O poder transformador do cristianismo primitivo



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O PODER TRANSFORMADOR DO
CRISTIANISMO PRIMITIVO
Raul Branco

Raulbranco38@gmail.com

Dedico esta obra a Edílson Almeida Pedrosa, amigo e companheiro incansável em minha jornada de escritor e buscador da vida espiritual. Edílson é conhecido em seu amplo círculo de relacionamentos por seu total desprendimento, generosidade, integridade, dedicação ao dever e à mais alta ética, constante bom-humor, transparência e sinceridade. Sempre disposto a ajudar a todos que solicitam sua cooperação, procura realizar toda tarefa, seja ela modesta ou importante, de forma meticulosa, como se fosse uma obra de arte a ser exposta para a posteridade. Edílson é um estudioso dedicado da vida espiritual, tendo escrito vários artigos e traduzido obras importantes da tradição cristã. Os momentos de convívio com Edílson são para mim ocasião de alegria, refrigério e total sintonia. Fico feliz por esta oportunidade de prestar uma homenagem, ainda que singela, a esse amigo excepcional que tanto enriqueceu minha vida.

O PODER TRANSFORMADOR DO CRISTIANISMO PRIMITIVO

Índice


Convite para um diálogo (Padre Marcelo Barros) 4


  1. INTRODUÇÃO 6

  2. SIMPLICIDADE E DIVERSIDADE NO CRISTIANISMO PRIMITIVO 10

    • Constantino e a diversidade de doutrinas 10

    • A disseminação da Boa Nova 13

3. OS ENSINAMENTOS DO CRISTIANISMO PRIMITIVO 16

4. PRIMEIRA ETAPA: A VIDA ÉTICA 20

  • Estabelecendo a fundação 20

  • A lei: garantia da justiça divina e da perfeição do homem 22

  • A regra de ouro 26

5. SEGUNDA ETAPA: A VIDA ESPIRITUAL 29

  • Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará 29

  • Cristo em nós 30

  • Despertar Cristo em nós ou crer em Cristo? 34

  • A busca da verdade 39

6. OS INSTRUMENTOS EXTERIORES 41

  • Estudo do caminho espiritual e da vida dos místicos 41

  • Interpretação da Bíblia 45

  • Rituais e sacramentos 52

7. OS INSTRUMENTOS INTERIORES 54

  • A purificação 54

  • O amor 57

  • Contemplação ou oração do silêncio 62

8 O CRISTIANISMO PRIMITIVO E O MUNDO MODERNO 67
Convite para um diálogo

Marcelo Barros1


Todo livro é um diálogo entre quem escreve e quem lê. Este é, especialmente, um exercício espiritual de diálogo porque, nele, o autor dialoga com o cristianismo primitivo, fala aos cristãos de hoje e, ao mesmo tempo, reinterpreta essas tradições a partir de uma sensibilidade espiritual mais ampla, independentemente de pertencer ou não a qualquer religião instituída.

Prefaciar um livro é referendá-lo e aceitar ser para o autor como um paraninfo que o introduz em um novo círculo de relações. Estritamente falando, o professor Raul Branco não precisaria disso. É um intelectual e pesquisador muito conhecido em todo o Brasil. Grande conferencista, já trabalhou na ONU e teve o encargo de representar a ONU e o governo brasileiro em diversas conferências internacionais. Sua formação em Economia serve de esteio prático para sua busca interior mais profunda, o que faz dele, hoje, um dos expoentes da Sociedade Teosófica no Brasil. Ali, cada semana, ele coordena um grupo de estudos sobre o Cristianismo Primitivo. Estudou a fundo os fenômenos do Esoterismo e tem como enfoque das suas pesquisas as religiões comparadas. Além disso, é autor consagrado. Livros anteriores seus, como “Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã” (Editora Pensamento, 1999) e “Pistis Sophia. Os Mistérios de Jesus” (Bertrand Brasil, 1997) já nos preparam para o banquete de erudição e síntese espiritual que é este seu novo livro: “O Poder Transformador do Cristianismo Primitivo”.

