O problema do mundo exterior



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UMA SOLUÇÃO CÉTICA

PARA

O PROBLEMA DO MUNDO EXTERIOR
Plínio Junqueira Smith

Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Pesquisador do CNPq

plinio@coruja.humanas.ufpr.br


RESUMO: A filosofia identifica duas teses banais sobre as coisas que todos parecemos sustentar: a de que percebemos coisas e a de que essas coisas percebidas existem realmente. Em seguida, a filosofia, ao interpretá-las de maneira rigorosa e ao julgar ver uma contradição entre elas, procurou melhorar esse esquema, substituindo a tese banal (já interpretada pela filosofia) da percepção imediata pela tese da percepção mediata das coisas, sem contudo lograr seu objetivo. Nova tentativa é feita pela filosofia ao substituir a outra tese banal (filosoficamente interpretada), a de que as coisas percebidas existem independentemente de nossa percepção, pela tese de que as coisas reais são dependentes de nós. Mas essa nova tentativa não nos leva muito mais longe do que a tentativa precedente. Em ambos os casos, o realismo degenera em alguma forma de idealismo. Finalmente, a filosofia tenta evitar os problemas presentes nessas várias teorias, ao criticar a tese de que só percebemos imediatamente o que se passa em nós. O resultado dessa discussão é uma versão mais robusta do realismo, que adota aquelas duas teses das quais a discussão partiu, tal como foram interpretadas pela filosofia. No último item, proponho minha visão geral sobre toda a discussão, em que as duas teses triviais são aceitas, sem nenhuma interpretação filosófica, sem justificação e mesmo sem dizer que elas são verdadeiras em qualquer sentido metafísico.
1. Quando nos deparamos com o que os filósofos têm a dizer sobre "o problema do mundo exterior", percebemos que não é rara a identificação de algumas trivialidades no assim chamado sentido comum.1 Todos nós distinguimos entre objetos reais, como essa mesa, na qual escrevo e que existe, e meras imaginações como Pégaso. E todos aceitamos que isso que eu vejo é a mesa que existe; e que Pégaso não é visto, mas imaginado. Aliás, com frequência, toda a discussão parte dessas trivialidades que, julga-se, fazem parte de um núcleo duro do senso comum ou são crenças básicas de nosso esquema conceitual. Segundo alguns filósofos, essas trivialidades ou banalidades aceitas pelo senso comum conteriam, ao menos implicitamente, duas teses a respeito das coisas e da percepção que temos das coisas: a de que as coisas existem e a de que percebemos as coisas.

Com frequência, a atribuição dessas duas teses triviais se faz com o intuito de investigá-las e questioná-las, de modo que uma posição mais satisfatória surja de tal exame crítico. Os filósofos se interessam por essas duas teses triviais não tanto com a intenção de defendê-las ou de mostrar a sua verdade, mas somente para utilizá-las como um ponto de partida para a sua discussão e nada lhes parece melhor do que iniciar a sua investigação com aquilo que todos aceitam ou já aceitaram alguma vez na vida. No entanto, permanecer contente com preconceitos da vida comum, aceitar passivamente opiniões e não empregar criticamente nossa razão caracterizariam uma atitude absolutamente condenável para um filósofo. É imperioso, pois, submeter essas duas teses triviais a um escrutínio minucioso e descobrir, para além delas, onde jaz a verdade.

Antes de mais nada, porém, os filósofos julgam que cumpre entender o conteúdo exato dessas duas teses triviais. A clarificação das teses triviais é, para os filósofos, um primeiro e indispensável passo para que as possamos seguir investigando criticamente. Aquilo que parece não passar de uma mera trivialidade pode ocultar concepções muito determinadas, pode constituir-se como uma visão complexa e refinada sobre as coisas. Extrair das teses triviais tudo aquilo que está implícito nelas, ao menos segundo os filósofos, pode contribuir significativamente para o debate e para a descoberta da verdade. Com efeito, é uma idéia recorrente entre os filósofos a de que o senso comum não é tão neutro quanto alguns querem nos fazer crer. Consequentemente, os filósofos, em sua discussão crítica dessas teses triviais, interpretam-nas de maneira bastante precisa. Segundo eles, é preciso entender exatamente o que se está aceitando, quando se aceitam essas teses, para que as possamos discutir criticamente e de modo rigoroso.

A opinião trivial de que as coisas existem é interpretada pelos filósofos como a opinião segundo a qual uma coisa existe por si mesma, que a sua existência não depende da percepção que dela possa ter algum ser capaz de percebê-la. Todos supõem que as coisas continuarão a existir, mesmo se todos os seres humanos, mesmo se todos os seres percipientes deixarem de existir. Ao admitir que as coisas existem, estamos todos aceitando que as coisas existem independentemente da existência de qualquer mente. Por exemplo, essa mesa que eu vejo é uma mesa que existe independentemente de minha percepção; que o seu verde existe como uma qualidade da mesa e não depende de mim; que ela já tinha e continuará a ter seus dois metros de comprimento, mesmo que nenhum ser a perceba dessa maneira. Em suma, estaríamos admitindo que as coisas que existem são coisas extra-mentais.2


De outro lado, a segunda tese trivial, a de que nós percebemos as coisas, é igualmente interpretada pelos filósofos; segundo essa interpretação, quando dizemos que percebemos as coisas, nós de fato estamos supondo que nós percebemos as coisas mesmas, que nós percebemos imediatamente as próprias coisas. Não se trata de perceber as coisas reais por meio de algum intermediário, como se pode perceber o significado de alguma palavra por meio do signo escrito. Obviamente, a justiça não está presente nas letras que compõem a palavra "justiça", mas podemos pensar na justiça quando lemos essa palavra. O que se percebe imediatamente são somente as letras, ou a parte material da palavra, mas a justiça é algo que se percebe por meio da palavra. As coisas, elas mesmas, seriam percebidas diretamente, sem nenhum intermediário de qualquer espécie (ou mesmo sem nenhuma inferência, em particular a inferência causal). A tese trivial de que percebemos as próprias coisas não significaria, no fundo, senão que percebemos imediatamente as próprias coisas. Nenhum intermediário se faz necessário para que as possamos perceber.3

Mas, assim entendidas, essas duas teses largamente aceitas (segundo os filósofos) talvez sejam contraditórias: se aceito que percebo diretamente a mesa, então não posso aceitar que a mesa percebida existe independentemente de minha percepção. Se adoecemos, o vinho parecerá amargo e não doce; mas se o gosto independe de nossa saúde, ele não deveria se alterar. E como poderia a mesa diminuir de tamanho, somente porque me afasto dela? Ou sua cor mudar, porque muda a cor da luz incidente ou porque pomos um óculos com lentes coloridas? Acaso a mesa se divide em duas, quando aperto o canto de meu olho e passo a ver, não uma, mas duas mesas? O que é independente de minha percepção (ou da percepção de qualquer outro ser) não deveria alterar-se em função das condições e circunstâncias da percepção. Mas, evidentemente, aquilo que percebo imediatamente altera-se quando as condições e circunstâncias de percepção se alteram. Logo, aquilo que percebo imediatamente não pode ser o objeto real e independente de minha percepção. Se isso é verdade, então não posso aceitar simultaneamente que eu percebo diretamente a mesa (e suas propriedades) e que a mesa percebida (bem como suas propriedades) existem independentemente de minha percepção. A escolha entre essas duas teses parece impor-se.


