O problema do mundo exterior



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No entanto, aquela noção de existência ou de realidade é controversa, para dizer o mínimo. Essa premissa, às vezes oculta, às vezes bastante explícita, de que o objeto físico é essencialmente diferente de nossa representação merece, aos olhos de alguns filósofos, uma crítica contundente. O grande problema foi o de que, ao começarmos a discutir aquelas duas teses triviais, abandonamos muito rapidamente a tese de que percebemos diretamente os objetos físicos, sem nos darmos conta do que se seguiria como sua consequência inevitável: em vez de explicar nosso conhecimento do mundo, acabamos até pondo em dúvida a sua existência. Devemos, portanto, permanecer firmes com a tese de que aquilo que percebemos é precisamente o objeto físico real; o que talvez mereça alguma reformulação é a outra tese trivial, bastante imprecisa de resto, de que os objetos são totalmente independentes da mente (e, portanto, distintos da percepção). Visto que a tese de que nossa consciência só percebe aquilo que se passa nela mesma se impõe como correta, a única alternativa seria negar a outra premissa que conduz ao ceticismo, a de que as coisas reais diferem das coisas percebidas.

O realismo representativo, portanto, não logra apreender toda a verdade. Na realidade, lhe escapa um ponto fundamental na compreensão das coisas. Ainda que nossa consciência não vá além de si mesma, isso não quer dizer que o objeto deva ser inferido causalmente como algo escondido para além da representação ou da "idéia" que dele temos, nem que o objeto seja essencialmente diferente da representação ou de sua "idéia". É nessa distância estabelecida entre o ser de uma coisa e o seu ser percebido que reside o erro do realista representativo e que o desencaminha da verdade. Ao supor que o único objeto real e independente seria aquele objeto para além de nossas representações, o realista representativo desconhece uma outra dimensão da objetividade, talvez a única em que de fato podemos afirmar com certeza que há objetos independentes. Ora, o que se ignora no realismo representacionalista é a possibilidade de que o objeto não seja senão uma combinação dessas "idéias" ou um tipo particular de representação. Em outras palavras, as coisas independentes de nós não são independentes no sentido de que existem independentes de nossa percepção, mas no sentido de que aquilo que percebemos não depende de nossa vontade: ao abrirmos os olhos, por exemplo, não escolhemos o que ver. Há uma passividade inerente à sensação ou à percepção, que obviamente indica uma independência das coisas imediatamente percebidas em relação à nós. Mas essa independência não é a da existência da coisa percebida, pois, enquanto coisas que se passam em nós, elas são dependentes da mente, mas essa independência é do seu conteúdo.20

Por que, entretanto, se aceitou essa idéia de que só percebemos imediatamente nossos estados internos e não os objetos externos? Por que se atribuiu uma diferença entre os objetos percebidos por nosso, por assim dizer, sentido interno e os objetos percebidos pelos sentidos externos? Aos olhos do realista representativo, nada parece mais fácil de explicar do que essa diferença. Se é verdade que só percebemos imediatamente aquilo que se passa em nós e se nossa única concepção da realidade das coisas é a de que elas existem independentemente de nós, então é natural supor que as coisas reais não são imediatamente percebidas por nós (e são, portanto, externas); de outro lado, é trivial que nossos estados subjetivos estão em nós e, portanto, parece seguir-se que nós os percebemos imediatamente.21 No entanto, essa diferença entre nossos estados subjetivos e as coisas reais repousa na hipermetropia do realista representativo que o incapacita para enxergar aquilo que está perto dele, a saber, as coisas entendidas como uma espécie de representação ou como um tipo de "idéias" na mente. Entendidas desse modo, algumas de nossas representações ou "idéias" são verdadeiramente coisas, são, com efeito, as coisas reais de que falamos cotidianamente e às quais nos referimos usualmente. Na medida em que algumas de nossas "idéias" ou representações são coisas reais, torna-se possível falar da percepção direta e imediata de coisas externas. Portanto, não há nenhum privilégio da percepção dos nossos estados subjetivos em relação aos objetos externos. Nos dois casos, temos acesso direto e seguro dos seus respectivos objetos.22

Estamos agora em condições, assim parece, de dar uma prova rigorosa da existência das coisas externas. O esquema geral de uma prova desse tipo é o seguinte. Em primeiro lugar, temos como firme e estabelecida a tese de que só percebemos imediatamente o que se passa em nós. A essa, acrescentamos a tese de que as coisas externas e reais não são senão representações ou "idéias" em nós mesmos. Portanto, toda percepção sensível é prova da realidade de pelo menos uma coisa externa.23 Passo agora a um exemplo particular inteiramente pertinente desse tipo de prova, que parte da percepção individual de uma coisa externa no espaço para estabelecer a existência em geral de coisas externas: ao gesticular com uma mão, chamando a minha atenção para ela, digo: "eis uma mão!", e, gesticulando e percebendo a outra, afirmo: "eis outra mão!"; daí concluo a tese mais geral: "logo, existem pelo menos duas coisas exteriores". Essa prova, cabe notar, é rigorosamente correta, pois as premissas são certas (verdadeiras), engendram a conclusão e são diferentes da conclusão.24

O ceticismo fica eliminado não somente porque provamos a existência de um mundo exterior povoado de coisas, mas também porque podemos efetivamente conhecer como essas coisas são. Na medida em que o objeto físico é idêntico às representações (ou, pelo menos, a um certo conjunto delas), segue-se não somente que não é mais preciso inferi-lo, mas também que não há mais a possibilidade de erro quando temos uma percepção sensível dele. A possibilidade de erro era introduzida, segundo o realismo representativo, pela inferência causal entre a percepção e o objeto representado; na medida em que tal inferência é sempre incerta, jamais poderíamos estar totalmente seguros de que o objeto é tal como o representamos. Mas se a percepção é idêntica ao objeto, não há mais necessidade de nehuma inferência causal e percebemos o objeto tal como ele é. Alguns exploraram essa linha de pensamento de maneira coerente e radical, ao sustentarem que o objeto aparece tal como ele é e é tal como aparece.25 Outros, entretanto, assumiram uma posição mais moderada. Ainda restaria decidir, portanto, se todas as propriedades que percebemos no objeto de fato pertencem ao objeto, ou se deveríamos distinguir entre, tal como se fez diversas vezes, qualidades primárias e qualidades secundárias. Aqui as opiniões divergiram: por exemplo, alguns disseram que os objetos externos são realmente coloridos, enquanto outros disseram que as cores que percebemos não passam de qualidades secundárias.26 Pouco importa, o certo é que várias das qualidades que percebemos nos objetos efetivamente pertencem ao objeto. Essa dupla vantagem, a de garantir a existência das coisas, bem como o conhecimento delas, permite afastar o fantasma do ceticismo e do idealismo cético.

Cabe agora, ainda que brevemente, examinar o que é o objeto externo segundo essa concepção. Não há dúvidas de que esse objeto externo tem algumas características que fazem dele uma coisa efetivamente real. Por exemplo, ele é público, uma vez que a mesma coisa é percebida por mim e por você, vale dizer, por diferentes consciências empíricas ou individuais. Ele também continua a existir mesmo quando não percebido por minha ou por sua consciência. Outra característica sua é ainda a de que não depende de nós percebê-lo desta ou daquela maneira (verde ou azul, redondo ou quadrado etc.), nem mesmo escolhemos o que percebemos, visto que nossos sentidos são passivos. Essas características, entre outras que se poderiam enumerar, permitem que se fale com propriedade da realidade dessas coisas externas imediatamente percebidas por nós. Não há dúvidas, portanto, de que os filósofos que defendem essa teoria são, pelo menos em algum sentido legítimo, realistas. Trata-se, com efeito, não de um realismo metafísico, segundo o qual existe em si mesma uma realidade absoluta e diferente daquilo que percebemos pelos sentidos, mas de um realismo que aceita a existência somente daqueles objetos externos revelados pela experiência ou daqueles objetos que "estão em nós"; daí a caracterização dessa forma de realismo como realismo empírico.27

