O passado como presente mais ou menos invisível: percorrendo as memórias dos ciganos assentados em sobral, ceará Liana Liberato Lopes carlos (Autora)



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O PASSADO COMO PRESENTE MAIS OU MENOS INVISÍVEL: PERCORRENDO AS MEMÓRIAS DOS CIGANOS ASSENTADOS EM SOBRAL, CEARÁ


Liana Liberato Lopes CARLOS (Autora)

Mestranda da linha de História da Educação Comparada – FACED-UFC

lianallopes@hotmail.com

Maria Juraci Maia CAVALCANTE (Orientadora)

Investigadora da Linha de História da Educação Comparada – FACED-UFC

juraci.cavalcante@ufc.br

RESUMO
Este artigo trata da chegada dos ciganos assentados na cidade de Sobral-CE, especificamente no Bairro Sumaré. O caminho escolhido para o debate teórico-metodológico tem por base o pensamento de Bloch (2001) e Barros (2007). Para entender o significado da história oral, contamos com Thompson (1992) e Bosi (1994); no que se refere ao campo da História Cultural, temos em Certeau (2000) uma importante referência; nos estudos de Nunes (1996), Lopes (2008) e Veiga (1993) estabelecemos uma primeira aproximação ou nexo comparativo com movimentos ciganos em Portugal, ainda que não tratemos deles diretamente, recolhemos aspectos culturais definidores da cultura cigana. Utilizamos como fonte primordial essa literatura, razão pela qual definimos este trabalho como cotejo articulado de uma revisão bibliográfica em fase exploratória de investigação; os relatos orais colhidos por meio de entrevistas ofereceram a faceta empírica desse estudo. O seu resultado nos revela que o caminho que nos aguarda envolve uma tessitura conceitual complexa, não só pela incerteza das questões teóricas que envolvem o tema, mas também pela complexidade histórico-educativa que reveste o mundo dos ciganos.
PALAVRAS-CHAVE: Cultura. Identidade. Educação Cigana.

Introdução
O presente artigo está dividido em dois tópicos. Primeiro, falaremos da chegada dos ciganos a cidade de Sobral e do processo de sua fixação ocorrida no Bairro Sumaré. Em seguida, apresentaremos as narrativas de dois ciganos, com intuito de compreender o passado como um presente invisível. É nesse instante que abrimos um debate e, ao mesmo tempo, alargamos o tema em questão para adentramos no processo educativo interdisciplinar, pluralístico e dinâmico, como um dispositivo de entendimento a ser usado no campo historiográfico comparativo. Por essa razão, é que entendemos que a pesquisa científica com os ciganos é um campo complexo, movediço e multifacetado por incertezas e estranhamentos. É partindo dessa premissa que tomamos como ponto de partida algumas indagações e passamos a nos questionar: o que significa uma educação cigana? Como pensar uma educação com os ciganos? Como constituem sua identidade? O que a sociedade tem a dizer sobre essa comunidade? O que os ciganos têm a dizer dos não ciganos? E mais, o que a história tem a dizer sobre o assunto?

Este trabalho é um recorte de nossa pesquisa de mestrado iniciada no ano de 2014, na linha de pesquisa História da Educação Comparada (LHEC), na Universidade Federal do Ceará. Nossa investigação tem como tema: Os Ciganos em Sobral, Ceará, tradição, cultura e educação: processos históricos em perspectiva comparada. A ideia geral tem sido discutir e ampliar o olhar educativo de forma mais aguçada, transitando na contra mão da educação estudando as comunidades minoritárias que estão à margem da sociedade atentando para os aspectos sociais, políticos e históricos que envolvem o homem e o tornam sujeito desse processo.

