O pai e o três que determina um



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O pai e o três que determina um
Iaci Torres Pádua

Qual a ligação da função do pai com o três enquanto real impossível?

Vou tomar primeiro Freud e, posteriormente, Lacan para discutir essa questão do pai e do três que determina um.

A história, a do pensamento dos homens, mostra que primeiro pensaram que os deuses eram muitos e que vinham do real: os deuses interagiam com os homens, sendo assim, eram reais. Sempre por uma pressão que se mantêm por interesses de poder e, mesmo, econômicos essa suposição de muitos deuses reais é trocada pela de um deus único, que se torna imperiosa e instala o monoteísmo no mundo. Houve depois um novo embate, um embate que demonstra que a lei também é força e que faz pressão. Instalado o monoteísmo, o embate se circunscreve por distinções ao nível das divergências, amenizadas, ao mesmo tempo que fortemente sustentadas pelo império da verdade. Essa divisão do pensamento existente fazia exigência das definições das leis de Deus que se apoiaram na escrita dessas mesmas leis. Trata-se da cisão entre os judeus: aqueles que se transformaram em cristãos, por acreditarem que Cristo era o Messias enviado por Deus, e os que continuaram judeus, à espera do Messias. Os que se transformaram em cristãos estavam em acordo com a escrita das leis sagradas estabelecidas por Paulo de Tarso, por ele como consequência da revelação experimentada do cristianismo, na santíssima trindade, ou seja, o pai, Deus, como três: pai, filho e espírito santo. Esses saberes que emergem são supostos no real que ficam como saber de Deus.

Quando Freud trabalha, em 1925, “Algumas notas adicionais sobre a interpretação dos sonhos como um todo”, diz ele, nessas notas, o que não disse em seus dois livros. Trata-se de um acréscimo suplementar porque dá continuidade ao que ele articula neles, mas que não se encontra lá.

Sabemos que ao se deparar com o desejo inconsciente pela via dos sonhos, Freud toma a via da interpretação como a via real para o conhecimento das atividades inconsciente da vida anímica e se depara com o fato de que o desejo inconsciente é infantil, sexual e indestrutível. Para ele há um trabalho que não pensa, não calcula, não julga, que se restringe a dar às coisas uma nova forma.

E é por seguir trabalhando, para entrar no inconsciente, que Freud se depara com os limites da interpretação e a exigência da entrada do analista por um outro viés: como o analista, em presença, pode mexer nesse sintoma que não cede, por revelar-se também como um gozo, uma satisfação desse sujeito constituído, sustentado por certas cadeias significantes? A interpretação, que até então constituía esse sujeito pelos significantes revelados por sua história, experimentada em sua fala, na análise, agora não traz mais movimento para seguir nessa constituição tão peculiar, chegou-se a um certo limite. Também podemos dizer que se o desejo pode vir revelando-se via significante, a demanda, por sua vez, mantém-se como queixa e reivindicação, movida sempre pelo mesmo desejo. Em sua junção e disjunção, demanda e desejo, via interpretação, não faz relançar a demanda: quando a demanda deixará de ser queixa e passará a ser verdade revelada?

Justamente isso me animou neste título que exige, para pensá-lo e repensá-lo, a necessidade lógica da volta aos passos de Freud que é o pai da psicanálise no que sustenta sua descoberta pelos insistentes relançamentos de sua demanda de entrada no inconsciente. Encontramos esses relançamentos de sua demanda em direção ao desejo inconsciente que leva seu nome. Em Freud é provável que a base fosse essa distinção, amadurecida para ele, entre demanda e desejo. Penso que foi pela sustentação dessa distinção que ele pôde tomar a fantasia da sedução como constituinte do sujeito.O retorno a Freud é o ponto de partida exigido, mas exigido, volto a dizer, por uma lógica.

Para falar das questões do pai, ou do três, impõem-se nesse caminho as questões do desejo. Não é difícil aceitar que para que haja desejo é preciso que haja falta. Como falta sempre há, podemos perguntar-nos quando a falta é uma operação? E quando é uma operação, como ela se processa? Entre outras coisas podemos dizer que a falta opera sempre, não há meios de se ter tudo, não há meios de se falar tudo, assim como há sempre pai quando há filho. Porém, quando há alguma contagem do pai, há algum valor de entrada do pai enquanto função, por ser representante dessa falta? A radicalidade da função paterna para o sujeito do inconsciente situa-se por trazer um termo a essa falta, um termo que marca a falta como falta. O pai é um representante possível da falta que faz com que o desejo inconsciente seja uma questão se o sujeito está em condições de tomar suas questões como próprias do ser falante. Por isso é tão importante a diferença entre demanda e desejo. Uma diferença possível, na direção do que Freud nos trouxe, somente é possível à medida que uma outra diferença já se tenha estabelecido, a diferença entre o outro e o Outro.

Como no grande Outro não há a mínima relação, trata-se do Simbólico, trata-se dos equívocos, trata-se da linguagem. E por se tratar dela, da linguagem, o outro se distingue pelo sentido que a linguagem lhe traz. Distinguido pela articulação na linguagem, o estatuto do outro depende desse sentido que ela lhe dá.

Temos muitas dificuldades nestas distinções porque se há alguma exigência, alguma necessidade para o ser falante é a necessidade de discurso. Uma necessidade que não é fácil de ser detectada enquanto tal porque o que o força é uma pressão, um atiçamento para viver o que é do sexual, e como as condições desse sujeito são as das pequenas diferenças, que entram pela função paterna, o sujeito se apresenta apressado, precipitado para o que é do gozo sexual, tal como sonha ter experienciado nos primórdios, em algum tempo, um tempo perdido.

Tanto os homens como as mulheres acabam, os dois, movidos por um único gozo, o fálico, pelo mesmo desejo, desejo de falo. Como o significante é imperioso ao articular-se em relações, ao produzir relações que se traduzem em saber faz volume, quentura, entumescência no lugar da falta, no lugar do desejo, mas o desejo como desejo não é ereção, desejo não é gozo. Se desejo é falta, manter a equivalência entre desejo e ereção é manter o desejo como gozo perverso o que inviabiliza a entrada do fantasma como a outra cara do desejo.

Atravessar o fantasma seria a chance de passar por essa junção e essa disjunção do um e do três. Seria a chance de colocar o real da experiência da análise ao nível do um que falta, do um da fenda, do um que não coincide com o um da unidade, do um que não é inteiro com a mãe, do um que não é efeito do dois, do um que não é o um da tirania que a história mostra, justamente por submetê-lo, esse mesmo, como verdades primeiras a questionamentos lógicos.

A questão é chegar ao fato de que não somos nosso semelhante, nem somos um dizer ou um dito e que um ser é ser significante, que entra no real como um efeito de articulação de uma cadeia significante que não é o sujeito, mas também não somos o sujeito.

O ponto de partida no pai, por onde alguma coisa faz diferença, é ponto de partida para o sujeito, portanto, isso quer dizer que não se encontra em seu horizonte, de início, do que se trata quando se fala do sexo para o ser falante. O que seria para ele a heterossexualidade? Esta complexidade dada pela entrada de algum termo como representação da falta, por ser um, já sendo três, por isso mesmo, por ser também um, pode nunca entrar, pelo fato de o pai manter-se em sua potência, de onde pode nunca cair por não tomar a triplicidade do espaço do ser falante, por não triplicar nunca essa triplicidade.

Freud quando apontou a articulação do Complexo de Édipo com o Complexo de Castração como o que permitiria, pela via do Édipo positivo, o ponto de partida para a entrada da falta como função, articulou os dois Complexos. Faz assim emergir o real do ser falante aí, na experiência do sujeito na análise, que demonstra que a produção da metáfora paterna testemunha, no sujeito, uma fenda cada vez mais irrecuperável. Se a estrutura dessa fenda equivale à estrutura do objeto a no fantasma do sujeito, como podemos aproximá-la desse espaço do ser falante com seus três registros: o Real, o Simbólico e o Imaginário, enlaçados pelo pequeno a, pelo outro? A estrutura do dizer, a dit-mension, comporta esses três registros que se ligam entre si e não deixam de implicar a metáfora paterna. O que me parece é que, para Lacan, essa consistência dos registros nos dá o errar da metáfora, um desvio, um lançamento que mostra a debilidade mental, o corpo enquanto vivo, do sujeito em jogo. Uma maneira de fazer emergir a demanda como verdade, o que permite que ela se apresente e, quem sabe, seja questionada. Se puder ser questionada quem sabe pode ser agora um saber a ser inventado?

Lacan nos situa a respeito de sua posição: ele enuncia que só se poderia fazer a partir do simbólico, da palavra , que a consistência desses três registros se suporte pelo Real exatamente porque ele se utiliza do desvio de sentido, do desvio de metáfora que é permitido entre R, S e I, como diferenciando esses três registros, especificando-os como tal. Então, o pai tem a ver, por um lado, com a falta, como diretamente ligado ao desejo e, por outro, com a diferença. Há muitas dificuldades também para esse sujeito lidar com seu desejo: não para de querer ser o outro, de querer ter o que o outro tem, assim como está sempre preocupado com o sexual, seja porque se excita muito, seja porque não se excita há muito tempo. Esse sujeito Lacan nos apresenta como subdesenvolvido discursivamente: um sujeito movido por um desejo infantil, sexual e indestrutível, mantido por uma demanda que é sempre a mesma porque o desejo não muda em uma estrutura que não dá o braço a torcer.

As boas novas com que Freud se deparou em 1925 e que ficaram por muito tempo fora da coleção de seus textos, pela ordem de um dos analistas colega de Freud, é que esse desejo, o desejo inconsciente, é mesmo sexual, é mesmo infantil, é mesmo indestrutível, mas que é indestrutível pela via da interpretação. E que é diante dessa indestrutibilidade que um analista pode, repito, em presença, encontrar uma outra via para entrar em função; que, por seu desejo possa dar suporte ao par analista/analisante, na tarefa propriamente dita do analisante, que é tomar em seu dizer o objeto que tem sido para se proteger da falta como falta. A perda desse ser significante pode possibilitar o desejo da máxima diferença.

Há um limite para essa significação que se mantém oculta a qualquer preço, um limite que se apresenta no próprio desejo como interpretação do sujeito. A interpretação como desejo, ou o limite da interpretação em relação ao desejo, aponta um determinado sentido pelo três. Esse sentido, se ele dá o estatuto do outro, podemos tomar esse outro como operador nos diferentes efeitos da fala. Ele tanto pode ser o outro do espelho, aquele que suporta, inicialmente, de forma antecipada, alguma existência do sujeito; o outro, que faz um signo, que, por sustentar alguma diferença também faz equivalência; e, se pode fazer uma equivalência, pode ser que possa ser um significante que sobra, aquele que faz a entrada da diferença ao nível da sexuação do sujeito.

Pode ser que o sujeito possa não mais ceder frente à oferta infantil do outro de ser para ele seu sedutor. Pode ser que o sujeito possa não mais querer preencher, por vaidade, o lugar da imagem real do outro, oferecendo-se como seu objeto de amor. Em suma, pode ser que o sujeito possa deixar a paixão por seu “magnífico” ser. Agora, talvez meras desculpas, estratégias, para não sustentar a necessidade lógica de avançar discursivamente, o que lhe exige um trabalho a mais com a redistribuição, no artefato de discurso, das letras que podem autorizá-lo como analista, assim como se autorizou, em algum tempo, na emergência do real, por um grupo, ou seja, sozinho e por outros , como homem ou como mulher.

Se há essa redistribuição pelo a, pela invenção do saber inconsciente, enquanto letras que se redistribuem, essas letras autorizam o analista, que também se autoriza por si mesmo e com outros. O a, o outro como significante que sobra não sendo mais que letra, testemunha três sentidos distintos: o Simbólico, pelo equívoco fundamental com alguma coisa que está estruturada assim como está estruturado o Simbólico, que é o que sustenta o inconsciente; o sentido do Imaginário, que é uma resposta dessa alguma coisa que é diferente do Simbólico, que coloca o ser falante destinado à debilidade mental; e o Real que toma, dessa alguma coisa, “alíngua”, assim tudo junto, aquilo que ressoa.

Há um certo tempo lógico em que a função paterna é testemunha da entrada no três da via de acesso real.







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