O príncipe de Nassau



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Falares Literários

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O Príncipe de Nassau
Paulo Setúbal

Todos nós trazemos da meninice uma quase aversão por coisas de história pátria. É natural. Nas escolas, propositadamente, despojam a História do Brasil de todos os atavios que seduzem: a lenda, o fato curioso, a anedota interessante, o episódio novelesco. Apresentam-na desgraciosamente ouriçada de datas, nua de galantarias e feitiços. Não há nada mais árido, tal como nos ensinam, do que esse estafante rol de capitanias hereditárias, donatários, Tomés de Sousa, Mens de Sá, emboabas, e não sei quantas outras maçadas com que nas atulham a cabeça em vésperas de exame. A conseqüência disso é que feitos os preparatórios, conseguida a aprovaçãozinha simples, o brasileiro fecha irremessivelmente a História do Brasil. Resultado: essa vastissima ignorância nacional sobre as mais rudimentares ninharias do nosso passado. A não ser os beneditinos dos Institutos, a não ser meia dúzia de eruditos de boa-vontade, não há ninguém mais no Brasil que se preocupe com estudos históricos.

Sacudir um pouco essa indiferença, contribuir com qualquer esforço, um grão de areia que seja, para que o povo se interesse pela sua história, eis o ferrão que me aguilhoa a publicar este novo romance. O PRÍNCIPE DE NASSAU, assim como o tracei, não tem outro intuito senão o de por ao alcance de toda gente, com a amenidade de que fui capaz, um período quase selvagem, mas interessantíssimo, que há muito já se foi. Serviu-me de tema o Brasil Holandês. Não os trinta longos anos de guerra, que seriam incabíveis nos moldes dum romance leve. Surpreendi, apenas, os batavos no auge do seu domínio. Passou-se o tempo em que eles invadiram a Bahia, donde foram rechaçados. Passou-se o tempo, propriamente, da conquista de Pernambuco e das capitanias adjacentes. Estão, agora, os flamengos no apogeu, solidificados na terra nova. Esse apogeu, que foi brilhante, e a revolução pernambucana, que foi épica, são os fundamentos deste livro.

Empenhei-me de coração em suavizar o rude da matéria, enfeitando-a com o pitoresco e o aventuroso que andei catando nas crônicas da época. Tentei, dentro do que colhi, reconstituir com fidelidade uma era morta, vulgarizar homens e fatos, evocar heroísmos, popularizar a trama romanesca da rebelião, pintar o espírito barbaro-religioso daqueles dias, tornar enfim acessível a todo mundo esse escuro passado de há três séculos. Por esse lado, no sentido patriótico, este romance é fundamentalmente verde-amarelo.

Se, por acaso, correndo por esse Brasil afora, tiver o PRÍNCIPE DE NASSAU a boa fortuna de despertar em algumas almas um pouco mais de paixão e de entusiasmo pelas coisas pátrias, dar-me-ei por fartamente pago das minhas penas através de alfarrábios e de arquivos. E as minhas penas não foram poucas.

O Príncipe de Nassau

- Às armas!

A guarda do Palácio de Friburgo acudiu prestes ao grito da sentinela. Soou um toque áspero de clarim. Rufaram as caixas com estrépito. Os soldados holandeses, com os chapelões de plumas, bateram forte as alabardas no chão: Maurício de Nassau, o Príncipe magnífico, surgiu no pórtico do palácio. Sua Alteza, como de costume, saía para o passeio da tarde.

Fora, no pátio, os cavalos estavam prontos. Estrembon, pagem e camareiro, precipitou-se a segurar as rédeas do alazão. Era o cavalo mais belo de Pernambuco, o mais árdego dentre os trinta que o Príncipe tinha habitualmente nas cavalariças.

Maurício, desempenado e ágil, galgou a sela. Carlos Tourlon, Capitão da Guarda, também montou. Seguiram-se duas ordenanças. O Governador de Pernambuco trotou galhardamente para a Cidade Maurícia.

Nassau, naquela tarde, estava radioso. Alegria radiosa, dessas que sacodem a gente, embriagava a sua alma de soldado. É que nessa manhã, ribombando, por entre fragorosas surriadas de mosqueteiros, entrou barra a dentro uma nau louçã, muito garrida, com grandes embandeirados no velame. Vinha da Bahia. Vinha comissionada especialmente pelo Viso-Rei do Brasil, o mui alto e poderoso Senhor Marquês de Montalvão, para trazer a Maurício, numa embaixada de gala, esta nova alvoroçante: Portugal, vencendo a Espanha, proclamara enfim a sua independência. E D. João, Duque de Bragança, fora aclamado rei sob o nome de D. João IV.

Tão alta era a notícia, tão faustosa, que o Príncipe ouvindo-a, arrancou do dedo um anel opulento, onde faiscava baga imensa, dando-o de alvíssaras ao piloto João Lopes, o mensageiro afortunado.

Essa brusca reviravolta política significava, de fato, imediato paradeiro às lutas do Brasil. Era a paz entre Holanda e Portugal. Mais do que a paz: era a aliança forçada entre os dois países para combaterem a Espanha, agora inimigo comum.

Nesse dia, além da nova assim emocionante, havia ainda, para afestoar o coração do Príncipe, certo recado de Montalvão, vindo pela segunda vez, recado secreto, muito confidencial, que significava o triunfo mais envaidecedor do guerreiro político.

Montalvão, ao assumir o governo na Bahia, isso há meses já, houvera feito velejar dois emissários para a Cidade Maurícia. Um fora João Martins Ferreira; outro, Pedro de Arenas. Trouxeram ambos a Nassau, com insufladoras cortesanices, um alto bastão de ouro maciço, cravejado de muita pedraria de preço. Com esse regalo, primor de fidalguia, chegara também, entre fechados sigilos, aquele misterioso recado, recado secreto, muito confidencial, que lisonjeara fundo o orgulho do Príncipe...

Naquele dia, com a embaixada que descera no porto, Montalvão repetira o recado. Que recado era aquele? Ninguém sabia. Mas, o certo é que, naquela tarde, com o coração pálpite, Maurício partiu, entre toques e rufes, para o passeio de costume.

Atravessou o vasto parque de Friburgo, onde frondejavam setecentas palmeiras. Meteu-se pela Cidade Maurícia. Cortou a Praça dos Coqueiros. Desembocou na Ponte do Recife.

Os moradores de Maurícia eram holandeses e judeus. Ao ouvirem o pateado dos cavalos, aqueles homens de língua estranha, muito ruivos, vestidos com gibões de saragoça, corriam atarantados às portas das casas, desbarreteando-se à passagem do séquito.

Ao pé da ponte, junto à correnteza do Capiberibe, ficava a taberna do velho Snider. Um magote de flamengos, com o taberneiro à frente, vermelhos e desordenados, copos na mão, saiu à rua tumultuosamente, a bradar com efusão:

- Viva o nosso Príncipe!

Maurício sorriu. Do alto da sela, com um gesto condescendente, agradeceu aos berradores. Novos vivas, grande alarido.

Nassau atravessou por entre aquele bando fremente. Ao entrar na ponte, virou-se para o Capitão da Guarda:

- Não parece que estão borrachos, Carlos Tourlon?

- Tontos de vinho devem andar eles, Príncipe! Hoje, foi dia de festa na taberna de Snider...

- Festa? redargüiu Maurício admirado; festa? E por qual razão, Carlos de Tourlon?

- Vossa Alteza não sabe? Por um motivo grave, tornou o capitão: é que os escabinos decidiram a demanda que Snider pôs contra Manuel Felipe, aquele lavrador de canas. Vossa Alteza não se lembra? Aquela demanda por causa do macho gateado que esteve na pastaria de João Fernandes Vieira.

- Ah! Lembro-me muito bem. E então?

- Snider ganhou a querela. Foi Manuel Filipe condenado a pagar o preço do macho e as custas: setecentos e muitos florins!

- Feia coisa, exclamou Maurício, franzindo o sobrolho. Pesada injustiça! Foi uma decisão má dos escabinos...

A comentarem o caso, num trote manso, os cavaleiros atravessaram a ponte. Entraram cm Recife, a cidade velha. Tudo aí eram portugueses e mamelucos. A essa hora, nesse afogueado cair da tarde, os escravos do senhorio rico, uns chatos negrões de Angola, dentro de suas pantalonas de tela de Flandres, passavam aos bandos, carregando água doce, gotejantes, com enormes cacimbas à cabeça. Índios mansos, tapuias e potíguaras, voltavam dos engenhos e das lavouras, as foices roçadeiras ao ombro, o ar suarento de cansaço.

O Príncipe tocou pela cidadezinha. Cortou-a de ponta a ponta. Depois, sem dizer palavra, enveredou rumo da praia. Pôs-se a trotar vagarosamente pela areia branca. Todos seguiam-no, calados. De repente, num cômoro Maurício de Nassau estacou o ginete. Aí, diante dos seus olhos, estendia-se, largo e belo, um panorama surpreendente.

Que maravilha! Ao longe, muito ao longe, no fundo do horizonte, um grande sol, fulvo e sangrento, atufava-se em chamas como um incêndio. E grossas brochadas de luz, brochadas quentes e uivantes, zebravam de listrões assanhados aquele céu candente dos trópicos.

Maurício de Nassau, embevecido, virou-se para a banda do mar. E soltou pela vastidão das águas um olhar feliz e vitorioso.

Ali estava a seus pés, corcovado de vagas, o férvido oceano espumarento, que os Estados a custo subjugaram. Ali estava, arrepiada em morros, a imensa terra brasileira, seis ásperas capitanias, inçadas de muito gentio emplumado, que ele, Maurício, com a sua espada, acabava de conquistar galhardamente, debaixo da saraivada das flechas e do estrondo dos pelouros.

Fora lá, nessas águas e nessas terras, que se derramara tanta vez, aos gorgolões, o sangue batavo! Fora lá pelas angras do sul, na Bahia de Todos os Santos, que um dia, pela primeira vez, arribaram por estas bandas, com as flâmulas vermelhas panejando nos mastaréus, as grandes naus côncavas de Jacob Willekens. Fora lá, naquelas mesmas abras, que também fundeara um dia, calada e inútil, a frota assustadiça de Hendrickzoon.

E fora aqui, diante dos seus olhos, nas águas crespas do Arrecife, que aportara enfim, garbosamente, por entre os roncos do canhoneio, a armada triunfadora de Loneq: fora aqui que desembarcaram, nas suas pinaças bojudas, os soldados que ganharam para a Holanda a terra nova.

Quanto sangue jorrado! Quanta desesperada luta! Mas hoje - e o olhar do Príncipe corria ufano os longes do horizonte - mas hoje, por esse infinito além, por esse costão selvagem que o mar lambia, espumejando, tremulavam afinal, nos fortins e no velame dos patachos, as cores dos Estados! E era agora daqui, destes brasis longínquos, que partiam para os depósitos de Amsterdam, inundando-os, aqueles brutos galeões prenhes de açúcar macho; aqueles veleiros de garbosa mastreama, largos e sólidos, abarrotados de pau-brasil de tinta; aquelas fundas barcaças que zarpavam túrgidas de tabacos e de papagaios. Era daqui da terra nova, que ele, Maurício, mandara à pátria, todos os anos trezentos mil florins de décimas, setecentos mil de pensões, afora os dois milhões de lucros na venda dos engenhos e quase seiscentos belos caravelões aprisionados.

A política do Príncipe, desde o início do governo, fora a política de conciliação. Era de ver-se os frutos dela! Que prodígio!

Lá em baixo, na ilha de Antônio Vaz, florescia, nova, os telhados ainda vermelhos, aquela famosa Cidade Maurícia, o assombro da época, com o seu belo Palácio de Friburgo, com as pontes de rijo tabuado, as grossas fortalezas, roqueiras, as ruelas pitorescamente ensombradas de árvores e regadas de águas cantantes. Depois, em frente dela, o Recife; aquele Recife antigo, tradicional, onde os velhos homens da terra tinham as suas moradas alterosas de boa taipa, os tratantes judeus as suas escuras lojas de moeda e de mercância.

Lá estava, à sombra dos falcões de bronze dos fortes, a casa de pedra de João Blaar, o sangrento general de Holanda. Rente dela, com as portas de rótula, a casinha de Frei Manuel do Salvador, o cura jeitoso e politicão, reinol de muitas letras e de muitas lábias. Além, toda de madeira pintada, como em Flandres, a chácara de Gilberto Van Dirth, flamengo apelintrado, um dos três do Conselho Político. Depois, entre coqueiros, o casarão de Gaspar Dias Ferreira, tremendo velhaco, rabulejador e patoteiro, o mais querido dos amigos do Príncipe. E não era só. Lá se viam pela cidade, chatas, nuas de enfeites, as moradas de todos os principais do país: a de João Fernandes Vieira, altíssima personagem da terra, mercante afortunado e rico; a de Antônio Bezerra, velho moedor de canas, pessoa de grandes teres e de grande vida; a de Antônio Cavalcanti, sombrio inimigo de João Fernandes, homem emproado, imensamente ensoberbecido do seu sangue e da sua linhagem; a de Sebastião de Carvalho, lavrador de pau-de-tinta, sujeito estranho, de poucas falas, devotado parceiro dos holandeses...

Maurício, da praia, contemplava, orgulhoso, o panorama soberbo. Com um sorriso, o coração inflado, não pôde reprimir-se:

Como isto é belo, Carlos Tourlon! Como é formosa esta terra! É a mais formosa terra do mundo...

A tarde caíra. Tarde abafada, tarde languescedora, tropical. Ao longe, no porto, as naus adormentavam-se tranqüilas, numa doce quietude, como pássaros enormes pousados à flor das águas. Apenas uma pinaça, velas abertas, balouçava-se agitada, com muita escravaria correndo dentro dela. O Príncipe notou aquele açodamento. E apontando para o barco:

- É o patacho de Israel Voss?

- É, Príncipe. Ainda está a carregar. Veleja amanhã cedo para Cabedelo. Vai nele Segismundo Starke, levando os barris de pólvora que Vossa Alteza manda à Paraíba.

- É verdade atalhou Maurício. Elias Erckmann está com munição escassa. E é preciso não descuidar! Henrique Dias e Camarão andam por aí de emboscada em emboscada. É preciso ter cautela...

Nassau esporeou o alazão. Virou as rédeas. Os do séquito acompanharam-no.

Tombara uma serenidade empolgante. Andavam rumores estranhos pelo ar. Branquejavam o azul, de vez em quando, asas de gaivota. Tiniam pios. Prodigioso cair de tarde...

Os cavaleiros marchavam em silencio. Entraram de novo pelas ruas do Recife. Atravessaram a ponte. De súbito, ao penetrar na Cidade Maurícia, a comitiva topou de chofre com Frei Manuel do Salvador (1).

O religioso, metido na sua loba poeirenta, chapéu negro de aba larga, lá se ia pela estrada, cismarento, montado num burrinho filosófico. Nassau, ao vê-lo, gritou logo num alvoroço:

- Olá, Frei Manuel! Viva! Então Vosmecê ai a caminhar tão pachorrento. Num burrico desses! Aonde vai Vosmecê assim, meu padre, nessa cavalgadura tão derreada?

Frei Manuel desbarreteou-se e, sorrindo com jovialidade, retrucou:

- Deus o salve e guarde, Príncipe! Mas não mofe Vossa Alteza assim do meu rocim. Estou que Vossa Alteza, nas suas cavalariças, com os seus trinta cavalos, não tem alimária mais segura. Aquilo é sempre assim, sempre neste passo, sem corcovos. nem bufos, mas sempre a carregar onde me apraz. Ainda agora, como Vossa Alteza vê, sigo eu para o engenho de João Fernandes Vieira. Vou dar dois dedos de prosa com o velho amigo.

- Vosmecê vai ao Engenho de Várzea? tornou Maurício. Pois é favor, Frei Manuel, dizer a João Fernandes que anda muito arredio. Não há quem mais o veja cá por Maurícia! Que é que sucedeu? Será que João Fernandes, depois que apalavrou o casamento das cunhadas com os filhos de Antônio Cavalcanti, se tornou bicho de toca? Ora... valha-nos Deus! Pois diga-lhe, padre, que deixe de casmurrice e que apareça. Quero felicitá-lo por esse gosto.

- Direi, Príncipe. Direi a João Fernandes que venha logo à Cidade Maurícia; e mais ainda, isto sim, que venha sentar-se à mesa do seu amigo, o Príncipe de Nassau, a fim de bebericarem juntos uma botelha daquele vinho encorpado de Holanda, que há nas cubas de Friburgo.

- Isso, Frei Manuel! Diga-lhe isso, tal e qual!

E rindo-se, rindo-se a bom rir, Maurício despediu-se folgazonamente:

- Adeus, frei; boa jornada e boa pressa!

Caíra a noite. Os cavaleiros tocaram apressados. Na casa de pedra de João Blaar, andava rumoroso borborinho. Havia dentro muitas luzes. Largo vozerio de gente. Maurício de Nassau, ao passar, espantou-se com tanta bulha:

- Que é aquilo, Carlos Tourlon? Hoje também há festa em casa de João Blaar?

- Festa, sim, Príncipe; e festa grande! É que estão lá a brindar o ajuste do casamento de Segismundo Starke com Carlota Haringue. Segismundo parte amanhã, no patacho de Israel Voss, a levar os barris de pólvora para Cabedelo. Por isso a festa dos esponsais é hoje; o casamento fica para a volta.

Maurício olhou o Capitão, com surpresa. Os seus olhos fuzilaram, interrogativos. E depois de uma pausa:

- Carlota vai casar-se com Segismundo?

- Vai, Príncipe.

- E Rodrigo, inquiriu Maurício; e Rodrigo, o afilhado de André Vidal de Negreiros?

- Esse, naturalmente, ficará a espera de outra, tornou Carlos Tourlon; desta vez foi Segismundo quem pescou a truta.

- Bela rapariga, em verdade, exclamou Nassau; é a mais bela de todas as que eu tenho visto no Brasil! Nem sei de outra que se lhe compare...

Tinham chegado a Friburgo. Soaram de novo os clarins. Rufaram os tambores. Os soldados bateram forte as alabardas no chão. Maurício saltou da sela. E virando-se para o Capitão:

- Vosmecê deseja ir à festa de João Blaar, Carlos Tourlon?

- Se Vossa Alteza consentir, Príncipe.

- Pois vá. Hoje não careço mais de Vosmecê.

Arremessando as rédeas ao pagem, João Maurício de Nassau, o mui poderoso Príncipe, galgou as escadarias do Palácio de Friburgo.

Carlota Haringue

Carlos Tourlon entrou em casa de João Blaar. Era este "o mais cruel e o mais desumano homem que dos de sua nação entrou em Pernambuco". "O mais duro e o mais cruel holandês que viram as idades" (2).

Ia lá dentro um fim de ceia barulhento. Ria-se muito. Discutia-se com vivacidade. A vinhaça do regabofe soltara a língua dos comensais. Que vozerio destrabelhado!

Pela vasta mesa, que altos candelabros alumiavam, restos de comezaina espalhavam-se em desordem: arenques defumados, viandas entrouchadas, botelhas de aguardente, queijos de Holanda, brôtes.

Os convivas eram poucos. Flamengos e portugueses. Tudo gente graúda.

João Blaar, o odiado, o carniceiro João Blaar, rival do bárbaro Jacob Rabbi, aquele branco selvagem que vivia entre bugres, - João Blaar, o Comandante dos Burgueses, lá estava à cabeceira da mesa, uniforme de calções berrantes, com a sua cara longa de facínora, os seus ruivos bigodões de brutamonte. Ao lado dele, muito custosa e garrida, vestido de veludo escuro, coifa de rendas, enormes bichas nas orelhas, a rumorosa D. Ana Pais, pernambucana de olhos pretos, muito trêfegos, que diziam ser a dona mais linda e mais desenvolta de Recife. Em seguida, com o seu caneco de genebra, sempre soturno, o escolteto Paulo Damas, célebre presidente da Câmara dos Escabinos (3). Depois, falando alto, desbragado de modos, aquele habilíssimo e sutilíssimo Gaspar Dias Ferreira, o amigo intimo do Príncipe de Nassau, refinado pulha, raposão que enricara a força de patranhas e trampolinagens. Enfim, casquilho e adamado, com o seu vistoso gibão de gola encanudada, os seus faceiros bofes de Holanda, lá estava Gilberto Van Dirth, membro do Conselho Político, a cortejar com os olhos, suspirosamente, a bela e perigosa D. Ana Pais.

Havia, em meio desse bando, um único brasileiro. Era Sebastião de Carvalho. Era um estranho, sombrio lavrador de pau-de-tinta. Homem azedo, mau, que vivia a fermentar no coração, contra todos e contra tudo, grandes ódios recalcados.

Um desparolar amistoso rolava entre aquela gente. A conversa alastrava-se, incendiada. Palrava-se rasgado e claro.

O assunto, quando Tourlon entrou, era a aclamação de D. João IV. O General Blaar, copo na mão, bradava truculentamente, com o seu vozeirão de atroar:

- Pena é, Gaspar Dias, que se façam tréguas! Eu queria ter o gosto de enforcar numa trave, entre os coqueiros de Maurícia, o último soldado português...

E Gaspar Dias, olhos piscos, ar de fuinha com a sua barbicha rala dependurada no queixo:

- Não bravateie assim, João Baar! Não bravateie desse jeito! Lembre-se só que muito flamengo já estrebuchou às mãos de português. Demais, mau bravo general, escute bem o que eu digo: a guerra ainda não findou.

- Não findou?

- Não! Digo mais: a guerra está longe de findar.