O primeiro capítulo se centra sobre a “simplicidade e a diversidade do cristianismo primitivo”. De fato, até, ao menos, o século II, as comunidades ligadas ao “movimento de Jesus” pertenciam a culturas bem diversas. Isso faz com que o cristianismo que aparece refletido no chamado “Evangelho de Mateus” seja bastante diferente do que era vivido pelas comunidades paulinas e mais ainda pelos círculos joaninos. Alguém prefere mesmo falar em “cristianismos primitivos” no plural. Essa diversidade em nada impediu que se mantivesse uma unidade fundamental. Cipriano de Cartago, pastor no século III, dizia: “A unidade abole as separações, mas respeita as diferenças e com elas se enriquece”.

O professor Raul discorre bem sobre essas veredas e, depois, como alguém que, afetuosamente, nos toma pela mão, nos conduz aos “ensinamentos do cristianismo primitivo”, centrando a atenção especial na proposta espiritual do Cristo aos seus discípulos.

Quem está habituado a ler os estudos sobre as primeiras gerações cristãs, oriundos de meios ligados à Teologia da Libertação achará este livro por demais diferente e mesmo divergente das interpretações de especialistas que fizeram pós-doutorado na matéria aqui no Brasil, como Eduardo Hoornaert, em estudos como “A Memória do Povo Cristão”, “O Movimento de Jesus” e “Cristãos da Terceira Geração”, mesmo se em alguns princípios e conclusões coincidem, como a crítica ao cristianismo imperial nascido a partir da influência do imperador Constantino no século IV.

A época compreendida neste livro como sendo “cristianismo primitivo” estende-se pelos primeiros séculos, sem atender tanto a diferenças que existiram de uma geração a outra. Para o objetivo desse estudo, isso não tem importância. Aqui o ponto de partida metodológico não é o de um estudo estritamente histórico. Por isso, a abordagem muda e nos conduz a conclusões diferentes. Tais resultados não se contradizem, mas se completam. Nos últimos 25 anos, os estudos dos textos neotestamentários, ao menos nos ambientes de Igrejas cristãs no Brasil, têm sido sempre feitos a partir do contexto histórico. Estudam-se as comunidades e movimentos que estão por trás dos textos e a partir daí se interpreta mesmo o que o Jesus dos Evangelhos diz (que nem sempre é o Jesus histórico). Raul se debruça sobre os textos a partir de seu conhecimento dos círculos esotéricos. Já vários autores cristãos e não cristãos escreveram sobre a dimensão mística e mesmo esotérica presentes em alguns grupos e textos do cristianismo primitivo e como isso foi posteriormente esquecido ou mesmo censurado. Agora, nestas páginas do Raul, este veio espiritual é novamente valorizado e vem enriquecer nossa forma de abordar os textos antigos.

Para mim, que trabalho no diálogo entre as diferentes tradições espirituais e desenvolvo uma Teologia do Pluralismo cultural e religioso, alguns trechos deste livro me recordam a teologia de Raimundo Panikkar. Por exemplo, a insistência em sublinhar o “Cristo interior”, “Cristo em nós” como essa presença divina que vai muito além da tradição cristã e se encontra em qualquer outro caminho espiritual. Desculpem-me de citar um de seus textos: “Os cristãos têm razão de falar do Cristo e não somente de Deus, porque Deus não se fecha em si mesmo e sobre ele mesmo. Volta-se para a humanidade e para o mundo com os quais quer entrar em comunhão. É isso que significa o termo ‘Cristo’. Cristo é absolutamente único e universal “símbolo vivo para a totalidade da realidade, humana, divina, cósmica. Está no centro de tudo o que existe. É o ponto de cristalização, de crescimento e reunião de Deus, da humanidade e de todo o cosmos em seu conjunto. É a ação histórica da divina Providência que inspira a humanidade por diferentes caminhos e conduz a vida humana à sua plenitude”. O mesmo Cristo que tomou forma e corpo em Jesus de Nazaré pôde tomar corpo sob outros nomes ainda: Rama, Krishna, Purusha, Tathagata, etc. Jesus tem lugar em uma série de incorporações do mesmo Cristo. “Jesus é o Cristo, mas o Cristo não é somente Jesus”2.

