O precursor da imprensa mineira



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004



GT História das Mídia Impressa
Coordenação: Prof. Luís Guilherme Tavares (NEHIB)

O PRECURSOR DA IMPRENSA MINEIRA

Jairo Faria Mendes

Doutorando em Comunicação Social pela Universidade Metodista de SP e professor da PUC Minas Arcos

Resumo

Em 1807, um ano antes da criação da Imprensa Régia, o padre mineiro José Joaquim Viegas de Menezes imprimiu um poema de 14 páginas, utilizando a técnica da calcografia (chapa de metal fixa). O texto era um poema de Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos homenageando ao governador da província, Pedro Maria Xavier de Athayde e Melo. Este quis ver o texto impresso, e, por isso, procurou o padre, que lembrou da proibição da atividade de imprensa e das punições a quem ousava descumpri-la. Mas o governador garantiu que assumiria toda a responsabilidade pelo feito. O padre Viegas de Menezes também foi o responsável pela primeira tipografia construída no Brasil. Em 1821, ele auxiliou e orientou um português, residente em Ouro Preto, a fundir os tipos, construir o prelo e todas as peças de uma tipografia.
Palavras-chave: Calcografia, história da imprensa, Minas Gerais

INTRODUÇÃO


Este trabalho busca resgatar e divulgar a história de uma das personalidades que mais contribuiu com o desenvolvimento de nossa imprensa, o padre mineiro José Joaquim Viegas Menezes. Ele é quase desconhecido pelos estudiosos do jornalismo, e citado em poucos trabalhos sobre a história da imprensa brasileira. Mesmo em Minas Gerais são poucas as referências ao padre. Em Belo Horizonte, por exemplo, não é possível encontrar nem mesmo uma rua (entre as milhares existentes) que o homenageie. Nas citações de textos antigos foi mantida a grafia e a acentuação original.

ENFRENTANDO AS PROIBIÇÕES


O padre José Joaquim Viegas de Menezes, em 1807, vai imprimir um poema, também chamado de canto panegírico, homenageando o governador da província de Minas Gerais, Pedro Maria Xavier de Athayde e Melo, o visconde de Condeixa. O religioso não era político, e nem tinha nenhum interesse em agradar o governador. Era descrito como um clérigo dedicado, piedoso e humilde. Acabou sendo um dos pioneiros da imprensa brasileiro por ter conhecimentos sobre a arte gráfica.

Tudo começou quando o cronista e literato Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcellos escreveu um poema homenageando o governador, no aniversário deste. O governador quis de todas as formas ver o texto impresso, e sabia que em Ouro Preto havia uma pessoa que tinha conhecimentos gráficos: o padre Viegas.

Com isso, surgiria a primeira impressão mineira reconhecida pelos historiadores. O padre há anos já fazia algumas impressões de estampas religiosas, em seus horários de folga, e presenteava amigos. Mas agora o governador lhe pedia algo maior, que certamente desagradaria o governo português. No entanto, o padre aceitou realizar a tarefa por o governador garantir que assumiria toda a responsabilidade pela impressão.
A CALCOGRAFIA
A técnica utilizada pelo padre foi a calcografia, que utiliza chapas de metal fixas. Ele também conhecia de tipografia, mas claro que para utilizar os tipos móveis teria primeiro que importar ou construir um prelo, o que era muito mais custoso e perigoso.

Foram três meses de trabalho duro, aplainando, polindo e abrindo onze chapas de diversos tamanhos. O impresso era composto de 14 páginas, tendo a frente uma ilustração do governador ao lado da esposa, duas páginas com dedicatória ao estadista, dez contendo o poema, e uma com o “Mappa do donativo voluntario que ao Augusto Príncipe R.N.S. offerecerão os povos da Capitania de Minas-Geraes, no anno de 1806”. Na dedicatória é utilizado o corpo 8, no poema corpo 12, e no mapa corpos 6 e 7.


NÃO FOI O PIONEIRO
O livro A imprensa do Brasil nasceu em Minas Gerais, de Djalma Alves de Azevedo (Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 2000. 256 pp.) defende a tese que o padre Viegas foi o pioneiro na história da imprensa do país. No entanto, esse é um grande equívoco. Ainda no século XIX historiadores, como João Pedro Xavier da Veiga, registravam a iniciativa do padre Viegas, mas reconheciam que antes de 1747, ou seja, 60 anos antes, havia sido implantada, no Rio de Janeiro, a tipografia do português Antônio Isidoro da Fonseca. Essa tipografia foi fechada, e seu proprietário punido, como mostra uma ordem régia:
“Faço saber a vós, governador e capitão-general da capitania do Rio de Janeiro, que por constar que deste Reino tem ido para o Estado do Brazil quantidade lettras de imprensa, na qual não é conveniente se imprimam papeis no tempo presente, nem ser de utilidade aos impressores trabalharem no seu officio, aonde as despesas são maiores que no Reino, do qual podem ir impressos os livros e papeis, no mesmo tempo em que delle deve ir as licenças da Inquisição e do meu Conselho Ultramarino, sem as quaes se não podem imprimir, nem correrem as obras; portanto, se vos ordena, que, constando-vos que se acham algumas lettras de imprensa nos limites do vosso governo, as mandeis seqüestrar, e remeter para este Reino por conta e risco de seus donos, e entregara quem elles quizerem, e mandareis notificar aos donos das mesmas lettras e aos officiaes da imprensa que houver, para que não imprimam nem consistam que se imprimam livros, obras ou papeis alguns avulsos, sem embargos de quaesquer licenças que tenham para a dita impressão, comminando-lhes a pena de que, fazendo o contrario, serão remettidos presospara este Reino a ordem demeu Conselho Ultramarino, para se lhes imporem as penas em que tiverem incorrido, na conformidade das leis e ordens minhas, e aos ouvidores e ministros mandareis intimar da minha parte esta mesma ordem para que lhes dêm a sua devida execução e a façam registrar nas suas ouvidorias.”
A IMPRENSA E GOVERNO
É interessante observar que as duas iniciativas de criação de imprensa anteriores a Imprensa Régia (1808) foram iniciativas de governantes. A primeira ocorreu em 1747, com a tipografia de Antônio Isidoro da Fonseca, no Rio de Janeiro. Esta foi autorizada pelo então governador dessa província, Gomes Freire, que é descrito como um amante das artes e do conhecimento. Acabou sendo fechada pelo governo português, mas no tempo que funcionou imprimiu diversas obras, algumas com centenas de páginas.