2. Não raras vezes foi defendida a tese de que nós não percebemos imediatamente o objeto físico (ou a realidade), mas somente sua representação. Mesmo hoje em dia não é difícil encontrar pensadores que sustentam que o real, enquanto tal, é inacessível para nós, e que só podemos conhecê-lo, ainda que parcialmente, através do modo pelo qual nós o representamos. Trata-se de uma posição global que se convencionou chamar de "realismo representativo". Segundo o realismo representativo, nossa percepção sensível jamais nos dá o objeto tal qual ele é nele mesmo, mas sempre nos apresenta uma determinada representação que pode ou não corresponder a ele. É importante notar que o problema aqui não é o de que a percepção sensível capta somente um aspecto do objeto, mas não outros; por exemplo, a visão de uma maçã só apreende sua cor e sua forma, mas não o seu gosto ou o seu cheiro; nem o de que a percepção sensível, em particular a visão, apreende somente uma qualidade superficial, pois vemos somente a superfície da maçã, e não a maçã inteira (o outro lado da maçã e seu interior branco não são vistos). Em ambos os casos, mesmo se estivéssemos vendo somente um de seus aspectos ou se estivéssemos vendo somente um de seus lados, ainda assim estaríamos vendo o objeto. Segundo o realismo representativo, quando julgamos habitualmente que estamos percebendo um objeto, ou um de seus aspectos, ou um de seus lados, na verdade estamos percebendo somente a representação que temos desse objeto. O objeto mesmo não é percebido, mas inferido a partir dessa representação que dele temos.4 O realismo representativo consiste, portanto, na combinação de uma tese ontológica segundo a qual o mundo físico existe, independente de ser percebido por alguma mente, e de uma tese epistemológica segundo a qual nós temos acesso indireto a essa realidade por meio do nosso modo de representar essa realidade.5

Vários são os argumentos oferecidos para essa doutrina representacionalista. Entre os argumentos mais comuns estão os argumentos da ilusão, do sonho e da loucura; em todos esses casos, poderíamos não estar percebendo o objeto, mas somente uma representação produzida pela imaginação.6 Ilusões comuns como a visão de longe de uma torre quadrada, que nos aparece redonda, ou de um remo reto, que nos aparece quebrado quando imerso na água, mostrariam que não percebemos o objeto tal como ele é nele mesmo, mas somente uma imagem (falsa) do mesmo. Alucinações e sonhos são percepções (falsas), que não correspondem a nada de real (em que o próprio objeto inexiste), mas que em nada parecem diferir das percepções verídicas de objetos reais. Em todos esses casos de percepção falsa, argumenta-se, não estamos percebendo o próprio objeto ou suas propriedades reais; então, o que estamos percebendo é alguma coisa (uma espécie de entidade intermediária ou vicária) que faz as vezes do objeto real. Não havendo diferença entre a percepção falsa e a verídica, concluiu-se que também no caso de uma percepção verídica, o que percebemos imediatamente é uma essa coisa intermediária que a percepção nos obrigou a postular. A existência mesma de percepções falsas parece implicar a tese de que o objeto imediato de nossas percepções é uma representação, concebida como uma entidade distinta do objeto.

Uma outra maneira de mostrar esse ponto é aquela que invoca percepções diferentes do mesmo objeto real. Por exemplo, se colocamos duas mãos, uma quente e outra fria, numa vasilha contendo água morna, sentiremos calor em uma mão e frio na outra. Como dizer que a água é quente e fria ao mesmo tempo? Para evitar essa contradição, devemos distinguir entre a sensação que sentimos e o objeto externo, que é distinto da sensação. Aquilo que percebemos imediatamente (e sem inferência) é somente a sensação, enquanto a percepção do objeto, como algo distinto da sensação, se dá por meio dessa. A contradição desaparece porque as sensações ou percepções que temos são relativizadas às condições e circunstâncias de percepção, não mais se atribuindo ao objeto duas qualidades que se excluem mutuamente. Dizemos que temos uma sensação de calor em uma mão e de frio na outra, sem precisar dizer que a água é fria e quente ao mesmo tempo.7

O mais superficial conhecimento de nossa fisiologia parece confirmar o raciocínio que conduz ao realismo representativo. O que normalmente se supõe é que nosso contato com os objetos se dá por meio dos sentidos; estes servem como canais de comunicação entre os objetos e nós mesmos; através do impacto, por assim dizer, dos objetos sobre nossos sentidos e da transmissão dos impulsos nervosos até o cérebro, tornamo-nos conscientes dos objetos à nossa volta. Ora, todo esse processo causal, em que o objeto é interpretado por nosso aparato sensível e posteriormente por nosso cérebro, mostra que o que temos, de fato, é um efeito distante daquilo que existe no mundo e que iniciou esse processo. Quando estamos conscientes de estar percebendo um objeto, temos diante de nós somente esse efeito por ele produzido, mas não a causa que originou todo esse processo. Se se pudesse ligar o cérebro a um supercomputador que enviasse os mesmos impulsos nervosos causados pelos objetos físicos, teríamos exatamente as mesmas percepções que ora temos.8 Essa mera possibilidade já mostraria que nossas percepções são entidades distintas dos objetos e podem subsistir mesmo sem eles.

O problema que motivou o realismo representativo foi o de explicar como é possível uma percepção sensível falsa, por exemplo como podemos sentir uma mesma água quente e fria, como uma torre pode aparecer redonda e quadrada, como um objeto pode duplicar-se somente porque apertamos o canto de um olho etc. Não parece particularmente difícil, com efeito, explicar essas percepções sensíveis falsas se aquilo que percebemos é, antes de mais nada, nossa própria afecção ou sensação; é natural supor que o objeto produza em nós sensações ou percepções diferentes segundo circunstâncias diferentes e são dessas sensações ou percepções produzidas pelos objetos, e diferentes deles, que estamos imediatamente cônscios. Uma percepção sensível falsa teria exatamente o mesmo estatuto da percepção sensível verídica, pois ambas não passariam de algo que está em nós e que é imediatamente percebido.

No entanto, o realismo representativo parece gerar o problema inverso: como explicar a percepção sensível verídica? Como distingui-la de uma percepção sensível falsa? Ora, se ambas são igualmente meras sensações em nós, distintas dos objetos que as causam, devemos encontrar algum outro meio pelo qual nós as possamos distinguir para garantir nosso acesso ao mundo real e independente. A sensação é entendida como uma imagem do objeto e a ele se vincula, seja por ter sido produzida por ele, seja por representá-lo em virtude do seu conteúdo. Será a imagem que temos do objeto fiel a ele, uma vez que foi por ele impresso em nós? Ou será que o conteúdo da imagem, na medida mesma em que representa propriedades do objeto, permite-nos discriminar as propriedades realmente objetivas? Toda a questão, agora, reside em saber qual das nossas sensações corresponde ao objeto, qual delas é verdadeira.

Diante dessa situação, o realista representativo não desespera, pois, para ele, não é impossível seguir contra a corrente e voltar às origens causais da percepção, vislumbrando o objeto a partir da marca que ele imprimiu em nossa sensibilidade. De um lado, podemos examinar o "pedigree" de nossas percepções e atestar se elas foram adequadamente engendradas de modo a reproduzir fielmente suas origens. Se todo o processo causal, que começa no objeto externo e termina em nossa percepção, ocorreu sem nenhuma perturbação, se nada obstruiu a impressão natural que o objeto causa em nós, então não há por que supor que nossa percepção não nos revele o objeto tal como ele é nele mesmo. Podemos distinguir entre os casos normais de percepção e os casos anormais. Isso significa que as condições e circunstâncias devem permitir uma boa percepção do objeto: ele não deve estar longe, a iluminação deve ser boa, o ar transparente etc. Isso significa também que nossas faculdades devem estar operando bem, tanto a sensibilidade (nossos olhos não podem ser míopes, ou devemos usar lentes adequadas para corrigir a miopia, a audição tem que ser capaz de captar os sons etc.), quanto o entendimento (não podemos estar loucos, ou com febre alta e delirando, nossa capacidade de entender, raciocinar e produzir um discurso articulado não pode estar comprometida etc.). Se tudo estiver funcionando corretamente, segundo sua ordem natural, então os casos anômalos da ilusão, da loucura e do sonho em nada contribuirão para abalar o conhecimento propiciado pela percepção normal.9 De outro lado, podemos examinar o conteúdo que nos apresentam nossas percepções e concluir, a partir desse exame, quais de suas propriedades podem ser atribuídas aos objetos e não resultam de uma mera criação subjetiva. Por exemplo, poder-se-ia dizer que extensão, figura e movimento são propriedades que também pertencem ao objeto representado, enquanto cor, gosto, som etc. são propriedades que existem somente no sujeito percipiente.10 Podemos distinguir entre as percepções que se dão de forma coerente e segundo leis daquelas que são produzidas mais ou menos ao acaso. Enquanto, de um lado, a natureza opera de maneira regular, a causa produzindo infalivelmente o seu efeito, de outro, a nossa imaginação é caprichosa e certamente não obedece a leis tão estritas quanto as leis naturais. Desse modo, aquilo que for produzido segundo leis é real, e deve-se presumir que o que não for produzido desse modo não passa de um produto da imaginação.11 Todos esses são caminhos que foram explorados pelos realistas representativos para assegurar que podemos conhecer o mundo independente de nós tal como ele realmente é.

Se o realista representativo manteve seu otimismo apesar de confessar que nós só percebemos imediatamente nossas afecções ou representações, e não os objetos físicos, muitos foram sensíveis às dificuldades inerentes às suas soluções otimistas. Em primeiro lugar, a relação de causa e efeito que existe entre o objeto e a percepção que dele temos não assegura a similaridade do efeito em relação à sua causa; ao contrário, com frequência nada mais diferente do que a causa e o seu efeito, como por exemplo o impacto de dois objetos e o som produzido ou a luz do sol e o derretimento da manteiga. Mesmo que todo o processo causal tenha transcorrido em perfeita normalidade, mesmo que nossos sentidos sejam aptos a nos manter vivos, ainda assim as percepções que temos dos objetos podem ser totalmente diferentes dos objetos que as causam. A relação de causalidade obviamente não implica a relação de semelhança.12 Em que impulsos nervosos poderiam ser ditos semelhantes aos objetos que os causam? Certamente em nenhum aspecto relevante para o ponto em questão. Além disso, as decodificações desses impulsos no cérebro como uma imagem parecem consistir numa segunda transposição arbitrária que impomos à percepção do objeto, que provavelmente aumenta ainda mais as diferenças entre um e outro. Entre os "inputs" em nossos terminais nervosos e o torrencial "output" que produzimos a partir deles há uma tal disparidade que jamais poderemos justificar nossas percepções com base nos paupérrimos impulsos nervosos.

Em segundo lugar, como saber se o conteúdo de nossa representação corresponde ao objeto físico se jamais temos acesso a ele? Talvez se possa dizer que as propriedades de uma sensação não podem pertencer a um objeto, na medida em que estamos distinguindo claramente entre a sensação ou percepção que se passa em nós e o objeto externo que é percebido. As propriedades de uma percepção podem ser similares às propriedades de outra percepção, mas nunca às de um objeto físico (e vice-versa). Digamos, uma percepção pode ser confusa, mas não um objeto; e um objeto pode ser retangular e verde, mas não uma percepção.13 Mesmo se percepção e objeto pudessem ter propriedades semelhantes, ainda assim jamais saberíamos se eles de fato as têm. Tal como não podemos saber se o retrato de alguém é semelhante a essa pessoa se jamais a vimos, assim também uma representação não pode ser dita similar ao objeto que a causou se não podemos percebê-lo diretamente e compará-lo com a representação que dele temos. O ponto crucial aqui é o da impossibilidade de comparação. Por princípio, tal comparação é impossível. Mesmo se dispuséssemos de mais um sentido, ou se nossos sentidos fossem mais potentes, tudo o que teríamos seriam novas percepções que representariam o objeto, mas não teríamos jamais o próprio objeto.14

O realismo representativo abriu mão da tese trivial de que percebemos diretamente os objetos externos para garantir que as coisas são independentes de nós. Entretanto, muitos julgaram que, uma vez tendo adotado o representacionalismo no campo da epistemologia, não cabia mais manter o realismo no campo ontológico. As portas para o ceticismo ou idealismo cético parecem inevitavelmente abertas se aderimos a uma concepção representacionalista da percepção sensível. Vários, de dentro mesmo do realismo representativo, procuraram escapar dessa conclusão que lhes parecia insatisfatória. Mas, ao adotar o modelo da percepção indireta dos objetos externos, parece uma conclusão irremediável a de que jamais saberemos como os objetos externos são neles mesmos e, mesmo, se eles existem. Tudo o que podemos conhecer é somente a nossa própria existência e aquilo que se passa em nós. E por mais que os filósofos tenham tentado evitar essa conclusão, sem abandonar o realismo representativo, poucos foram aqueles que entenderam que eles lograram seus objetivos. Exames exaustivos e sucessivos parecem indicar que a trilha aberta pelo realismo representativo conduz a uma forma radical de idealismo, o idealismo cético.


3. Mas as coisas não são tão simples assim, nem tão desesperadoras. Antes de mais nada, faz-se necessário entender exatamente em que ponto o realista representativo se equivocou e abriu as portas para o idealista cético. Se pudermos corrigi-lo nesse ponto preciso, talvez o idealismo cético possa ser evitado. Não se segue, pelo menos é o que alguns filósofos sustentaram, da tese inteiramente aceitável de que o objeto imediato da percepção é uma afecção nossa a tese inteiramente inaceitável de que devemos negar a existência de objetos físicos ou mesmo suspender o juízo a seu respeito. Ora, o idealismo cético só parece ser uma consequência necessária do representacionalismo epistemológico (isto é, da tese de que só percebemos imediatamente aquilo que se passa em nós) quando já se supõe de antemão que o objeto físico é algo distinto da representação (ou da nossa afecção) e que deve ser inferido a partir dela. O ceticismo a respeito da existência e do conhecimento do mundo exterior parece ser gerado pela combinação de duas suposições básicas.15 Uma delas diz respeito à noção mesma de existência ou de realidade. Segundo essa noção, as coisas reais não são aquelas que percebemos e para além de nossas percepções existe o mundo real.16 Dada essa peculiar definição de "existência real" e dado que só temos acesso às nossas próprias percepções, não é difícil concluir que não conhecemos sequer a existência das coisas reais, pois teríamos que inferir causalmente a existência das coisas reais e nenhuma inferência causal é absolutamente segura.

É uma verdade incontestável, dizem esses filósofos, que nós não temos acesso senão a algo que está ou se passa em nós.17 O realismo representativo é um meio caminho para a verdade, pois ele nos mostra que a nossa percepção jamais nos leva, ao menos imediatamente, para além de nós mesmos. Quando nossa consciência se desloca de uma estrela para outra, ela certamente não ultrapassa a velocidade da luz, percorrendo anos-luz de distância em milionésimos de segundos. Na realidade, nossa consciência não sai de nós mesmos, pois ela se fixa em nossas próprias modificações. Ao ir, de uma estrela a outra, ela permanece onde sempre esteve: em si mesma.18 Também não se contesta a opinião de que nenhuma inferência causal é absolutamente segura e, portanto, que qualquer afirmação baseada em uma inferência causal será, no melhor dos casos, somente uma hipótese plausível.19

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