- Longe de findar. . . atalhou bruscamente D. Ana Pais, a buliçosa morena de olhos pretos, que ouvia atenta a conversa dos homens; longe de findar? Vosmecê está a gracejar, Gaspar Dias! Isso lá é possível? A guerra, de hoje em diante, é só entre Holanda e Espanha. Não há nada com Portugal. Como pois, assentando-se pazes entre Haia e Lisboa, hão de continuar as tropelias cá pelo Brasil?

Gaspar Dias sorriu. Diabólico, um clarão maldoso nos olhos, retrucou:

- Vosmecê há de ver, D. Ana Pais, que agora, com a aclamação de D. João IV, vai surgir muita alma-do-diabo que tornará a atiçar a luta. Não sabe Vosmecê por acaso que há por aí muito sujeito, com mostras de amigo, que vive a tramar na sombra a queda da Holanda? Não sabe por acaso que há muitíssima gente por aí (e que gente, upa!) a conjurar em sigilo, com mão de gato, contra o nosso Príncipe?

O assunto era escabroso. Tombou na sala rápido silêncio Gaspar Dias, depois de revirar o seu caneco de vinho, reatou com mais perfídia a urdidura daquela malícia:

- De alguém sei eu, D. Ana Pais, de alguém muito principal neste Arrecife, que só cuida em atraiçoar os de Holanda. É homem de se temer! Homem perigoso. Alisa pela frente mas apunhala pelas costas. Homem de maus bofes...

- Isso, bradou com um berro João Blaar, em cujos olhos faiscava um brilho avinhado; isso, Gaspar Dias! Isso mesmo! É homem péssimo. Conheço-o como a palma de minha mão: é João Fernandes Vieira.

Sebastião de Carvalho, aquele pernambucano sombrio, de poucas falas, grunhiu entre dentes, do seu canto:

- Tem razão, João Blaar! É João Fernandes Vieira. Homem ruim!

Carlos Tourlon, que ainda não houvera pronunciado palavra, atalhou severamente aquelas invectivas:

- Vosmecês são peçonhentos, meus senhores! Que botes! Por quê hão de Vosmecês lançar tanta pecha em pessoa de tanto quilate? Todos esses mexericos já foram soprados aos ouvidos do Príncipe de Nassau. E o Príncipe, depois de averiguar as coisas, repudiou tudo isso, toda essa maquinação, como sendo a falsidade mais refalsada. Vosmecês sabem disso, não sabem? E como é que estão ainda aí, com tanto desplante, a marear o nome de tal homem?

D. Ana Pais olhou para Carlos Tourlon com iroso desdém.

Aquela morena de olhos pretos, todo o mundo o sabia, era uma pernambucana de vida escandalosa. Fora ela quem tivera o cínico arrojo - a primeira no Brasil! - de se casar com um holandês e herege. E era ela, a dama enlaçarotada que ali estava, ela, nem mais nem menos, a mulher legítima do próprio Carlos Tourlon! Por isso, com esbraseada cólera, medindo o marido de alto a baixo, D. Ana Pais respondeu acrimoniosa:

- Eis aí! Eis aí um homem que causa dó! Um homem ridículo! Sempre a bater-se por João Fernandes. Sempre a fazer-lhe discursos. Como se João Fernandes não fosse o mais desbriado biltre de Pernambuco!

Carlos Tourlon fulminou a mulher com os olhos. O rosto afogueou-se-lhe. Franziu o cenho, indignado. E com a voz trêmula:

- Eu já disse a Vosmecê, D. Ana, eu já lhe disse mil vezes o quanto é vil esse desbocamento! Nem vejo razão para um palavreado tão bruto...

A borrasca entre os dois esposos fez esfriar a conversa. Calaram-se todos por um instante. Carlos Tourlon, porém, tornou-se, fremindo, para os comensais:

- João Fernandes é homem de grandes brios. É pessoa de grandes fazendas. É senhor-d'engenho. É escabino de Arrecife. É amigo querido do Príncipe. E ainda - o que é mais - o colono da confiança de Jacob Stachouver, membro do Conselho Político. E Vosmecês bem sabem quem foi Jacob Stachouver! Um bugre. Homem fechado e duro. Pois bem, ao partir para os Estados deixou Jacob todos os seus bens nas mãos duma única pessoa: João Fernandes. Haverá maior confiança? Haverá para mostrar a honradez de tal homem prova mais provada? E ainda estão Vosmecês aí a enxovalhá-lo? É coragem!

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