas não por aqueles fazem pôr-se de joelhos. Pode-se crer no que se quiser, mas fazer crer me causa mal-estar. Trata-se do princípio do colonialismo estendido à alma. É o que distingue o crente do padre. O padre almeja o império sobre a alma dos outros, e eu me sinto mal com esta perspectiva.
Moisés, Paulo de Tarso, Constantino e Maomé seriam “ficções úteis”. Quais são suas referências teóricas para tal afirmativa?

Em duas palavras e no quadro de uma breve entrevista isso não será possível. Foi-me necessário um livro para começar a fazer um pouco a demonstração disso! Digamos que estas figuras são menos históricas do que mitológicas, que elas relevam menos história verificável nos fatos do que gestos e lendas com os quais se constrói cosmovisões úteis para constituir comunidades e civilizações.
No Tratado de ateologia, fica clara sua posição racionalista ocidental. Por que só a disjunção fé-razão é capaz de promover a Aufklärung? Religião e fé são sempre, necessariamente, incompatíveis?

Os cristãos pensam que não, certos muçulmanos igualmente, e um grande número de judeus também, o Papa atual, Bento XVI, crê que não. Todos os crentes dizem que eles usam a razão. De minha parte, eu direi que eles a utilizam, sem dúvida, mas demasiado tarde, após a força imperiosa da Fé. Ele crêem primeiro, absolutamente não se servem de sua razão naquele momento de seu pensamento, um momento psicológico, mas utilizam-na depois, num segundo tempo, para procurar dar sentido e coerência às suas crenças que procedem do fundo psicológico, do qual falamos bem no início de nossa entrevista. Uma razão utilizada a priori, e não a posteriori, como ocorre com os crentes.
Quais são as evidências que o levam a afirmar exatamente o contrário de Kant: a inexistência de Deus e do livre-arbítrio e a mortalidade da alma?

Não evidências, mas o bom senso: cabe àqueles que afirmam a existência de uma coisa apresentar a prova. Deus existe? Provai-o. Senão eu vos digo que os íncubos e os súcubos existem e que, se não podeis fazer-me a demonstração que isso é falso, então isso será verdadeiro.

Para o livre arbítrio, isso me parece claro: quando se é, por pouco que seja, informado de ciência, história, psicologia, sociologia, psicanálise, economia, política, constata-se como os determinismos são fortes, poderosos e todo-poderosos junto ao maior número. Vocês crêem que o violador de crianças é livre e que ele escolheu, entre outras possibilidades sexuais, esta antes que outra? Ou, então, ao contrário, que ele foi determinado por mil causalidades que seria preciso explicitar tornar-se um delinquente sexual?

Enfim, a morte de todo mamífero faz a demonstração que o destino do cadáver de um cão, por exemplo, é o mesmo que o de meu próprio cadáver que, no dia determinado, será um cadáver de mamífero. O que vocês chamam de “alma” e da qual dizem que ela é eterna, imortal e imaterial, eu também concordo com sua existência: eu creio na existência da alma, sem dúvida, mas ela é material, mortal e perecível. O que a constitui é o agenciamento específico de minha materialidade: com minha morte, ela morre igualmente. Mas o exercício de uma entrevista que vocês me propõem torna difícil uma verdadeira argumentação que é dada no livro. Somos constrangidos a roçar os temas por alto.

Para você, Deus não morreu porque “uma ficção não morre”. A religião e o divino continuam, então, a ocupar lugar importante na sociedade?

Sim, seguramente. A maioria das pessoas têm e terão medo da morte. O mecanismo psicológico de negação funcionará até o fim dos tempos. E o recurso às ficções religiosas também terá lugar enquanto houver humanos. Somente alguns espíritos fortes viverão sem Deus, mas estes serão sempre minoritários.
Por que só o ateísmo possibilita sair do niilismo?

Não somente, mas filosoficamente, sim; somente a filosofia atéia evita que se substitua uma ficção por outra ficção, um mito por outro mito, uma religião (aquela dos romanos pagãos) por outra (aquela dos ocidentais cristãos). A filosofia permite uma mudança de era: ela permite passar de uma era mitológica e religiosa a uma era que será racional e filosófica. Eu me bato por isto, mas em desespero, sem muito crer nisso, sabendo que os humanos sempre preferirão as ficções que lhes dão segurança às verdades que os inquietam.

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6. Stephen Hawking: "O céu não existe, é um conto de fadas"


A crença de que o céu ou a vida após a morte nos espera é um "conto de fadas" para as pessoas com medo da morte, diz o célebre físico inglês Stephen Hawking. Em uma recusa que salienta a sua firme rejeição do conforto religioso, o cientista britânico mais eminente diz que não há nada além do momento em que o cérebro palpita pela última vez. Hawking rejeitando a noção de vida além da morte, enfatiza a necessidade de cumprir o nosso potencial na Terra, fazendo bom uso de nossas vidas. Em resposta a uma pergunta sobre como deveríamos viver, ele disse simplesmente: "Devemos buscar o maior valor da nossa ação".

Hawking foi diagnosticado com a doença do neurônio motor (ELA) aos 21 anos. Esperava-se que  doença incurável iria matar Hawking dentro de alguns anos, devido aos sintomas decorrentes, uma perspectiva que fez com que o jovem cientista se voltasse para Wagner, mas finalmente o levou a gozar mais a vida, disse ele, apesar da nuvem que paira sobre o seu futuro: "Eu tenho vivido com a perspectiva de uma morte prematura pelos últimos 49 anos. Eu não tenho medo da morte, mas não tenho pressa de morrer. Tenho muita coisa que quero fazer antes".

"Eu considero o cérebro como um computador que vai parar de trabalhar quando seus componentes falharem. Não existe céu nem vida após a morte para computadores quebrados. Isso é um conto de fadas para as pessoas que tem medo do escuro", acrescentou.

Os últimos comentários de Hawking vão além daqueles proferidos em seu livro de 2010, The Grand Design, no qual ele afirmou que não há necessidade de um criador para explicar a existência do universo. O livro provocou a reação de alguns líderes religiosos, incluindo o rabino-chefe britânico, Lorde Sacks, que acusou Hawking de cometer uma "falácia elementar" da lógica. (…)

As observações do físico traçam uma linha rígida entre o uso de Deus como metáfora e como crença em um criador onisciente cujas mãos orientam o funcionamento do cosmos.

Em seu best-seller de 1988, Uma Breve História do Tempo, Hawking recorreu ao dispositivo tão amado por Einstein ao descrever o que significaria para os cientistas desenvolver uma "teoria de tudo" – um conjunto de equações que descrevam cada partícula e força em todo o universo. "Seria o triunfo final da razão humana – pois então conheceríamos a mente de Deus", escreveu.



Entrevista ao jornal The Guardian, 15-05-2011.

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7. Stephen Hawking: "A origem do mundo? Nós a explicaremos”


Um trecho do discurso do físico britânico Stephen Hawking, proferido no Vaticano sobre o tema “Evolução do universo e da vida”, publicado no jornal italiano Corriere della Sera, 01-11-2008.

Os primeiros relatos da origem do mundo eram tentativas de responder às perguntas que nós todos nos colocávamos: por que estamos aqui? De onde viemos? Todavia, a idéia de que o universo teve um início não agradava a todos. Por exemplo, Aristóteles, o mais famoso dentre os filósofos gregos, acreditava que o universo sempre existiu. De fato, qualquer coisa eterna é mais perfeita de qualquer coisa que tenha sido criada.

A expansão do universo foi uma das descobertas mais importantes do século XX, na realidade de todos os séculos, e transformou o debate sobre o fato de o universo ter ou não um início: de fato, se atualmente as galáxias estão se separando, vê-se que, no passado, eram mais próximas entre elas.

Muitos cientistas, pelo contrário, não estavam de acordo sobre fato de o universo ter tido um início, porque isso parecia subentender um fracasso da física. Para entender como o universo nasceu se deveria recorrer a um agente externo. Esses mesmos cientistas, no entanto, avançaram em teorias para as quais o universo se expandia sim no presente, mas não teve um início. Dois russos, Lifshitz e Khalatnikov afirmaram realmente ter demonstrado que, em densidade infinita, uma contração geral sem uma simetria exata sempre provocaria um ricocheteio. Esse resultado era muito conveniente para o materialismo dialético marxista-leninista, porque evitava perguntas incômodas sobre a criação do universo. Tornou-se, porém, um dogma para os cientistas soviéticos.

Quando Lifshitz e Khalatnikov publicaram sua afirmação, eu era um estudante de 20 anos na pesquisa de qualquer coisa para completar a tese de doutorado. Do momento em que não acreditei nas suas chamadas provas, iniciei, com Roger Penrose, a desenvolver novas técnicas matemáticas para estudar a questão. Juntos, demonstramos que era impossível que o universo ricocheteasse. Se a Teoria Geral da Relatividade de Einstein está correta, haverá uma singularidade, um ponto de densidade e de curvatura espaço-temporal infinitas onde o tempo tem um começo.

Nesse último século, fizemos progressos enormes na cosmologia. A Teoria Geral da Relatividade e a descoberta da expansão do universo quebrou em pedaços a velha imagem de um universo que sempre existiu e que sempre existirá. A relatividade geral, pelo contrário, previa que o universo, e o tempo mesmo, tiveram início com o Big Bang. Previa, além disso, que o tempo teria fim nos buracos negros. A descoberta das microondas cósmicas de fundo e as observações dos buracos negros sustentam essas conclusões.

Embora tenha se dado passos de gigante, nem tudo foi resolvido. Ainda não temos uma boa compreensão, em nível teórico, das observações que demonstram que a expansão do universo tenha recomeçado a acelerar, depois de um longo período de desaceleração. Sem tal compreensão, não poderemos estar seguros do futuro do universo. Continuará a se expandir para sempre?

A inflação é uma lei da natureza? O universo está destinado a sofrer um novo colapso? Novos resultados baseados sobre a observação e progressos teóricos estão chegando rapidamente. A cosmologia é uma matéria muito entusiasta e ativa. Estamos sempre mais próximos de responder às perguntas de sempre: “Por que estamos aqui?”, “De onde viemos?”. Eu acredito que essas perguntas podem encontrar suas respostas dentro do campo da ciência.

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8. Stephen Hawking e L. Mlodinow: "A filosofia está morta. Só nos resta a física"


Durante séculos, as questões importantes eram enfrentadas pelos pensadores. Mas hoje a tocha do conhecimento está em outras mãos. Cabe à ciência oferecer soluções, embora estas vão contra o senso comum. Um trecho do livro dos físicos Stephen Hawking e Leonard Mlodinow, Perché il Grande Disegno non Dipende da Dio [The Grand Design].

Cada um de nós não existe a não ser por um breve intervalo de tempo e, nesse intervalo, explora apenas uma pequena parte de todo o universo. Mas a espécie humana é uma espécie curiosa. Fazemo-nos perguntas, buscamos respostas.

Vivendo neste mundo sem fronteiras, que pode ser ora amigável, ora cruel, e voltando o olhar aos céus imensos que estão sobre nós, os homens sempre se puseram uma multidão de interrogações. Como podemos compreender o mundo em que nos encontramos? Como o universo se comporta? Qual é a natureza da realidade? Qual a origem de tudo isso? O universo precisou de um criador? A maior parte de nós não dedica muito tempo para se preocupar de tais questões, mas quase todos, de vez em quando, pensamos nelas.

Durante séculos, essas interrogações foram de pertinência da filosofia, mas a filosofia morreu, não tendo mantido o passo dos desenvolvimentos mais recentes da ciência e particularmente da física. Assim como foram os cientistas que pegaram a tocha da nossa busca do conhecimento.

Este livro se propõe a dar respostas que foram sugeridas pelas descobertas e pelos progressos teóricos recentes. Essas respostas nos levam a uma nova concepção do universo e do nosso lugar nele muito diferente da tradicional e diferente também daquela que pudemos delinear há apenas uma década ou duas. Porém, a nova concepção começou a tomar forma embrionária quase um século atrás.

Segundo a concepção tradicional do universo, os corpos se movem em trajetórias bem determinadas e tem histórias definidas, assim como é possível especificar a sua exata posição em cada instante do tempo. Embora tal descrição seja bastante satisfatória para os objetivos da vida cotidiana, nos anos 1920 descobriu-se que essa imagem "clássica" não era capaz de dar conta do comportamento aparentemente bizarro observado nas escalas das entidades atômicas e subatômicas. Ao contrário, era necessário adotar um quadro conceitual diferente, chamado física quântica.

As teorias quânticas demonstraram ser extraordinariamente precisas em prever os eventos em tais escalas e, ao mesmo tempo, capazes de reproduzir as previsões das velhas teorias clássicas quando eram aplicadas ao mundo macroscópico da vida cotidiana. Porém, a física clássica e a quântica são baseadas em concepções muito diferentes da realidade.

As teorias quânticas podem ser formuladas de modos muito diferentes, mas a descrição provavelmente mais intuitiva foi proposta por Richard Feynman (chamado de Dick), uma personalidade brilhante que trabalhava no California Institute of Technology e tocava bongô em uma casa de strip-tease dos arredores.

Segundo Feynman, um sistema não tem uma única história, mas todas as histórias possíveis. Mais adiante, na nossa busca das respostas, explicaremos nos particulares a afirmação de Feynman e nos serviremos dela para analisar a ideia de que o próprio universo não tem uma única história, nem uma existência independente.

Essa parece ser uma ideia radical, também a muitos físicos. Com efeito, como muitos conceitos da ciência atual, ela parece estar em conflito com o senso comum. Mas o senso comum é baseado na experiência de todos os dias, não no universo como ele se nos revela mediante maravilhas da tecnologia como as que nos permitem avançar o olhar até o coração do átomo ou de volta ao universo primordial.

Até o advento da física moderna, era opinião comum que o mundo pudesse ser inteiramente conhecido por meio da observação direta, que as coisas são o que parecem, assim como são percebidas mediante os nossos sentidos. Vice-versa, o espetacular sucesso da física moderna, baseada em conceitos que, como o de Feynman, estão em contraste com a experiência cotidiana, demonstrou que as coisas não são assim.

A concepção ingênua da realidade, portanto, não é compatível com a física moderna. Para enfrentar tais paradoxos, adotaremos uma sistematização que chamaremos de realismo dependente dos modelos. Essa sistematização se baseia na ideia de que o nosso cérebro interpreta a informação proveniente dos órgãos sensoriais construindo um modelo do mundo. Quando um modelo semelhante consegue explicar os eventos, tendemos a atribuir a ele e aos elementos e aos conceitos que o constituem a qualidade da realidade ou da verdade absoluta. Mas pode haver modos diferentes para criar um modelo da mesma situação física, e cada um deles poderá utilizar elementos e conceitos fundamentais diferentes. (...)

Ao longo da história da ciência, descobriu-se uma série de teorias ou modelos sempre melhores, da concepção de Platão à teoria clássica de Newton, até as modernas teorias quânticas. É natural perguntar-se: essa sequência, no fim, terá um ponto de chegada, levará a uma teoria definitiva do universo que inclua todas as forças e anuncie toda observação que é possível fazer, ou continuaremos descobrindo para sempre teorias de eficácia crescente, sem, porém, jamais aportar a uma que não possa ser posteriormente melhorada? (...)

Hoje, dispomos de uma candidata ao papel de teoria última do todo, admitindo-se que exista efetivamente uma, e essa candidata é chamada de teoria M. (...)

A teoria M não é uma teoria no sentido usual. É uma família inteira de teorias diversas, cada uma das quais é uma boa descrição das observações apenas dentro de uma certa gama de situações físicas. É um pouco como acontece no caso dos mapas geográficos. Como se sabe, não é possível representar toda a superfície terrestre em um único mapa. A projeção habitual de Mercator, utilizada para os planisférios, faz com que as áreas pareçam sempre maiores assim que se vá para o norte ou para o sul e não cobre as regiões dos polos. Para representar fielmente toda a Terra, deve-se recorrer a uma série de mapas geográficos, cada um dos quais cobre uma região limitada. Os vários mapas se sobrepõem parcialmente entre si e, onde isso ocorre, mostram a mesma paisagem. A teoria M é, de algum modo, análoga.

As várias teorias que formam essa família podem parecer muito diferentes, mas podem ser consideradas como aspectos da mesma teoria fundamental. São versões da teoria aplicáveis só em âmbitos limitados: por exemplo, quando certas grandezas, como a energia, são pequenas. Como ocorre para os mapas que se sobrepõem, onde os âmbitos de validade das várias versões se sobrepõem, estas predizem os mesmos fenômenos. Mas exatamente como não há nenhum mapa plano que seja uma boa representação de toda a superfície terrestre, também não há nenhuma teoria que, sozinha, seja uma boa representação das observações em todas as situações.

Veremos como a teoria M pode oferecer soluções para a questão da criação. Segundo essa teoria, o nosso universo não é o único. Ou, melhor, a teoria prediz que um grande número de universos foi criado do nada. A sua criação não exige a intervenção de um ser sobrenatural ou de um deus, enquanto esses múltiplos universos derivam de modo natural da lei física: são uma predição da ciência. Cada universo tem muitas histórias possíveis e muitos estados possíveis em tempos sucessivos, isto é, em tempos como o presente, muito distantes da sua criação.

Grande parte desses estados serão radicalmente diferentes do universo que observamos, e apenas pouquíssimos deles permitiram a existência de criaturas como nós. Portanto, a nossa presença seleciona dessa imensa gama somente aqueles universos que são compatíveis com a nossa existência. Embora sejamos minúsculos e insignificantes na escala do cosmos, isso faz de nós, em certo sentido, os senhores da criação.



Para compreender o universo no nível mais profundo, devemos saber não apenas como ele se comporta, mas também por quê. Por que há algo ao invés de nada? Por que existimos? Por que esse particular conjunto de leis e não qualquer outro? Essa é a interrogação fundamental sobre a vida, o universo e o todo.

Os excertos foram publicados no jornal La Repubblica, 06-04-2011.

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