No entanto, cumpre igualmente observar que se podem atribuir outras características a esses objetos externos imediatamente percebidos que não se coadunam tão bem com o realismo pretendido. Se, de um lado, ele está no espaço, deve-se reconhecer que, de outro, o espaço "está em nós".28 Nesse sentido, o objeto externo é... interno. Ora, por "exterioridade" não se entende aqui a exterioridade espacial de um objeto em relação a outro, no sentido de que essa mesa é externa a essa cadeira. "Exterioridade", aqui, tem no melhor dos casos um sentido metafórico e impreciso, pois, uma vez que nossas mentes não ocupam nenhum espaço, não pode ter sentido literal a expressão "coisas externas à mente". Mas a verdade é que o termo "exterioridade" se presta a grandes mal-entendidos, pois falando propriamente não há exterioridade nenhuma e o seu emprego não passa de um equívoco.29 Assim como nos sonhos vemos as coisas fora de nós, e, no entanto, elas não estão fora de nós, assim também na vigília as vemos fora de nós sem que estejam de fato fora de nós. A distância percebida não é indício de que as coisas estejam realmente (em sentido literal) fora de nós. A "exterioridade" das coisas externas imediatamente percebidas não passa de uma espécie de ilusão.30 Tudo se passa como se as coisas estivessem fora de nós; embora elas apareçam como estando à nossa volta, elas não o estão. É preciso notar ainda que os defensores dessa forma de realismo defendem igualmente que o objeto externo, real e independente é também, em outro sentido, somente um tipo de representação ou uma "idéia" na mente. A identificação das coisas ditas externas com o que se passa em nós é, com efeito, uma doutrina capital, e mesmo distintiva, da postura filosófica que ora discutimos. Tudo isso configura uma posição idealista. A esses filósofos realistas, a tradição frequentemente se referiu como idealistas; e alguns deles não hesitaram em reconhecer que seu realismo empírico convivia (pacificamente, a seu ver) com uma forma de idealismo, que eles chamaram de idealismo transcendental. É bem verdade que essa consciência de que os objetos externos dependem não é a minha ou a sua consciência, mas uma espécie de consciência impessoal ou mesmo a consciência divina (outra versão dessa forma de idealismo poderia ser chamada de idealismo divino).31 Ainda assim, é sempre em referência a alguma consciência que os objetos "externos" são ditos reais.

Antes de passarmos a outro item, talvez valha a pena retomar o modo pelo qual conhecemos o objeto externo imediatamente percebido. Os sentidos externos dão acesso imediato aos objetos externos (assim como percebemos imediatamente nossos estados mentais; sentidos externos e internos operam de maneira análoga, mas independente uns dos outros). Temos aqui uma importante contribuição à epistemologia, ao vermos questionada a tese de que não percebemos imediatamente as coisas reais.32 Afirma-se claramente a tese de que nós percebemos imediatamente os objetos reais e externos. Toda uma teoria filosófica se elabora para dar sustentação a essa tese. No entanto, esse modelo da percepção direta dos objetos externos tem um preço a pagar, e esse preço pode parecer alto demais para alguns. Esse modelo da percepção direta dos objetos externos pressupõe que esses mesmos objetos foram interiorizados em algum sentido. Em outras palavras, os sentidos externos só dão acesso imediato aos objetos porque, em alguma medida ou em algum sentido, esses objetos não são externos, mas estão em nós. O modelo da percepção direta do objeto convive com a tese de que só percebemos imediatamente o que se passa em nós.



Não se trata, portanto, segundo a proposta desses filósofos, de abandonar o realismo em função da tese epistemológica do representacionalismo, mas exatamente o contrário: ao firmar o pé em uma postura basicamente realista, a tarefa que se impõe é a de mostrar que o representacionalismo se torna inaceitável por comprometer o realismo. Ainda que nós tenhamos acesso somente às nossas representações e afecções, o realismo permanece de pé, não aquele realismo metafísico, de objetos físicos considerados neles mesmos e independentes de qualquer sujeito que os perceba ou os conceba, mas um realismo mais moderado, que, como vimos, foi chamado de realismo empírico. Essa forma de realismo é passível de uma prova, como também vimos. Entretanto, o que garante a realidade das coisas externas, nunca é demasiado enfatizar, é precisamente a sua dependência de uma consciência. O realismo empírico depende, em última instância, de uma certa forma de idealismo, sem o qual ele não se deixa provar. Ora, se partimos de uma insatisfação com relação ao realismo representativo porque ele desembocava no idealismo cético, o realismo empírico talvez não consiga resolver plenamente essa insatisfação, uma vez que ele pressupõe necessariamente uma outra forma de idealismo. Nesse sentido, convém lembrar que uma das intenções do idealista (divino ou transcendental) era a de defender o realismo do senso comum dos ataques dirigidos pelos filósofos contra ele. Mas em que medida seus esforços de fato preservaram esse realismo? Não terá essa defesa minado o realismo que pretendia defender? O resultado final de tanto esforço parece ser somente o de que trocamos de forma de idealismo. Certamente muitos verão nessa troca um avanço, afinal o idealismo transcendental ainda preserva alguma forma de realismo. Entretanto, cabe perguntar se, do ponto de vista daquele que combateu ardorosamente o idealismo cético, o avanço foi tão significativo a ponto de deixar a questão nesse pé; ou se, ao contrário, talvez não se tenha encontrado o verdadeiro nó do problema do conhecimento do mundo exterior que nos levou ao idealismo cético.33 Se esse for o caso, teremos que reiniciar nossas investigações.
4. Cabe ainda perguntar, portanto, se a resposta do realista empírico ao idealista cético, que vimos no item anterior, é satisfatória, não somente do ponto de vista de seu adversário, mas também de seu próprio ponto de vista. Essa resposta identificava como a raiz dos males que acometiam o realismo representativo a combinação de duas teses filosóficas: de um lado, a aceitação de que só percebemos imediatamente aquilo que se passa em nós e, de outro, a aceitação de que as coisas reais são coisas diferentes das nossas representações ou "idéias". E a prova do realismo consistia em aceitar uma das teses, a primeira, e rejeitar a segunda. Nós vimos quais as consequências dessa argumentação para uma posição que se pretende realista. Não que essas consequências terminem por abolir o realismo desejado; certamente, seria uma incompreensão da proposta daqueles filósofos dizer que o que eles estavam propondo não seria uma forma de realismo. Mas essas consequências acabam por introduzir, na descrição dos objetos externos e do modo pelo qual nós os conhecemos, algumas características que não casam muito bem com uma posição realista integralmente adotada. Se estamos inclinados a adotar uma posição realista mais robusta, temos que rever nossa crítica ao idealismo cético. Em primeiro lugar, talvez caiba desconfiar do diagnóstico feito, isto é, a origem do problema talvez não repouse naquela combinação das teses de que só percebemos imediatamente o que se passa em nós e de que as coisas reais são distintas de nossas percepções. E, em segundo lugar, talvez caiba suspeitar daquela premissa que não somente não foi questionada, mas que foi endossada e mesmo utilizada para provar o assim chamado realismo empírico, a saber, a de que só percebemos imediatamente o que se passa em nós. Se esse for o caso, é a prova mesma que se deu em favor do realismo que precisa ser revista.

Um diagnóstico mais lúcido e mesmo talvez mais profundo atribui uma dupla origem ao problema cético. O problema da existência e do conhecimento do mundo exterior só surge se primeiramente adotarmos duas teses a respeito da existência e do conhecimento de nossas próprias mentes. Em primeiro lugar, devemos assumir que nossa única percepção imediata é a que temos de nossos estados internos e subjetivos. Isso equivale a dizer que a introspecção é nosso único modo de acesso imediato e direto (não-inferencial) aos seus objetos. Essa primeira tese é uma tese epistemológica.34 Em segundo lugar, devemos assumir que nossa mente pode existir independentemente de todas as demais coisas e que ela pode determinar por si mesma seus próprios estados, vale dizer, a mente é uma substância. A mente poderia ter exatamente as mesmas modificações (sensações, imaginações, pensamentos, emoções, desejos etc.), mesmo se o mundo não existisse, porque a determinação dessas modificações depende somente da própria mente em que estão e não deve nada a esse suposto mundo exterior. A segunda tese que devemos assumir para engendrar o problema cético do mundo exterior é uma tese ontológica.35

Se aceitarmos essas duas teses, então devemos aceitar igualmente que a existência do mundo exterior é problemática. Mais do que isso, a existência do mundo exterior só se torna problemática se aceitarmos essas duas teses. De que modo essas teses geram o problema do idealismo cético?36 Ora, segundo a perspectiva que adota essas duas teses, o ponto de partida para a reflexão filosófica é dado pela minha interioridade, que se apresenta como inquestionável, pelo menos como inquestionada. Tudo o que disponho inicialmente é de minha vida mental privada e é a partir dessa base que devo tentar conhecer tudo o mais. Na medida em que todas as minhas percepções podem ter origem na minha própria mente, a aceitação da existência de um mundo exterior é gratuita. Sem uma prova de sua existência, não há por que aceitá-la. Desde o início, portanto, a existência do mundo torna-se problemática, porque eu já me situo fora do mundo e o coloco como algo que está mais além de minhas percepções. O mundo não é um dado imediato para mim (bem como minha existência nele), mas algo a ser conquistado. Se eu me reconhecesse, por exemplo, como alguém imerso no mundo, como alguém que tem um corpo, como uma pessoa que vive no mundo como outra pessoa qualquer, então não teria sentido questionar a existência do mundo como um todo. Como poderia um corpo físico questionar (com sentido) a existência de todo e qualquer corpo físico? Neste caso, o mundo estaria dado desde o início e não teria sentido investigar a sua existência.

Mas não há por que aceitar qualquer uma dessas teses, seja a tese epistemológica de que só temos acesso imediato a estados subjetivos, seja a tese ontológica de que a mente existe por si mesma e determina (distingue) seus estados independentemente do que se passa fora dela. Ao contrário, talvez se possa dizer que a aceitação mesma dessas teses implica na sua própria rejeição. Um novo diagnóstico da origem do problema cético exige uma nova maneira de refutá-lo. Suponhamos, por um momento, com o idealista, que de fato temos certeza a respeito do estado subjetivo em que nos encontramos. Cabe perguntar, então, como essa certeza é possível; e a resposta é que a certeza que temos de nossos estados subjetivos só é possível se estivermos em contato com os objetos externos e com o nosso próprio corpo. A determinação de nossos estados subjetivos depende de alguma coisa permanente; no entanto, a introspecção só nos apresenta um fluxo de consciência, no qual nada há de permanente; assim, esse permanente, que permite a determinação dos estados subjetivos, encontra-se fora da mente, de modo que se faz necessária a intermediação de algo permanente externo para que possamos ter consciência de nossos próprios estados. Esse permanente externo não consiste senão nos objetos físicos externos.37 Jamais saberemos com certeza, por exemplo, que estamos tendo a sensação de vermelho, se não formos capazes de discriminar objetos vermelhos de objetos não-vermelhos; ou então jamais saberemos se estamos com dor se não formos capazes de nos comportar de determinadas maneiras (o que, naturalmente, pressupõe a existência de nosso corpo). Se isso é verdade, segue-se que a segunda tese necessária para engendrar o problema cético também cai por terra, pois agora se mostra que a mente não é capaz de determinar sozinha seus estados subjetivos e que para essa determinação se faz necessária a colaboração do mundo físico. Para que possamos ter critérios que nos permitam distinguir estados internos, precisamos ter critérios que nos permitam distinguir objetos externos.38 Negar que a mente possa determinar e discriminar por si mesma seus próprios estados equivale a negar o caráter substancial da mente. A condição de possibilidade da certeza subjetiva é o conhecimento do objeto externo. Há aqui uma espécie de auto-refutação do idealismo cético, ao se apontar como que uma contradição interna. Se o aceitamos como verdadeiro, temos que aceitar sua falsidade.

As alterações dizem respeito não somente a uma nova maneira de refutar o idealista cético, mas também a uma nova posição filosófica. Se essa linha de argumentação é correta, então se seguem duas modificações bastante importantes com relação à formulação tradicional do problema cético. Em primeiro lugar, a descrição do modo pelo qual nós conhecemos aquilo que se passa em nós inverte-se, uma vez que não mais julgamos que temos acesso direto e imediato a nossos estados subjetivos, mas admitimos agora que tal acesso só é possível mediante o conhecimento dos objetos externos. Vimos que um dos pressupostos básicos para que a existência do mundo exterior pudesse ser problematizada era o de que temos acesso imediato aos nossos estados subjetivos. Ao negarmos agora esse pressuposto, impedimos que o próprio problema se coloque, isto é, a existência do mundo exterior é um dado inicial inquestionável.39 Uma ressalva, entretanto, deve ser feita. Não se trata aqui, obviamente, de uma mediação de tipo inferencial; não é porque temos tal conhecimento do objeto externo que podemos inferir causalmente que estamos em tal estado subjetivo. Não é essa, certamente, a maneira pela qual tomamos consciência de nossos estados subjetivos. No entanto, a certeza que temos de nossos estados subjetivos só é possível porque estamos em contato constante com as coisas à nossa volta e nos comportamos de certas maneiras. Note-se ainda que a tese tem caráter geral: para que possamos identificar nossos estados subjetivos, precisamos ser capazes de identificar objetos externos. Não se afirma aqui a tese, obviamente falsa, de que para identificar cada um de nossos estados subjetivos, é preciso discriminar, no mesmo momento, o objeto externo correspondente. Não somente para o idealista cético, mas também para o realista representativo e para o realista empírico, a percepção interna era tida como imediata e independente da percepção externa. Vemos agora que tal doutrina é, no mínimo, questionável, e que ela pressupõe certos dogmas epistemológicos e ontológicos.

Em segundo lugar, a descrição do nosso modo de conhecimento dos objetos externos também se altera. Para o realista representativo, nosso acesso ao objeto externo era irremediavelmente indireto, o que, como vimos, conduzia ao idealismo cético. Vimos também como o realista empírico melhorou tal doutrina, ao propor um acesso direto e imediato ao objeto externo, mas ao custo de transformar o objeto externo, em algum nível pelo menos, em um objeto interno; isto é, o realismo empírico dependia de alguma forma de idealismo para estabelecer-se. Ora, vemos agora uma formulação mais forte e vigorosa do modelo realista da percepção direta. Ao se refutar o idealismo cético não se invocou a nenhum momento a tese de que só é imediatamente percebido aquilo que está em nós. Ao contrário, somente se pressupôs a certeza subjetiva aceita pelo idealista, para fazer essa certeza levar à refutação mesma do idealismo cético. Nessa auto-refutação do idealismo cético, a tese de que só é imediatamente percebido aquilo que está em nós foi também refutada. Concluiu-se que aquilo que está em nós não é imediatamente percebido e que o imediatamente percebido é aquilo que está fora de nós. Os sentidos externos nos dão um acesso direto às coisas, sendo que essas coisas a que eles nos dão acesso não precisam, na verdade nem mesmo podem ser concebidos como internos em qualquer sentido. Com a dissociação entre o modelo da percepção direta do objeto real e a tese filosófica de que só percebemos imediatamente o que está em nós, o realismo ganha um novo impulso e solta as amarras que o prendiam a alguma forma de idealismo. Sem o dogma da presença na mente do que é imediatamente percebido, pode-se sustentar que temos acesso direto a coisas externas a nós em sentido pleno.40




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