O poder ausente e suas consequências psicopatológicas



Baixar 18.28 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho18.28 Kb.
O PODER AUSENTE E SUAS CONSEQUÊNCIAS PSICOPATOLÓGICAS

Sergio Cyrino da Costa


A ausência de poder é dialeticamente indissociável de seu simétrico, o poder organizado, ou aquele que se aproveita do caos para instituir-se. As instituições psicanalíticas, desde sua origem e por suas características predominantemente idealísticas, constituem-se num modelo grupal dotado de acelerados movimentos de domínio alternado por parte de seus membros.

Chuster cita o aspecto idealizador nas gangues e grupos mafiosos, com integrantes representando partes fragmentadas de um self psicótico, comandadas por um líder despótico que ameaça os integrantes para obter o controle. Entra aqui o objetivo inspirador deste trabalho, que eu poderia resumir numa expressão interrogativa: “Por que a IPA?”. Por que nos agrupamos ao redor e nos posicionamos para rezar para Meca todos os dias, recitando nossas orações do Corão que começou a ser legalmente cultuado com a fundação da instituição-mãe, em 1910, em Nuremberg. Pura e simples submissão, sectarismo dogmático ou a essencial necessidade de uma referência estruturante, autenticada pelo tempo e pela figura central do Criador?

Assistimos recentemente à oficialização de duas novas sociedades psicanalíticas do Rio de Janeiro, por ocasião do Congresso Internacional de 2005. Ambas eram partes desmembradas de duas instituições tradicionais, com diferenças entre si a meu ver marcantes. A primeira, um grupo geneticamente semelhante às suas raízes, procurando solidificar e demonstrar o cumprimento da Lei. A segunda com uma proposta ousada de contestar certos preceitos regulamentares. Ambas com anseios de vida autônoma, de propriedade sobre suas idéias.

Por que a última instituição, apesar de suas ebulições, não se desligou então da matriz britânica, da árvore genealógica que Ernest Jones adubou com carinho e mão de ferro?

Reuben Fine pode nos fornecer pistas valiosas sobre essa fidelidade rebelde de alguns grupos que acompanha o percurso do movimento psicanalítico ao longo de sua História. Divide ele a História da Psicanálise em três períodos: O início até a Primeira Guerra, dominado por Freud, o período entre guerras, com irrupção de novos autores, muito deles conflitantes com o movimento principal, e um período pós-guerra, com a organização das sociedades. Considero Ferenczi um personagem emblemático desta ambivalência conceitual, do andar em círculos do menino que foge de casa ou se afasta dos pais para desenvolver sua maturidade, levando contudo em si as identificações com o templo familiar. A divisão de Ferenczi sobre o movimento psicanalítico é mais corajosa e sarcástica. Divide também em três fases: o início “heróico”, a “guerra de guerrilhas”, e o estabelecimento de organizações. Ferenczi foi vítima desta guerra interna, chegando a ser chamado de louco e rejeitado por Jones, Abraham e Freud, mas mantendo-se fiel à causa até o fim. Um de seus artigos sobre a “técnica ativa”, nervo exposto da polêmica, está repleto desta rebeldia reverente ao adorado Mestre, que foi até seu conselheiro matrimonial. Freud foi bem ativo e paternal neste ponto, deixando a neutralidade à parte ao escolher a esposa para Sàndor.

Kohut nos fala de uma imago parental idealizada, à qual a criança se agarra(palavras do autor) tenazmente. A perda de partes desta instância levará o indivíduo a introjetar o objeto ausente como um novo componente de seu aparelho psíquico, uma estrutura que assume as funções anteriormente desempenhadas pelo objeto; eu poderia acrescentar, a propósito do título desta mesa, pelo poder deste objeto. Dentro de uma sociedade , a meu ver, deve existir uma recriação constante deste poder (temporariamente) ausente

Fine chama atenção para uma corrente principal, uma vertente longitudinal sem a qual não se pode entender a psicanálise. Como uma religião que não prescinde de seus textos sagrados, seus primeiros papiros. Talvez seja um dos motivos pelos quais a psicanálise seja contestada como ciência. Não poderá nunca ser abordada apenas num corte atual da evolução do conhecimento, à luz dos recursos avançados, como o pretende a neurociência, apesar de suas interessantes constatações. Fine acha um grande engano desprezar as divergências, assim como também o é afastar-se em demasia da doutrina principal, aceita pela maioria dos analistas. As fundações de um prédio não mudam, mas podem ser alteradas de muitas maneiras.

Voltemos à questão inicial: “Por que a IPA?”. Chuster ressalta o elemento narcísico como essencial e centralizador do esfacelamento do poder. A IPA, como representante do poder intocável e regulador, coloca-se no lugar do suposto-saber analítico, o ideal narcísico, ao mesmo tempo que tem sua autoridade posta em dúvida e novamente restaurada. O autor coloca como objetivos de uma boa análise o luto pelos objetos danificados, o desenvolvimento da função simbólica(não-psicótica) e a reparação. O poder perverso e centralizador é a ausência de poder, com suas más alianças desagregadoras.