Compreendendo a educação como um processo de reconhecimento constitutivo da diversidade cultural, nos permitimos aqui conceber o território multifacetado de contradições e peculiaridades que emergem na sociedade. É nessa diáspora de complexidades que buscamos, neste artigo, entender a educação como um movimento heterogêneo, de diferenças e similitudes.
Os ciganos de Sobral: da migração à sedentarização
Mais do que olhar para trás, o desafio que temos é situar a chegada desses povos como um momento histórico de estranhamento e indiferença frente à sociedade não cigana. Nas palavras de Michael Strewart “os ciganos fazem parte do nosso mundo, e, todavia são distintos da maioria de nós; habitam um mundo que nos é familiar, mas parecem oferecer um modo alternativo de estar nesse mundo” (STREWART, 1997, p.12). Concordamos com o autor, pois independente do lugar onde se encontrem e para onde vão, por mais distintos que sejam entre si, os ciganos partilham esta condição paradoxal e ambígua. Partindo desse pressuposto, passaremos aqui a fazer alguns registros sobre a chegada do grupo Cigano à cidade de Sobral, situada na zona norte do Ceará.

Segundo Nunes (1996), a liberdade e o nomadismo identificam os ciganos, pois eles não se apegam nem à terra onde nasceram. No caso em estudo, recolhemos evidências de que o ano de 1935 pode ser tomado como sendo o da chegada da primeira caravana de ciganos à cidade de Sobral. Valdemar Pires Cavalcante foi o primeiro cigano que adentrou a esta cidade, juntamente, com seu grupo. Nessa época, os ciganos costumavam viajar da Bahia ao Maranhão e as primeiras paradas eram na cidade de Sobral. Com a autorização do delegado de polícia da cidade e de políticos como Chico Monte e o Juiz Dr. José Sabóia os ciganos paravam para acampar debaixo das Oiticicas às margens do Rio Acaraú, local onde se assentavam para contar histórias, caçar, pescar e contemplar a natureza.

Conforme a literatura consultada, ainda segundo Nunes (1996), os ciganos amam a natureza como ninguém, porque ela lhes proporciona um cenário onde decorrem os melhores momentos de suas vidas. Ao redor da fogueira costumavam sentar e tocar violão. O bater das águas e o balançar das folhas nos galhos das árvores inspiravam a todos que ali se encontravam; o deslizar dos dedos ao som do violão, ecoavam nesse cenário a paz e a serenidade. Por amor à liberdade fizeram-se nômades, e assim eles têm vagueado durante séculos à procura de um fresco vale e de um lugar para fixarem-se encontrando em seus caminhos e rotas da vida, Sobral, que foi a primeira cidade escolhida por eles onde até hoje vivem.

O Capitão Valdemar Pires Cavalcante - como era chamado - nasceu em 26 de maio de 1917, na cidade de Jequié, no estado da Bahia, foi casado com Durcia Pires Cavalcante, também cigana. Por ser um casal estéril, Valdemar e Durcia adotaram quatro crianças - chamadas de Osório, Cláudia, Conceição e Valdemar - que algumas ciganas deixaram órfãs, sendo que todos agora já são adultos. Filho de uma família de nove irmãos, sendo três homens e seis mulheres, Valdemar era o mais velho dos três homens, tendo como Patriarca o casal cigano Antônio Pires Cavalcante e Jovelina Pires Cavalcante, todos provenientes do sertão baiano. Capitão Valdemar levou algum tempo para decidir fixar residência na referida cidade.

Após vinte anos de sua chegada, no dia 15 de julho de 1955, o tenente-coronel da Polícia Militar Leôncio Botelho, também delegado da 7ª Delegacia Regional de Sobral, atestou em documento, que, "revendo nos livros o rol dos culpados desta delegacia, nenhuma nota havia sido registrada em desabono à conduta de Valdemar Pires Cavalcante, com 37 anos de idade, negociante ambulante de animais".

No ano de 1974, em Sobral ocorreu uma grande enchente, inundando boa parte do Bairro Dom Expedito, momento em que os ciganos tomaram novos rumos “o destino derradeiro da vida”. Como já eram conhecidos por todas as autoridades locais como destemidos e desbravados, o Alto do Facão, foi o local escolhido pelos ciganos para fixarem moradia. O bairro recebeu esse nome porque alguns valentes das famílias que ali moravam brigavam entre si e quando isso acontecia só falavam em puxar o facão. A polícia não entrava no bairro para fazer patrulhamento. Com a chegada dos ciganos, o bairro passou a ter outra configuração, uma vez que eles próprios, à noite, começaram a fazer o patrulhamento do bairro. Posteriormente, o referido bairro passou a ser chamado Alto do Sumaré, o motivo desta vez foi o fato dele ter sido batizado pelo prefeito de Sobral, o Sr. Antonio Frota Cavalcante (1951/1955). Ele costumava ir até o alto da cidade e dizia “o meu Sul é uma maré por motivo do volume das águas”; viam-se lá de cima as correntezas das águas que desciam do Açude Jaibaras e do Rio Acaraú.

