O olhar de Juliana



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O Olhar de Juliana


Capítulo 1

Juliana terminou de fazer a maquiagem, ajeitou os cabelos e deu mais uma olhada no visual. Sorriu, sentindo-se feliz. Apanhou a bolsa, a valise e saiu, dirigindo-se ao elevador.

Bonita, os olhos de um azul profundo, contrastando com a pele morena clara e o cabelo castanho, iluminavam-se quando sorria, um sorriso franco, pleno, desses de quem está de bem com a vida. De altura mediana, o uniforme de comissária realçando o talhe bem feito, dava-lhe um toque de classe. Mas, o que mais chamava a atenção era um quê de nobreza na expressão do rosto e as maneiras gentis e educadas, mas que não escondiam firmeza e decisão. Filha de um Juiz paulistano e de uma médica cearense, aos 18 anos passara no vestibular para Medicina, mas ao mesmo tempo fora convocada por uma companhia aérea para o curso de comissária de bordo, que vinha pleiteando. Escolheu a segunda, por entender que Medicina poderia fazer mais tarde, com qualquer idade. Por enquanto, os caminhos aéreos lhe pareciam mais sedutores.

Chegando no saguão do hotel observou que a tripulação, lá fora, já se acomodava no automóvel que os levaria ao aeroporto, enquanto Anabel, uma colega, vinha em sua direção.

- Oi Anabel... Está de férias?

- Nada. Só uns dias de folga.

- Estava doida para te ver - exclamou Juliana. - Imagine só... eu consegui transferência para a base de apoio aqui em Fortaleza.

- É mesmo? - perguntou Anabel, com alegre sorriso. - Então está voltando para a terrinha... Que ótimo!

- Pois é... Estou pensando em alugar um apartamento e... bem que a gente podia dividir. Você vive mais aqui do que lá.

- É uma boa idéia.

As jovens não perceberam que haviam parado bem no meio de um set, onde uma equipe gravava um comercial.

- Assim não dá... - resmungou André, que dirigia a gravação. E, virando-se para Geni, sua auxiliar, pediu:

- Geni, tira essa gente do quadro.

Geni fez um muxoxo, deu de ombros e ficou no mesmo lugar, terminando de colocar um filme na máquina fotográfica, com que pretendia tirar fotos do desenrolar do trabalho. Irritado, André encaminhou-se para as jovens:

- Por gentileza, senhoritas...

Seu olhar cruzou com o de Juliana. Estremeceu levemente, interrompendo o que ia dizer.

Algo no olhar da jovem mexeu fortemente com ele. Juliana também sentiu uma sensação estranha, indefinível, mas Anabel cortou, dizendo:

- Desculpa, moço... nós estamos atrapalhando, não é?

André permanecia como que pregado ao solo e sem fala. Observando que a tripulação estava esperando por ela, Juliana apressou-se em dizer:

- Estou voltando na sexta-feira, Anabel. Me procura, tá? Vou ficar na mamãe. Ainda lembra onde é?



- Imagine se ia esquecer! Tua mãe é gente fina.

- Eu tenho que ir, disse Juliana, apressada, dando outra olhada em André, pelo canto dos olhos. - Me procura no sábado, lá na mamãe. Não esqueça, tá?



- Procuro, sim, Juliana. Pode deixar...

Juliana seguiu rapidamente em direção ao carro. Ao chegar na porta voltou-se e ao ver que André estava olhando para ela, disfarçou e seguiu adiante.

André estava fortemente impressionado, mas não querendo dar demonstração do que realmente lhe ia na alma, disse a Geni:

- Você viu, Geni? Essa mulher é o tipo ideal para aquele comercial sobre turismo... Corre atrás dela e pega o telefone, o endereço...

Geni olhou estranhamente para ele e, percebendo que tentava disfarçar seu interesse pela aeromoça, disse com certa rudeza:



- Eu não. Vá você, se quiser...

André saiu correndo atrás de Juliana, mas era tarde, o carro já partira. Parado na porta do hotel, vendo o automóvel distanciar-se, teve uma vaga sensação de perda, uma impressão de estar revivendo algo que já ocorrera antes, e isto lhe provocou estranho desespero, uma sensação de fim.

De origem humilde, André conseguira estudar e ascender social e profissionalmente. Tipo bonito e atlético, era dono de uma pequena produtora de comerciais e vídeos institucionais, e aos 28 anos ainda conservava-se solteiro. Puro e sonhador, só pretendia uma relação mais séria quando encontrasse a pessoa certa, sua alma gêmea, como dizia em tom de brincadeira.

Olhou mais uma vez na direção do automóvel em que Juliana partira, murmurando:

- Aquele olhar... Meu Deus, como mexeu comigo!

Por seu lado Geni olhava a foto que tirara das aeromoças quando conversavam no meio do set, aparecendo Juliana, em close, no momento em que André lhes dirigia a palavra. Com ela na mão, foi até a recepção sem perceber Anabel que estava de costas para ela, aguardando a chave.



- Como é o nome dessa aeromoça que acabou de sair? - perguntou ao recepcionista.

- Acho que é... Juliana.

Anabel, virando-se, observava Geni, tentando reconhecê-la.

- O que você quer com a Juliana? - perguntou com ar desconfiado.

Geni havia reconhecido Anabel, mas não querendo demonstrar respondeu, procurando disfarçar o tom da voz e a maneira de falar

- É que o André, dono da Produtora, está querendo fazer um comercial com ela.

Anabel pensou um pouco e respondeu:

- Não sei se ela topa... mas eu vou te dar o endereço da mãe dela, a Dra. Telma.

Vendo que Anabel procurava um papel, Geni ofereceu as costas da foto, onde a jovem escreveu o nome e endereço da Dra. Telma.

- Eu te conheço de algum lugar? - perguntou Anabel devolvendo a foto.

Geni fez de conta que não ouviu. Olhou o nome e endereço, comentando:

- Dra. Telma Munhoz... é uma médica, não é?

- É sim... você conhece?

A resposta de Geni foi fria.

- Não, não conheço. Obrigada pelo endereço.

Retornando ao set Geni colocou a foto debaixo de outros papéis que havia em sua prancheta, apressando-se a ir ao encontro de André. Não queria que visse Anabel e fosse buscar informações sobre Juliana.

- O que há com você? - indagou André estranhando as atitudes da jovem.

- Nada... nada. Eu fui atrás de conseguir o telefone dela...

- Conseguiu? - perguntou , ansioso.

- Ainda não... mas pode deixar que eu consigo. Vem, vamos aproveitar para gravar, agora que está calmo.

Observando que Geni estava com razão, preferiu deixar o assunto para mais tarde.

- Está bem. Mas depois quero ter uma conversa séria com você. Não estou gostando nada das suas atitudes.

Fazendo um simulacro de mesura, Geni respondeu com leve tom de ironia.



- Tá bom, “seu André”!

Capítulo 2
Em seu apartamento, no hotel, Anabel assistia a um noticiário na TV. Mulata, de origem popular, era uma beleza tropical que chamava a atenção. Corpo bem feito, cabelos negros e ondulados marcando as linhas perfeitas do rosto, impunha sua presença pelo jeito decidido e uma honestidade que aparecia à flor da pele. Sabia exatamente o que queria, sem que isso a tornasse insensível.

De repente, estremeceu. Na tela, uma foto mostrava vários adolescentes na frente de uma casa velha, enquanto o locutor fazia uma narrativa sobre a infância e adolescência de um bandido que acabara de fugir espetacularmente da prisão. Em seguida, outra foto mostrava-o numa pose de galã de favela, meio de lado com uma das mãos na cintura.

Anabel segurou a respiração para não perder uma palavra do que dizia o locutor.

“- O nome é Rico Chaves, mas é conhecido como Riquinho, porque desde adolescente sempre gostou de andar bem vestido. Começou praticando pequenos furtos para comprar roupas e sapatos que a mãe, parteira de bairro proletário, não podia lhe dar. Acabou internado na Febem, mas fugiu antes de completar 17 anos. Viveu de pequenos furtos, até envolver-se com assaltos e tráfico de drogas...”

Anabel sentiu como se todo um passado voltasse naquelas fotos. Lembrou-se da tarde em que foram tiradas. O pai, bêbado como sempre, desde que sua mãe morrera, não queria que ela ficasse na rua. Mas era angustiante o seu lar. Seria mesmo um lar? Seu coração de adolescente começava a despertar junto com o corpo que tomava formas de mulher e, aquele homem, ali, de copo na mão, parecia olhar para ela de forma estranha, como se lhe desejasse o sexo desabrochante. Mas... era seu pai. Não havia o que temer... ou havia?

Quando o pai arreou-se sobre a mesinha, saiu de mansinho, indo juntar-se aos outros que brincavam de “pêra, uva ou maçã”.

Lembrou da emoção que sentiu quando Riquinho a escolheu. Seu coração batia forte e a voz engasgava na garganta. De soslaio, podia observar o olhar de ciúme que lhe dirigia Geni.

Riquinho namorava com Geni, mas era o galã dos sonhos das meninas do bairro. Desconfiava que o garoto tinha uma queda bem forte por ela e essa suspeita foi confirmada quando, no desenrolar da brincadeira, ele teria que beijá-la. Riquinho ficara todo sem jeito, mas com a insistência da turma, agarrara-a com força, dando-lhe um longo beijo na boca, com gosto de paixão. Para ela, fora o primeiro... que nunca seria esquecido.

O vozeirão do pai, gritando na porta da casa, interrompera aquele enlevo:

- Anabel, já pra casa, sua vagabunda!

Anabel estremeceu, retornando de suas lembranças. Um sorriso temperado de tristeza pintou em seus lábios. Na TV, o locutor concluía:

- A fuga foi simplesmente espetacular. Riquinho saiu da prisão vestido de padre, deixando o verdadeiro em seu lugar. Mas um policial percebeu a troca e deu o alarme. Mesmo assim o bandido conseguiu apossar-se de um veículo da própria polícia, escapando em meio a uma saraivada de balas. Até o momento não há qualquer pista do fugitivo.

Anabel permaneceu por longo tempo recordando aquele passado que o noticiário veio arrancar dos seus arquivos mentais. Lembrou-se do tempo em que esteve internada numa unidade da Febem, onde destacou-se por sua inteligência e vontade de vencer, recebendo ajuda de pessoas importantes. Conseguiu estudar, aprender boas maneiras e... sorriu ao lembrar-se de quando conseguiu realizar seu grande sonho, passar no concurso para aeromoça. Ela e Juliana voaram juntas por quase um ano, sofreram um acidente, que não deixou vítimas, mas aproximou-as mais ainda, apesar ou talvez por causa das diferenças de natureza entre as duas. Juliana era sensível e romântica, embora de um romantismo com os pés no chão, ao passo que Anabel era prática, decidida e até mesmo impertinente... do tipo que não leva desaforo para casa.

Sorriu de suas lembranças, um sorriso de quem passou por ásperos caminhos e soube passar.

Capítulo 3

Nesse mesmo dia, à noite, André preparava um VT sobre Turismo, debatendo com Geni a respeito de quem deveria ser o narrador e personagem principal.

A jovem tentava persuadi-lo a colocar um homem nesse papel. Era a grande oportunidade que se delineava de aproximar Riquinho da Produtora.

Ambiciosa e sem escrúpulos, Geni sempre sonhara em casar-se com um homem rico para desfrutar-lhe os bens e ao mesmo tempo sustentar o amante, sua paixão bandida. Mas estava difícil encontrar um ricaço que se dispusesse a casar com ela. Quando conseguiu aquele emprego resolveu mudar um pouco os planos, ou melhor, minimizá-los, colocando André na mira e usando toda a sedução de que era capaz para levar a cabo suas intenções. Até o momento só conseguira levá-lo para a cama, e sabia que seria muito difícil esticar esse caminho até o cartório. Sem ser feia, era um tipo vulgar. Tinha um corpo bonito, sensual, e era essa a arma com que mais contava.

Quanto a Riquinho achava que não seria difícil encontrá-lo no caso de André concordar em vê-lo

Mostrando a foto do amante, observava André de soslaio, procurando sacar suas intenções, enquanto dizia:

- Esse é o cara de que falei. Rico Chaves.

André mal olhou a foto. Estava fixado na imagem de Juliana, vendo naquela oportunidade a melhor forma de aproximar-se da jovem. Com um gesto de negação, disse em tom sonhador:

- Não, não. Prefiro uma bela mulher, com os olhos azuis como os céus do Ceará, surgindo por trás das dunas. Um porte de Rainha...! E atrás, ao longe, o reflexo do sol nascente brilhando nas águas tranqüilas do mar... Ao lado, um coqueiro tremelicando as folhas ao toque suave dos ventos matinais.

André surpreendeu-se consigo mesmo. Sempre achou que era pouco dado à poesia, mas aquelas colocações brotaram de sua alma com um poder jamais imaginado.

- Hein, Geni? - exclamou com entusiasmo apaixonado. - Não está colossal?

A jovem tentou disfarçar a raiva

- Ah, muito piegas, para o meu gosto - exclamou. - Eu prefiro um homem... um homem rude como a natureza agressiva, a pele tostada pelo sol, o vento forte soprando a areia das dunas e ele, assim no alto, a silhueta recortada num céu azul e o barulho das ondas quebrando nas pedras... Imagine, André, a força dessa imagem! Vai ficar uma coisa diferente, grandiosa, forte como o sol desta terra.

André vacilou, tocado pela argumentação de Geni, mas recobrou-se rapidamente. Esse comercial seria o veículo de sua aproximação com Juliana. Não abriria mão dele.

- Não, Geni. Essas imagens de um deus mitológico não combinam com nossas paisagens...

- Pois eu acho o contrário. Esse deus das dunas vai atrair muito público feminino. E olha que na hora de decidir as férias... sempre quem escolhe é a mulher.

André estava ficando irritado com a solidez dos argumentos de Geni. Não queria ouvi-los.

- Vamos ver isso depois, respondeu com certo mau humor, voltando para a ilha de edição, a fim de continuar um trabalho encomendado pela Secretaria da Saúde sobre sexualidade feminina, fertilização e desenvolvimento do feto.

No vídeo, rolava a gravação de um debate entre uma psicóloga feminista e a Dra. Telma Munhoz, médica obstetra e artista plástica, nas horas vagas.

- Não é fácil para qualquer mulher optar pelo aborto - dizia a psicóloga. - Muitas vezes é o próprio destino dela que está em jogo, seu futuro, sua profissão, seus sonhos... De outras vezes, é a situação miserável. Com que direito ela iria trazer ao mundo mais uma criança para passar necessidade?



- Matar a criança para ela não sofrer... - comentava Dra. Telma, com leve toque de ironia. - Não é por aí. Seria melhor não fazer a criança, não acha? Ou então, já que fez... deixá-la viver, mesmo que depois de nascida seja dada em adoção.

André não conseguia concentrar-se no trabalho. Deu pausa, voltando-se para Geni.

- Você me prometeu arranjar o endereço daquela aeromoça... a Juliana.

Geni, acostumada a mentir, respondeu tranqüilamente:

- Eu já tentei, mas eles não informam endereço de tripulantes. É norma.

Para desviar de um assunto que não lhe convinha, Geni fez-se insinuante, dizendo com jeito dengoso:

- Fique tranqüilo, gato, que eu acabo conseguindo. Não sabe que eu sempre consigo tudo que quero?

Foi se aproximando, toda sensual. André, girando a cadeira, deu-lhe as costas. Não estava a fim... Seu pensamento ficara preso em Juliana, naquele olhar com reflexos azuis.

- Não amola, Geni, estou trabalhando, resmungou.

André deu play e o debate continuou no monitor. Geni sentiu perigo no ar. Insinuou-se mais. Precisava ganha-lo de qualquer jeito e sabia que o sexo era a sua melhor arma. Aproximou-se pelas costas, massageando-lhe os ombros. André virou-se, disposto a rechaçá-la, mas deu de cara com o busto da jovem, os seios se oferecendo e... acabou cedendo. Num misto de raiva e desejo, começou a tirar-lhe a roupa, encostando-a num móvel. Alguns objetos caíram, inclusive a prancheta onde ela havia escondido a foto de Juliana com o endereço da Dra. Telma. Os dois, nas ânsias de sexo, rolaram para o chão.

Na ilha de edição, a fita continuou rodando com o debate. Era a vez da psicóloga atacar com um argumento que lhe parecia infalível:

- Ah, mas não se pode impor uma gravidez à mulher. Ela tem o direito de decidir sobre o próprio corpo.

- Só que o feto é um outro corpo - rebatia Dra. Telma. - É uma outra pessoa, com características próprias, personalidade própria. Ele tem até impressões digitais.

Interrompeu-se por instantes, continuando, com emoção:

- Imagine só... impressões digitais... é a sua identificação como indivíduo, como gente.

Sorriu suavemente ao continuar:

- Sabia que o coração dele começa a bater lá pelas três semanas de gravidez? Os bracinhos vão se formando, as pernas, os pés... Com um mês e meio já dá para fazer um eletroencefalograma. Ou seja, o cérebro já está funcionando. Com três meses já é um ser humano completo. Só lhe falta crescer.

Mais uma pausa e a médica concluía com ênfase:

- Se uma mulher resolve cortar fora um dedo, arrancar o nariz... o problema é dela, são partes do corpo dela. Mas o feto não. Ele é um outro corpo, uma outra vida, uma outra pessoa. Até o sangue dele não é o mesmo da mãe.

Ao passar para o banheiro, Geni desligou o vídeo. André, estendido no chão, sentia-se irritado. Parecia-lhe haver traído Juliana. Sem perceber, disse em voz alta:

- Que loucura! Como posso trair alguém que nem conheço?

Levantando o corpo, sentiu algo preso às costas. Era o retrato de Juliana que havia caído da prancheta.

- Meu Deus, é ela! exclamou, vibrando de contentamento.

Passada a primeira emoção de encontrar um retrato de Juliana, assim, como se fosse um presente dos deuses, perguntou a si mesmo:

- Como é que esse retrato veio parar aqui?

Virou-o, curioso, deparando com o nome e endereço da médica cuja entrevista estava editando.

- Dra. Telma... será que ela tem algo a ver com a Juliana?... E a Geni? Por que me escondeu isso?

Olhou na direção do banheiro com ar de quem estava entendendo a coisa e guardou a foto.

De volta, Geni começou a apanhar os objetos que estavam no chão. Pegou a prancheta, procurando logo pela foto que havia escondido embaixo dos outros papéis.

- Perdeu alguma coisa? - perguntou André, como quem não quer nada.

- Não... só umas anotações!...

- É isto aqui que está procurando? - inquiriu em tom raivoso, mostrando a foto.

Geni levou um choque mas reagiu. Tentando reverter a situação indagou em tom de acusação:

- Onde achou? Anda mexendo nas minhas coisas, é?

Olhando friamente para ela, André perguntou com dureza:

- Como conseguiu isso?

Geni procurava alguma explicação plausível, sem encontrar, enquanto André virava a foto mostrando o endereço:

- O que tem a Dra. Telma a ver com ela?

A jovem percebeu que era melhor dizer a verdade, e respondeu de má vontade:

- É a mãe dela...

Surpreso, André olhava para a auxiliar, enquanto sua expressão ia ficando furiosa.

- Por que me enganou?... Sua vadia!

Geni reagiu rapidamente. Não estava a fim de perder a parada que, para ela, significava o futuro que sonhara. Precisava passar da defensiva para o ataque. Fez aquela expressão de quem se defende de uma injustiça, exclamando:

- É claro que eu tinha que enganar. Você ficou feito um panaca, todo derretido por aquela quenga... Só estou defendendo o que é meu.

Aproximou-se, ondulando o corpo sensual. Agarrou-o pelo pescoço, tentando beijá-lo, afirmando:

- Não vou te dar para ninguém, fique sabendo.

Furioso, André desvencilhou-se, gritando:

- Está louca, Geni? Você não é minha dona.

Colocou a foto no bolso da camisa e desligou os aparelhos, preparando-se para sair. Percebendo que estava perdendo a parada, a jovem aproximou-se, com expressão humilde.

- Me perdoa, Gato... perdoa! Eu fiquei desesperada, gatinho; fiquei morrendo de ciúme. Você estava se babando todo por ela...

André respirou fundo, dizendo em tom frio e autoritário:

- Depois nós conversamos, Geni.

Saiu, deixando-a pensativa, preocupada, procurando uma solução.

Torcendo um cacho do cabelo pintado de louro, Geni foi até o banheiro, olhar-se no espelho: a pintura do cabelo estava ótima; a pele morena quase clara pela ausência de sol, estava bem tratada; a cintura esguia, os seios firmes e um bumbum de botar inveja até na Carla Perez. Sorriu para si mesma, movimentando-se diante do espelho com uma sensualidade estudada.

- Ele não pode me trocar por aquela zinha... Eu sou muito mais mulher.

Não estava apaixonada por André. Só não queria perder o que entendia ser o seu filão, mas... também não abria mão de Riquinho. Dois anos mais velha que ele, morria de medo dos anos vindouros, temendo que a idade, quando começasse a se mostrar em seu físico, levasse o amante a deixá-la. Daí o seu empenho em resolver a situação de forma a que Rico ficasse dependendo dela.

De repente, umas batidas suaves na porta quase lhe arrancaram um grito. Preocupada, foi abrir.

- Riquinho! - exclamou, surpreendida. - Você aqui? ... É perigoso!

Riquinho foi entrando enquanto dizia:

- Deixa eu entrá, Geni... a polícia tá atrás de mim.

- A polícia? - perguntou, assustada. – Eles estão na tua pista?

- Não pergunta tanto e me ajuda, tá?

- Aqui não dá pra te esconder, Rico. É perigoso. Alguém pode te ver.

- O patrãozinho saiu, eu vi. E depois, só tou precisando de uns dias... até me esquecerem.

- Mas aqui não dá, insistiu Geni.

A saudade, porém, e aquela presença ali, viva, pulsante, acendia seu desejo. Acabou concordando:

- Só esta noite, está bem? Acho que ele não volta hoje. Amanhã eu arranjo um lugar pra te esconder.

Geni diminuiu as luzes e os dois se agarraram com a fúria de um desejo longamente reprimido.



Capítulo 4
Diante da casa de Telma, André sentia-se constrangido. Como iria explicar-lhe o interesse por sua filha?

Já estava a ponto de desistir, quando a porta se abriu e a médica atravessou o jardim, vindo em sua direção.

- Seu André?... Teve algum problema com a gravação?

- Não, não... eu vim aqui, porque... eu preciso falar com a senhora.

Embora estranhando, Telma convidou André a entrar. A casa era simples mas em tudo observava-se um toque de bom gosto.

- Toma um chá? Estava justamente fazendo um para mim.

- Aceito sim, obrigado.

Conversa vai, conversa vem, até que André criou coragem para tocar no assunto. Explicou que estava precisando de um modelo para um comercial sobre turismo e achava que Juliana seria o tipo ideal. Telma informou-lhe que a filha devia chegar na sexta-feira e que ele poderia telefonar-lhe no sábado.

Já passava das nove da noite quando André despediu-se da médica, encantado com seu papo agradável e com a beleza das suas pinturas, mas, principalmente, com a expectativa de poder em breve rever Juliana.

No dia seguinte ao chegar na Produtora já encontrou Geni a postos, toda eficiente, querendo agradar como profissional, achando que por esse caminho talvez conseguisse segurar o emprego e o possível marido. Mas André despediu-a, sem querer ouvir qualquer justificativa.

Saiu furiosa, jurando a si mesma vingar-se de alguma forma terrível, considerando André e Juliana culpados pelo desabar dos seus castelos, a destruição dos seus sonhos.

Capítulo 5
A paisagem árida deixava o dia ainda mais quente. O asfalto parecia ferver diante do veículo, cansando os olhos de Juliana.

- Quer que eu leve? - perguntou Anabel.

- Dá para eu levar até lá. Você dirigiu a noite quase toda. Está mais cansada que eu.

Anabel observou melhor a amiga. Nem mesmo o cansaço conseguira apagar aquela luminosidade que lhe era característica. Mas havia algo mais... algo que lhe cantava na voz e irradiava-se pelos reflexos azuis do olhar.

- Eu nunca te vi tão feliz assim, comentou.

Juliana perguntou, com um sorriso.

- Não adivinha por quê?

- É o teu príncipe encantado, não é? Bastou um jantarzinho...

- Não foi só um jantarzinho - interrompeu Juliana, com ar sonhador. - Foi um jantar à luz da lua. E por música a sinfonia das ondas quebrando na praia, casando com o ruído das folhas dos coqueiros tocadas pela brisa... foi divino.

Permaneceu silenciosa por instantes degustando aqueles momentos inesquecíveis. Depois continuou, dizendo com ar sério:

- Naquela noite houve um momento em que eu senti uma coisa muito estranha. De repente, nós estávamos num outro lugar, com tudo diferente... Uma outra época...

- Acho que você está variando, amiga – interrompeu Anabel. - Também com esse sol, essa caatinga interminável... Isto deve ter mexido com a sua cabeça. Aliás, ainda não entendi porque você quis vir de carro.

Voltando ao presente, Juliana respondeu num tom de quem praticou um ato heróico.

- São Paulo a Fortaleza de carro.... é um estirão! Eu nunca tinha feito uma viagem assim por terra e queria sentir isso, entende?

Fazendo um gesto largo com a mão, continuou:

- Isto é fantástico! Você vê o mundo por dentro e não por fora como a gente vê lá de cima. Você entra nas cidadezinhas, almoça num restaurante de beira de estrada, vê gente de todo tipo, se integra nesse mundo tão diferente do que nós conhecemos. Na estrada é o gado pastando, o rio, a ponte, o camponês de enxada ou foice na mão caminhando quilômetros, e a mulher arrastando a filharada atrás de si. É a vida, Anabel. Uma vida mais pura, mais verdadeira, sem hipocrisias. Quer saber? Estou adorando isto.

- Você devia é comprar um caminhão e ser caminhoneira.

- Se não fosse o medo dos assaltos, até que seria uma boa opção.

A paisagem começava a dar toques de verde. Cajueiros com seus longos galhos retorcidos, crescendo na horizontal. Mais adiante, mangueiras centenárias, gigantescas, carregadas de frutos verdes, outros começando a pintar de vermelho ou amarelo, parecendo pingentes enfeitando seus galhos.

- Estamos nos aproximando da costa - comentou Anabel.

- Falta muito?

- Pelas indicações, até Fortaleza ainda tem muito chão.

Duas horas mais tarde as jovens desciam do veículo em frente ao prédio onde ficava o apartamento alugado por Juliana.

Anabel, estranhando algo, circulou os arredores com o olhar. De repente, estremeceu, fixando-se na direção de um caminho que desembocava ali perto, dizendo com expressão estranha:

- Preciso ver uma coisa... Volto já para ajudar.

- Aonde você vai, Anabel?

- Não se preocupe... eu volto já.

Anabel seguiu até o local que a intrigava, um caminho ladeado de cajueiros. Caminhou por ele, até avistar uma casa abandonada em meio ao matagal. O coração apertou pela presença do passado.

- Não é possível! - exclamou para si mesma. - Isto é mais do que coincidência. Primeiro, aquele noticiário com o Riquinho e, agora, a Juliana acha de alugar o apartamento justo aqui...

Lentamente, foi se chegando, cheia de recordações. Pareceu-lhe ver um vulto no interior, mas continuou, entrando devagar, com cuidado. Estava tudo em ruínas. Alguns móveis velhos, desmantelados, aqui e ali. Pelo buraco onde tinha sido uma janela viu o quintal tomado pelo mato, sufocando o pé de jasmim. Onde fora seu quarto, a um canto, restos de um velho álbum. Abriu e foi virando as folhas. Alguns retratos tão amarelecidos que mal dava para identificar as pessoas: seus pais abraçados, numa época em que eram felizes; ela, ainda bebê, nos braços da mãe; o pai chutando-lhe uma bola que ela tentava pegar... De repente, o coração deu um pulo. Riquinho, com ar conquistador, aparecia em meio a outros adolescentes. Sentou no chão, fortemente emocionada, apertando o retrato contra o peito.

Algumas lembranças que desejara matar brotavam com todo o colorido, na força da emoção que as registrara. Vinham nas imagens de uma tarde chuvosa, quando Riquinho e Geni a encontraram ali, chorando. Tinha apenas 13 anos e já sofria tanto. Seu pai, bêbado, a violentara. Sentia-se suja, completamente indefesa e sempre com medo dele voltar a atacá-la. Chegara a pensar em matá-lo se ele ousasse de novo. Havia mesmo separado uma faca de cozinha para se defender. Mas o pior viera ao descobrir que estava grávida, fazendo desabar seu mundo... um mundo tão pobre, tão sem perspectivas, mas ainda assim, podia ser enfeitado com o recurso dos sonhos.

Naquela tarde estavam os três nesse mesmo lugar, sentados no chão: ela, Riquinho e Geni.

- Pára com esse choro e diga o que aconteceu - explodiu Geni, impaciente e enciumada.

- É que eu não sei o que fazer... - respondeu com dificuldade, devido ao pranto.

- Diga logo o que aconteceu - repetiu Geni. - Não fique aí, fazendo teatrinho...

- É que... é que... estou grávida...

Lembrou com nitidez o olhar de Geni para Riquinho, num misto de ódio e desespero. Pensava ser ele o pai.

Riquinho, talvez pelo grande carinho que sentia por ela, conseguiu chegar mais fundo e extrair a verdade.

- Foi seu pai, não foi?...

Percebendo que acertara, exclamou com ódio:

- Aquele desgraçado! Eu pego esse miserável!...

- Não, Riquinho - pediu, com desespero na voz e no olhar. - Não faça nada. Meu pai te mata e aí... eu fico sem ninguém...

Observando a expressão enciumada de Geni, completou:

- Você é o único amigo que eu tenho.

Geni, aquietados os ciúmes, começava a sentir pena da vizinha e colega de folguedos.

- Aquele desgraçado! - exclamou. - Deviam capá!

Riquinho, com os olhos cheios de ódio, tirando o canivete do bolso, passava o dedo pelo fio.

- Você acertou, Geni. Um desgraçado que não respeita a própria filha devia ser capado. Botar na cadeia não adianta nada. O cara sai de lá e continua fazendo desgraça.

- Você vai tirar, não vai? - perguntou Geni, olhando intencionalmente para sua barriga.

Riquinho exaltou-se, falando quase aos gritos:

- Não! Isso não!

Estranhando aquela atitude, Geni perguntou:

- Qual é, Riquim?... Só se ela fosse doida.

Um ruído qualquer fez Anabel voltar ao presente. Levantou-se, indo até o que tinha sido a sala da casa, onde colocou o álbum sobre um resto de cômoda.

Em outro aposento, único que permanecia melhor conservado, Riquinho observava pela fresta da porta, de faca em punho. Ao reconhecer a jovem levou tal choque que deixou cair a faca. Anabel não escutou e continuou caminhando pela sala até tropeçar num resto de esteira que, de tão velha, estava desmanchando-se toda. Levantou-a do chão de forma automática, mas, ao reconhecê-la, atirou-a fora, horrorizada. De novo lembranças amargas lhe ocuparam a mente. Reviu o pai, morto, atravessado sobre aquela esteira, um fio de sangue correndo da boca e ela própria à beira de um ataque nervoso, enquanto Riquinho, com um pedaço de pau na mão, olhava horrorizado para o cadáver; o grito da Geni entrando e deparando com a cena e a seguir, seu olhar de cobrança para Riquinho que se defendeu:

- Ele estava forçando ela de novo...

Geni olhou com ódio para ela, e explodiu com o namorado:

- E tu tinha que se metê, Riquim? O que vai ser agora?

- Você tem que fugir! - exclamou Anabel dirigindo-se a Rico.

Percebendo num relance que ia perder o namorado, numa decisão dramática Geni segurou-o pelos ombros, dizendo com firmeza:

- Eu vou com você, Rico.

O garoto desvencilhou-se dela num gesto rude, exclamando:

- Ficou doida, Geni?

Voltando ao presente, Anabel balançou a cabeça como a querer afastar aquelas imagens e saiu da sala e da casa. Rico, novamente só, esgueirou-se até a janela e ficou vendo a jovem afastar-se, assim como quem vê de longe o paraíso perdido. Mas recuperou-se logo, fazendo um gesto de quem quer livrar-se de pensamentos incômodos, reassumindo sua habitual postura de bandido.


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