Na frase que se inscreve na página inicial do site da IPA destacaríamos algumas expressões que considero significativas como elementos de poder idealizado, contestado e finalmente introjetado com modificações pelas instituições.



“The IPA is the primary accrediting and regulatory body for psychoanalysis. Our mission is to assure the continued vigour and development of psychoanalysis as a science, as a treatment and as a profession”.

A IPA, portanto, é confiável por princípio(primary accrediting). O elo de confiança básica na mãe é fundamental na formação da autoconfiança. “Confiem em mim e serão protegidos” . Errado? Os outros indivíduos(o mundo externo) serão avaliados a partir deste elo de confiança básica.

O IPA se define como messiânica(our mission is...) na proposição de vitalizar o desenvolvimento, persistindo em afirmar-se “as a science”, um de seus maiores desafios. Se pensarmos em termos popperianos, as instituições psicanalíticas preenchem os critérios do chamado falseacionismo de Karl Popper, segundo o qual as teorias(científicas) devem ser testadas e substituídas continuamente por outras mais aceitáveis, mas nunca definitivas. Como, aliás, sempre fez o próprio Freud com a ansiedade, a teoria dos instintos e a cura analítica.

A psicanálise, desde o as reuniões das quartas-feiras em casa de Freud, se configurou como uma família, com seu chefe como objeto de amor e guardando para cada membro o lugar do ideal do ego. O Cristo(Freud) é suposto ter dito as palavras da vida, que dão sentido à existência humana(Roustang). Se uma sociedade não redestila os defeitos da identificação e do amor, fica cega, ameaçada e subvertida, com seus componentes em luta fratricida. Entre nós, Zimmermann narra o surgimento da Sociedade do Rio Grande do Sul como inicialmente um “grupo familiar”, sem estatutos, regulamentos ou outra notação, com três analistas e três ou quatro candidatos, reunidos em torno de uma idéia diretriz. Cita o dicionário filosófico de Jolivet: uma instituição é por definição autoritária, juridicamente constituída e destinada a durar independentemente da vontade de seus membros(grifo nosso). A IPA seria, neste aspecto, nosso passaporte para a imortalidade, transcendendo nossa existência física.

Concluindo, não poderia deixar de mencionar o aspecto de representatividade do poder constituído frente a um momento delicado de confronto diante da tentativa de institucionalização e suposta democratização da psicanálise por um grupo mesclado de políticos que procura registrar a “patente” psicanalítica sob forma de uma instituição dita oficial, como um conselho federal. Quem nos representa e nos defende neste “exame de DNA” para confirmar a paternidade da autêntica psicanálise?

Talvez aqui algumas respostas à nossa questão inicial. “Por que a IPA”?


RESUMO
O trabalho procura investigar a ambivalência, ao longo da história do movimento psicanalítico até os dias atuais, que envolve as dissidências e desmembramentos das instituições psicanalíticas partir da célula-mater International Psychoanalytical Association, a IPA. Ao mesmo tempo que as afiliadas contestam a presença de leis e regras regulamentadoras do poder central, ressentem-se da falta da função agregadora e estruturante que a mesma instituição representa e desempenha, remetendo-se a ela.


UNITERMOS: instituições psicanalíticas, poder, IPA, divergências, ambivalências, estrutura, confiança.
ABSTRACT
This work tries to investigate the ambivalence, along the history of the psychoanalytic movement to the current days, that involves the dissidences and dismemberments of the psychoanalytic institutions from the cell-mater International Psychoanalytical Association, IPA. At the same time that the members question the presence of laws and rules of the central power, they are resented of the lack of the function of aggregate and structure that the same institution acts and it carries out, sent back to it.

UNITERMS: psychoanalytic institutions, power, IPA, divergences, ambivalences, structures, trust.


RESUMEN

El trabajo intenta investigar la ambivalencia, a lo largo de la historia del movimiento psicoanalítico a los días actuales de que involucran las disidencias y desmembraciones de las instituciones psicoanalíticas de la célula-mater la Asociación Psicoanalítica Internacional, IPA. Al mismo tiempo que los miembros cuestionan la presencia de leyes y reglas del poder central, ellos se notan de la falta de la función de agregado y estructura que la misma institución actúa y lleva a cabo, volviendo a ella.



UNITERMOS: las instituciones psicoanalíticas, el poder, IPA, las divergencias, las ambivalencias, las estructuras, la confianza,.
BIBLIOGRAFIA

  1. CHUSTER, A.(1996) Diálogos Psicanalíticos sobre W. R. Bion, Tipo & Grafia, Rio de Janeiro.

  2. KOHUT, H. (1984) Self e Narcisismo, Zahar, Rio de Janeiro.

  3. ROUSTANG, F. (1987) Um Destino Tão Funesto, Timbre Taurus, Rio de Janeiro.

  4. ZIMMERMANN, D. (1988) Relações da Psicanálise, Artes Médicas, Porto Alegre.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal