O porto contra Junot



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O Porto contra Junot

CM 1807 o Tratado Secreto de Fontainebleau -•—' liga a Espanha à França, no mesmo inte­resse fementido de partilhar Portugal. Em fins •desse ano Junot entra em Lisboa espumando de raiva ao ver que não chegava a tempo de tomar sob a sua protecção C1) a Família Real Portu-guesa. Simultaneamente tropas espanholas inva­dem o país. O Alentejo e o Algarve são ocupa­dos pelas forças do Marquês do Socorro, o Norte por 10.000 homens de Taranco. O Porto fica sob o domínio deite general. D. Francisco de Taranco e Lhano não agravou os portuenses e, quando em Janeiro faleceu (duma indigestão...), a sua morte foi geralmente sentida (2).

(J) Muito se troçou esta expressão. Junot, na sua proclamação de 22 Nov. 1808; dizia:—Napolèon, mon inaitre, m'envoie pour voiis protegerje vons protège-rai. Foi tal a protecção que até os rapazes em Lisboa, quando queriam bater nalgum companheiro, usavam frequentemente da seguinte frase:—Espera ai que te vou proteger os narizes com dois murros. (Correio Brazi-liense e Aperçu nouveau sur lês campagnes dos Fran-çais enPort. etc., Paris, 1818. Pag. 21).

(2) «.Relação da Viagem de Junot a Portugal con­tada por ele mesmo», Lisboa, 1808. Pag. 5 nota.

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Durante largos sete meses Junot governa em Portugal e publica—na jovial expressão de Marfiro Cândido, Pastor do Douro.l —

Decretos sobre decretos Que até fazem rir a gente.

Primeiro a Paz proclama E sincera protecção; Livrar-nos do captiveiro De huma estrangeira Nação.

Já pensa que tem disposto A Lusa Gente invadida; Que he manada de cordeiro» De taes lobos illudida.

Diz, que ha-de encanar os Rios, Calçar de novo as Estradas, Dar novos Camões à Beira, E outras mil trapalhadas.

Tira a Mascara nefanda E decreta de repente Que João, pois lhe escapara, Deixara de ser Regente.

Que a seu Amo pertencia Deste Reino a Governança; . Abolida outra Regência Mesmo a Casa de Bragança.

Foi de cego a bordoada Que indispoz os Portuguezes Que, apezai* de desarmados . Quizerão comer .Francezes.

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Quarenta milhões de Francos Da primeira vez lhe pede, Resgate das Propriedades, v Que a toda a gente fede.

Mas não para aqui a sede Dobra suas extorsões Tributos sobre Tributos Rouba ao Templo os Lampiões.

Assim, sem brilho nem eufemismos, se ex­prime Maríiro Cândido na sua Trombeta Mé­trico-Analítica contra os planos, e imposturas de Napoleão e seus satélites (')•

Em junho de 1808, comandava as tropas espanholas no Porto o Marechal de Campo Be-lestá, directamente subordinado a Quesnel, em Março norheado por Junot governador das Armas da Divisão do Norte. Com Quesnel tinham vindo xins setenta dragões e artilheiros franceses que formavam a sua guarda, além de alguns empre­gados, também franceses, para várias reparti­ções. O delegado da polícia era Perron, o célebre Perron «que levava por cada passaporte 1040 e que exigia tributos dos Segeiros, Arrieiros, Bo-tequineiros, Tendeiros e até das Meretrizes» (2). Era Corregedor-Mór—que é como quem diz

. . (i) Lisboa, 1811.

(2) Fr. Joaquim Soares—Compêndio Histórico dos acontecimentos mais célebres... desde a entrada dos franceses em Portugal até à segunda restauração des­te... Coimbra, 1808, pág. 23.

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«Espião-Mõr» (J)—da Província de Entre Douro e Minho Amadeu Taboureau.

Uma fermentação surda vai lavrando na cidade contra os opressores, contra as suas inso­lências, contra as suas extorsões (2). Os ultrajes •sofridos não tem conta. A ignominiosa afronta infligida nas Caldas a um Regimento do Porto clama vingança (s). Conspira-se, Em casa do

(!) Relação breve e verdadeira da entrada do exército francês em Portugal. Lisboa, 1809, pàg. 61.

(2) Como exeihplo transcrevemos do Livro de Lem­
branças, n.° 6, da Santa Casa da Misericórdia'do Porto,
íls. 198 v. e 199, uma relação de pratas entregues aos
franceses: — Da Igreja da Miz. — entregarão a Carlos Miz.e
de Miranda como thesoureiro da contribuição imposta
a este Reino pelo Governo Francez em 15 de Março de
1808=5 alampadas—Caldeira de agua-benta —hissope—
Thuribulo—Naveta—Vaso de Lavatório da Communhão
—Jarro e bacia de Lavabo... total: 208 marcos—8 onças
—4 oitavos.

Da Igreja do Recolhimento de N. S. da Esperança entregaram ao, recebedor das Decimas, João Ribeiro de Faria em 15 de Março de l$08=Huma alampada, thuri-bulo, naveta, humas galhetas e prato respectivo, um meio corpo de imagem de S. Lázaro... total: 64 marcos e 4 oitavos.

(3) «Estava acantonado naquella Villa o valeroso
Regimento 2.° do Porto, que os Francezes temião, como
quem ainda se doia das feridas da guerra do Roussilhon;
succede um pequeno motim, suscitado pelo Capitão de
hum destacamento Francez, que pertendeu abusar de
huma mulher, que lavava quasi ao fim da Villa, que
tudo não passou de huma briga particular, que o Cadete
Vasconcellos, do dicto Regimento, desfez com um taco
de bilhar: da-se parte ao General Junoí, que aprovei­
tando a ocasião publica o facto em caracter de subleva-

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Desembargador Joaquim Rodrigues Botelho reu-nem-se, às noites., alguns patriotas revoltados formando uma «assembleia amante do Príncipe Regente». «Aqui sempre se ralhou» e ralha «altamente contra Napoleão, seu Governo e Emissários, apesar das proibições e espias», contam-se as últimas novidades, discute-se, desa-baí'a-se. Depois todos saem a passear provocan­temente pela porta do Governador, do Correge-dor-Mór «mofando sempre de tais tratantes». A polícia vigia a casa. Mas as reuniões prosseguem. No grupo há moderados e exaltados. Estes resol­vem liquidar Quesnel, o Taboureau e alguns tíiais. Traçam cuidadosamente o plano da con­jura. Preparam tudo — a hipótese de um fra­casso é mesmo prevista (!).

Por todo o país borbulham mal contidos assomos de revolta. Já as prepotências dos fran­ceses custam a suportar. As suas rapinas, as

cão, e faz marchar sobre aqttella Villa 4§. homens, e 4 peças debaixo do cominando dos Generaes Loyson e Thominiers; e correu de plano, que a ordem, expedida pelo General em chefe aos dictos Commandantes, finali­zava pelas cruéis expressões: Fusilez, ftisilez, fnsilez». Thom.miers queria victimas. Pediu ao Jiiiz de Fora que escolhesse algumas pessoas que fizessem menos falta. Os franceses chegarão às Caldas a 5 de Fevereiro de 1808; no dia 9 forão fusilados, sem provas e sem au­diência, nove portuguezes, «No dia seguinte à execução desfazem o dicto segundo Regimento do Porto; calção as suas Bandeiras; e despedem com ignominia Soldados e OfJiciaes.» Relação breve, etc., pàg. 67 e seg. (i) Fr. Joaquim Soares, op. cit., pág. 26.

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suas atrocidades ultrapassam todas as medi­das. Tem Junot o cuidado de ocultar aos portu­gueses o que se passa em Espanha. Só secreta­mente, muito vagamente, se sabe alguma coisa. Mas chega um dia em que, no Porto, se torna conhecida com segurança a cilada de Baiona. Napoleão atraíra àquela cidade a Família Real Espanhola sob um falso pretexto, e extorquira-lhe a abdicação da Coroa em seu favor, reservan­do-se a faculdade de poder dispor dela como bem lhe parecesse. Istç e a tragédia de Madrid de 2 de Maio foram o sinal de reacção. Toda a Espa­nha estava revoltada, desiludida.

li em 6 de Junho, pelas 6 da tarde, o coman­dante das tropas espanholas no Porto, D. Domin­gos Belestá, prende, por ordem da Junta Revolu­cionária da Galiza, Quesnel e os franceses que es­tavam na cidade: Perron consegue escapar-se ('). Imediatamente começa os preparativos de par­tida para Espanha e convoca para uma reunião a Câmara, o Brigadeiro Ltys de Oliveira da Costa e o Chanceler Governador das Justiças, Manuel Francisco da Silva Veiga Magro de Moura.

O oficio enviado à Câmara reza assim:

IH.mos S.res Presidente e Indivíduos dela Camará de Oporto

La pontual y exacta ovediencia que devo dar y doy à los ord.s dei Governo Espanol para conservar el buen orden y ascutada disciplina dela tropa Espanola de q.e

(l) Observador Português, pàg. 322.

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soy Comand.te Gen.1 hasido siempre y en todas circuns­tancias el fin y objeto de mis disvelos. Apesar de ellos no me ha sido posible hacerme sordo à los justos e repe­tidos clamores de unos Gefes y tropa q.e haviendo guar-' dado una fiel alianza com Ia francia por muchos. anos, en el dia seven desatendidos y en Ia maior indigência p.r faltar-lhes parte de Sus pagos y haveres dei mês an­terior, y dei Corriente sin embargo de q.e con varias ofertas seha querido desculpar este abandono. Estos poderosos motivos y outros que manifestarè a V. SS. II. decidieron ai Exmo S.r Gen.i Francês aconstituirse Pre-sionero de Guerra dei Ex.'° Espanol se lê ha tratado, y trata con Ia circunspecion y decoro q.e esige su recom-meiidable caracter. Este acontecim.to esige q.e V. SS. II. Io segan para q.e imniediatam.te se reunam en mi casa a efecto de acordarlo conveniente sobre su ministro pronto de Caudales, vagages, y viveres necessários ala marcha dcmi Ex.'° disponiendo V. SS. II. desde luego se publiquem los validos conducentes a que estos Natura-les gUardem Ia buena armonia q.e hasta aqui con los Espafioles, y aunque asi Io espero por Ias repetidas prueças de union y amistad q.e tengo observado, hago a V. SS. II. responsables de qualquiera alboroto o Co-mocion popular q.e será castigada militarmente y espero juna prontíssima execucion sim disculpa ni pretesto de quanto queda manifestado y V. S. II. me avisará el re-civo de este Ofdcio. Dios gue a V. SS. II. muchos anos oporto Seis de Junio de mil oicho cientos e oitho» Do­mingos Belestá. Ill.mos S.res Presidente e Indivíduos dela Camará de.oporto.» (])

Belestá não diz a principal razão da sua retirada e da prisão dos franceses, embora a alegada falta de pagamento às tropas espanho-

(1) Livro 17 do Registo da Câmara do Porto, fls. 29 v. e seg.

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Ias—o que também- se dava com as portugue­sas (*)—fosse uma importante causa de descon­tentamento. Nota-se que Belestá è, calculada-damente, um pouco enigmático.

Nessa noite aos Camaristas, aos magistra­dos (2), ao Brigadeiro Oliveira, à assembleia, o general espanhol, depois de falar sobre os moti­vos da sua atitude, dirige as seguintes palavras:

«Quando entrei neste Reino livres os achei, e agora retirando-me livres os quero deixar; resta-me porém saber o Governo que querem, se Portuguê-s com a Casa de Bragança se Francês».

Responde sem hesitar o vereador Tomás da

Silva Ferraz:

(!) Thiebault—Relation de 1'expèdiíion du Portu­gal faite en 1807 et Í808 par lê premier Corps d'obser-vation de Ia Gironde. Paris, 1817, pàg. 109 e nota.

(2) Á reunião compareceram o Presidente da Câ­mara e Juiz de Fora Luís .Barbosa e Mendonça, os. Ve-'readores Bernardo de Meio Vieira da Silva e Menezes, e Tomás da Silva Ferraz. O Chanceler das Justiças faltou mas em seu logar foram seis Desembargadores: Estanis-lau J.osè Brandão, João de Carvalho Matheus da Silva Ferrão, Vitoriano José de Cerveira Botelho do Amaral, João Bernardo Cardoso, Francisco Sabino da Costa Pinto e António Pedro de Alcântara Sá Lopes. Obs. Port., pàg. 523.)

Um dos vereadores que não compareceu, descul­pou-se mais tarde dizendo que andava «doente e a tomar banhos tépidos por causa duma retenção». O pior è que houve quem o visse a passear àquela hora. (Liv. das Vereações da Câm. do Porto n.° 98, fls. 92 e seg.)

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«Eu, a Camará e a Cidade nada mais desejão, que o autigo e suspirado Governo do Príncipe Regente Nosso Senhor e requeremos que imediatamente seja restabele­cido, que logo se descubram as Armas, arvorem as Reaes Bandeiras e todos os processos se façam em seu Augusto Nome» (l).

Todavia ainda há quem impugne esta «glo­riosa preposição». É o medo. Mas por fim todos se põem de acordo. Resolvem igualmente tratar de reorganizar os dois regimentos extintos, chamar os Auxiliares e dar armas às Ordeiian-ças (2).

Em 7 de Junho a bandeira das quinas tre­mula de novo na cidade. Os patriotas portuenses exultam. Reza-se um Te-Deum. No Castelo da Foz às 3 e meia da madrugada, é solenemente arvorada a bandeira nacional. O capelão P.° José Barbosa Pereira Maciel, o comandante Raimundo José Pinheiro e outros oficiais fazem nesse dia no Castelo, em acção de graças, grandes festas à Senhora do Rosário (3). Repicam os sinos da fortaleza e os da freguesia. Os canhões salvam com 21 tiros (*). Raimundo comunica o que se está passando, ao comandante do brigue inglês Eclipse. O escaler de Saúde e, a seu exemplo, os

(l) Òbs. Porí., pàg. 233.

('3) Liv. Vereações,- cit. loc. cit.

(3) Henrique Duarte Sousa Reis. Apontamentos para a verdadeira Hisí. antiga e moderna da cidade do Porto—Ms. da Bib. Pública Municipal do Porto, vol. II, pàg. 424.

.(4) Obs. Poi-i., pàg. 323.

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barcos nacionais surtos no Douro ostentam a bandeira portuguesa. Belestá retira com os seus homens e os seus prisioneiros, deixando à Câ­mara uma carta fechada e lacrada para Junot. O Senado envia, por um próprio, este ofício ao seu destino juntamente com uma carta sub­missa e respeitosa cuja cópia no Livro de Re­gisto da mesma Câmara, mais tarde, mão des­conhecida, riscando e rabiscando, pretendeu tornar ilegível (T).

Só três dias dura a nova situação. O Briga­deiro Luís de Oliveira da Costa, que tinha sido nomeado Governador Interino da Cidade, faz, no dia 9 ao meio dia, arrear as bandeiras nacionais, e manda prender o major Raimundo José Pi­nheiro. Mas Raimundo tem artes de se esca­par. O Superintendente da Alfândega prende o filho do Patrão-Mór por ter arvorado uma ban­deira portuguesa na Ponte (2). Oliveira chama para o Porto os Regimentos de Milícias de Pena-fiel, Maia e os do Porto que estavam na Provín­cia. Licenceia os oficiais que muito bem entende, e volta a governar em nome de Napoleão.

No entanto os portuenses não permanecem inactivos. Salienta-se Raimundo Pinheiro. Oculto, vai trabalhando activamente. Faz espalhar «a notícia da vinda de um exército espanhol» o que «aumenta o espírito restaurador». De cumplici­dade com as trevas da noite corre as ruas, afixa


  1. Livro 17 do Reg. da Câmara, cit., fls. 30 v. e seg.

  2. Obs. Port., pàg. 324.

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editais, rasga os de Junot. «Maquina quantas astúcias lhe são possíveis para acelerar a suble­vação total» (1).

Com grande ansiedade espera-se, a todo o momento, a noticia da prisão de Junot em Lis­boa, como Bellestá ordenara ao seu colega Carafa.

Mas o rato apanhara o gato.

Habilmente, astuciosamente, os espanhóis foram desarmados e presos por Junot. Diz-se que Carafn, tendo recebido ordens da Junta de Sevilha no mesmo sentido das de Bellestá, as apresentara ao recente Duque de Abrantes, traindo assim os seus compatriotas ^2).

No Porto, pelas esquinas, são afixados amea­çadores editais de Junot: Bellestá não voltará a pôr os pés na cidade; ninguém — nem por fumo :poderá pronunciar o nome do Príncipe dester­rado; ordenam-se devassas contra todos aqueles que fomentem revolta contra Napoleão ou falem contra ele.

Mas tudo isto que importa? Já nada terá mão na sublevação que começa.

(Conclui no próximo número).

artur de magalhães basto.



  1. Obs. Pori., pàg. 324.

  2. Relação breve, etc., cit. pàg. 33, nota 1.

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