O olhar do ambulante: enquanto sujeito histórico do São João da Parnaíba



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O OLHAR DO AMBULANTE: enquanto sujeito histórico do São João da Parnaíba.
Joel Neves da Costa1

Josélia Veras Martins2


RESUMO

Este estudo foi realizado com o intuito de compreender qual o olhar do ambulante, enquanto sujeito histórico, no Festival São João da Parnaíba, no período que permeiam os anos de 2009 a 2013. A partir desta perspectiva de análise procuramos - com o seguinte estudo - conhecer as histórias de vida dos ambulantes, participantes da pesquisa, que trabalharam no Festival: “São João da Parnaíba”; identificar as mercadorias vendidas por esses ambulantes, bem como a forma como elas são adquiridas e comercializadas no referido festival; e caracterizar esse ambulante enquanto sujeito histórico desse festival. Para a realização deste estudo de cunho qualitativo-explicativo, utilizamos as entrevistas semiestruturadas realizadas com três ambulantes no segundo semestre de 2013. Para fundamentar o estudo, dialogamos com os teóricos como: Halbwachs (2006), Chartier (1990), Pesavento (2004), dentre outros. Os resultados obtidos permitem entender que os vendedores ambulantes ocupam espaço na sociedade sem o apoio das autoridades e essa exclusão fica evidenciada na participação deles na realização do Festival: “São João da Parnaíba”. E embora com todas as dificuldades encontradas, estão sempre inovando e buscando seu espaço na sociedade, como cidadãos que tem deveres sim, mas com direitos de igualdade de tratamento e não apenas no contexto do festival.



Palavras-Chave: Vendedor ambulante. Trabalho informal. Festival do São João da Parnaíba.
ABSTRACT

This study was conducted in order to understand what the look of the street as a subject in historical festival of São João de Parnaíba in the period that permeate the years (2009-2013). From this perspective of analysis seek to know the following study of street life stories, research participants, who worked at the festival: "St. John of Parnaíba"; identify the goods sold by these vendors, as well as how they are procured and marketed at the festival: "St. John of Parnaíba"; and characterize this historical subject while walking this festival. For this study a qualitative explanatory matrix, we use the semi-structured interviews with three vendors in the second half of 2013. To support the study, we dialogue with theorists like Halbwachs (2006), Chartier (1990), Pesavento (2004) among others. The results allow us to understand that the hawkers occupy space in society without the support of the authorities, and this exclusion is evident in their participation in the festival of St. John Parnaíba. And though with all the difficulties encountered, they are always innovating and seeking their place in society as citizens have duties yes, but with rights to equal treatment and not only in the context of the festival.



Keywords: hawker. Informal work. St. John of Parnaíba Festival.
INTRODUÇÃO

No período 2009 a 2013, enquanto ocupante do cargo de Gerente Municipal de Cultura de Parnaíba, tornei-me responsável por uma série de tarefas, dentre elas a de manter contatos com representantes e brincantes de quadrilhas juninas e bumba-meu-boi, viabilizando, então, manter contato direto com cada um dos segmentos culturais e participar de reuniões programadas para discutir assuntos de interesse dos mesmos e do município.

No período de movimentação para a preparação do Festival: “São João da Parnaíba” e paralelo a tudo isso ocorriam uma grande - e não menos importante - movimentação no cadastro de vendedores informais, aqui denominados de ambulantes, para trabalhar durante os nove dias do festival. Durante o festival ocorrem apresentações culturais, concursos entre quadrilhas juninas, bumba-meu-boi e apresentações de bandas e cantores locais, regionais e nacionais, em um espaço denominado de Praça de Eventos Mandu Ladino. E foi dentro desse vai e vem do festival que atuei como observador, mas, principalmente, como sujeito que está inserido nessa história. Os indivíduos inseridos na informalidade sofrem, como não conseguem vender sua força de trabalho não podem contar com uma remuneração no final do mês, lutam diariamente desenvolvendo as mais diversas formas para conseguir seu sustento e são vitimados por uma sociedade marcada por processos excludentes. Porém, não é sempre que a inclusão precária vivida por esses trabalhadores contempla o nível de inserção esperada pelos indivíduos, qual seja aquela que os inseriria econômica e socialmente (MARTINS, 1997).

Diante desse universo de trabalhadores que se encontram na informalidade, os vendedores ambulantes se constituem sujeitos desta pesquisa. Estes possuem a singularidade de obter o seu sustento por meio da comercialização de mercadorias nos espaços públicos, aqui focado no espaço do Festival: “São João da Parnaíba”. Buscamos, com esta pesquisa, desvendar também a percepção que os ambulantes têm do Festival: “São João da Parnaíba” e na movimentação de pessoas durante o festival. Diante do exposto, estabelecemos como problema central da nossa pesquisa a seguinte inquietação: Qual é olhar do ambulante, enquanto sujeito histórico, no Festival: “São João da Parnaíba” (2009-2013)? A partir dessa questão norteadora, estabelecemos o seguinte objetivo geral: Investigar o olhar do ambulante no Festival: “São João da Parnaíba”, do período de 2009 a 2013. Visando o alcance do objetivo geral, elencamos os seguintes objetivos específicos: Conhecer a história de vida de ambulantes, participantes da pesquisa, que trabalharam no Festival: “São João da Parnaíba”; Identificar as mercadorias vendidas por esses ambulantes, bem como a forma como elas são adquiridas e comercializadas no Festival: “São João da Parnaíba”; Caracterizar esse ambulante enquanto sujeito histórico desse festival.

A história oral surgiu a partir da invenção do gravador e da fita magnética de áudio em 1948, seus criadores foram Allan Nevis e Louis Starr, da Universidade de Columbia (NASCIMENTO, 2009). No Brasil, a metodologia foi introduzida na década de 1970, quando foi criado o Programa de História Oral do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC.

Através da história oral é possível abrir espaço para certos aspectos de vida, no entendimento de alguns registros pode passar sem ser notado. A partir daí é possível obter uma entrevista acerca da vida do pesquisado de forma mais livre e espontânea. Para Meihy (1998), a história oral é um instrumento metodológico pertinente e, pode ser considerada a técnica mais adequada para o estudo de um universo, no qual se transmite de geração em geração através da oralidade, onde o documento escrito é quase sempre escasso por conta de dificuldades sócio históricas.

A história oral proporciona ao historiador ou simplesmente aqueles que são interessados em investigar a vida do indivíduo, enquanto sujeito do seu cotidiano, histórias comuns vividas por ele, sem deixar de passar pelo coletivo; permitindo reconstruir - por meio dessas lembranças vividas - as histórias desse grupo, essa história dentro da história. Nora (1993), na citação: “memória é vida”, relata que a memória é um elo entre o passado que resvala quase sempre no presente, e a história, uma representação da trajetória de vida do indivíduo que são alimentadas diariamente com lembranças. Halbwachs (2006) indica que as memórias individuais e coletivas são construções subjetivas. Chartier (2002) ressalta o cuidado de como o indivíduo toma para si os conceitos, fazendo uma interação com as fontes e levando em consideração o contexto no qual o seu trabalho foi produzido.

Os dados desta pesquisa de campo foram obtidos por meio de aplicação de entrevista aos vendedores ambulantes, que utilizam espaços localizados e distribuídos em vários pontos da Praça de Evento Mandu Ladino (quadrilhódromo, como é conhecido popularmente), localizado no Bairro Nossa Senhora de Fátima, onde é realizado o “São João da Parnaíba”. Foram aplicadas perguntas, com questões abertas e fechadas, que tinham o propósito de identificar e conhecer esse vendedor ambulante, que participa do festival há vários anos. Vale ressaltar que o convite foi feito para vários vendedores ambulantes, sendo que apenas 03 (três) vendedores ambulantes concordaram em participar da pesquisa.

Conforme Pesavento (2005, p.118): “[...]. Uma das características da História Cultural foi trazer à tona o indivíduo, como sujeito da História, recompondo histórias de vida, particularmente daqueles egressos das camadas populares”.

Não devemos esquecer que quando se pensa em geração de capital não podemos deixar de mencionar o comércio formal também, até por que o que será confeccionado para ornamentação do local do evento se estende para os grupos culturais. Como, por exemplo, na confecção dos vestuários e acessórios usados nas apresentações, e, é nos nove dias que se realiza o Festival: “São João da Parnaíba” que o vendedor ambulante se insere, com seu trabalho.

A fase de campo da pesquisa foi realizada no segundo semestre de 2013, com os vendedores ambulantes que estiveram presentes, comercializando seus produtos, nos últimos cinco anos no Festival: “São João da Parnaíba”. É nesse contexto que o ambulante é inserido, não apenas na cidade de Parnaíba-PI, mas como sujeito histórico.
A HISTORICIDADE DO VENDEDOR AMBULANTE
A precarização do mundo do trabalho pode ser identificada como uma expressão da questão social, pois é determinante para as condições socioeconômicas dos indivíduos, dado que, no cerne da sociedade capitalista, o trabalho é o caminho usado pelos indivíduos para conquistar sua sobrevivência. A ausência do trabalho reforça a situação de miséria e desigualdade social, porque é através do trabalho que ocorre a obtenção dos meios de vida, assim como o desenvolvimento da sociabilidade entre os indivíduos.

A presença do vendedor ambulante no Brasil, já se percebe desde o período da colonização lusitana3, onde pessoas comercializavam: tecidos, alimentos, dentre várias outras mercadorias nas ruas. Com o crescimento e o surgimento de novas cidades esse número de vendedores aumentou , também em virtude do crescimento demográfico e das contradições em relação ao social e ao econômico; e surgiram novas funções que ainda não existiam, entre elas a de vendedor ambulante.

Na cidade de Parnaíba-PI, não é diferente das demais cidades do Brasil, há vendedores ambulantes que não possuem outro tipo de rendimento e por isso sobrevivem de vender suas mercadorias em: feiras, praças, logradouros públicos, shows. É esse ambulante que será sujeito desta pesquisa e que está inserido no Festival: “São João da Parnaíba”, no período de 2009 a 2013.

O desemprego é um dos grandes responsáveis pelo processo excludente que contamina uma sociedade, pois torna vulneráveis aqueles que estão fora do mercado de trabalho por estarem sem o amparo do recurso de obtenção dos meios necessários para a sobrevivência.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) considera trabalhadores informais aqueles que exercem atividades econômicas à margem da lei e desprovidas de proteção ou regulamentação pública, e cuja produção acontece em pequena escala. Para a (OIT), o trabalho informal também se caracteriza pela ausência das relações contratuais.

Para Guimarães (2002), a inserção na informalidade pelas famílias é uma estratégia de sobrevivência que visa à manutenção do grupo, tanto nos aspectos econômicos (sobrevivência física e biológica) quanto nos sociais e culturais (sobrevivência da família enquanto um grupo na sociedade). Assim, a família assume um importante papel para a reprodução dessa atividade e, do mesmo modo, a atividade contribui para a manutenção do grupo. Hirata e Machado (2007) apresentaram uma nova discussão a respeito da informalidade, separando do vínculo da pobreza, por acreditarem que a informalidade não surge em função da pobreza, pois se assim fossem não haveria controvérsia do conceito ou definição do que seja informalidade ou comércio informal. Percebe-se que muitos vão ao encontro de novos objetivos de um ganho extra, sem deixar de observar a autonomia do trabalho e em muitos casos há uma tradição familiar desse vendedor ambulante.

A comercialização para o vendedor ambulante está diretamente ligada ao indivíduo ou à família, apontada como necessidade não apenas de ocupação de um membro da família, mas também como forma de melhorar a renda.

Para Alves (2001, p. 145):


Esse trabalhador tem que assumir mais risco e também aumentar a extração da taxa de sobre trabalho de seus funcionários, oferecendo condições de trabalho mais precárias que as grandes empresas e, em muitos casos, vende a sua força de trabalho e a de membros de sua família como trabalho não pago, este cooperam nas fases de grande produtividade.
Entende-se, portanto, que mesmo inserido nas novas modalidades de produção capitalista, o trabalho desenvolvido pelo vendedor ambulante - no final do processo - valoriza o capital por meio da força de trabalho. Nas palavras de Matos (2010, p. 20):
A acessibilidade à riqueza no passado condicionou a evolução econômica e as condições sociais do presente, uma vez que nas suas origens combinavam-se múltiplas circunstâncias relacionadas à geração e apropriação dos excedentes econômicos, algo que envolvia desde os arranjos institucionais (laicos ou religiosos), até o acesso restrito à propriedade e aos recursos naturais, ou a excessiva dependência da colônia em relação à metrópole.
Esse processo oriundo dessa economia marcou a desigualdade de renda e riqueza, proporcionando um desequilíbrio entre a zona rural e urbana, levando a inserção desse trabalhador ao trabalho informal, aqui denominado de ambulante. Para Gonçalves (2001), é nesse contexto que proliferam o subemprego, o trabalho precário e o informal, sendo essas as maneiras encontradas por grande parte da classe trabalhadora para garantir a sua sobrevivência.

Cacciamali (1991, p.121) diz: “É o produtor direto de posse de instrumentos de trabalho e dos conhecimentos necessários que, juntamente com a mão-de-obra familiar ou com auxílio de alguns ajudantes, executa e simultaneamente administra uma determinada atividade econômica”. Embora a atividade informal possa cumprir um papel social e econômico que é o de ocupar os trabalhadores, hoje essa informalidade não pode ser de indivíduos sem qualificação. Já existem no meio dos vendedores ambulantes pessoas que procuram com isso um aumento de renda e para isso muitas vezes levam familiares.


A CIDADE DE PARNAÍBA
O município de Parnaíba é a porta de entrada do Delta do Parnaíba, único em mar aberto das Américas e o  terceiro maior do mundo.  Os outros dois são o Delta do Rio Nilo, no Egito e Mekong, no sudeste Asiático. Mendes (2011, p. 25) explica que a toponímia “Parnaíba” é de origem indígena e significa: “rio caudaloso (Paraná) ruim ou imprestável (AYBA)”. Semelhante vocábulo foi incorporado ao nome oficial da Vila de São João quando de sua fundação em 1762, passando a figurar como Vila de São João da Parnaíba.

Parnaíba, localizada no extremo norte do Estado, na estreita faixa litorânea, é hoje um dos menores municípios em extensão com uma área territorial de 436 km2, limitando-se com o oceano Atlântico ao norte, com os municípios de Buriti dos Lopes e Bom Princípio ao sul; a leste, com o município de Luís Correia e a oeste, com os municípios de Ilha Grande do Piauí e Araioses (no Maranhão). A cidade de Parnaíba, desde sua criação, passou por grandes transformações econômicas e culturais, chegando a ser um polo de exportação da carne de charque e de outros produtos para o sul do país, como também para o exterior. Embora tenha um dos menores litorais do Brasil, a cidade tem uma estrutura arquitetônica de estilo eclética, de grande valor histórico, passou por momentos importantes na política do país dando sua contribuição na História.


O FESTIVAL: “SÃO JOÃO DA PARNAÍBA”
As festas juninas, decididamente4, não possuem uma origem nacional, foram trazidas pelos portugueses e aqui comemoradas desde os tempos coloniais, muito antes de se ter uma ideia de uma nação brasileira. As festas juninas do Nordeste brasileiro procuram reverenciar os três santos do calendário litúrgico: Santo Antônio, São João e São Paulo. Os símbolos que representam esse ciclo são: a fogueira, bumba-meu-boi, as quadrilhas, o forró, as comidas típicas; e mais recentemente, os espetáculos e os cenários dos grandes eventos festivos. As festas se destacam pelas relações sociais que proporcionam e pelos valores simbólicos concebidos no espaço social e cultural.

Conforme Martins (2003, p. 64):


As festas, costumes, danças, folguedos, histórias orais, podem servir para atrair atenção e o interesse de muitas pessoas para conhecerem um pouco do lugar e seus costumes, muitas vezes, inclusive, despertando nelas um desejo íntimo de vivenciarem a festa junto com a própria comunidade. Isto é possível quando uma cidade, consciente do seu potencial, resolve, com organização e parcerias, transformar estas manifestações culturais em atrativo turístico, possibilitando, assim, oportunidade de negócios e empregos além da valorização da arte e identidade local.
Esse pensamento de que o festival molda a cidade com suas representações de quadrilhas, bumba-meu-boi, ou mesmo apresentações artísticas e culturais, transforma essa cidade; não apenas no contexto da aparência por conta do evento, mas o mais importante é a transformação que causa a quem chega como também - por tabela - a quem aqui mora. É nesse contexto que o vendedor ambulante se auto insere, vezes por meio de seu trabalho diário, ou para alguns, por conta da oportunidade de ganho extra.

Em 2007, houve a transferência de local do festival que já fazia parte do calendário da cidade. O Festival: “São João da Parnaíba” vem acontecendo anualmente e em 2013 foi realizado o XIII, sempre com novidades na sua estrutura de barracas, palcos, novas atrações, dentre inúmeros atrativos; sem que nenhum representante da classe dos vendedores ambulantes possa participar da elaboração da mesma.

Nos nove dias que são realizados o Festival: “São João da Parnaíba”, que se tornou um evento importante, a cidade de Parnaíba recebe um grande público, que muitas vezes vem de férias - turistas - ou mesmo aqueles que vem visitar parentes e amigos no período do festival. Esse aumento do público reforça o crescimento no consumo de mercadorias e, por consequência, gera uma economia para a cidade; o que é muito bom para o vendedor ambulante, segundo narrativas dos mesmos.
OS MOTIVOS PARA SER AMBULANTE
Quando perguntado quais os motivos que levaram a ser vendedor ambulante, SILVA, respondeu: “A dificulidade (sic) de emprego na Parnaíba, que não tem”.

SANTOS: “Foi a necessidade, porque a gente estava eu e ele desempregado, ai ele teve a ideia da gente ir com caixa de cerveja vender nos folguedos e ai vimos que dava para tirar um lucrozinho [...]”. BARRETO: “O motivo na época eu estava desempregado ai comecei, me acostumei que é um ganha pão que a gente tem para sobreviver é uma ajuda a mais”.

Cacciamali (1994, p. 221) assevera que:
A inserção nas atividades informais é conseqüência de um singular processo de desenvolvimento econômico, no tempo e espaço, como configuração e dinâmica de um processo maior que deixa espaços produtivos abertos, passíveis de serem explorados.
Entendemos vários motivos para a inserção desses indivíduos na informalidade, dentre esses o desenvolvimento econômico que por si seleciona essa mão de obra especializada por conta do processo de modernização, necessitando de menos trabalhadores e com conhecimentos específicos; forçando assim o desemprego para um número grande que por sua vez recorrem à informalidade. E com nem sempre o trabalho de vendedor ambulante é suficiente, torna se necessária à inclusão de membros da família. A falta de emprego agravada por não ter uma formação, ou mesmo uma escolaridade, que possa fazer com que esse indivíduo seja incluído no mercado de trabalho, leva muitas pessoas a encontrar outra saída, essa válvula de escape quase sempre é a informalidade, aqui denominada de ambulante.
TER OU NÃO TER VERGONHA DE SER AMBULANTE
E perguntado se tinham vergonha de ser vendedor ambulante, SILVA diz: “Tenho nada, de jeito nenhum, por que estou trabalhando honesto, apesar das dificuldades que a gente tem de trabalhar em certos eventos somente em eventos públicos”. SANTOS: “Não, nenhum pouco, é uma profissão até que me orgulho, porque é dali que eu tiro o sustento para minhas meninas, que eu compro o material escolar [...]”. BARRETO declara: “Eu não, é o dinheiro que sustento meus filhos eu não posso ter vergonha de onde eu tiro o pão de cada dia”.

Para Pochmann (2002, p. 147):


O baixo dinamismo na criação de empregos regulares e a insuficiência das políticas públicas deixam sem alternativas de sobrevivência digna parte crescente da oferta de mão-de-obra, que tende a se situar, invariavelmente, nas situações de desemprego aberto, de ocupações autônomas e demais formas precárias de subemprego (desemprego disfarçado).
Entendemos, partindo da ideia do autor, que as políticas provocam esse desequilíbrio levando a ausência do emprego dito formal. Na informalidade essa precarização do trabalho não segui uma linha específica de economia e provoca danos em todos os ramos de trabalhadores, em muitos casos até aos bem qualificados.
VANTAGENS DO TRABALHO DOS AMBULANTES PARA O FESTIVAL
SANTOS diz: “[...] nossos fornecedores ganham, geram emprego, agente consome mais produto e eles tem mais venda [...] não é todo mundo que quer ir a ambiente fechado quer ficar ali, querem comer, consumir mais querem estar vendo, na diversão no meio da folia, [...]”. SILVA respondeu: “Com certeza, se não fosse agente as pessoas iam para evento iam beber, comer em qual local, a gente é o principal do evento, senão houver ambulante não existe evento, [...]”.

No que concerne Cacciamali (1983, p. 20):


[...] o setor informal possui caráter autônomo ou complementar ao restante da economia, podendo se expandir para criar emprego e melhorar a distribuição de renda face à própria capacidade de acúmulo, à oferta de trabalho que lhe é disponível, juntamente com o setor formal. [...]

Entendemos que há essa troca de informações, ou seja, a comercialização primeira dos depósitos (setor formal) com os ambulantes (setor informal), deste último com o público de modo geral. O universo de ambulantes é grande, produzindo assim um aumento nas vendas, principalmente no caso do festival, porque no final dessa negociação está o público que é o alvo principal dos ambulantes.

O entrevistado SILVA, quando perguntado qual a contribuição para o festival, ele diz:
Rapaz é muito, porque a gente contribui, compra do consumidor maior e vender para o consumidor pequeno, e daí a gente tira um conto, outro vende e ai, daí vai pra frente, gera muito dinheiro num evento daquele. [...] se não fosse a gente as pessoas iam pra o evento iam beber, comer em qual local, a gente é o principal do evento, se não houver ambulante não existe evento, caso você faz uma festa que não tem nenhum ambulante as pessoas vão passar na frente e dizer isso aqui não vai prestar, não tem nenhum vendedor, quando tem vendedor, rapaz aqui a coisa ta animada, o pivô do evento é o vendedor ambulante.
BARRETO, quando perguntado qual a contribuição do ambulante para o festival, falou:
Rapaz é muito importante porque tem muito pai de família que precisa como eu, um vendedor de balinha, um vendedor de bebida, um vendedor de caipirinha, é um rapaz que vende brinquedo para criança, tem nuns rapazes que vão só com pacotinho de pipoca, já ganha aquele pão para levar para família, e ali é como eu lhe digo é noite a noite que o povo vão ganhando o pão o de cada dia, o pouco que a gente ganha é suficiente para a gente.
SANTOS, quando perguntado qual a contribuição para o festival, relatou:
É porque lá não tem venda próxima as vendas que tem somos agente [...], não é todo mundo que quer ir a ambiente fechado quer ficar ali, querem comer, consumir mais querem estar vendo, nas diversão no meio da folia [...]”.
Os vendedores ambulantes afirmam - conforme narrados por todos - que durante a organização do festival havia sempre um cadastro, em 2013 não houve, ficou valendo o de 2012. Entretanto, em 2013 acontecerem problemas com os espaços que antes eram reservados a eles, porque no novo redirecionamento do festival os mesmos não foram contemplados conforme anos anteriores, provocando um transtorno para os vendedores que se sentiram excluídos do festival como um todo. E recordando a frase do Senhor SILVA (2013, p. 2): “[...] uma festa que não tem nenhum ambulante as pessoas vão passar na frente e dizer isso aqui não vai prestar [...]”; e como citado precisou fazer algumas arrumações de última hora no desenho dos locais distribuídos aos participantes do evento.

As narrativas do Senhor SILVA vêm de encontro aos relatos dos demais vendedores ambulantes, que deixa bem claro a consciência da valorização que cada um traz ao Festival: “São João da Parnaíba” e que o evento sem a participação deles não seria o que é. Em contrapartida a comercialização de seus produtos gera não apenas satisfação ao público, mas economia para a cidade.


A ESCOLHA PELO FESTIVAL COMO LOCAL DE TRABALHO
SANTOS, quando perguntado por que escolheu o Festival: “São João da Parnaíba” para vender seus produtos, declarou: “[...] escolhi, ali é o evento maior que tem é ele, e o festejo de São Francisco [...]”. Em outro dado momento ela diz:
[...] é dali que eu tiro o sustento para minhas meninas que eu compro o material escolar que eu posso da um calçado, uma roupinha melhor, alimento também, o sustento da gente, que a gente se sustenta mesmo é dessa vendas [...].
SILVA disse: “É porque o evento maior que tem na cidade, e agente aproveita para ganhar mais um trocado”. BARRETO contou: “É exatamente o que eu lhe disse é uma maneira da gente ganhar dinheiro, onde tem mais renda é lá, são dez dias, que agente tem aquele dia-a-dia com povo [...]”.

Conforme Martins (2003, p. 64) diz:


As festas [...], podem servir para atrair atenção e o interesse de muitas pessoas para conhecerem um pouco do lugar e seus costumes, muitas vezes, inclusive, despertando nelas um desejo íntimo de vivenciarem a festa junto com a própria comunidade.
É nesse pensamento que os vendedores percebem que é uma oportunidade de um ganho a mais, com a venda de seus produtos ao público que frequentam o festival. E sob esse pensamento entendemos que os vendedores ambulantes têm a consciência de sua contribuição no Festival: “São João da Parnaíba”, pois é nesse momento que o trabalho deles é fortalecido com o aumento das vendas de seus produtos, proporcionando uma renda que possa garantir - em muitos casos - o suficiente para sua sobrevivência.
SUGESTÕES DE MUDANÇAS PARA O FESTIVAL
SANTOS (2013, p. 3) em um dado momento fez sugestões para organização:

[...] acho que deveria ter segurança em prol do vendedor ambulante, porque eu mesma toda vez que a gente vem tem que trazer tudo é mesa, trazer tudo de novo [...], [...] acho que deveria ter um espaço para gente por nossa mercadoria pelos menos parte dela.


SILVA (2013, p. 3), um pouco antes do final de sua entrevista faz o comentário:
Falta muita coisa, como acabei de dizer, em primeiro lugar eles (organização do evento) terem respeito por gente que trabalha nesses eventos [...], em segundo, as festa que também não presta, não sei se é culpa do secretario, não sei quer, que é, sei que os eventos que vem pra cá é só quadrilha e boi, é difícil botar banda que preste, o que gera dinheiro, chama gente, [...].
Neste relato novamente fica bem claro a exclusão enquanto sujeito do Festival: “São João da Parnaíba”, sentimento que cada um tem, de exclusão, de serem tratado como ninguém por parte da equipe que organiza o festival.

Corrêa (2003, p.26) assevera: [...]. Sua ação é marcada pelos conflitos de interesses dos diferentes membros da sociedade de classes, bem como das alianças entre elas. “Tende a privilegiar os interesses daquele segmento ou segmentos da classe dominante que, a cada momento, estão no poder”. Para Corrêa (2003, p. 9):


[...] O espaço urbano assume assim uma dimensão simbólica que, entretanto, é variável segundo os diferentes grupos sociais, etários etc. [...] O espaço da cidade é assim, e também, o cenário e o objeto das lutas sociais, por estas visam, afinal de contas, o direito à cidade, à cidadania plena e igual para todos.

Em 2013 aconteceram problemas sérios que provocaram mudanças de última hora por conta da insatisfação do espaço destinado aos mesmos, espaços que são distribuídos conforme regras das quais os ambulantes não estão inseridos como parte integrante desse evento e dessa cidade. Isso de certa forma desencadeou e provocou um movimento para a criação da Associação dos Vendedores Ambulantes, para que a partir de então a classe possa ser vista e ouvida, representada não apenas por gestores públicos, mas por toda sociedade.

O indivíduo só passa a ser olhado por conta do que ele provoca. No caso, a pesquisa caminha, conforme narrativas dos vendedores ambulantes, para uma luta onde os interesses dos mesmos possam ser respeitados enquanto sujeitos atuantes na cidade.

Halbwachs (2006, p. 80) discorre que:


[...] Assim, a necessidade de escrever a história de um período, de uma sociedade, e mesmo de uma pessoa desperta somente quando eles já estão muito distantes no passado, para que se tivesse a oportunidade de encontrar por muito tempo ainda em torno de si muitas testemunhas que dela conservem lembrança. [...]

A história oral de vida se encontra na subjetividade que cada indivíduo traz, como o próprio nome indica, trata-se de narrativa(s) da(s) experiência(s) de vida de uma pessoa ou mesmo de um grupo; e que, por tanto, é esse sujeito(s) que tem maior liberdade para discutir a respeito de sua experiência pessoal.


CONSIDERAÇÕES FINAIS
Identificamos as mercadorias vendidas por esses ambulantes no festival, como por exemplo: bebidas, refrigerantes, balas, crepes, cachorros-quentes, cigarros, entre outros produtos. Segundo relatos, os produtos comercializados poderiam ser mais diversificados, no entanto por falta de estrutura e apoio na logística para o local do festival, ficam limitados a uma quantidade pequena. Caracterizar esse ambulante enquanto sujeito histórico, os vendedores ambulantes têm consciência da contribuição para cidade enquanto vendedores e ao mesmo tempo qual a importância de cada um para a sociedade.

Agora é nesse contexto de relações sociais que se forma esse sujeito que faz parte de um mesmo quebra cabeça e, desta forma, partes atuantes da história individual e de algo maior, a coletividade. Pois esses ambulantes buscam a liberdade na construção de uma cidadania, e é através dessa subjetividade que os sujeitos se transformam em situações coletivas de natureza econômica, política e na interação com os demais sujeitos sociais.

O que percebemos durante a pesquisa é que mesmo contando suas vivências, ainda assim havia uma reserva no que se refere às críticas mais contundentes acerca do festival. Daí a necessidade de aprofundar a pesquisa com um número maior de vendedores ambulantes, para que possamos captar esses fragmentos de histórias do indivíduo e do coletivo.

Enfim, os resultados obtidos neste trabalho nos permitiram compreender que é por meio das lutas diárias que o vendedor ambulante conseguem se inserir, com seu trabalho cotidiano nos eventos organizados pelo município, o qual não tem uma políticas adequadas ou voltadas para esse trabalhadores. Havendo, portanto, desrespeito por parte das autoridades no que diz respeito aos grandes eventos organizados e realizados, e embora com todas as dificuldades encontradas, estão sempre inovando e buscando seu espaço na sociedade. Sociedade essa que nem sempre percebe esse indivíduo como sujeito histórico, cidadão com deveres sim, mas com direitos que devem ser iguais no tratamento não apenas no contexto do festival. Todo esse pensamento levou ao início de um processo de legalização da Associação dos Vendedores Ambulantes. Entendemos que as transformações devam acontecer de forma que todos tenham participação e sejam ouvidos, para que desses fragmentos de desejos e necessidades possam sugir projetos para o bem maior do ser humano, seja ele empresário, artista ou mesmo vendedores ambulantes, sujeito principal dessa pesquisa.


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ENTREVISTAS
BARRETO, Antonio Carlos do Nascimento. Entrevista concedida a Joel Neves da Costa, no dia 30 de dezembro de 2013, às 16 horas, na própria residência.
SANTOS, Rosinete Sousa dos. Entrevista concedida a Joel Neves da Costa, no dia 30 de dezembro de 2013, às 17 horas, na própria residência.
SILVA, José Flavio Gomes de. Entrevista concedida a Joel Neves da Costa, no dia 08 de novembro de 2013, às 10 horas, na própria residência.

1 Formado em Licenciatura em História, pela Faculdade Internacional do Delta (FID) e Discente do Curso de Especialização em História Social da Cultura pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). E-mail: joeljnc@hotmail.com


2 Formada em Licenciatura em História, pela Faculdade Internacional do Delta (FID) e Discente do Curso de Especialização em Ensino de História pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). E-mail: joselia-martins2010@hotmail.com


3 Cf. Santos; Santana, 2010.

4 LIMA, Claudia. Revista Junina. Edição Especial. Recife: Editora Raízes Brasileiras, junho, 1997.



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