O senhor João Cardozo do Nascimento1, sendo o primeiro morador do bairro e em suas andanças procurando um lugar para se abrigar com sua família, encontrou naquela época ali uma espécie de paraíso, “só tinha uma casa, muita árvore, a ventilação era forte só se ouvia apenas os cantos dos pássaros, a noite fazia medo porque era muito escuro, em noite de lua clara tudo era melhor”. Tomando conhecimento da frase dita pelo prefeito juntou as letras retirou o l e ficou Sumaré, passando a ser chamado Bairro Sumaré. No Alto do Sumaré passa a estrada de ferro Sobral/Crateús e a estrada BR222 de Fortaleza/Teresina.

Ao relatarmos a história do Bairro Sumaré não podemos fazer um divisor de águas. Sabemos que os ciganos fazem parte dessa história, como afirma Thompson (1992), o que faz parte de nós mesmos e que pode estar ali adormecido como uma tatuagem nos possibilita lembrar a cada dia da sua existência. Portanto, relatar a história do bairro é entender como parte dela, a existência dos ciganos.

Hoje temos no Bairro do Sumaré aproximadamente 150 ciganos. Alguns já saíram e seguiram outros destinos, viajando. Os ciganos que moram no bairro não são nem ricos nem pobres. Suas casas são simples, algumas com chão batido, de porta e janela. Entretanto, o que não falta é a receptividade com os que deles se aproximam. Os trabalhos e o meio de sobrevivência são os mais diversos. Os ciganos mais velhos não deixam a tradição morrer, alguns atendem em suas casas, fazendo a leitura de mãos, jogos de cartas e búzios. Outros já têm seus clientes e se dirigem todos os dias pela manhã para a porta da Santa Casa de Misericórdia, ponto estratégico para os ciganos como uma forma de arrecadar o sustento para a família, além de ser um local onde já são conhecidos e que já frequentam há mais de trinta anos. Alguns vivem da aposentadoria. Os mais jovens trabalham no comércio e estudam.
Um olhar de indiferença e estranhamento
Com base nos estudos de Lopes (2008), não foram certamente os ciganos que se autodefiniram como ladrões, vigaristas, chicaneiros ou traficantes, mas é sob esse prisma negativo que, de forma globalizada continuam a serem olhados por todos. Portanto, toda essa indiferença remonta também ao baixo nível socioeconômico em que vivem. Conforme as palavras do autor, essa afirmação nos remete a uma reflexão profunda no que diz respeito ao processo de exclusão social dos ciganos. Instituiu-se um olhar de ordem negativa a respeito desses grupos étnicos, enquanto grupos constitutivos de uma realidade mundial que não pode ser negada e, por isto, vivem em situação de desvantagem.

Debatendo o pensamento de Walter Benjamin, Konder (2009) afirma que o legado que recebemos, está profundamente marcado por ‘expurgos’ promovidos pelos opressores, por exigências reprimidas, pela esperança dos oprimidos que foram sufocadas. É assim que se constitui a história dos ciganos, como grupo social em risco de exclusão e que se autoafirma como grupo social a parte. Os ciganos compõem grupos portadores de certos complexos culturais que os individualizam e os distinguem das culturas nacionais não ciganas (NUNES, 1996). O pensamento desse autor nos convida a mergulhar na perspectiva dos mais diversos tipos de comportamentos existentes, quanto a um grupo social heterogêneo de raça, cultura valor e identidade. A nossa representação simbólica é o que nos diferencia uns dos outros, sendo assim, podemos dizer que, enquanto sujeitos construtores da história, estamos imersos em um pluralismo cultural.

Para Morin (2011), o ser humano é a um só tempo, físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico. É nessa complexidade da natureza humana que devemos nos articular como parte de uma sociedade que comporta os mais diversos saberes que nela existem, reconhecendo que a diversidade cultural é inerente a tudo que é humano.

Os ciganos são solidários entre si, formam grupos a parte e isolam-se uns dos outros (NUNES, 1996). Em determinadas situações, eles se automarginalizam quando se sentem em situação constrangedora ou ameaçada; usa a sua língua (o caló) como autodefesa, diferenciando-se assim dos não ciganos. Apesar de viverem em grupos mais isolados ou restritos, existem casos de agressões entre eles próprios, provocados por vinganças e rivalidades entre as famílias, rixas entre os ciganos nômades e sedentários. Analisando as estratégias utilizadas pelos ciganos como uma forma de autoafirmação de sua identidade cultural, conceito retirado de Certeau, este nos revela que:

Estratégias são intervenções do homem no mundo a partir de um lugar próprio. Elas são capazes de produzir, mapear e impor espaços. As estratégias demandam um lugar suscetível de ser circunscrito como próprio e ser base de onde se pode gerir as relações com uma extremidade de alvos ameaçados. (CERTEAU, 2000, p.99)

Na vida cigana, quando essas situações acontecem, ocasionam migrações. Em poucas horas, os ciganos abandonam o território e os membros de um determinado clã têm a obrigação de defender o restante dos membros do mesmo clã, quando são agredidos e insultados. Quando há morte, os campos de contrariedade se limitam, se um pisa no campo do adversário se sujeita à vingança. (NUNES 1996, p.175). Tais estratégias de agressões enfrentadas no meio cigano são uma forma de reestruturação e reorganização do clã. Para Nunes,

Os ciganos vivem e permanecem coesos, dizer que a coesão existe não quer dizer que ela seja sempre uma realidade. Destarte, os ciganos formam no mundo um mosaico de pequenos grupos diversificados onde existe sempre um pequeno etnocentrismo grupal. Pode haver dissídios entre linhagens de um mesmo grupo e então a coesão é quebrada. (Op. Cit., 1996, p.170)

Com base nas palavras do autor, observamos que dentro de um mesmo grupo nos identificamos a partir das diferenças existentes enquanto, INDIVÍDUO, parte da SOCIEDADE e da ESPÉCIE HUMANA. É nessa heterogeneidade do mundo em que vivemos, por meio dessa oposição, nesse contraste e nas diferenças que nos tecem, é que se traduz a multiculturalidade e a diversidade do ser humano.



As vozes que ecoam lá do alto: Valdemar e Benoar

Um abismo entre o presente e o passado mostra-se valiosíssimo, uma vez que um tanto se perdeu e outro tanto se conservou na oralidade. É o caso do grupo de ciganos assentados na cidade de Sobral, no Ceará. Conforme Nunes (1996, p.23), “as fontes históricas do povo cigano são muito numerosas, no entanto, muito dispersas, precisamente por tratar-se de um povo nômade e possuírem uma língua ágrafa”. Reconhecemos aqui os ciganos, como agentes da história e sujeitos da memória, do esquecimento e do saber.

Por essa razão, trazemos para esse debate as narrativas de dois ciganos mais velhos do Bairro, Sumaré: Sr.Valdemar Pires Cavalcante2 e o atual líder, o Sr. Benoar Pires Cavalcante3, sobrinho mais velho de Valdemar. Benoar é a referência dos ciganos alocados no bairro, homem de muita presteza e de uma memória sensível, acolhe a todos que dele se aproxima. Sejam eles, pesquisadores, jornalistas, estudantes, professores e demais curiosos que buscam saber a história dos ciganos em Sobral. O Sr. Benoar é um protótipo, é uma memória viva dos ciganos que já se foram e dos que ali permanecem. Como o garimpeiro garimpa o ouro, Benoar, com sua diáspora linguística faz uma circularidade no tempo e no espaço trazendo as lembranças que o faz ser cigano. Com sua voz mansa, ele vai redesenhado e configurando em sua polifonia discursiva e rica de magias, mistérios, mitos e lendas, as histórias acerca do “SER CIGANO” atraindo, assim, a todos com suas reminiscências usando a oralidade como fonte de representação histórica desse povo. Ir ao Bairro do Sumaré e não visitar Bena é desconhecer a história dos ciganos em Sobral-CE.

Cada um escolhe o seu passado e essa escolha nunca é inocente (CHESNEAUX, 1995, p.25), em outras palavras, não há neutralidade em qualquer forma de abordagem, em qualquer forma do passado. É neste sentido que se faz necessário mergulhar nas águas do passado, a partir das lembranças que afloram no esquecimento e no saber do Sr.Valdemar e Sr.Benoar. Conforme Pinto:


[...] A memória afirma-se diferentemente da história pela capacidade de assegurar permanências, manifestações sobreviventes de um passado muitas vezes sepultado, sempre isolado do presente pelas muitas transformações

, pelos cortes que fragmentam o tempo. Memória como lugar de persistência, de continuidade de viver como capacidade de viver o hoje inexistente.Ao realizar essa projeção do passado no presente identificamos as marcas de uma continuidade pouco notável, a memória nega a alteridade do que a história sempre trata:onde a história encontra diferenças a memória produz semelhanças, lógicas regularizadas. (PINTO, 1998, p.293)


Esse relato nos remete a uma forte reflexão acerca da oralidade do povo cigano. A cultura, as tradições e as narrativas ciganas se refazem e se constituem na oralidade. Para Valdemar e Benoar, “a memória é um fenômeno sempre atual, um fio vivido num presente eterno; enquanto a história, uma representação do passado” (PINTO, 1998, p.298).

A voz de Benoar: do nomadismo à sendentarização

Com relação à chegada do grupo no Bairro de Sumaré, Sr. Benoar explica que naquele momento ainda eram conhecidos como nômades e ficaram mal vistos porque os moradores do Sumaré eram mal vistos pela população, e não queriam que os ciganos habitassem aquela região. Para Bloch,

O objeto da História é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais que o singular, favorável à abstração, o plural que é o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. Por trás dos grandes vestígios da paisagem, [os artefatos ou as máquinas] dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas no máximo um serviçal da erudição. (BLOCH, 2001, p. 54)
O autor nos aponta uma reflexão importante acerca da história dos ciganos. Ele nos direciona para observarmos as histórias e andanças desses sujeitos históricos pelo mundo. Poderíamos dizer que esses grupos étnicos buscam seus direitos na tentativa de serem visibilizados como protagonistas de uma cultura e de uma história de alteridades. Tatear o passado desses povos é nos reconhecer como parte dessa existência.

Para Alfredo Bosi (1992), as datas são como “ponto de luz”, assim, no caso em estudo, precisamente em 1974-1975, Benoar expõe que nesse período em que os ciganos vieram para o dito bairro os maus elementos da comunidade, não deixavam o comandante, junto com a polícia militar subir para o alto do Sumaré, e quando subia era uma dificuldade, devido às estradas não prestarem, esses elementos viviam casando e batizando na região. Tanto é que, na época em que os ciganos já eram conhecidos pela boa conduta na cidade, o coronel José Nicodemus de Araújo (que era o militar e ordenava na cidade) mandou chamar seu padrinho, Sr. Valdemar Pires Cavalcante, sendo o mesmo, o líder da comunidade cigana de Sobral e o chefe dos ciganos, para dar uma ordem, perguntando quantos homens na época tinha na família, com base de sessenta homens, disse ao chefe dos ciganos que só não podiam era matar e nem fazer danações, mas era para pegar os maus elementos e “meter a peia” e deixar vir só o recado para polícia. Toda noite se juntavam entre 8 a 10 homens, que faziam o patrulhamento no Bairro Sumaré.

Os ciganos, nessa época, ajudaram as autoridades a entrar na comunidade para executar os seus trabalhos em prol da segurança do bairro. Para Bosi (1994, p.19), “a memória das sociedades antigas se apoiava na estabilidade espacial e na confiança em que os seres de nossa convivência não se perderiam e não se afastariam”. São visíveis e assinaláveis as diferenças e disparidades que encontramos entre os ciganos.

