O outro mito: a alexandria de durrell



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MARIA DO CARMO SERÉN

O OUTRO MITO: A ALEXANDRIA DE DURRELL

Em Fevereiro de 1944, mergulhado nos interesses da luta britânica, Lawrence Durrell escrevia a Henry Miller, (*) do seu posto no Information Office, em Alexandria: O modo de morrer em Alexandria é muito proustiano e lento, com uma decomposição nos verdes e cinzas. Mas as mulheres são esplêndidas, como os jardins desamparados. (…) a intensidade do sexo e da morte é intolerável.

Durrell é responsável pela ideia moderna e ocidental desta cidade milenária. É a trama geográfica, entre o Mediterrâneo e o Lago Mariotis onde se movimentam os universos de Nessim e Justine, de Clea e Narouz ou de Balthazar, os alexandrinos do seu “Quarteto”. É o lugar onde Mountolive se inventa mas acaba por revelar a sua inconsequência moral e onde todas as vidas privadas amolecem no destino duma cidade que é mais memória do que contexto.

O escritor irlandês, vivendo a conjuntura da mudança do Egipto, (a sua independência em relação à Turquia, decidida no final da 1ª Guerra apenas é acordada como total pelo acordo da Etiópia em 1936), a oscilação entre o apoio ao estado da Palestina ou a guerra contra Israel, compreende que Alexandria está a morrer na sua História. E morre como sempre viveu, não porque fraccionada nas suas etnias e culturas internas, mais ligada à Europa que ao mundo muçulmano, mas porque essa atomização, essa alma quase comum que a anima e esgota, lhe dá ainda riqueza mas não futuro.

O período da guerra, que é também o do governo do último descendente de Mehemet Ali, o colunável rei Farouk, faz Alexandria ampliar o seu papel de primeira cidade comercial egípcia; é a base essencial para o Império Britânico, mas mantém ligações estreitas de base comercial com a Áustria, (donde lhe vinha o café, a manteiga), a Alemanha e os Estados Unidos: os badalados 600 milionários de Alexandria atravessavam a cidade nos seus Packards americanos. Muitos deles dedicam-se às novas indústrias metalúrgicas e químicas, de fosfato e manganês e mandam os seus filhos estudar nos colégios franceses, ingleses e alemães.

De resto, metade da população da cidade costumava, antes da guerra, passar seis meses no continente europeu e consideravam Alexandria a mais oriental das cidades europeias.

Para Durrell, o enriquecimento é a obsessão maior, o dinheiro é o tema de todas as conversas. Aí Alexandria era ainda o que sempre tinha sido: a cidade donde partia o caminho de ferro para Port Sayd, acompanhando o Golfo do Suez, e não fazia, afinal, mais do que actualizar o que sempre a tinha movido, mesmo ao longo da centenária submissão do Egipto ao império turco, a maior e quase autónoma cidade do comércio egípcio, o cais de entrada e saída de muitas riquezas. Fechada de muito mundo e em destruição, Alexandria, apesar dos negócios, afundava-se em stress e apatia.
O “Quarteto” de Durrell vende-se em Alexandria, em francês e inglês, nas livrarias e no Cecil Hotel, que é protagonista como ponto de encontro dos estrangeiros da série literária. Durrell não vive já a efervescência nacionalista provocada por Lawrence da Arábia, o enviado especial de Churchil ao Próximo Oriente, para definir o espaço árabe e sionista controlado pelo Império Britânico depois da derrota da Turquia. Nos anos quarenta, (e é essa Alexandria em decadência de identidade que traduzimos no mito) havia a oposição dos Irmãos muçulmanos, dos quais se dizia que mais de meio milhão tinha sido recrutado nos meios rurais, porque já desde os anos 20, como efeito de Lawrence o nacionalismo só via como recurso o regresso às fontes do Islão, o pan-arabismo.

