O pensamento sociológico de karl marx



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A teoria

Marx desenvolve um método de análise da realidade social que ele espera possa produzir resposta às questões novas que ele pretende abordar. Em certa medida, Marx vai criar um método novo, que se pretende capaz de explicar cientificamente o funcionamento da história e ao mesmo tempo romper com o idealismo reinante na filosofia, onde a realidade não apenas era explicada como era a própria expressão da vontade das idéias.

O que significa isso?

Para Marx, até aquele momento não havia nenhuma maneira de explicar a realidade que fosse desvinculada das idéias daqueles que queriam compreendê-la. Ou seja, as explicações filosóficas e políticas partiam de uma idéia geral, formulada nas cabeças daqueles que a pensavam, que explicava a realidade a partir de teorias, crenças, idéias, já pré-estabelecidas. Por exemplo, as religiões possuíam explicações para o funcionamento da sociedade e o próprio desenvolvimento da história. No entanto, partiam de princípios já consagrados e previamente aceitos por seus membros. Ou seja, era necessário ter fé, acreditar, para a partir daí aceitar aquela explicação sobre a sociedade.

Esse princípio norteava também a filosofia, onde alguns autores buscavam, a partir de esquemas teóricos já moldados a explicação para o desenvolvimento da sociedade.

O que Marx vai fazer?

Segundo ele, pretendia colocar a questão em outra perspectiva.

O problema não se encontrava no campo das idéias, mas no mundo material.

Em outras palavras, para se conhecer a realidade e transformá-la era necessário entender como os homens se relacionavam com o mundo material: a maneira como retiravam da natureza os bens necessários a sua sobrevivência e o modo como eles se relacionam para organizar o trabalho.

No entanto, não bastava professar a prevalência do mundo material sobre o mundo das idéias, o materialismo, era necessário entender como esse mesmo mundo material e as idéias a ele relacionadas transformavam e mudavam de estado, operando profundas transformações.

Marx recorre à dialética hegeliana para explicar o modo pelo qual as transformações se operam. Para ele, a sociedade encerra em seu seio uma série de contradições e conflitos e esse estado garante a transformação e a mudança. Em outras palavras, a matéria só existe em movimento. Como o movimento é o estado da matéria, faz-se necessário compreender os conflitos inerentes a cada sociedade ou época histórica para entendermos sua evolução, sua transformação.

Para Marx, a organização do trabalho e o modo como os homens se relacionam no mundo da produção conserva a chave para a compreensão da trama social, uma vez que outros fatores como a política, a distribuição desigual da renda, o acesso diferenciado à cultura etc, derivam do lugar onde os indivíduos se situam no processo de produção da vida material.



Esse pensamento está condensado numa passagem do Prefácio à Contribuição à crítica da Economia Política onde ele afirma:

O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela. Quando se estudam essas revoluções, é preciso distinguir sempre entre as mudanças materiais ocorridas nas condições econômicas de produção e que podem ser apreciadas com a exatidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas em que os homens adquirem consciências desse conflito e lutam para resolve-lo. E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua consciências, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas e as relações de produção. Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para a sua existência. Para isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre que esses objetivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para sua realização. A grandes traços podemos designar como outras tantas épocas de progresso, na formação econômica da sociedade, o modo de produção asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês. As relações burguesas de produção são a última forma antagônica do processo social de produção; antagônica, não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que provém das condições sociais de vida dos indivíduos. As forças produtivas, porém, que desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam ao mesmo tempo, as condições materiais para a solução desse antagonismo. Com esta formação social se encerra, portanto, a pré-história da sociedade humana”5.

Para Marx, ao afirmar que os homens contraem determinadas relações e que, ao mesmo tempo, elas são necessárias e independentes da vontade, ele admite que os indivíduos encontram-se submetidos a um conjunto de relações que limitam qualquer possibilidade de escolha, ao passo que a necessidade de produção de bens materiais continua a se impor. Assim não podemos pensar que numa sociedade escravocrata um sujeito submetido ao trabalho pela força possa escolher outra relação de trabalho. Ou que sob o capitalismo os indivíduos possam abster-se do trabalho sem que possuam condições materiais para isso.

Em outras palavras, a maneira como os homens se organizam – e para Marx isso nunca pode ser pensado individualmente, já que os homens ocupam lugares na produção que independem de sua vontade, mas sim da relação jurídica com os meios de produção – para produzir e as relações daí decorrentes fundamentam a base econômica de uma determinada sociedade.

A compreensão do funcionamento dessa base, das relações e dos conflitos aí existentes, assim como sua evolução apresenta-se como a chave para a se entender a sociedade.


A partir dessa idéia, a economia assume um papel fundamental na teoria de Marx, uma vez que as relações sociais se estruturam a partir da maneira como o trabalho é extraído e apropriado pela comunidade.

No entanto, isso não quer dizer que tudo se resume aos efeitos da economia sobre o conjunto da sociedade. Outros fatores são de fundamental importância tais como a política, a religião, a cultura etc., no entanto, adquirin inclusive um forte grau de autonomia em relação à economia, mas mantém com ela um estreito vínculo.

Ao fazer a analogia entre a infra-estrutura e a superestrutura, onde a economia e as relações de produção formam a base econômica, e as relações jurídicas (o conjunto de práticas legais escritas ou não) e políticas (o Estado em particular), Marx cria o vínculo, mas não submete de maneira mecânica um ao outro, permitindo um conjunto de níveis e articulações entre as várias esferas.