Embora enfrentando as resistências de exclusão da sociedade não cigana, esses grupos se colocam como grupos que fazem sua história, e é essa história que fundamenta um povo, uma vez que ela é comum a todos os seus membros. É perceptível na entrevista com Sr. Benoar, que as lembranças afloraram tranquilamente sobre a comunidade cigana, e mesmo que para os de fora pareça sem sentido, tudo está ligado para ela, por meio de uma invisível teia de lembranças. Um dos seus sonhos que nos foi revelado nas entrevistas realizadas é a “implantação de uma escola cigana para as crianças, pois acredita que a tradição cigana, a cultura e a linguagem são referências que faz do cigano ser ‘puro”. Quando isso não é preservado vai se perdendo a ciganidade, afirma Benoar4.



As vozes que ecoam lá do alto: identidade e etnia, uma problematização
A autonegação e autodepreciação de características étnicas é frequente entre ciganos, como afirma Lopes (2008). Em uma das entrevistas com o Sr. Valdemar, ele nos relatou que:

“Os que vão nascendo e crescendo não adquirem mais de seus pais, o dialeto, algo marcante na identidade do ser cigano. Com o decorrer do tempo crianças e jovens vão sendo acometidos de uma espécie de desafeição ao dialeto ficando restrito aos mais velhos e por esses não serem eternos o destino da linguagem cigana é a extinção.”5

Algo nos chama atenção na fala do Sr.Valdemar, pois o simples observar, o meio social em que essas crianças vivem e se desenvolvem, nos revela que este condiciona a formação e o desenvolvimento da identidade cigana como grupo étnico. Para Lopes (2008, p.180) “[...] a identidade étnica não é um dado constante, não se apresenta como estado ou atributo definido de uma vez por todas”. Um processo social que nos move a pensar acerca da não preservação da linguagem cigana é aculturação que os ciganos sofrem. Para o Sr. Valdemar essa é uma das questões preocupantes do grupo cigano.

Diante do exposto, estamos diante de uma problemática que envolve o confronto cultural entre códigos diferentes. Sendo assim, podemos abordá-la sob o prisma da comparação. Barros (2007) afirma que a perspectiva de Bloch é uma história comparada de problemas e não de curiosidades ou meras factualidades. Isto nos ajuda a pensar que essa não é uma problematização posta somente na comunidade cigana do bairro Sumaré, mas um fenômeno social complexo, que se estende aos demais grupos étnicos espalhados pelo mundo afora.

O Sr. Valdemar relatou também sobre o modo de vida da comunidade não cigana ser mais forte que os de uma pequena comunidade cigana. Ele nos revela que as jovens, e principalmente as jovens, se aculturam de tal modo, a ponto de renegarem suas próprias origens, como se esta constituísse demérito ou desonra. Isto é visível na fala do Capitão Valdemar: “mas quero que se veja, mas num tem... tem jeito, não. Pá, Pá, ajeitar. Os mais novo, esse novo de hoje, inda mais as moçadinha nova, elas num querem nem dizer que são mais cigana.” 6

Diante dessa fala do Sr. Valdemar, afirmando que “muitos valores se perderam depois que se misturou os ciganos com os não ciganos, a intinerância acabou, mas a ciganidade, não”7, observamos que ao longo do tempo muito coisa vem se remodelando na história dos ciganos no bairro Sumaré. Diante disso, abrir as cortinas e adentrar no caminho de alargamento para a pesquisa que ora executamos no bairro Sumaré é compreender o passado como um presente invisível. É percorrer em um território como parte globalizada de um conhecimento historicamente acumulado pelos grupos étnicos ciganos.


Considerações Finais
É uma tarefa exigente a atividade de reconstrução no campo educativo, em especial, quando se busca desenvolver pesquisas acadêmicas com os ciganos, os quais por ora se encontram em risco de exclusão. Fica claro que só isso não nos basta, mas foi pensando neles e na sua cultura quase desconhecida por nós, que percorremos esse caminho.

No fundo, estamos todos conectados em nossa formação, enquanto raça humana, tornando impossível conviver em sociedade, sem a compreensão de nossas origens, culturas e tradições. Reconhecer-nos como ser humano é antes de tudo nos situarmos e não nos separarmos desse universo que nos move como ser político, cultural e histórico, sobretudo em face do chamado processo de globalização, em que se encontra o mundo atual.

