O novo Lampião



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O novo Lampião

Para vingar o assassinato de seu pai, ele matou três pessoas e espalhou pelo sertão a lenda de ser um vingador dos oprimidos

Revista Manchete, agosto de 1975

Ricardo Noblat

Onde está o frio e calculista pistoleiro, dotado de uma pontaria infalível, que era capaz de ficar irritado se atirasse no redondo do olho de um homem e acertasse na sobrancelha? Onde está o novo Lampião, como foi apresentado pelos jornais durante meses e cantado em versos da literatura de cordel nordestina? Onde, o Vingador, o Zorro do Sertão, que costumava andar vestido de preto, com cinturões de balas cruzando sobre o peito, indo ao enterro das suas vítimas? Na minha frente e diante de um batalhão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, encontra-se um rapaz de 27 anos, tímido, cabelos lisos, olhos amendoados, feições de índio, que esfrega, nervosamente, uma das mãos na outra, e se espanta com as perguntas e as façanhas que lhe foram atribuídas.

— Você é capaz de acertar num cigarro na boca de um homem a 50 metros? – pergunta, excitada, uma jornalista do Rio Grande do Sul.

— Acerto não, moça. Ninguém é capaz de ver um cigarro na boca de um homem a 50 metros, quanto mais acertar um tiro nele – responde, com um meio sorriso, o mito que desmorona.

"Como Lampião, ele nasceu em Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, conhecida como terra de "cabra macho" e de multa violência. Como Lampião, ele decidiu ser pistoleiro após o assassinato do pai. Como o velho Capitão Virgulino, Vilmar Alves Magalhães, o Vilmar Gaia, escondia-se na caatinga para não ser preso pelas volantes. E como Lampião é acusado de numerosos homicídios." (O Estado de S. Paulo, 21/08/75)

"Ele é o maior interessado em alimentar o mito em torno das suas façanhas. Veste-se invariavelmente de preto, usa óculos escuros a qualquer hora do dia e da noite e se dá ao luxo de comparecer ao velório das suas vítimas." (Jornal do Brasil, 09/04/75)

"As crianças de Serra Talhada abandonaram temporariamente a caça de passarinhos, o estilingue e a arapuca, para se entregarem a uma nova diversão: armados de revólveres de plástico ou madeira, brincam de Vilmar". (Jornal do Brasil, 15/04/75)

"O temível pistoleiro Vilmar Gaia, o famoso Vingador do sertão pernambucano – que prometeu reeditar as façanhas do legendário Lampião – foi preso ontem na cidade do Crato, Ceará, quando tranqüilamente dormia numa rede". (Diário de Pernambuco, 21/08/75)

Até o dia 6 de julho de 1971, Vilmar Alves Magalhães era um pacato lavrador, membro de uma família de mais de 100 homens que habitava o lugarejo de São João das Gaias, a 28 quilômetros de Serra Talhada. Nesse dia, o líder do clã e pai de Valmir, João Batista Magalhães, foi morto pelos soldados Luís Gonzaga Mendes e Natalício Nogueira, ambos ligados à família Ferraz, de muito prestígio na região. Os soldados vingaram a morte de seus dois companheiros de destacamento, Adalberto Clementino de Moura e Alberto Cipriano, que tinham sido mortos, em 30 de dezembro de 1970, por cinco Gaias – Edmundo, Isidoro, Antônio, Enoque e Cícero, numa discussão por causa de dinheiro.

De pacato lavrador, Vilmar fez-se um revoltado, principalmente porque a morte do seu pai nunca foi suficientemente investigada e porque o processo esteve engavetado por quatro anos – explica seu advogado e parente, João Vicente de Lima. Ele revela que foi Vilmar quem, em 1973, matou, com um tiro na testa, José Cipriano, pai do soldado Alberto Cipriano e que teria encomendado a morte do velho João Batista Magalhães.
A hora e vez da vingança de Vilmar

Menos de um mês depois disso, Francisco Gaia Filho, primo de Vilmar, foi assassinado, não se sabe por quem, em Serra Talhada, no mesmo dia em que fôra revistado três vezes pela polícia.