Ao ler “O poder transformador do Cristianismo Primitivo”, você vai compreender ainda melhor essa verdade. Quem saboreia estas páginas, mais do que nunca concordará: da fé e do sagrado, ninguém pode ser mais do que amante que se põe a serviço. Do que é divino, não há título de propriedade. Só acesso gratuito para toda busca que engravida o coração.

Os cristãos mais habituados à “reta interpretação da doutrina” estranharão, uma vez ou outra, algumas intuições e não concordarão com certas conclusões. Acho isso positivo e fecundo. Tome como um exercício espiritual escutar uma interpretação diferente da sua fé. Para mim, foi muito enriquecedor, conhecer essa abordagem da minha tradição por alguém que, de certa forma, a estuda “de fora” ou, ao menos, não a partir da Igreja.

Este novo livro do Raul é um presente de amor para você que o lê e para todo mundo que busca a Paz através do diálogo e da superação das intransigências, discriminações e fundamentalismos. Espero que, ao terminar de saboreá-lo, você possa confirmar o que, em 1969, o monge beneditino Thomas Merton disse na conferência inter-religiosa entre monges cristãos e budistas em Calcutá: “O nível mais profundo da comunicação não é a comunicação, mas a comunhão. Ela é sem palavras. Ela está além das palavras, além dos discursos, além dos conceitos. Neste grupo, não estamos descobrindo uma unidade nova. Descobrimos uma unidade antiga. Queridos irmãos e irmãs, nós já somos Um. Mas imaginamos não ser. O que temos de reencontrar é nossa unidade original. Apenas, temos de ser o que já somos”3.



1. INTRODUÇÃO
Jesus foi um dos maiores revolucionários de todos os tempos. Sua ação insidiosa, porém, não estava voltada para a luta de classes. Tampouco dedicou suas energias para promover a expulsão dos opressores estrangeiros do povo judeu, como os zelotes, seita judaica que lutou contra as forças romanas, e que foi aniquilada no massacre de Massada no ano 73 de nossa era. Afinal de contas, isso não deve nos surpreender, pois, como ele disse reiteradamente, seu reino não era desse mundo. Mesmo assim, seu ministério causou uma revolução radical na vida humana, uma revolução que continua mesmo depois de dois mil anos, porque seu impacto é permanente, pois ele pregava e empregava as armas invencíveis do amor e da verdade para conquistar os corações humanos, mesmo quando entrincheirados por trás das sólidas barreiras da vida mundana.

Qual foi então o caráter da revolução que ele iniciou? A grande transformação revolucionária que promoveu foi de cunho espiritual. O irônico, porém, é que o objetivo central de sua pregação não era trazer algo inteiramente novo ao povo judeu e, por meio dele, ao resto do mundo. A essência de seu ministério era promover o retorno ao objetivo básico de todo movimento espiritual em sua origem, ou seja, a experiência de Deus no interior do homem. Os grandes instrutores e profetas como Jesus geralmente não fundam religiões. Essa tarefa tende a ser realizada por seus seguidores numa tentativa de institucionalizar os ensinamentos de seu Mestre, para melhor conservá-los e disseminá-los. Ainda assim, a história indica que, com o passar do tempo, as religiões tendem a minimizar a experiência mística interior preconizada em seus primórdios e a dar ênfase aos rituais externos e à obediência das doutrinas estabelecidas pelos hierarcas. Existe uma clara analogia desse processo na natureza física: as águas de um rio são puras e cristalinas perto de sua nascente, mas vão perdendo sua pureza original ao longo do curso com a introdução de sedimentos e poluentes de vários tipos.

Ao comentar o ministério de Jesus, padre Marcelo Barros4 sugere que “Jesus foi um profeta judeu que, como outros profetas e mais do que todos os profetas antigos, insiste na chegada iminente do que ele chama de ‘Reino de Deus’, uma transformação radical do mundo e de todo ser humano, em todas as dimensões da vida, interior e social, pessoal e coletiva, dos corações e das estruturas da sociedade, mas a partir de dentro, através da ‘conversão.’ Ele não veio fundar uma nova religião. Sua proposta era viver o caminho humano de forma integral e responsável. Ele falou com base em sua cultura religiosa (judaica) de forma nova. O novo que ele trouxe foi a revelação de Deus como amor universal, inclusivo, presente em todas as culturas e religiões, e que ama gratuitamente. Deus como energia da solidariedade e paz, presente e atuante nos corações humanos e não distante como alguém externo com o qual as pessoas se relacionavam.”

Com o passar do tempo, o afastamento do objetivo primordial da religião, que é sempre a experiência divina interior, gera uma insatisfação da alma que é sentida pelo homem exterior de diferentes formas. Um estudioso sugere: “A crise atual das Igrejas e religiões históricas reside na ausência sofrida de uma experiência profunda de Deus.”5 O homem passa então a procurar explicações e soluções para essa insatisfação interior. Quando isso ocorre, a hierarquia religiosa, em todos os tempos e tradições, temerosa que essa insatisfação possa levar a um afastamento de seus membros, passa a pregar uma obediência mais estrita às suas doutrinas e práticas, acirrando o sentimento de alienação daqueles em quem o chamado interior se faz sentir.

Esse processo era visível no mundo judaico no tempo de Jesus. O entendimento literal e materialista das escrituras judaicas, no contexto da opressão imposta sucessivamente pelos impérios caldeu, persa, grego e romano, fazia com que os judeus ansiassem cada vez mais pela vinda do Messias anunciado pelos profetas, para estabelecer o “Reino” em que eles, como o povo eleito de Deus, governariam sobre todos os povos da Terra. Para que a “promessa da aliança” fosse cumprida o mais rápido possível, procuravam obedecer rigorosamente os mandamentos da Lei Mosaica, o sinal da ‘aliança.’ Por isso, a característica fundamental do judeu tradicional era ser obediente à “Lei.”

Jesus em suas pregações falava por meio de parábolas sobre o Reino de Deus, atraindo com isso o interesse de seus compatriotas. No entanto, seu comportamento não ortodoxo com relação a certos preceitos da Lei Mosaica, em especial aos relacionados com os rituais de pureza, de observância do sábado e da comensalidade, provocava a perplexidade do povo e a hostilidade dos saduceus (sacerdotes do templo) e fariseus (escribas), os guardiões da Lei. A maioria do povo hebreu pautava sua conduta pela observância religiosa na linha rabínica de Shammai, estritamente rígida e legalista. Para eles, a ênfase da prática religiosa era o formalismo externo. Jesus, porém, seguia a linha da escola rabínica de Hillel, de cunho místico, que enfatizava a atitude interior de entrega a Deus e de amor ao próximo. Para Jesus, a lei era um instrumento ou caminho revelado a Moisés para facilitar o retorno do homem ao seio divino. A lei não era uma finalidade em si mesma, mas um método para tornar as pessoas verdadeiramente livres, e não para as aprisionar.

Interpelado pelos fariseus sobre a não observância estrita do sábado por seus discípulos, Jesus respondeu: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2:27). Suas respostas provocavam a ira dos fariseus que não conseguiam argumentos dentro da ortodoxia judaica para contestar aquele jovem rabino que, para eles, infringia a Lei. Jesus pregava o retorno à essência espiritual da tradição judaica, em contraste com a tendência histórica dos guardiões da Lei de enfatizar as práticas externas. Essa tentativa também foi feita por outros profetas antes de Jesus, como mostram as passagens: “Porque é amor que eu quero e não sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6:6), e “Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniqüidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo?” (Is 58:6). O que Deus espera do homem foi expresso por Jesus como: “Misericórdia é que eu quero, e não sacrifício” (Mt 9:13).

A doutrina progressista de Jesus era um retorno à essência do ensinamento divino já ministrado aos judeus por seus patriarcas e profetas, atualizado e aprofundado para atender as necessidades espirituais do povo daquele tempo e dos séculos vindouros. No entanto, o afastamento progressivo dos ensinamentos originais, que visavam promover a justiça e a compaixão entre os homens e preparar os devotos para o conhecimento de Deus em seus corações, levou à cristalização da vida religiosa judaica na forma de obediência a rituais externos, consolidados nos 613 preceitos da Lei Mosaica. Deve ficar claro que nem todos esses preceitos eram de origem divina. A maioria, na verdade, refletia os antigos costumes do povo judeu que foram acrescentados ao Decálogo para formar a “Lei.” Por isso, os ensinamentos de Jesus chocavam os líderes das sinagogas e do Templo de Jerusalém, que viam com preocupação seu prestígio e poder abalados pelo jovem nazareno, principalmente porque seus ensinamentos eram bem aceitos por grande parte do povo.

Mas, se Jesus revolucionou a vida religiosa e espiritual em seu tempo, legando para seus seguidores de todos os tempos as chaves do Reino de Deus, por que nos dias de hoje tantos líderes religiosos relatam uma crescente insatisfação no seio de muitos segmentos da família cristã? Alguns observadores sugerem que a história se repete. Na verdade, isso já era conhecido dos sábios antigos, estando registrado na Bíblia: “O que foi será, o que se fez, se tornará a fazer: nada há de novo debaixo do Sol! Mesmo que alguém afirmasse de algo: ‘Olha, isto é novo!’, eis que já sucedeu em outros tempos muito antes de nós” (Ec 1:9). Para algumas pessoas, existem certos paralelos entre a ortodoxia judaica no tempo de Jesus e a ortodoxia cristã atual, como a observância do sabath pelos judeus, com seus holocaustos e cerimônias no templo ou nas sinagogas, e a participação na missa dominical, com seu sacrifício eucarístico, ou em outros serviços religiosos dos cristãos modernos; o estrito pagamento do dízimo sobre toda a produção obtida pelos judeus e o pagamento do dízimo efetuado pelos cristãos sobre salários e outras rendas, principalmente entre os evangélicos; a obediência à Lei Mosaica e a crença nas doutrinas e dogmas da Igreja.

Será que a apatia e descontentamento interior sentidos por tantos cristãos não é uma indicação de que nós também nos afastamos dos verdadeiros ensinamentos divinos em nossa própria religião, como os judeus fizeram no tempo de Jesus? Por que ocorreu esse gradual afastamento dos ensinamentos originais do Mestre? Seria possível, em nossos dias, um retorno aos virtuosos costumes do período áureo da tradição cristã, os primeiros três séculos de nossa era, quando a maior parte dos cristãos vivia de acordo com os ensinamentos de Jesus com tal determinação e fé que não havia hesitação mesmo diante do martírio e com isso grande número de seus seguidores alcançava a experiência de Deus, o anseio de todas as almas em todos os tempos?

Essas questões serão examinadas detalhadamente ao longo deste trabalho. Podemos adiantar agora que o cerne da questão deve-se ao fato de a vida do cristão moderno em geral, e do católico em particular, não estar realmente pautada naquilo que Jesus pregou. Se observarmos a vida do católico típico, seremos forçados a concluir que ela se resume na participação nominal na missa dominical e nas festas e romarias de santos padroeiros. Mesmo entre os que participam da missa ou do serviço religioso de sua igreja, encontramos grandes números daqueles que estão de corpo presente, mas com a mente e o coração distantes. A missa ou serviço religioso é uma obrigação a ser cumprida e não uma prática que deleita seus corações e eleva suas almas.

Além disso, a maior parte dos católicos tem um conhecimento extremamente precário das escrituras sagradas, em contraste com seus irmãos evangélicos. Conseqüentemente, esses fieis não estão cientes da riqueza espiritual que nos foi legada pelo divino Mestre e registrada na Bíblia. Os evangélicos, por sua vez, enfrentam a limitação auto-imposta de aceitar uma interpretação literal das escrituras, sabidamente redigidas com o uso intenso de parábolas e alegorias.

Esse parece ser, portanto, o âmago do problema da cristandade atual: a alienação da religião na vida diária dos fiéis. Essa alienação advém de um considerável grau de ignorância dos ensinamentos que nos foram legados por Jesus e sua relevância para nossa vida nos dias de hoje. Ora, quem não conhece os ensinamentos do Mestre, não os pode praticar. Nesse ponto o cristão moderno é diferente de seus irmãos dos primeiros tempos. Os seguidores de Jesus, mesmo antes dos evangelhos canônicos terem sido escritos, ouviam com atenção o que os pregadores itinerantes ensinavam e guardavam em sua mente e seu coração as palavras de sabedoria, sentindo-se compelidos a colocá-las em prática. As famílias, os amigos e os vizinhos de cada cidade ou lugarejo conversavam sobre a Boa Nova com mais entusiasmo de que hoje se fala de futebol, novela ou política. As palavras do Mestre, como foram transmitidas por seus discípulos, eram consideradas um tesouro a ser bem guardado no coração.

As igrejas cristãs estão conscientes de que existe uma insatisfação latente, quando não ativa e vocifera, no seio de seus fiéis e crentes. Apesar das tentativas de modificação de seus rituais, dos temas de suas pregações, do estabelecimento de maior contato com os paroquianos e dos movimentos de evangelização, ainda assim permanece a insatisfação interior. Muitos líderes católicos e protestantes estão procurando encontrar formas de amenizar os problemas detectados no seio de suas congregações, sem, contudo, atacar o cerne da questão espiritual. Alguns chegam a propor objetivos sociais para atender a esse anseio da alma. Surgiram movimentos, como a teologia da libertação, a pastoral da criança, o movimento dos sem-terra e outros que identificaram claras injustiças sociais em nossa sociedade, que certamente merecem a atenção dos verdadeiros cristãos. Muita energia foi direcionada para superar essas injustiças. Os resultados nem sempre atenderam inteiramente aos anseios de seus idealizadores e muito menos às necessidades daqueles que até hoje sofrem e precisam de ajuda. Ainda que alguns avanços tenham sido feitos na área social pelas igrejas católicas e protestantes, ao que tudo indica, os anseios da alma não parecem ter sido atendidos.

Alguns observadores dizem que a solução é simples: bastaria vivermos de acordo com o ensinamento central de Jesus, reiterado ao longo de suas pregações, ou seja: amai-vos uns aos outros. No entanto, se isso fosse tão simples assim, esse anseio já teria sido atendido há muitos séculos. O problema é que a pessoa comum encontra dificuldade para ser verdadeiramente amorosa com aqueles fora de seu círculo íntimo. Nossas tendências materialistas, acirradas pelos valores de nossa sociedade competitiva e consumista, fazem com que o homem e a mulher comum vivam de forma autocentrada, quando muito aceitando os valores relacionados com o que chamamos de vida civilizada e educada. Mas, os valores da civilização e da educação modernas, nada mais são do que vernizes que tendem a se romper sempre que nossos interesses estão em jogo. A realidade de nossa vida é que agimos como lobos ferozes e egoístas, vestidos com peles de ovelha da moralidade do convívio social.

