O perfil do pregador



Baixar 337.55 Kb.
Página3/9
Encontro25.07.2016
Tamanho337.55 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9

O kérygma apostólico
Isto nos leva a Atos dos Apóstolos, e a toda a questão do conteúdo do kérygma apostólico. E bem conhecido que C. H. Dodd, em seu livro The Apostolic Preaching and its Developments ("A pregação apostólica e sua evolução") fez uma rígida distinção entre kérygma e didaquê. O primeiro, ele define como "a proclamação pública do cristianismo ao mundo não-cristão", e a segunda, como "instrução de caráter ético" aos já convertidos.' Embora esta diferenciação tenha conquistado ampla aceitação, ela certamente tem sido exagerada. O Dr. Mounce está certo em dizer que os verbos Keryssein (proclamar) e didasquein (ensinar) são às vezes usados como sinônimos nos Evangelhos; um evangelista diz que Jesus estava ensinando nas sinagogas, e outro, que Jesus estava pregando nas sinagogas (Ex.: Mt 4.23 - ensinando // Mc 1.39 e Lc 4.44 - pregando). Também em Atos estas palavras coincidem um pouco em sentido. Por isto, o Dr. Mounce menciona um kérygma didático", e diz: "ensinar é expor em detalhes aquilo que é proclamado"" . Novamente, kérygma é o fundamento é didaquê a superestrutura; nenhum edifício é completo sem ter os dois".

Já que aceitamos, então, que havia bastante didaquê no kérygma apostólico primitivo, o que estes primeiros arautos cristãos ensinavam? Qual era o conteúdo de sua proclamação? Dodd resume dizendo que era "uma proclamação da morte e ressurreição de Jesus Cristo, com uma perspectiva escatológica, da qual estes fatos recebem sua importância para a salvação". O Dr. Mounce critica isto também, com razão. Afirmando que o kérygma apostólico não era "algum tipo estereotipado de sermão com meia dúzia de argumentos", mas sim "uma declaração sistemática da teologia da igreja primitiva", ele propõe que "em sua forma mais simples", este kérygma consistia-se de três partes, que ele resume assim:


(1) "Uma proclamação da morte, ressurreição e exaltação de Jesus, vistas como o cumprimento da profecia, e envolvendo a responsabilidade humana;

(2) "Em conseqüência disto, a consideração de Jesus como Senhor e também Cristo;

(3) "Uma convocação ao arrependimento e a receber perdão de pecados".


Ou, reunindo estes três ítens, ele define o kérygma da igreja primitiva como "uma proclamação da morte, ressurreição e exaltação de Jesus, levando à consideração de sua Pessoa como Senhor e também Cristo, confrontando o ser humano com a necessidade de arrependimento, contendo a promessa de perdão de pecados". Assim, o kérygma em sua plenitude reunia "uma proclamação histórica, uma consideração teológica e uma convocação ética". Após fazer esta reconstrução do kérygma a partir dos cinco discursos de Pedro no princípio do livro de Atos, o Dr. Mounce mostra como ela é confirmada por aquilo que ele chama "um kérygma pré-paulino", que pode ser deduzido dos "elementos quase credais que se acham inseridos nas epístolas paulinas", que são elementos "prépaulinos" no sentido que pertencem àquele " `período obscuro' entre a fundação da Igreja e o registro dos textos paulinos" (No capítulo 6, intitulado Clues to a PrePauline Kerygma ("Pistas para um kérygma prépaulino"), pp. 88-109, ele examina especialmente 1 Co 15.3ss.; Rm 10.9; Rm 1.3; Rm 4.24, 25; Rm 8.34; 1 Co 11. 23ss e Fm 2.6-11.).

Para o próposito mais prático a que se destina este capítulo, eu creio que podemos simplificar ainda mais o excelente resumo do kérygma apostólico do Dr. Mounce. Fundamentalmente, ele consistia apenas de duas partes, que podemos, provavelmente, chamar de "proclamação" e "apelo". A primeira é formada dos ítens (1) e (2) do sumário do Dr. Mounce. Refere-se à obra de Jesus Cristo e conseqüente avaliação que fazemos de sua Pessoa. É uma proclamação de Jesus como Salvador e Senhor. Isto, claro, é também o conteúdo mínimo irredutível do evangelho. Pregar o evangelho é pregar Cristo, pois Cristo é o evangelho (ex.: At 8.5; Fp 1.15). Mas como haveremos de pregá-lo? Como Senhor (2 Co 4.5), o Senhor do céu, exaltado à mão direita do Pai, a quem os homens devem obediência. Pregá-lo também como o Salvador crucificado, "que foi entregue por causa de nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa justificação" (Rm 4.25). Estas são duas partes essenciais da proclamação acerca de Jesus Cristo; referem-se à sua Pessoa divina e sua obra salvadora:


keryssomen Christôn estauromênon (1 Co 1.23 - "Pregamos Cristo crucificado")

keryssomen Christôn kyríon (2 Co 4.5 - "Pregamos Cristo [como] Senhor")
Freqüentemente se diz que a ênfase nos sermões mais antigos de Atos e, portanto, do kérygma da Igreja Primitiva, estava na ressurreição de Jesus, mais do que em sua morte, e que Lucas dá uma definição concisa de sua mensagem quando diz que Paulo "pregava a Jesus e a ressurreição" (At 17.18). Isto é verdade, mas também pode ser enganoso. Eles não pregavam a ressurreição isoladamente, mas em relação à morte, que veio antes, e a ascensão, que veio depois. Assim, a ressurreição era "o mais importante dos três grandes eventos que compunham o fundamento histórico do kérygma". Mesmo assim, não pode haver dúvida de que, embora a obra salvífica de Cristo seja uma unidade, é principalmente por sua morte que os homens podem ser salvos. Lemos em 1 Co 15.3ss (que o Dr. Mounce afirma ser "sem dúvida a mais valiosa porção do cristianismo pré-paulino no Novo Testamento", e mesmo "o mais antigo documento que existe da Igreja cristã" que "Cristo morreu pelos nossos pecados", não que ele "ressuscitou pelos nossos pecados". Sim, o apóstolo prossegue neste antigo esboço do evangelho, dizendo que ele "ressuscitou", e "apareceu" a várias testemunhas escolhidas, mas a sua ressurreição em si que realizou a nossa salvação, embora tenha evidenciado publicamente esta salvação, realizada pela morte de Cristo, e com a qual o Pai está satisfeito. É por isto que Paulo pode escrever depois, no mesmo capítulo: "se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé (...) e ainda permaneceis nos vossos pecados" (1 Co 15.14,17). Se Jesus realmente não se levantou dos mortos, as pessoas permanecem nos seus pecados, sem salvação, não porque a ressurreição as teria salvo, mas porque sem a ressurreição, fica provado que a morte de Jesus não teve valor para a salvação.

E por isto que "pregamos Cristo crucificado" é o âmago do evangelho. Também pregamos Cristo que nasceu e viveu neste mundo (pois ele nunca poderia ter sido nosso Salvador se não tivesse se tornado carne, vivendo uma vida sem pecado). Também pregamos Cristo que subiu aos céus e foi exaltado (pois na sua ressurreição seu valor foi publicamente reconhecido, e em sua exaltação ele se tornou hoje nosso mediador). Mas a ênfase no kérygma do Novo Testamento é na morte vicária do Salvador, pelos pecados do mundo. Bem podemos repetir a afirmação de Paulo: "decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado" (1 Co 2.2).



Assim, a primeira parte de nosso kérygma simplificado é a proclamação acerca de Jesus como Salvador e Senhor. A segunda parte é o apelo para que homens e mulheres venham a ele em arrependimento e fé. A definição de evangelismo preparada originalmente em 1918 pelo Comitê de Investigação do Arcebispo Acerca da Obra evangelística da Igreja (Archbishop's Committee of Enquiry on the Evangelistic Work of the Church), e adotada em seguida (com pequenas alterações) pelo Departamento de Evangelismo do Concílio Mundial de Igrejas, não diz que "evangelizar é apresentar Cristo Jesus", mas sim "evangelizar é apresentar Cristo Jesus de tal maneira (...) que as pessoas venham a confiar em Deus através dele, a aceitá-lo como seu Salvador e servi-lo como seu Rei (...)" (Towards the Conversion of England ("Para a con versão da Inglaterra"), Press and Publications Board of the Church Assembly (1945), p. 1.). Em outras palavras, o verdadeiro evangelismo visa uma resposta. Espera resultados. E pregação que exige um veredito. O arauto não faz preleções. Preleções são discursos objetivos, imparciais, acadêmicos. São dirigidas ao intelecto. Buscam apenas transmitir uma certa informação e, talvez, estimular o ouvinte a pesquisar mais por conta própria. Mas o arauto de Deus vem com uma urgente proclamação de paz através do sangue da cruz, e com uma convocação a todos os homens, para que se arrependam, entreguem suas armas, e aceitem humildemente o perdão oferecido.
Embaixadores de Cristo
Em nenhum lugar esta distinção entre proclamação e apelo é mais elaborada que em 2 Coríntios 5.18-21. É verdade que as palavras "arauto" e "proclamar" não aparecem nestes versos, mas a idéia está bem presente. Neste texto Paulo diz que "somos embaixadores em nome de Cristo", e realmente não há diferença entre as funções de "embaixador" e de "arauto". "Com toda a sinceridade eu lhe dou parabéns" - escreveu Charles Simeon a John Venn por ocasião da sua ordenação em 1872 - "não pela oportunidade de receber 40 ou 50 libras por ano, nem, pelo título de Reverendo, mas pela sua ascensão ao cargo mais valioso, mais honrado e mais glorioso do mundo: o cargo de embaixador do Senhor Jesus Cristo" (William Carus, Memoirs of the Life of the Rev. Charles Simeon (Londres: Hatchard, 1847), p.28.). Antes de estudar detalhadamente o texto de 2 Coríntios 5, precisamos examinar a palavra traduzida como "somos embaixadores" (presbêuomen).

Esta palavra vem do radical presbus, que quer dizer homem velho, ancião. Presbéia, portanto, significava inicialmente idade madura, ou o fato de alguém ser um ancião. Mas passou a ser aplicada à dignidade e prestígio que pertencem à idade madura, ou à experiência. Assim, de acordo com o léxico de Grimm-Thayer, era usada para "as coisas que deviam ser confiadas aos anciãos, especialmente o ofício de embaixador". Moulton e Milligan dizem que esta palavra pertencia "ao dia a dia do relacionamento entre as cidades gregas, e destas para com os seus reis" (The Vocabulary of the Greek Testament (Grand Rapids: Eerdmans), p.534.). O homem que ocupava este cargo chamava-se presbêus ou presbêutes, que equivalia à palavra latina legatus (Cf. a relação existente entre nossas palavras "embaixada" e "delegação".), e a atividade que ele exercia era descrita pela palavra presbêuein. Esta, segundo Moulton e Milligan, "era o termo normalmente utilizado no mundo ocidental helênico para descrever o legado imperial", ou seja, seu representante pessoal, que era freqüentemente o governador da província.

Estas palavras ocorrem diversas vezes no primeiro livro dos Macabeus (Presbêutes em 1 Mc 13.21, 14.21, 22, e presbêus em 1 Mc 9.70, 11.9, e 13.14.), e também nos livros canônicos da Septuaginta - por exemplo, quando os príncipes de Babilônia enviam embaixadores a Ezequias (2 Cr. 32.31). Mas no Novo Testamento, o substantivo presbéia, delegação, embaixada, aparece apenas duas vezes, e o verbo presbêuein, agir como embaixador, duas vezes também. As duas ocorrências de presbéia são em parábolas de Jesus registradas por S. Lucas. Na parábola dos talentos, quando o "homem nobre partiu para uma terra distante, com o fim de tomar posse de um reino, e voltar", "seus concidadãos (...) enviaram após ele uma embaixada, dizendo: 'não queremos que este reine sobre nós"(Lc 19.12-14). Na parábola do rei marchando para a batalha, Jesus imagina que, quando ele descobre que o outro rei tem um exército duas vezes maior que o seu, "envia-lhe uma embaixada, pedindo condições de paz" (Lc 14.31, 32). Ambas as ocorrências do verbo presbêuein são da pena de S. Paulo. No final de sua Epístola aos Efésios, ele se descreve como "embaixador em cadeias", pelo evangelho (Ef 6.20)(Cf v.15: "o evangelho da paz".). Ele era um embaixador do evangelho, proclamando as suas boas novas, anunciando sua oferta de paz, e por causa disto é que Paulo encontrava-se prisioneiro naquela ocasião. O outro uso do verbo presbêuein vem de 2 Coríntios 5.18-21, uma passagem que precisamos, agora, estudar detalhadamente.


Ora, tudo [isto] provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.

Esta passagem trata a salvaçao em termos de reconciliação que, nas palavras de Vincent Taylor, "é a melhor palavra do Novo Testamento para descrever o propósito da propiciação". Certamente é a palavra mais familiar e mais próxima de nós, enquanto as idéias sacrificiais, judiciais e comerciais envolvidas na idéia de propiciação, justificação e redenção podem soar estranhas e inadequadas a nossos ouvidos modernos. O apóstolo conduz seu tratamento deste grande tema em dois estágios: Primeiramente, ele faz a sua proclamação de como a reconciliação foi levada a cabo por Deus através de Cristo. A seguir, chamando a si mesmo de embaixador, ele faz o seu apelo para que as pessoas se reconciliem com Deus.