Em outubro de 1973, numa festa, na casa do comissário Pedro Inácio, no Distrito de Santa Rita, depois de provocar uma confusão, Vilmar matou o policial. Um ano depois assassinou seu primo Antônio Augusto Batista Gaia, que o ajudara a vingar a morte do pai, mas que, depois, passou-se o lado da polícia. No mesmo dia em que matou o primo, eliminou o soldado Natalício Nogueira um dos assassinos do seu pai.

O dia não terminou sem ma uma morte: morreu mais um Gaia, Luís Pereira, cunhado Vilmar, morto em seu lugar soldado Luís Gonzaga Mendes Luís Gonzaga foi morto a 18 março deste ano por Vilmar segundo a polícia. Estava, então praticamente encerrado seu de vingança.

Pela boca do povo, são atribuídos a Vilmar perto de 35 crimes, a maioria praticada por encomenda, com preços que variaram de Cr$ 150,00 a mil. A polícia lhe atribui cinco assassinatos: o de Francisco Frazão Neto, em 6 de fevereiro de 1972; o de Pedro Inácio, 22 de outubro de 1973, e os Luís Gonzaga Mendes e Antônio Augusto Batista, em 18 de março último. É dado como suspeito das mortes de Damião Pereira Sousa, ocorrida em 1° de agosto de 1974, e de Antônio Inácio Oliveira, no dia 7 de fevereiro deste ano. E consta que teria matado seu primo Antônio Augusto.

Vilmar só reconhece ter matado três pessoas: seu primo Antônio "que me traiu"; Natalício Nogueira, "que me cercou numa casa e não me deu ordem de prisão porque queria me matar"; e o comissário Pedro Inácio, "numa confusão danada numa festa na casa dele". Confessa autoria intelectual da morte Arnaldo Cipriano, filho de José Cipriano: "Quem mandou matar esse homem fui eu e quem matou foi Fernando Maria Pereira, que hoje está preso em Serra Talhada".

"Fiz a minha justiça. Agora espero tranqüilo a justiça dos homens". Vilmar diz isso se pose, num desabafo que parece bastante sincero. Desmente algum dia tenha prometido reeditar as façanhas de Lampião: "Isso é coisa de jornal. Sou nada disso não, seu moço, nem prometi coisa nenhuma. Invenção do pessoal, uma coisa é dizer, a outra é provar". Diz que nunca viveu vestido todo de preto, nem muito menos de óculos escuros, com cinturões de balas cruzadas sobre o peito.

Da sua pontaria, garante que ela é boa, mas não tão precisa quanto alardearam. Nega, também, que vivesse praticando o tiro ao alvo na caatinga e se surpreende quando lhe contam que a crença popular lhe conferia o dom de se encantar de repente, escapando, assim, aos seus perseguidores. Enfim, sua legenda de homem extraordinário teria sido esculpida a golpes de adjetivos graciosos e de uma fértil imaginação popular.


O novo mito da literatura de cordel

"Agora peguei a pena/com divina inspiração/pra escrever uma história/de um novo Lampião/este é o cavalo negro/da caatinga do sertão. Vira-se um cavalo preto/corre dentro da campina/vira-se em pau ou pedra/para cumprir sua sina/come lagarta e bizouro/como ave de rapina". (Do folheto de cordel Vilmar Gaia, o Cangaceiro de Serra Talhada, do poeta Olegário Fernandes, de Caruaru.).

Menino, Vilmar gostava de jogar bola de gude e de rodar pião na unha. Era mestre no rodeio do pião. Dos filmes do Cine Plaza, em Serra Talhada, preferia os de amor, em que o mocinho era fazendeiro, dono de terras e gado e bom cavaleiro. Sua mãe morreu quando ele tinha oito anos de idade e quem o criou foi sua irmã mais velha, Maria de Lurdes, viúva de um suicida. Vilmar estudou até o segundo ano primário no Grupo Escolar Santa Rita, do Distrito de Serra Talhada.

Começou a trabalhar cedo na roça, como é costume no interior nordestino. Viveu sua adolescência normalmente. Com 21 anos, inscreveu-se para ser soldado da Polícia Militar de Pernambuco, mas não passou nos exames. Estava inscrito novamente, para novos testes de admissão ao quadro policial, quando seu pai foi morto em julho de 1971. Então, como ele mesmo admite, passou a viver com uma obsessão: a de ver os matadores do seu pai purgando suas culpas. Lembra: "O processo não andava, nunca andou direito. A gente ia, pedia O delegado. Capitão Virgílio, comandante da 17ª Companhia da Polícia Militar, e não adiantava, ele não fazia nada. E o que era pior: ainda passava os domingos na casa do José Cipriano, o homem que mandou matar meu pai. Aí compreendi que a justiça teria de ser feita pela gente mesmo."

Então Vilmar começou a fazê-la. O Governador Moura Cavalcante mudou todo o destacamento policial de Serra Talhada por sabê-lo envolvido em violências. Em maio deste ano, 102 processos por homicídio se arrastavam lentamente na Comarca de Serra Talhada, pelo menos dez envolvendo um total de 15 soldados. Foram enviados 38 militares, sob o comando do capitão José Ferreira dos Anjos, campeão de tiro-ao-alvo da Polícia Militar de Pernambuco. E teve início a caça a Vilmar. O Capitão Ferreira nunca o viu como um novo Lampião justiceiro, e vingador. Dizia em abril passado: "Vilmar é produto, apenas, da briga entre famílias, coisa muito comum no interior nordestino. O resto é invenção do povo".

A admiração popular por Vilmar mesclada a um medo que pese por muito tempo, sobre a população de 68 mil habitantes de Serra Talhada e adjacência, era explicada pelo Padre Afonso de Carvalho Sobrinho em maio passado: "O machismo de Vilmar expresso no desejo de vingança pela morte dos parentes, na sua aparente infalibilidade no manejo das armas, na capacidade de escapar à prisão, identifica-se plenamente com uma linha de pensamento popular necessitada de mitos heróis, profundamente enraizada, principalmente aqui no sertão, onde sou pároco há muitos anos".

O juiz Ítalo Fonseca, de Serra Talhada, culpa a polícia "pela criação desse mais novo pistoleiro. Os policiais do antigo destacamento da cidade e Vilmar eram muitos amigos. Depois, se desentenderam por causa da morte do chefe da família Gaia. Mesmo assim, alguns continuaram cultivando a amizade de Vilmar, a ponto de o receberem até na delegacia, como um visitante amigo. Ele estava na delegacia, por exemplo, quando chegou uma ordem de prisão por seu envolvimento na morte de Arnaldo Cipriano, ocorrida em Salgueiro. Não lhe aconteceu nada. E ele, que já estava sendo procurado, ou supostamente procurado, saiu tranqüilamente."
A prisão depois da missão cumprida

Vilmar foi preso na casa de uma fazenda de Ipaú-Mirim, no Ceará, depois de cercado na madrugada do dia 20 de agosto passado, por onze soldados da Polícia Militar e o Capitão José Ferreira dos Anjos. O capitão soube onde ele estava escondido através de um coiteiro, que o ajudara na fuga para o Ceará. Antes, Vilmar estivera como trabalhador agrícola em fazendas do Maranhão e da Paraíba, sempre apertado, como diz, "pela saudade do meu filho que estava para nascer quando eu tive de ir embora. Ainda hoje não sei como ele é; vou saber agora, quando puder ser visitado por minha mulher". Quando recebeu um recado do Capitão Ferreira para que se entregasse, se não a casa viraria cinzas, Vilmar não pensou em resistir.



Tinha apenas um revólver e cinco balas. E estava cansado. "Minha obrigação estava cumprida e eu só esperava bom tempo para me entregar. Não tinha feito isso antes porque temia que me matassem".


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