Acreditamos que pesquisar os ciganos nos possibilita desvendar liames imprescindíveis no campo do saber de feito cultural. Por se tratar de um grupo étnico esculpido por meio de uma diversidade cultural advinda de tradições formadas em outros territórios e vivências sociais. Antevemos nessa mistura cultural de que os ciganos são portadores, que eles podem ser vistos como modelo para o que está sendo tecido hoje, quando se fala de um novo modelo de vida em sociedade, com novas perspectivas sejam elas pluralísticas, interdisciplinares e dinâmicas. São esses contornos de diferenças que nos desafiam a exercemos a atividade de investigação, sabendo que tais aspectos compõem nossa condição humana, feita também de similitudes, nesse universo tão desigual, desintegrado e instável, que ora vivemos.

Afinal, os tempos de hoje são líquidos e a globalização tem consequências humanas, como nos ensina Bauman (1999), as identidades se tornam cada vez menos nítidas, e, sendo assim, se torna mais fácil entender à história dos ciganos, como povos migrantes e culturalmente capazes de culto tanto à sua singularidade, quanto vulnerável à sua dissolvência no outro que o cerca.


Bibliografia
BARROS, José D’Assunção. História Comparada. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro, Zahar, 1999.
BESSA, José Rogério Fontenele. O Projeto Comunidade Cigana de Sobral. O Povo, Fortaleza, Ceará, Caderno Opinião, 15 de novembro de 1997.
BLOCH, Marc. Apologia da História ou ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo. Companhia das Letras, 1994.
BOSI, Alfredo. O tempo e os tempos. In NOVAES, Adauto (Orgs.). Tempo e História. São Paulo: Companhia das Letras. 1992.
THOMPSON, Paul. A voz do passado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
CAVALCANTE, Maria Juraci Maia; QUEIROZ, Zuleide Fernandes e outros (Orgs.). Escolas e Culturas: políticas, Tempos e Territórios de Ações Educacionais. Fortaleza: Edições UFC, 2009.
CAVALCANTE, Maria Juraci Maia; HOLANDA, Patrícia Helena Carvalho e outros (Orgs.). História da Educação Comparada. Missões, Expedições, Instituições e Intercâmbios. Fortaleza: Edições UFC, 2013.
CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: artes de fazer. V.1.5.ed. Petrópolis: vozes, 2000.
DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. História Oral: memória, tempo, identidades. 2. ed. Belo Horizonte: autêntica, 2010.
FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51ª ed. São Paulo: global, 2006.
LOPES, Daniel Seabra. Deriva Cigana. Um estudo etnográfico sobre os ciganos de Lisboa. 1ªed. Lisboa: ICS. Imprensa de Ciências sociais, 2008.
NUNES, Olímpio. O Povo Cigano. 2ªed. Artes Gráficas, Ltda. Águeda. Lisboa, 1996.
VEIGAS, Alberto; SILVA, José João Sá e. Ciganos: Álbum de Fotografias. Edições Colibri. Série especial. Lisboa, 1993.
Fonte manuscrita
Cartas de Maria Cardozo do Nascimento. Acervo pertencente à Ana Maria do Nascimento, filha de Dona Marizor.
Fonte Oral
Entrevista - Sr. Waldemar Sobral, ano: 2012

Entrevista - Sr. Benoar Sobral,março/abril-2013




1 O Sr.João Cardozo do Nascimento pai de Dona Maria Cardozo do Nascimento conhecida como Dona Marizor foi o primeiro morador do bairro. Dona Marizor em seus escritos nos relata a chegada dos ciganos no bairro.

2 Valdemar Pires Cavalcante - foi o primeiro líder dos ciganos. Morreu aos 97 anos, no dia 26 de outubro de 2014. Homem de mérito e respeitado por todos.


3 Sr. Benoar nos autorizou seu nome na entrevista.

4 Entrevista realizada no assentamento cigano nos meses de março e abril de 2013 com Sr.Benoar.

5 Entrevistas realizadas com Sr.Valdemar em maio de 2012.


6 Entrevistas realizadas com Sr.Valdemar em maio de 2012.


7 Entrevistas realizadas com Sr.Valdemar em maio de 2012.



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