Todos esses fatos conspiram para que exista hoje na cristandade uma insatisfação crescente que muitos fiéis e crentes sinceros não conseguem definir com facilidade. Sentem que falta algo em suas vidas espirituais. Tal angústia reflete a ausência daquela paz interior que caracteriza a vida dos místicos e mesmo de todo aquele que está realmente engajado na busca espiritual. É como se suas almas estivessem querendo dizer alguma coisa que o homem externo não consegue captar com clareza. Seria possível que essas almas, sintonizadas com o mundo espiritual, estivessem com saudade da simplicidade e pureza da mensagem original do Salvador?

O resgate dos ensinamentos essenciais de Jesus também tem uma importância fundamental para a mocidade e os jovens adultos alienados e desligados da religião nos dias de hoje. Em nosso mundo moderno, com seu ritmo frenético, podemos constatar que as pessoas passam por mais experiências do que seria possível em cinco ou dez vidas há dois mil anos atrás. Portanto, a busca desenfreada do prazer e das sensações, que caracteriza nossa sociedade consumista, se por um lado leva à alienação e à decadência, por outro, faz com que muitos alcancem mais rapidamente seu nível de saturação com a vida mundana e passem a buscar a transcendência de outras formas, especialmente na vida espiritual. A maior parte dessas pessoas, especialmente quando viveram num ambiente cristão tradicional, buscam saciar seus anseios interiores em outras tradições, mormente as orientais, por desconhecerem as práticas espirituais da tradição cristã. Essas pessoas seriam das mais beneficiadas pelos ensinamentos espirituais do cristianismo primitivo, porque já estão em busca da experiência de Deus.

Tenho percebido que Jesus, em sua presciência e sabedoria, já havia previsto nosso anseio por esses ensinamentos transformadores essenciais. Por isso, decidi sistematizar o meu entendimento do que o Mestre já havia ensinado, mas que parece não ter sido devidamente percebido ou enfatizado, para orientar nossa prática de vida. Estou convicto de que os ensinamentos e as práticas que serão apresentados aqui atendem ao anseio de nossas almas de retornarmos à essência da mensagem de Jesus, para que assim possamos viver vidas mais plenas, realizadas e felizes, pautadas pela verdade e pelo amor ao próximo, e atender aos nossos mais elevados anelos espirituais de experiência de Deus. O primeiro nível de prática está voltado para a fundamentação de nossa vida neste mundo, servindo, ademais, como elemento de transição para o ensinamento fundamental de Jesus, o amor a todos os seres. O segundo nível procura atender o anseio mais profundo daqueles que aspiram verdadeiramente seguir o Mestre para assim alcançar a experiência de Deus.

No entanto, o poder transformador desses ensinamentos essenciais, como na verdade, de todos os ensinamentos de Jesus, dependerá sempre de nossa resposta a eles. As diferentes possibilidades de resposta foram exemplificadas pelo Salvador em sua parábola do semeador (Mt 13:4-9), que sai para semear. Parte das sementes cai à beira do caminho e é comida pelos pássaros, outra parte cai em lugares pedregosos onde por falta de terra não consegue se enraizar e morre, outra cai entre os espinhos sendo abafada ao crescer e, finalmente, outra cai em terra boa, produzindo fruto. Os quatro lugares referem-se a quatro fases sucessivas da evolução humana. A ‘semente’ representa a verdade eterna expressa pelos ensinamentos do Mestre. A beira do caminho, é a vida do homem comum desatento e incapaz de apreciar a sabedoria. O terreno pedregoso com pouca terra representa a situação de muitas pessoas que se entusiasmam com idéias novas mas que, por falta de profundidade de caráter, não são capazes de deixar essas idéias seguirem seu curso natural para transformar suas vidas. Os espinhos constituem as distrações e seduções do mundo material que abafam a tenra plantinha da vida espiritual. A terra boa representa a mente e o coração do homem maduro que percebe a verdade e passa a agir de acordo com seus ditames.

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