No caso do padre Viegas também foi uma atitude do governo provinciano, que assumiu os risco. Só que desta vez não tanto preocupado com a valorização da cultura, e, sim, pela vaidade do governador.


UM AMANTE DAS ARTES GRÁFICAS
O padre Viegas nasceu em Ouro Preto, em 1778, e foi abandonado na casa de Ana Teixeira Menezes, que o criou como filho. Em 1830, faleceu Ana Teixeira, e, em seu testamento, reconheceu o padre Viegas como filho e deixou-lhe todos seus bens.

Em Mariana, estudou humanidades. Destacava-se de seus colegas na busca pelo conhecimento, e, desde cedo, mostrava grande talento para o desenho. Em 1897, foi a Portugal, para dar continuidade aos estudos, sendo ordenado padre não se sabe se em 1800 ou 1801.

Em Lisboa, conviveu com frei José Marianno da Conceição Velloso, que também era mineiro, e dirigia a Regia Officina Typographica, chalcographica, tipoplastica e Litteraria do Arco do Cego. Lá Viegas aprendeu as artes tipográficas e calcográficas. Mas o padre também buscou em obras estrangeiras aprimorar seus conhecimentos sobre o tema. Ele chegou a traduzir o Tratado da gravura a água forte e a buril, e em madeira negra, com o modo de construir as prensas modernas e de imprimir em talho doce, trabalho que foi impresso no Arco do Cego.

Em 1802, retornou a Ouro Preto, e passou a praticar a arte da impressão nos momentos de descanso. Seriam os seus conhecimentos, obtidos em Portugal, que deixariam Minas Gerais com posição importante na história da imprensa brasileira.


A TIPOGRAFIA
Segundo João Pedro Xavier da Veiga, na monografia A Imprensa em Minas Gerais, publicada na Revista do Arquivo Público Mineiro, em 1898, em Minas foi construída a primeira tipografia do Brasil. Novamente, aparecia o brilhantismo do padre mineiro, o principal responsável pelo feito.

Morava em Ouro Preto, em 1820, o português Manoel José Barbosa Pimenta e Sal, que trabalhava como chapeleiro e sirgueiro, e tinha muito talento para a mecânica. Ele gostava muito de ler, mas não compreendia seu principal livro, um dicionário de Sciencias e Artes, em Francês, língua conhecida por pouquíssimas pessoas na capital mineira.

Por isso, o português folheava e olhava as ilustrações do livro, sem compreender o seu conteúdo. Costumava parar nas páginas com desenhos de equipamentos tipográficos.

O padre Viegas, que conhecia francês, traduziu este texto para o chapeleiro e explicou como funcionava e o que compunha uma tipografia. A partir daí, ambos resolveram construir uma tipografia, que ficou pronta em 1821. Depois de pronta, Viegas deixou-a com Manoel José Barbosa. No entanto, a tipografia só receberia autorização para funcionamento em 20 de abril de 1822. Lá seriam impressos os primeiros jornais mineiros, como o Compilador Mineiro (1823), Abelha do Itaculumy (1824) e o Universal (1825).

Pela demora na autorização de funcionamento, essa tipografia acabou não sendo a primeira a entrar em atividade em Minas Gerais. Uma tipografia oficial, criada pelo governo provisório, e descrita por João Pedro Xavier da Veiga como “minúscula”, entrou em funcionamento alguns meses antes da construída pelo padre Viegas e seu amigo.
“Os documentos seguintes, existentes no Arquivo Público Mineiro, provão que já em fevereiro de 1822 funccionava a minúscula typografia provincial, que aliás denominava se pomposamente – nacional...”(XAVIER DA VEIGA, 1898)

BIBLIOGRAFIA


AZEVEDO, Djalma Alves de. A imprensa do Brasil nasceu em Minas Gerais. Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 2000. 256 pp.
COSTA FILHO, Miguel. A imprensa mineira no primeiro reinado. Tese apresentada ao VI Congresso Nacional de Jornalistas. Rio de Janeiro: 1955, editora não informada. 62 pp.
CARVALHO, André & BARBOSA, Waldemar. Dicionário biográfico Imprensa Mineira. Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 1994. 259 pp.
MELO, José Marques de. Sociologia da imprensa brasileira. Petrópolis: Vozes, 1973. 163pp.
Padre José Joaquim Viegas de Menezes. Correio Official de Minas. 10 e 13 jan. 1859.
RIZZINI, Carlos. O jornalismo antes da tipografia. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1968. 204 pp.
VEIGA, José Pedro Xavier da. A imprensa de Minas Gerais (1807-1897). In: Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano III, 1898, pp. 169-249.


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