No Quarteto vemos Nessim aproximar-se secretamente dos alemães e ajudar com armas os palestianos. A oposição que encontramos nesses milhares de páginas que falam da integração dos europeus no universo alexandrino é aquela que Nessim representa: a tentativa dos Coptas, que sempre tinham constituído a alta administração do Egipto, em recuperar o poder que o apoio inglês e francês aos muçulmanos tinha erradicado. Sacrificados no seu estatuto, os Coptas são também os grandes produtores de algodão e grandes comerciantes, aliados naturais do grupo judaico que sempre fora orgânico na cidade. As obrigações da independência exigiam a repatriação dos não muçulmanos, (dos estrangeiros do Egipto) e as famílias judaicas que naturalmente nunca se tinham amalgamado com os restantes habitantes de Alexandria, (gregos, italianos, ou coptas, os descendentes assumidos dos egípcios), e também com franceses e ingleses, construindo as suas linhagens ao longo dos séculos alexandrinos, viam-se obrigadas a partir, muitas delas para a nova nação de Israel. É este fervilhar de oposição oculta e o marasmo dos que começam a entender que a saída de Alexandria não se negoceia, é este cais de partida que Durrell entende que a cidade lhe devolve: o lento morrer proustiano da cidade, a censura aos ingleses, a apatia da impotência. E, como em todos os momentos de crise de identidade, a chamada à superfície do sexo, da consciência da morte, que semeia os desertos vizinhos e se desdobra em massacres que lembram o dos coptas da cidade, chacinados pelo Movimento nacionalista do coronel Arabi, a desesperada ânsia do dinheiro e do hachisch dos seus ricos, a cabala e as sociedades secretas gnósticas dos seus intelectuais.

Alexandria é, então, essa cidade demolida, napolitana leprosa, com as suas casas levantinas a perder a pele ao Sol(**), mas também a cidade que constitui o mistério que dá razão à existência do inglês Mountolive e ao suicídio de Pursewarden .

Para os personagens britânicos do Quarteto o fascínio de Alexandria é, antes de tudo, a amálgama da sua história múltipla, o mito do seu papel de tribunal da cultura europeia, constituído no entrosamento das suas raízes gregas, judaicas ou coptas

No mito acrescentam-se os seus pecados menores, é uma cidade sem gosto pela música e pela arte. As águas castanhas do Mariotis proporcionam, à noite, caçadas de aves marinhas que só o Oriente pode entender; as águas são pesadas e fedem, estertor de restos preguiçosos do Nilo e das lamas expelidas pela brecha tectónica. O mar, que mal se afadiga no cais da Corniche é plano. Sujo, sem vagas. E Justine, que representa a súmula das nacionalidades alexandrinas vive e percorre, com angústias reais e literárias a realidade dos vícios da sua cidade, o imenso prostíbulo que é, para os Ocidentais, a cidade que parece esquecida do seu saber e da sua herança teológica.
E, no entanto, Alexandria, com o seu passado visível no fundo da baía ou nos afloramentos helenísticos que se vão catalogando aqui e ali, progride na islamização. No Quarteto não se fala da Wafd de Zaghul, (***) ou do Partido da União, a revindicação nacional do Golfo do Suez não é aflorada e é uma perturbação atribuída ao abuso da polícia que pode agitar os passeios na cidade alta, junto à estação, ou nos banhos tomados nas praias junto ao istmo do Farol, aí onde a Força X, a armada francesa surpreendida pelo armistício no fim da guerra, ficará ancorada e indecisa até que os efeitos da paz sejam analisados.

A Alexandria do mito convive melhor com os seus distanciados europeus representados pelo protectorado britânico do que com as directrizes islâmicas do Cairo. Essa convivência que é também de descoberta para os europeus, insinua os lugares e os movimentos ocultos ou secretos que se atribuíam a velhos saberes e velhas discordâncias do politicamente correcto. A cidade fez-se de muitas diásporas e de toda a erudição do mundo e, naturalmente, reflecte a fricção dos seus muitos limites. Durrell, irlandês nascido nos Himalaias, soube sentir o que Alexandria tem de mais secreto e sedutor para um ocidental, a decadência forçada de uma cultura que é matricial e que se desconhece nos seus efeitos e maldições.



Maria do Carmo Serén


  • - Lawrence Durrell, Henry Miller, Une correspondance privée, Buchet-Chastel,Paris, 1963

** - Id, ob. cit.

*** - A WAFD foi a associação que representava o Egipto nas reuniões dos Aliados para a independência,

conduzida por Zaghul, que se dizia de origen fellah, acabaria por se tornar o Partido Popular com ideologia

meio liberal, meio republicana; o Partido da União surge precisamente como cisão que reage a essa indefinição.


NOTA: O Quarteto de Alexandria, de L.Durrell inclui 4 títulos em 4 volumes independentes mas interligados:: Justine,,

Clea, Balthazar e Mountolive.

Pursewarten é um dos personagens sempre evocados, escritor de origem alemã que é determinante no conhecimento

das manobras ocultas de Nessim e, assim, do imbróglio político da Alexandria da época.

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