Nessas relações entre a economia, o estado, a sociedade os indivíduos nunca apresentam-se isoladamente defendendo seus interesses e opiniões, mas expressam, antes de mais nada, as condições nas quais os grupos a que pertencem se encontram na sociedade, introduzindo a problemática do papel das classes sociais.

Normalmente utilizamos o termo classe social com o objetivo de distinguir grupos de pessoas que em geral possuem um mesmo padrão de vida ou que sua renda esteja dentro de um certo parâmetro. Nos jornais, na televisão ou mesmo em conversas informais o termo é aplicado sem muito rigor. Ainda que possamos indicar as classes sociais pela renda ou, pelo padrão de vida derivado da renda, não é totalmente correto utilizarmos este tipo de apreciação, principalmente considerando o modo como Marx e Engels trataram a questão.

As classes sociais se definem pelo lugar que ocupam no processo produtivo e, em geral, tal lugar é determinado pela relação que a classe ou as classes têm com os meios de produção. Se são proprietárias desses meios e os dispõem da melhor maneira que lhes aprouver, ou se não o são e, portanto, obrigam-se de alguma forma a trabalhar para quem os possui.

Desse modo, as classes sociais são determinadas no próprio processo de produção, permitindo a existência de um grande número de classes sociais, uma vez que as relações que se consolidam são as mais variadas. Por exemplo, no campo brasileiro podemos perceber a existência de um conjunto de relações, as quais estruturam uma gama de classes sociais, como os latifundiários, os sem-terra, os bóias-frias, os meeiros, os parceiros, os pequenos e médios proprietários que empregam trabalhadores, aqueles que têm propriedade familiar e utilizam a mão de obra doméstica, enfim, um conjunto de classes que atuam no mesmo setor da economia, mas que estabelecem relações sociais distintas.

A mesma coisa vale para outras formações sociais que estabeleceram um conjunto de relações e classes sociais. No entanto, podemos observar que em cada época histórica há relações que são dominantes e que marcam todo o período. Por exemplo, durante a Antigüidade, no Império Romano, encontramos trabalhadores avulsos, senhores de terra, pequenos proprietários, escravos, servos que eram levados a essa situação por dívidas, etc, no entanto, a escravidão marca todo o período como a principal relação social. Assim como o assalariamento é dominante em nossa sociedade.

Como veremos adiante, Marx afirma que sob o capitalismo, ainda que exista uma grande variedade de relações trabalhistas, há uma tendência à proletarização dos trabalhadores, ou seja, a transformação de um conjunto de classes em assalariados de um lado, enquanto de outro a concentração de capitais nas mãos de um número cada vez menor de pessoas, constituindo aí uma grande burguesia.

No trecho do Prefácio acima Marx avança na conceituação dessas relações afirmando que as relações de produção impulsionam o desenvolvimento das chamadas “forças produtivas”6, mas, que a partir de um determinado ponto as relações vigentes entravam e atrapalham o desenvolvimento dessas forças produtivas, abrindo um período de revoluções. Ou seja, Marx identifica que no processo de desenvolvimento das forças produtivas, as relações de produção impulsionam tal desenvolvimento até um determinado ponto onde entram em conflito bloqueando-o e abrindo uma fase de crises.

Essa afirmação é relativamente polêmica pois, para alguns pensadores, Marx apresentou aqui uma concepção “neutra” acerca do desenvolvimento das forças produtivas, oferecendo um espaço muito restrito aos conflitos entre as classes sociais. Em outras palavras, indica o desenvolvimento das forças produtivas como um processo constante e autônomo. Tal situação também foi retomada por Lênin em alguns de seus escritos. No entanto, Marx mantém em outros textos um forte espaço para o entendimento dessa problemática a partir da ação das classes sociais, particularmente em “O Capital”.
O fato das classes sociais existirem e estabelecerem relações entre si não era nenhuma novidade, apenas constituía a base material, a chamada infra-estrutura econômica da sociedade. No entanto, era necessário compreender o modo como se estabeleciam tais relações e quais conflitos e contradições podiam ali ser observados.

Marx e Engels compreenderam que as relações estabelecidas entre as classes são, em geral, marcadas pela opressão de uma classe sobre a outra. Ou seja, as relações sociais de produção eram baseadas na exploração do trabalho de uma ou umas classes sobre as outras e, em geral, esse processo era acompanhada de altas doses de violência.

Assim, observaram os autores, ao longo da história os conflitos de classe são a mola propulsora e impulso das transformações e das mudanças.

Desse modo, ao observarmos a base material da sociedade devemos também entender o modo como os conflitos entre as classes se desenvolvem para daí, termos uma visão de conjunto da própria história. Em outras palavras, o entrelaçamento dos conceitos de modo de produção, relações sociais de produção e luta entre as classes permitiu a Marx formular uma teoria da história, a qual ele esboça no mesmo trecho anterior do Prefácio onde afirma que:

A grandes traços podemos designar como outras tantas épocas de progresso, na formação econômica da sociedade, o modo de produção asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês. As relações burguesas de produção são a última forma antagônica do processo social de produção; antagônica, não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que provém das condições sociais de vida dos indivíduos. As forças produtivas, porém, que desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam ao mesmo tempo, as condições materiais para a solução desse antagonismo. Com esta formação social se encerra, portanto, a pré-história da sociedade humana”7.




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