A proclamação
Veremos primeiramente a proclamação. Ele começa dizendo que "tudo [isto] provém de Deus" (v.15). Deus é o autor da reconciliação. Na obra da expiação, a iniciativa foi tomada pelo Pai; não pelo homem. Na lúcida expressão do Arcebispo William Temple, "tudo vem de Deus; a única contribuição pessoal que eu faço na minha redenção é o pecado do qual preciso ser redimido". Também não é de Cristo a iniciativa. A reconciliação é "por meio de Cristo" (v.18) e "em Cristo" (v.9), mas é "de [ek] Deus" (v.18). Jesus Cristo é o meio pelo qual a reconciliação veio, não a sua origem. Qualquer tentativa de explicar a expiação sugerindo que a iniciativa para a obra da salvação foi do Filho à revelia do Pai, ou que o Pai "sofreu a intervenção de um outro partido, na reconciliação" (P. T. Forsyth, The Work of Christ (Londres: Hodder &Stoughton, 1910), p.89.), deve ser resolutamente rejeitada, como anti-bíblica. Não podemos tolerar a idéia que houve alguma relutância por parte do Pai. Ao contrário, "Deus (...) nos reconciliou consigo mesmo" (v.18). Para deixar isto definitivamente fora de dúvida, sete verbos principais nestes versos (indicativos e particípios) têm Deus como sujeito. Foi Deus quem reconciliou, quem deu, quem estava em Cristo reconciliando, quem não nos imputou nossos pecados, quem nos confiou a mensagem da reconciliação, quem exorta, quem fez com que Cristo fosse feito pecado por nós. O desejo, a idéia, o plano, os meios de reconciliação, "tudo [isto] provém de Deus".

Mas, se o autor da reconciliação é Deus, o agente é Cristo. Foi "por meio de Cristo" e "em Cristo" que Deus realizou a reconciliação. E isto ele fez de maneira objetiva e decisiva. Isto fica claro pelo uso do particípio aoristo katalacsántos no verso 18. Este verbo deve receber todo o seu peso em nossa interpretação. Aqui não está algo que Deus está fazendo, mas algo que Deus já fez. Citando P. T. Forsyth outra vez, "Deus estava realmente reconciliando, terminando a obra. Não foi uma experiência, algum evento preliminar. (...) A reconciliação foi completada na morte de Cristo. Paulo não pregou uma reconciliação gradual. Ele pregava aquilo que os antigos doutores de teologia costumavam chamar de a obra consumada. (...) Ele pregava algo que foi feito de uma vez por todas - uma obra que não é apenas um convite, mas a base da reconciliação de toda alma com Deus.

Semelhantemente, James Denney escreveu: "A obra da reconciliação, no sentido neotestamentário, é uma obra completa, uma obra que precisamos ter como completa como pressuposto para a pregação do evangelho" (James Denney, The Death of Christ (Londres: Tyndale Press, 1950; original, 1902), p.85.).


Esta realização objetiva de Deus através da cruz de Cristo é indicada por algo mais do que o particípio aoristo katalacsántos. Ela é esclarecida pelo contraste entre os verbos de reconciliação nos versos 18 e 19, de um lado, e no verso 20, do outro. Precisamos encontrar alguma explicação para as palavras "Deus (...) nos reconciliou consigo mesmo" (v.18), e "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo" (v.19), que faça justiça também ao "rogamos que vos reconcilieis com Deus" do verso 20. Se interpretarmos os primeiros dois casos como referindo-se à influência reconciliadora de Deus sobre os seres humanos hoje, o apelo do verso 20 perde todo o seu sentido, e conseguimos fazer com que toda a passagem se torne irrelevante. E claro que há uma diferença aqui, que precisa ser preservada. Há dois estágios que não devem ser confundidos. Precisamos saber distingüir entre a iniciativa divina na morte de Cristo e o apelo divino que busca a resposta do ser humano hoje. A primeira foi um fato consumado (expresso pelo particípio aoristo katalacsántos); o segundo é um apelo (expresso pelo imperativo aoristo katallágete, v.20).

