O perfil do pregador



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O PERFIL DO PREGADOR

JOHN STOT


Estudo de algumas palavras do Novo Testamento por John R. W. Stott

Rector of All Souls Langham Place, Londres


Segunda Edição - Maio de 1997

Título original: "The Preacher's Portrait"

 1961 Wm. B. Eerdmans Publishing Co.

Coordenação Editorial Judith Ramos

Luís Francisco de Viveiros

Tradução Glauber Meyer Pinto Ribeiro

Revisão Cida Paião Beth Fernandes

Capa Ed Renê Kivitz

Editoração Eletrônica

Imprensa da Fé

Impressão Gráfica

Editora Camargo Soares

Todos os direitos reservados por:

Editora Sepal

Caixa Postal 7540

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Fone: (011) 523.2544

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E-mail: EditoraSepal@xc.org
Como será a igreja do século XXI? Como responderá às necessidades de um sociedade mais informada, economicamente menos pobre e espiritualmente mais cética e vazia? O que os pregadores, obreiros, missionários e pregadores do evagenlho deverão fazer para comunicar a Palava de Deus de forma eficaz no novo século?

O Perfil do Pregador é um texto indispensável para você que pensa sobre estas questões e busca direção de Deus para o futuro.

Sentimo-nos honrados em poder trazer ao público brasileiro um clássico da literatura evangélica sobre liderança espirutual. Em o Perfil do Pregador, John Stott utiliza mais do que sua sabedoria, experiência e praticidade; el coloca coração e alma ao descrever o perfil do homem de Deus capaz de levar muitos ao sublime conhecimento de Jesus Cristo.

Boa leitura!

Osvaldo Paião Jr.

Editor
SUMÁRIO


Apresentação da edição em Português

Apresentação da edição em Inglês

Prefácio

I. Despenseiro - A mensagem e autoridade do pregador

II. Arauto - A proclamação e apêlo do pregador

III. Testemunha - A experiência e humildade do pregador

IV. Pai - O amor e carinho do pregador

V. Servo - O poder e motivação do pregador


O Perfil do Pregador


APRESENTAÇÃO DA EDIÇÃO EM PORTUGUÊS
O presente livro é o primeiro da "Série SETE - Reflexão e Teologia Pastoral", que a Editora Sepal e a Sociedade dos Estudantes de Teologia Evangélica colocam no meio evangélico, a fim de contribuir com a reflexão na área teológico-pastoral.

No que diz respeito à edificação do povo de Deus, estamos conscientes da importância da Pregação da Palavra, bem como da pessoa do pregador. Este livro focaliza o pregador, não sendo portanto, mais um sobre técnicas de preparar sermões ou de uma melhor apresentação dós mesmos. Trata porém, do fator vital e essencial à pregação: o pregador.

O Rev. John R. W. Stott já se tornou tão conhecido em nosso meio que praticamente não se faz necessário apresentá-lo. Entre suas várias obras já em português, algumas são bem conhecidas como: "A Mensagem de Efésios" e "Contracultura Cristã", as quais nos indicam o nível de contribuição que têm a receber os leitores de mais esta obra do Dr. Stott.

é para nós uma honra bastante grande dar início a esta Série com "O Perfil do Pregador", sabedores que somos de quão beneficiados serão os pregadores da Palavra aqui no Brasil.

Pr. Wilson Costa dos Santos

Diretor Nacional da SETE


OS CONGRESSOS PAYTON (Payton Lectures)
Este livro contém as palestras proferidas no nono Congresso Payton pelo Reverendo John R. W. Stott, entre 10 e 14 de abril de 1961, no Fuller Theological Seminary, em Passadena, Califórnia, adaptadas para a forma escrita e ampliadas pelo autor.

Estes congressos foram instituídos em memória do Dr. John E. Payton e sua esposa, sogros de Charles E. Fuller, fundador deste seminário. Em seu testamento, deixou recursos para uma série de congressos anuais com palestras por um estudioso competente. Estas palestras devem enquadrar-se em pelo menos uma destas três áreas: unicidade ou confirmação da fé cristã histórica, refutação de idéias anti-cristãs ou sub-cristãs, ou formulação de doutrinas bíblicas.


PREFÁCIO
Meu objetivo neste livro não é dar "técnicas" de pregação, aquilo que o falecido Dr. W. E. Sangster, do Westminster College Hall, chamava "O Artesanato do Sermão", como montá-lo e ilustrá-lo; nem abordar os "problemas da comunicação". Não há dúvida que precisamos aprender os métodos de pregação, e que a comunicação é um assunto de importância vital em nossos dias, quando o abismo entre a igreja e o mundo secular já é tão grande que restam poucas pontes pelas quais estes dois mundos possam entrar em contato.

Desejo declarar que meu objetivo refere-se a coisas mais básicas ainda. Proponho que nós precisamos estudar novamente algumas das palavras que o Novo Testamento usa para descrever o pregador e a tarefa que lhe cabe. Creio que nós precisamos adquirir na igreja hoje uma visão mais clara do ideal divino revelado para o pregador, o que ele é e como ele deve trabalhar. Estarei, assim, estudando sua mensagem e sua autoridade, o caráter da proclamação que ele é chamado a fazer, a necessidade vital de sua experiência pessoal do Evangelho, a natureza da sua motivação, a fonte da sua autoridade, e as qualidades morais que devem caracterizá-lo, especialmente sua humildade, mansidão e amor. Este é, na minha opinião, o retrato do pregador, um retra­to desenhado pela mão de Deus na tela do Novo Testamento.

É com hesitação que escrevo sobre este assunto. Não quero passar por especialista; estou longe disto. Estou só começando a aprender os rudimentos da pregação. Mas como Deus em sua graça me chamou para ministrar a Palavra, tenho um profundo desejo de moldar meu ministério segundo o padrão perfeito que Ele nos deu nesta Palavra.

J. R. W. S.




Nota: Sobre a escrita de palavras gregas: na transliteração, procurou-se o tanto quanto possível dar uma equivalência fonética (de pronúncia) com o português, e não uma correspondência exata com a escrita grega. O leitor com maior conhecimento de grego poderá encontrar facilmente as palavras originais consultando em seu Novo Testamento Grego as passagens dadas como exemplo pelo autor.

( O tradutor)


CAPÍTULO I - DESPENSEIRO
A mensagem e autoridade do pregador
A primeira questão importante que preocupa o pregador é: "Que irei dizer, e onde obterei minha mensagem?". Algumas respostas erradas foram propostas para esta questão fundamental da origem e conteúdo da mensagem do prega­dor, e é necessário começar com estas, negativa­mente.
Não um profeta
Em primeiro lugar, o pregador cristão não é um profeta. Ou seja, ele não recebe sua mensa­gem de Deus como revelação original e direta. E verdade que algumas pessoas usam a palavra "profeta" de maneira imprecisa hoje em dia. Não é raro ouvir um homem que prega com intensidade ser descrito como alguém que tem "fogo profético"; e do pregador que sabe discer­nir os sinais dos tempos, que vê a mão de Deus nos fatos do dia e procura interpretar o signifi­cado das tendências sociais e políticas, diz-se às vezes que é profeta ou tem intuição de profeta. Mas eu estou sugerindo que este tipo de uso do

título "profeta" é impróprio.