Que fato consumado foi este? O que Deus fez em - e através de - Cristo, que agiu sobre os nossos pecados (sobre os quais permanece a ira de Deus) e removeu a barreira que nos separava dele, e nos reconciliou consigo mesmo? Em primeiro lugar, negativamente, ele recusou-se a nos imputar os nossos pecados (v.19). Esta expressão vem do Salmo 32.2 (citado em Rm 4.8), onde descreve a felicidade do homem a quem Deus não atribui iniqüidade. Estas palavras têm a implicação de que teria sido natural e justo que Deus nos imputasse os nossos pecados. Sim, "o pecado não é levado em conta quando não há lei" (Rm 5.13), mas quando existe uma lei de Deus, os pecados (aqui corretamente chamados de "transgressões"), são e precisam ser imputados. Ou seja, são considerados responsabilidade do pecador, e contam contra ele. Mas é exatamanete isto que Deus recusou-se a fazer, pura e simplesmente pela graça. Ele declinou-se a cobrá-los de nós. Ao invés disto (e esta é a segunda coisa que Deus fez, o lado positivo), "aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus" (v.21). Estas maravilhosas palavras formam, reconhecidamente, uma das mais ousadas declarações sobre a morte de Cristo no Novo Testamento. É fácil associá-las a Gálatas 3.13, onde está escrito que Cristo fez-se maldição em nosso lugar. O que Paulo quis dizer com isto?

O versículo (21) começa com uma declaração da "apecaminosidade" de Jesus. Ele não é citado nominalmente, mas apenas uma Pessoa pode corresponder à descrição: "aquele que não conheceu pecado". Ele não "conheceu" o pecado, no sentido hebraico do verbo. Ele não teve experiência alguma do pecado. Este Cristo completamente sem pecado que foi feito pecado por nós. Que sentido isto pode ter, exceto que ele foi feito pecado pelos nossos pecados? Paulo não está sugerindo que Cristo tinha um profundo sentimento de simpatia pelos nossos pecados; na verdade, trata-se da verdadeira e terrível identificação de Cristo com os nossos pecados uma identificação que só ele, por ser completamente destituído de pecado, poderia efetuar (Esta ligação, no pensamento e no ensino apostólico, entre a apecaminosidade de Jesus e sua morte por nossos pecados, aparece também em Hb 7.26, 27; 1 Pe 1.18, 19; 2.22, 24; 3,18, e 1 Jo 3.5.). Ele, que foi "feito carne" no ventre de Maria, sua mãe, foi "feito pecado" na cruz do Calvário. Deus, para não nos imputar os nossos pecados, imputou-os a Cristo, e seu Filho, que não conheceu pecado, foi feito pecado por nossa causa. Quando dizemos estas coisas, não podemos nos esquecer do que o verso 19 ensina: "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo". De que maneira Deus estava em Cristo quando por ele Cristo foi feito pecado por nossa causa, eu não sei dizer. Estamos lidando com o supremo paradoxo da expiação. Mas Paulo ensinou as duas verdades, e nós as aceitamos, mesmo sem poder reconciliá-las ou formulá-las de forma precisa e elegante. Deus fez que Cristo se tornasse pecado com os nossos pecados, para que pudéssemos nos tornar justos com a justiça de Cristo. Esta misteriosa permuta só é possível àqueles que estão "nele" (a última palavra do capítulo, no texto original), aqueles que estão pessoalmente unidos a Cristo pela fé. Deus estava em Cristo realizando nossa reconciliação (v.19); e nós precisamos estar em Cristo para recebê-la (v.21).

Fica evidente, então, que a reconciliação não consiste apenas em vencer a obstinada resistência do ser humano, mas também em carregar o seu pecado e sua condenação. Quem "muda" também é Deus, não o homem (O Dr. Leon Morris, no capítulo IV de seu livro The Apostolic Preaching of the Cross - Grand Rapids: Eerdmans, 1955 -, afirma que a principal idéia envolvida na palavra alásso, reconciliação, e suas derivadas, é a de mudança. Ele dá também alguns exemplos em escritos rabínicos, uma referência em Josefo, e três em 2 Macabeus, onde se diz que Deus reconciliou-se com o homem.). É verdade que o Novo Testamento nunca diz exatamente que Deus foi ou está sendo reconciliado com o homem. Deus nunca figura como objeto do verbo "reconciliar", e quando ele é o sujeito, a voz é sempre a ativa, nunca a passiva. Mesmo assim, J. H. Bernard escreve, acerca da idéia de Deus sendo reconciliado conosco: "É muito improvável que S. Paulo sentisse alguma dificuldade com esta expressão" (An Expositor's Greek Testament, ed. W. R. Nicoll (Grand Rapids, Eerdmans), ad loc.). O fato é que o apóstolo Paulo apresenta a reconciliação como um feito divino, através da morte de Cristo e independente de qualquer contribuição humana, que podemos apenas "receber" (Rm 5.11) como dom gratuito. Citando novamente James Denney, "é em virtude de algo que já foi consumado na cruz que Cristo pode nos fazer este apelo, e obter a resposta em que nós recebemos a reconciliação".



É esta reconciliação que somos chamados a proclamar, como arautos. O autor da reconciliação é Deus, o agente da reconciliação é Cristo, mas os homens são os seus embaixadores. Esta é a seqüência lógica do pensamento. A reconciliação vem de Deus para nós através de Cristo, para que a recebamos e a façamos conhecida por outras pessoas. Deus não fica satisfeito por ter planejado, realizado e concedido a nós esta reconciliação; ele providencia também que ela seja divulgada. A reconciliação deve ser proclamada por aqueles que a receberam. Assim, Deus nos dá dois presentes: a reconciliação em si, e o "ministério" (v.18) e "a palavra" (v.19) da reconciliação. Se não recebemos ainda a reconciliação, não podemos proclamá-la; após recebê-la, temos esta obrigação. Ou, dizendo a mesma verdade com outras palavras, quando estamos "em Cristo", e nos tornamos justiça de Deus (v.21), descobrimos então que somos "de Cristo", e nos tornamos seus embaixadores (v.20). Além disto, não devemos deixar de notar em ambos as expressões" (v.18), a presença do artigo definido. Fomos chamados para o ministério da reconciliação. A mensagem que devemos proclamar é a palavra da reconciliação. Somos comissionados como arautos da única reconciliação que interessa a Paulo, aquela que foi realizada pelo Pai através do Filho, na cruz.

Desta maneira, o apóstolo Paulo declara aquilo que estamos chamando de proclamação, o anúncio do que Deus fez para a nossa reconciliação consigo. Ele recusou-se a imputar sobre nós os nossos pecados. Ele tornou Cristo pecado por nós. Este é o "evangelho" que proclamamos. E a proclamação de um fato, um feito glorioso e completamente terminado, de um presente que pode ser agora livremente recebido. Porém, apesar do enorme valor desta boa notícia não estamos autorizados a permanecer indiferentes à reação de nossos ouvintes a ela. Assim, Paulo vai da proclamação ao apelo. "Somos embaixadores em nome de Cristo" - ele escreve - "como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus" (v.20).


O apelo
O apelo do embaixador é representado aqui de duas maneiras diferentes: em primeiro lugar, nós "somos embaixadores em nome de Cristo (...) Em nome de Cristo, nós rogamos que vos reconcilieis com Deus". Mas também é Deus que exorta por nosso intermédio. Estudaremos estas duas expressões, uma de cada vez.

Primeiramente, "somos embaixadores em nome de Cristo (...) Em nome de Cristo, pois, vos rogamos que vos reconcilieis (...)". A repetição de hyper Christú ("no lugar de", ou "em nome de Cristo"), é realmente maravilhosa. Este é o nosso alto privilégio. Foi por nós (hyper hemôn, v.21), que Deus tornou Cristo pecado; hoje, é por causa de Cristo (hyper Christú, v.20) que Deus nos torna embaixadores. Seu interesse por nós foi tão grande que o levou até a cruz; até que ponto vai o nosso interesse por Cristo? Se o amássemos tanto quanto ele nos amou, seríamos embaixadores realmente zelosos! Este "em nome de Cristo" pode transformar nosso ministério. Não há incentivo mais poderoso para o evangelismo do que "hyper tú onômatos autú" "por causa do seu nome", "por amor do seu nome" (Rm 1.5) (O mesmo incentivo aplicado ao sofrimento, ao invés de ao serviço: At 5.41; Fp 1.29.).

Portanto, é por causa de Cristo, para o engrandecimento do seu reino, para a glória do seu nome, que nós somos embaixadores e rogamos aos homens que se reconciliem com Deus. Não podemos suportar o pensamento que ele tenha sofrido em vão. Deus fez, através da morte de Cristo, tudo o que é necessário para a reconciliação do ser humano? Então, enfrentaremos todas as dificuldades para insistir com os homens, persistentemente, ansiosamente, sobre a necessidade de serem reconciliados com Deus. Este apelo urgente não é muito popular em alguns ambientes eclesiásticos de hoje, mas eu

não tenho dúvida alguma que era exatamente isto que Paulo tinha em mente, e espero poder provar.



S. Paulo usa dois verbos diferentes para descrever o apelo do embaixador: "Deus exortando", que é parakalúntos, e "nós vos rogamos", que é deómetha. Parakaléin é um termo com uma gama ampla de significados, especialmente "admoestar, exortar", "pedir, implorar, interceder", e também confortar, encorajar e fortalecer. Mas déomai é menos ambíguo. Sim, freqüentemente seu sentido é um tanto fraco (como, por exemplo, em At 8.34, 21.39, 26.3), mas não há dúvida que o sentido é sempre "pedir, implorar, suplicar, rogar". No Evangelho segundo S. Lucas, é usado para quando "um homem coberto de lepra, ao ver Jesus, prostrando-se com o rosto em terra, suplicou -lhe" que o purificasse (Lc 5.12); quando o endemoniado gadareno prostrou-se diante de Jesus e exclamou: "Rogo-te que não me atormentes", e mais tarde "rogou "que Jesus permitisse que ele o acompanhasse (Lc 8.28, 38); e quando o pai daquele menino com aparência de epilético "rogou" aos discípulos de Jesus que expulsassem dele aquele espírito imundo, e depois estava clamando a Jesus: "suplico-te que vejas meu filho" (Lc 9.38, 40). Este é o mesmo verbo que S. Paulo utilizou em algumas das passagens mais emocionais de suas epístolas (ex.: Gl 4.12; 2 Co 10.2 [v. 1 é parakalêin]). E é a palavra traduzida por oração. Sim, muitas vezes trata-se de uma petição comum (ex.: Mt 9.38 = Lc 10.2; Lc 21.36, 22.32;At 4.31, 8.22, 24;1 Ts 3.10), mas às vezes, déesis significa uma súplica intensa, como quando Jesus angustiava-se no jardim de Getsêmane (Hb 5.7), ou quando o apóstolo expressa que "a boa vontade" do seu coração, e sua "súplica [déesis] a Deus" em favor de Israel "é para que sejam salvos" (Rm 10.1, cf. 9.1-3). A luz do uso desta palavra no Novo Testamento, podemos ver no apelo do embaixador uma exortação de extrema urgência aos homens, para que façam as pazes com Deus. Nada menos forte seria apropriado a alguém que trabalha "em nome de Cristo", e Cristo crucificado.

A outra descrição que o apótolo faz do apelo é ainda mais impressionante. Não é apenas "nós somos embaixadores em nome de Cristo", e "nós rogamos" que as pessoas se reconciliem com Deus; é Deus também fazendo sua exortação através de nós. O mesmo Deus que tornou possível a reconciliação e que nos deu o ministério e a palavra da reconciliação, mantém ainda a iniciativa no estágio final deste processo. A realização foi dele; o apelo é dele também. Precisamos ter em mente a magnaminidade divina. Ele, que trabalhou "por nós" (v.21), agora trabalha "através de nós", "por nosso intermédio" (v.20). Realmente, ele, que atuou "por meio de Cristo"(v.18) para realizar a reconciliação, agora atua "por meio de nós" (v.20) para implorar aos pecadores que a aceitem. Enquanto Cristo foi seu agente no primeiro caso, nós somos seus agentes no segundo. E esta a honra indizível que ele confere a seus embaixadores. E como se ele usasse a proclamação das boas novas, tanto a proclamação quanto o apelo, para falar pessoalmente aos homens, para manifestar-se pessoalmente a eles e trazê-los à salvação.



Precisamos ter cuidado com o modo como expressamos esta impressionante verdade. Alguns escritores modernos sentem tanto desejo de chamar atenção para aquilo que é chamado de "o caráter existencial da pregação", que eu creio estarem arriscando-se a ir longe demais. No último capítulo do livro do Dr. Mounce, intitulado "A Natureza Essencial da Pregação", ele afirma: "a proclamação da cruz é, ela mesma, a continuação ou a extensão no tempo do próprio prio ato redentivo". É um prolongamento e mediação da atividade redentora de Deus'. "Quando ele [o pregador] proclama pela fé o grande feito divino, percebe que este fato está acontecendo de novo". "As barreiras do tempo são de algum modo ultrapassadas, e o supremo fato do passado está acontecendo de novo". Semelhantemente, no prefácio do livro ele escreve: "No lugar onde o tempo e a eternidade se cruzam, ele [o pregador] tem o alto privilégio de prolongar no tempo aquele poderoso feito de Deus que, num determinado sentido, faz parte da história do Império Romano". Confesso que algumas destas afirmações me soam arriscadas e incautas. Em que sentido o arauto, com sua proclamação, pode "prolongar", ou produzir uma "continuidade" ou "extensão" do ato redentivo de Deus na cruz? O Dr. Mounce parece indicar que de alguma forma, a cruz está "acontecendo de novo". Pelo menos, ele usa esta expressão duas vezes. Mas eu confio que ele não está querendo dizer que há, ou poderia haver, qualquer forma de repetição da morte vicária do Salvador. Cristo morreu hápax, uma vez só, definitivamente, como os escritores do Novo Testamento vez após vez afirmam. Sua obra foi terminada, seu sacrifício foi completo, sua missão foi cumprida na cruz, e "tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados" (Hb 10.12), ele assentou-se à destra do Pai.