Mas o que é um profeta? Para o Antigo Testamento, era o instrumento pelo qual Deus falava diretamente. Quando Deus escolheu Arão para dizer as palavras de Moisés a Faraó, esta situação foi explicada da seguinte maneira: "Vê que te constituí como Deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será teu profeta" (Ex 7.1-2). "Tu lhe falarás e lhe porás na boca as palavras; eu serei com a tua boca e com a dele, e vos ensinarei o que deveis fazer. Ele falará por ti ao povo; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus" (Ex 4.10-17). Isto mostra claramente que o profeta era a "boca" de Deus, através da qual Deus falava diretamente aos homens as suas palavras. Assim também, Deus fala de um profeta semelhante a Moisés, que iria surgir, "em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhes ordenar. (...) [Ele falará] em meu nome" (Dt 18.18-19). O profeta não falava suas próprias palavras, nem falava em seu próprio nome, mas falava as palavras de Deus, em nome de Deus. Esta convicção de que Deus falou com eles e revelou-lhes seus segredos (Am 3.7-8) explica as conhecidas fórmulas de introdução do discurso profético ("veio a mim a palavra do Senhor..."; "assim diz o Senhor:..."; "ouvi a palavra do Senhor..."; "a boca do Senhor o disse..."; etc.).

A característica essencial do profeta não era prever o futuro nem interpretar a atividade presente de Deus, mas falar as palavras de Deus. Como Pedro explicou, "nunca jamais qualquer profecia [ou seja, profecia verdadeira, em oposição às mentiras dos falsos profetas que ele descreva a seguir] foi dada por vontade humana, entretanto homens falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo" (2 Pe 1.21).

Portanto, o pregador cristão não é um profeta. Ele não recebe qualquer revelação original; sua tarefa é expor a revelação que já foi definitivamente dada. E muito embora pregue no poder do Espírito Santo, ele não é "inspirado" pelo Espírito no sentido em que os profetas o foram. Certo, "se alguém fala", deve falar "de acordo com os oráculos de Deus", ou "como se pronunciasse palavras de Deus"(1 Pe 4.11). Mas isto não é porque ele tenha recebido algum oráculo divino especial, mas porque é um despenseiro (1 Pe 4.10), como veremos depois, a quem foram confiadas as Escrituras Sagradas, que são os "oráculos de Deus" (Rm 3.2). A última vez na Bíblia em que aparece a expressão "veio a Palavra de Deus", é com relação a João Batista (Lc 3.2). Ele foi um verdadeiro profeta. Também havia profetas na época do Novo Testamento, como Agabo (At 21.10), e a profecia é mencionada como dom espiritual (Rm 12.6; 1 Co 12.10,29; Ef 4.11), mas este dom não é mais concedido a pessoas na igreja. Agora que a Palavra de Deus escrita está à disposição de todos nós, a Palavra de Deus no discurso profético não é mais necessária. A Palavra de Deus não vem mais aos homens hoje. Ela já veio para todos os homens; agora os homens é que precisam ir até ela.


Não um apóstolo
Em segundo lugar, o pregador cristão não é apóstolo. Claro, a Igreja é "apostólica", por ter sido fundada sobre a doutrina dos apóstolos e por ter sido enviada ao mundo para pregar o evangelho. Mas os missionários plantadores de igrejas não deveriam propriamente ser chamados "apóstolos". É incorreto falar de "Hudson Taylor, apóstolo da China", ou "Judson, apóstolo de Burma" como se estivesse falando de "Paulo, apóstolo dos gentios". Os estudos mais recentes confirmam o caráter único dos apóstolos. Karl Heinrich Rengstorf, em seu artigo sobre apostolado no famoso Vocabulário Teológico de Gerhard Kittel (Karl Heinrich Rengstorf, Theologisches Wortebuch zum Neuen Testament (1932/3), verbete "Apostleship", traduzido por J. R. Coates (Londres: A. & C. Black, 1952).) , defende que os apóstolos de Jesus equivaliam aos Shaliachim (pronúncia "chaliarrím") judaícos, mensageiros especiais que eram enviados aos judeus da dispersão de tal maneira que, diziam eles, "é como se o enviado fosse a própria pessoa que o envia". Segundo Rengstorf, "(...) enquanto os outros verbos transmitem simplesmente a idéia de envio, apostellein possui os aspectos de um propósito, missão (ou comissão), autoridade e responsabilidade especiais". Apóstolos - diz ele - "é sempre a descrição de alguém enviado como embaixador, e um embaixador investido de autoridade. A palavra grega apóstolos é simplesmente a forma pela qual se transmite o conteúdo e a idéia que temos no shaliach do judaismo rabínico" (shaliachim - forma plural; shaliach -forma singular) .

Norval Geldenhuys, em seu valioso livro "Autoridade Suprema", leva o artigo de Rengstorf à conclusão lógica. O apóstolo do Novo Testamento é "alguém escolhido e enviado por comissão especial como representante plenamente autorizado de quem o enviou" (4. Norval Geldenhuys, Supreme Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1953), pp. 53-54.) - Quando Jesus nomeou "apóstolo" seus doze discípulos escolhidos, indicou que eles seriam "seus delegados, que ele enviaria comissionados a ensinar e agir em Seu Nome e autoridade". Ele lhes concedeu uma autoridade especial (Ex.: Lc 9.1-2,10) que eles mais tarde afirmaram e exerceram. Paulo se considerava apóstolo também, tanto quanto os doze, por indicação direta de Jesus ressurreto. "A única base para o apostolado era a comissão pessoal", à qual devemos acrescentar um encontro com Jesus após a ressurreição. Geldenhuys conclui: "Nunca mais haverá ou poderá haver pessoas que possuam todas estas qualificações para serem shaliachim de Jesus". Mesmo Rengstorf, que diz que "não sabemos quantos apóstolos havia no princípio, mas deveriam ser bem numerosos", acrescenta que o apostolado "limitou-se à primeira geração, não se tornando um cargo eclesiástico". E que "todo apóstolo é discípulo, mas nem todo discípulo é apóstolo". Geldenhuys cita o artigo de Alfred Plummer sobre "Apóstolo" no Dicionário da Igreja Apostólica", de Hastings: "é impossível qualquer tipo de transmissão de um cargo tão excepcional".

Estas evidências sugerem que há um paralelismo estreito entre os profetas do Antigo Testamento e os apóstolos do Novo, e Rengstorf chama atenção para isto: "A ligação existente entre a consciência do apostolado com a do ministério profético(...) enfatiza de forma absoluta o fato dele pregar estritamente o que é revelado, guardando-se de qualquer tipo de alteração que pudesse ser provocada por sua natureza humana". "Como os profetas, Paulo é servo de sua mensagem.". "O paralelo entre apóstolos e profetas é justificado porque ambos são transmissores da revelação".

Assim, da mesma forma que a palavra "profeta" deve ser reservada para aquelas pessoas no Antigo e Novo Testamentos a quem a palavra de Deus veio diretamente, quer sua mensagem tenha chegado até nós ou não, a caracterização de alguém como "apóstolo" deve ser reservada para os Doze e Paulo, que foram especialmente comissionados e investidos com autoridade por Jesus como seus shaliachim. Estes homens eram únicos. Não deixaram sucessores.


Não um falso profeta ou falso apóstolo


Em terceiro lugar, o pregador cristão não é (nem deve ser) um falso profeta ou um falso apóstolo.(A expressão "falso apóstolo" ocorre apenas em 2 Co 11.13, mas C Ap 2.2. "Paulo indica com esta expressão alguém que se apresenta como apóstolo de Cristo, sem a sua autorização' - Rengstorf, op. cit., p.67).) Ambos aparecem na Bíblia, e a diferença entre o verdadeiro e o espúrio é claramente definida em Jeremias 23. O verdadeiro profeta é alguém que "esteve no conselho do Senhor, e viu e ouviu a sua palavra" (vv. 18,22). Já os falsos profetas "falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do Senhor" (v.16). Eles "proclamam só o engano do seu próprio coração" (v.26). Proclamam mentiras em nome de Deus (v.25). O contraste aparece vivamente no v.28: "o profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra, fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor". A opção é entre ouvir "cada um a sua própria palavra" ou "ouvir as palavras do Deus vivo" (v.36).

Embora não existam mais hoje, estritamente falando, profetas ou apóstolos, temo que haja falsos profetas e falsos apóstolos. Gente que fala as suas próprias palavras e não a Palavra de Deus. Sua mensagem vem de suas próprias mentes. Gente que gosta de ventilar suas opiniões sobre religião, ética, teologia e política. Eles podem até seguir a tradição de introduzir seus sermões com um texto bíblico, mas o texto tem pouca ou nenhuma relação com a mensagem que se segue, e não há nenhuma tentativa de interpretar o texto dentro de seu contexto próprio. Além disto, com muita freqüência estes pregadores, como os falsos profetas do Antigo Testamento, usam palavras macias, "dizendo: Paz, paz; quando não há paz" (Jr 6.14, 8.11, cf. 23.17). E nem tocam nos pontos menos "agradáveis" do evangelho, para não ofender o gosto dos ouvintes (Jr 5.30-31).


Não um tagarela
Em quarto lugar, o pregador cristão não é um "tagarela". Esta foi a palavra usada pelos filósofos atenienses no Areópago para descrever Paulo. "Que quer dizer este tagarela?" - perguntavam entre si com escárnio (At 17.18). A palavra grega é spermologos, um "catador de sementes". Era usada no sentido literal para descrever pássaros comedores de sementes, e especialmente por Aristófanes e Aristóteles (creio eu) para a gralha. Metaforicamente, esta palavra passou a ser aplicada a mendigos e moleques de rua (Liddel & Scott, A Greek-English Lexicon, ed. revisa da (Oxfotd: Clarendon Press, 1935-40).), "pessoa que vive de recolher sobras, apanhador de lixo" (W. F. Arndt e F. W. Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and other early Christian Literature (Cambridge: Cambridge University Press, 1957).). Daí, passou a indicar o tagarela ou fofoqueiro, "pessoa que recolhe fragmentos de informação aqui e acolá" (F. W. Gingrich & F. W. Danker, Léxico do Novo Testamento Grego/ Português (São Paulo: Edições Vida Nova, 1984).) . O "tagarela" repassa idéias como mercadoria de segunda mão, colhendo fragmentos e detalhes onde os encontra. Seus sermões são uma verdadeira colcha de retalhos.

É bom dizer que não há nada de errado em citar, no sermão, as palavras ou escritos de outra pessoa. O pregador sábio coleciona mesmo citações memoráveis e exclarecedoras que, usadas com juízo e honestidade, citando a fonte, são capazes de dar luz, importância e força ao assunto em questão. Se o leitor me permite praticar imediatamente o que estou ensinando, e fazer uma citação (embora não possa dar a fonte, pois não sei quem foi o primeiro a fazer este jogo de palavras): "Copiar de uma pessoa chama-se plágio, copiar de mil chama-se pesquisa"!



Mas citação cuidadosa não é necessariamente "tagarelice". A característica essencial do tagarela é que ele não é capaz de pensar por si. Sua opinião neste momento é certamente a da última pessoa que ele ouviu. Ele depende das idéias dos outros, sem peneirá-las nem pesá-las, e nem apropriar-se delas para si. Como os falsos profetas fustigados por Jeremias, ele usa apenas a "língua", e não a mente ou o coração, e é culpado de "furtar" a mensagem de outras pessoas (Jr 23.30,31).
Um despenseiro
O que é, então, o pregador? Ele é um despenseiro. "Importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus" (1 Co 4.1, 2). O despenseiro é o empregado de confiança que zela pela correta utilização dos bens de outra pessoa. Assim, o pregador é um despenseiro dos mistérios de Deus, ou seja, da auto-revelação que Deus confiou aos homens e é preservada nas Escrituras. Portanto, mensagem do pregador cristão não vem diretamente da boca de Deus - como se ele fosse profeta ou apóstolo - nem de sua própria cabeça - como os falsos profetas - nem das bocas e mentes de outras pessoas, sem reflexão - como o tagarela - mas da Palavra de Deus, uma vez revelada e para sempre registrada, da qual ele tem a honra de ser despenseiro.

O conceito de despenseiro ou mordomo doméstico era mais familiar no mundo antigo do que no moderno. Hoje em dia, a palavra "mordomia" provoca nos cristãos associações com campanhas para levantar dinheiro para a igreja. E "mordomo" para nós é um personagem restrito às grandes mansões e aos contos policiais. Mas nos tempos bíblicos, todo homem bem-sucedido tinha um mordomo que controlava seus negócios domésticos, suas terras, suas plantações, seu dinheiro e seus escravos. Encontramos este personagem diversas vezes no Antigo Testamento (Cf Gn 15.2. Pode ter sido este mesmo Eliézer que recebeu a tarefa de conseguir uma esposa para Isaque (Gn 24).). Não há uma palavra hebraica específica para designá-lo, mas a função que ele exercia pode ser reconhecida através de várias palavras; especialmente entre a nobreza e as cortes reais de Judá, Egito e Babilónia. José tinha um mordomo no Egito. O "despenseiro de sua casa" cuidava dos hóspedes de José, providenciando água para lavar seus pés e forragem para os animais, e supervisionando o preparo das refeições. Aparentemente, ele também era o intermediário junto às pessoas que compravam alimentos de José. Ele tinha escravos a seu serviço (Gn 43.16-25; 44.1-13). Os reis de Judá também tinham mordomos encarregados da casa real (Davi tinha oficiais descritos em 1 Cr 28.1 como "os administradores de toda fazenda e possessões do rei e de seus filhos". Um dos "homens principais" de Salomão era "Aisar, o mordomo" (1 Rs 4.6).). No reinado de Ezequias, o mordomo era Sebnã (Is 22.15). Ele parece ter sido homem ambicioso, que enriqueceu-se e adquiriu "carros de glória" ("carruagens gloriosas"), talvez à custas do dinheiro de seu patrão. Mas Deus diz a Sebna que ele será deposto e substituído por Eliaquim, filho de Hilquias: "Vesti- lo-ei da sua túnica, cingí-lo-ei com a tua faixa, e lhe entregarei nas mãos o teu poder, e ele será como pai para os moradores de Jerusalém e para a casa de Judá. Porei sobre o seu ombro a chave da casa de Davi" (Is 22.21,22). Fica evidente nesta passagem que o despenseiro era homem de autoridade na casa em que servia, que exercia supervisão maternal sobre as pessoas da casa, e que o símbolo de seu cargo era uma chave (sem dúvida, a da despensa).

Na côrte babilônica do rei Nanucodonozor, o chefe dos eunucos colocou Daniel e seus três companheiros sob o cuidado do "Melzar". Esta palavra é provavelmente o nome de um cargo, não de uma pessoa. A Edição Revista e Atualizada da Bíblia em português traduz aqui "cozinheiro-chefe", e a Bíblia de Jerusalém, "despenseiro". Este homem tinha o dever de treinar os servidores da côrte, dando-lhes também as rações diárias de comida. E ele tinha autoridade para decidir se servia as "finas iguarias do rei" ou os legumes pedidos por Daniel (Dn 1.8-16).

Há exemplos paralelos no Novo Testamento. Herodes Antipas tinha um mordomo (ou "procurador"), cuja esposa era discípula de Jesus, "prestando-lhe assistência com os seus bens" (Lc 8.3). E no cenário de diversas parábolas de nosso Senhor aparece um mordomo em posição de responsabilidade. Na parábola dos trabalhadores na vinha, o mordomo ("administrador") recebe a ordem de pagar o salário dos trabalhadores (Mt 20.8). E o mordomo ("administrador") infiel foi acusado de "defraudar os bens" de seu rico patrão. Evidentemente, ele era alguém investido de grande responsabilidade, administrando as provisões e pagando as contas, pois foi capaz de falsificar a contabilidade e reduzir as dívidas dos clientes de seu patrão, impunemente, ao que parece (Lc 16.1-9).


A esta altura, estamos em condições de reconstruir o ambiente de uma casa de família rica nos tempos bíblicos. Faremos isto analisando as palavras relacionadas com o verbo oikéo, habitar. Há cinco palavras importantes. Primeiramente, oikía ou óikos, a casa propriamente dita (Estritamente, oikía era a casa como um todo, e óikos, um quarto, uma moradia dentro da casa, mas ambas as palavras eram usadas para descrever uma casa ou edifício em, que pessoas moravam.). Em Segundo lugar, oikiêioi, os habitantes da casa. O único uso secular desta palavra no Novo Testamento é 1 Timóteo 5.8, onde o apóstolo diz que "se alguém não tem cuidado dos seus, e especialmente dos de sua própria casa (oikiêion)" ele "é pior do que o descrente" (A palavra oikiakós aparece apenas em Mt 10.25, 36. E tanto óikos quanto oikía também eram usadas para as pessoas residentes na casa, não apenas para o edifício em si (ex.: óikos em At 7.10, 10.2, e oikía em Jo 4.53 e Fp 4.22).). Em terceiro lugar, oikodespótes, o dono da casa, o líder da família (ex.: Mc. 14.14) (Em Mt 10.25, o dono da casa é claramente distinto do restante da família, os "domésticos".). Ele governa ou controla a família, e o verbo correspondente (oikodespotéo) aparece em 1 Tm 5.14. Em quarto lugar, há o oikétes, o serviçal da casa. Doulos (pronuncia-se dúlos) era o termo normal para um escravo, mas oikétes descrevia particularmente o servo que trabalhava na casa. Em latim o equivalente é domesticus, termo que originalmente incluia todos os que viviam sob o mesmo teto, no mesmo domus, mas posteriormente passou a ter o sentido de servo, ou, como nós dizemos, "doméstico" (Oikétes aparece quatro vezes no NT (Lc 16.13, At 10. 7; Rm 14.14 e Pe 2.18). Cf. oiketéia em Mt 24.45, como substantivo coletivo para os servos ou empregados").

Por fim, temos oikonómos, o despenseiro ou mordomo, cujo cargo chama-se oikonomía: mordomia (Os substantivos oikonómos, mordomo, e oikonomía, mordomia, aparecem, junto com o verbo oikonomêin, agir como mordomo, na parábola do mordomo infiel - Lc 16.1-9. Posteriormente este verbo grego assumiu um significado bem geral, de "cuidar das coisas" - Moulton & Milligan, The Vocabulary of the Greek Testament, p. 443 - Grand Rapids: Eerdmans -, fazer qualquer transação comercial, administrar ou dirigir qualquer negócio.). Estas palavras vêm de óikos, casa, e nêmo, administrar ou dirigir, e delas, claro, vêm diversas palavras nossas, como economia, economista e economizar. A definição de oikonómos no livro de Grimrn & Thayer, merece citação: "o dirigente de uma casa, ou dos negócios de uma casa; especialmente um mordomo, despenseiro ou administrador(...) a quem o dono da casa ou o proprietário confiou a direção de seus negócios, seus gastos e receitas, e o dever de cuidar de cada um de seus servos, e até dos filhos menores de idade" (A Greek English Lexicon of the New Testament, 2a. edição revista (Edinburgo" T. & T. Clarck, 1982), pp. 440-441.). Fosse ele homem livre ou escravo, ocupava uma posição de responsabilidade entre o dono da casa e os negócios da casa (O mordomo infiel de Lc 16.1-9 era aparentemente homem livre. Os mordomos de Mt 24.45 e Lc 12. 42-43 são claramente identificados como escravos.). Esta palavra é usada até mesmo para Erasto (Rm 16.23), que era aparentemente "tesoureiro" da cidade de Corinto. Em Gálatas 4.2, diz-se que a criança está sob epitrópi e oikonómoi; os primeiros, seus guardiães legais e professores, enquanto que os segundos tomam conta de suas propriedades até que ele atinja a maturidade.

Juntas, estas cinco palavras descrevem o ambiente social de uma família rica. A oikía (casa) era habitada pelos oikêioi, compostos dos familiares mais os escravos. O líder da casa era o oikodespótes (dono de casa), que tinha às suas ordens alguns oikétal (escravos domésticos) e um oikonómos (despenseiro ou mordomo) para supervisioná-los, cuidar da alimentação de todas estas pessoas, administrar os negócios e finanças da casa e as terras.

Não é dê se surpreender que os antigos cristãos tenham visto nesta estrutura social um retrato da Igreja Cristã. O nome especial que eles aplicavam a Deus era "Pai", e como um pai normalmente era o dono de casa, era natural pensar na igreja como "casa" ou "família" de Deus. Mas isto não se aplica em todos os detalhes, e o Novo Testamento não usa esta figura de modo consistente. Embora Deus seja sempre o pai, a igreja ora é a casa em que ele habita (O tabernáculo era óikos de Deus (Mc 2.26). O templo também (Mc 11.17). Mas a igreja agora é o seu templo (1 Co 3.16, 19; Ef 2,21-22), cf Hb10.21.), ora é a sua família, a "família da fé" (óikos em 1 Tm 3.15, 1 Pe 4.17 (cf. Hb 3.2-6), e oikêios em Gl 6.10, Ef 2.19.), ora os servos domésticos, responsáveis pelo trabalho que lhe devem (Rm 14.4).

Todos os cristãos são também despenseiros de Deus, que administraram seus "bens", não para proveito pessoal, mas em benefício da família toda. A parábola dos talentos e a das minas ilustram a responsabilidade cristã de aperfeiçoar-se no uso dos dons e oportunidades que Cristo concedeu (Mt 25. 14-30, Lc 19. 19-28). O despenseiro não deve esconder e nem desperdiçar os bens que seu mestre lhe confiou. Ele deve administrar sua distribuição aos membros da família. Nós, cristãos, somos todos "despenseiros da multiforme [literalmente, variada, multicoloridal graça de Deus" (1 Pe 1.10), e "cada um" deve usar seus dons para "servir uns aos outros". Ele dá em seguida dois exemplos: falar e servir, e é especialmente o primeiro exemplo que nos interessa aqui.


O ministério cristão é uma santa mordomia. Paulo descreve o presbítero/bispo como "despenseiro de Deus" (Tt 1.7). Paulo considerava a si próprio e a Apolo como "despenseiros dos mistérios de Deus" (1 Co 4.1) e, embora Paulo tenha sido encarregado da dispensação de um "mistério" especial revelado pessoalmente a ele (Ef 3.1-3, 7-9), esta designação não é apenas para os apóstolos, pois aplica-se a Apolo também, e Apolo não era apóstolo como Paulo. "Despenseiro" é um título que descreve todo aquele que tem o privilégio de pregar a Palavra de Deus, especialmente no ministério pastoral. Como veremos no capítulo 5, os coríntios estavam valorizando exageradamente seus, líderes. Paulo repreende-os por este super- personalismo. "É assim que os homens devem nos tratar - diz ele - "somos apenas empregados subalternos de Cristo, administradores de bens alheios". É esta posição subordinada que nós ocupamos. Os "bens" que o pregador cristão administra são chamados "mistérios de Deus". Mystêrion no Novo Testamento não é um enigma, alguma coisa obscura, mas sim uma verdade revelada, que só pode ser conhecida porque Deus a expôs, que estava oculta mas agora foi revelada, e na qual pessoas são iniciadas por Deus . Assim, os "mistérios de Deus" são os "segredos públicos" de Deus, a soma total de sua auto­revelação contida nas Escrituras (Cf. o uso que Cristo faz da palavra, em relação ao Reino de Deus (Mt 13.2).). Destes "mistérios" revelados, o pregador cristão é despenseiro, encarregado de torná-los ainda mais conhecidos pela família.

Desta excelente metáfora do despenseiro, o pregador cristão pode aprender quatro lições importantes, que são diferentes aspectos da "fidelidade" que se exige dele.

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