O que o Dr. Mounce e outros autores estão realmente dizendo - e com isto eu concordo alegremente - é que através da pregação Deus transforma a história passada em realidade presente. A cruz foi, e será para sempre, um evento histórico único no passado. E permanecerá no passado, nos livros, a não ser que Deus mesmo a torne real e relevante para as pessoas de hoje. É pela pregação, em que ele faz o seu apelo aos homens através de homens, que Deus realiza este milagre. Ele abre os olhos deles para que percebam o verdadeiro significado da cruz, seu valor eterno e sua validade para hoje. "Pregação" escreve o Dr. Mounce - "é aquele elo atemporal e eterno entre o grande ato redentivo de Deus e a sua apreensão pelo ser humano. É o meio pelo qual Deus comtemporaniza sua auto­revelação histórica, e oferece ao homem a oportunidade de responder com fé". É mais do que isto, ainda. Deus não apenas confronta as pessoas através da proclamação do pregador; ele realmente as salva através da pregação também. Isto S. Paulo diz de maneira categórica: "Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar aos que crêem, pela loucura do kérygma "(1 Co 1.21). Assim também, o evangelho é, ele mesmo, "o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê" (Rm 1.16). Jesus não disse, citando Isaías 61 na sinagoga de Nazaré: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos"? Sua missão, diz ele, é não apenas "proclamar libertação aos cativos", mas realmente "[pô-los] em liberdade"! "Aqui está" - comenta o Dr. Mounce - "uma característica exclusiva da proclamação dos arautos do Novo Testamento: ao mesmo tempo que proclama, ela faz acontecer o que está sendo proclamado. A proclamação da liberdade ao mesmo tempo liberta. A proclamação da restauração da vista abre os olhos dos cegos".

Mas, mesmo levando tudo isto em consideração, não podemos dizer que a cruz e a pregação da cruz são feitos igualmente importantes na obra divina de redenção. Nem pensar! Deus executou a nossa redenção na cruz; a pregação "comunica de forma efetiva o poder e a atividade redentiva de Deus". Ou, voltando a 2 Coríntios 5, Deus reconciliou-nos consigo através de Cristo; o que ele faz através de nós é apelar aos homens, que sejam reconciliados com ele, levando-os assim a desfrutar desta reconciliação.



Podemos agora concluir, com uma aplicação prática para todas estas informações teóricas. A grande lição que a metáfora do arauto nos ensina, no Novo Testamento, é que a proclamação e o apelo devem vir juntas. Não podemos separá-los. Ter um destes componentes separado do outro torna impossível a verdadeira pregação no sentido que ela tem no Novo Testamento. Em diversas ocasiões podemos encontrá-los combinados. Um exemplo são as primeiras palavras que temos registradas do ministério público de nosso Senhor: "O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo" (proclamação); "arrependei-vos e crêde no evangelho" (apelo) (Mc 1.15). Outro caso é parábola da grande festa, onde o servo recebe ordem de dizer aos convidados: "Vinde, porque tudo já está preparado" (Lc 14.17). "Tudo já está preparado" é a proclamação; "vinde" é o apelo que se segue. O mesmo padrão se percebe nos primeiros discursos em Atos, por exemplo: "Deus (...) glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós traístes e negastes (...). Vós (...) matastes o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos (...). Arrependei-vos, pois, e convertei-vos" (At 3.13-19). Nós mesmos já percebemos esta seqüência na segunda epístola de Paulo aos Coríntios: primeiro o anúncio da reconciliação realizada; depois o apelo para recebê-la. Primeiro, de fato, "Deus nos reconciliou consigo mesmo"; depois, "rogamos que vos reconcilieis com Deus".


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal