O problema do mundo exterior



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Resta, pois, passar brevemente em revista as novas características do objeto externo que é imediatamente percebido. Ele é público, pois é percebido por diferentes pessoas; ele existe mesmo quando não é percebido, pois sua existência não depende do seu ser percebido; ele é o objeto mesmo que é percebido por nós. Todas essas características já estavam presentes na concepção do realista empírico. No entanto, para o realista empírico, havia um sentido em que esses objetos externos não eram externos, mas internos; em que eles não eram totalmente independentes da consciência, mas dela dependentes; que sua exterioridade não era mais do que uma maneira imprecisa e mesmo equivocada de falar. Afinal, a prova mesma de sua realidade empírica pressupunha sua existência na mente ou na consciência. Ora, esse não é o caso aqui; como já se observou, a prova de sua existência mostra que ele é externo à consciência. De outro lado, não se atribui um estatuto metafísico a esse objeto externo, como faz o realista representativo, que postulava a existência de um outro tipo de objeto diferente daquele que é percebido imediatamente por nós. Esse objeto externo, diferente do objeto percebido, é uma criação do filósofo e recebeu diversas descrições metafísicas. Aqui, o objeto externo é precisamente aquele que é por nós percebido e não há a postulação de nenhuma entidade a mais, além daquela que sempre supusemos existir, quando falamos ordinariamente de objetos, como dessa mesa em que escrevo ou dessa cadeira em que sento. Não há, rigorosamente falando, nenhuma teoria metafísica quando se afirma a realidade do objeto externo à toda e qualquer consciência, pois ainda assim se trata sempre do objeto percebido. Entre o realismo metafísico e o realismo empírico, existe ainda uma terceira forma de realismo, que parece fazer jus àquelas teses triviais com as quais iniciamos nossa discussão, sem no entanto incidir numa posição absolutista (como o realismo metafísico) ou demasiado frágil (como o realismo empírico).

Chegamos assim, de maneira surpreendente, no ponto em que partimos. Nosso realista, que criticou duramente o idealista (cético ou não), acaba por tomar, com base em uma argumentação bastante cuidadosa e em análises bastante sofisticadas, aquelas duas teses triviais tais como interpretadas pelos filósofos. Com efeito, para o nosso realista as coisas reais são inteiramente independentes de nossa percepção, mas nem por isso constituem um domínio de objetos para além dos objetos percebidos. Além disso, ele admite que nós percebemos diretamente as coisas reais, que são externas a nós. Ao contrário do realista empírico, cuja defesa do realismo de senso-comum saiu como um tiro pela culatra, vemos agora o nosso realista dar um claro e pleno endosso àquelas duas teses triviais. Contudo, é preciso notar, há algumas diferenças entre esta forma de realismo e aquilo que o homem comum aceita, pois o primeiro julga que essas duas teses, em sua estrita interpretação filosófica, são verdadeiras, e pretende tê-las estabelecido em definitivo, a partir de uma refutação cabal do idealismo. A maioria de nós sustenta aquelas duas teses sem essa interpretação e sem essa pretensão filosófica, não somente porque normalmente sequer as explicitamos em nossas vidas, mas também porque não se vê a necessidade de comentar, defender e justificar essas banalidades.

Mas é preciso notar que essa estratégia, a de fazer o idealismo voltar-se contra si mesmo e, dessa maneira, de nos reconduzir ao realismo, não está isenta de dificuldades. Em primeiro lugar, é preciso explicar claramente a noção de "permanente" e o uso que se faz dela. Não pouca tinta já foi gasta com esse assunto, e as propostas, ao invés de esclarecerem o ponto em questão, acabaram por multiplicar as dificuldades. A intenção geral do argumento é bastante evidente, mas as etapas da argumentação são obscuras e só convencem plenamente aqueles que se recusam a admitir que mesmo os pensamentos mais profundos, originais e sutis são passíveis de uma exposição inteligível. De resto, que tipo de realismo é provado com essa prova é assunto bastante controverso entre os filósofos e as dificuldades de acomodá-la no contexto em que foi proposta são por todos reconhecidas.

Tampouco é muito evidente porque não é possível haver um critério interno para identificar nossos estados subjetivos. Sempre que se chega no ponto preciso de se mostrar essa impossibilidade, as análises se tornam obscuras ou vagas. Por essa mesma razão, nem todos se deixaram convencer por esse argumento. Em particular, não se entende muito bem porque não pode haver um critério interno se tomarmos como correto tudo o que nos parecer correto. Alega-se que um critério tem que permitir a distinção entre o que é correto e o que só parece correto e que um critério interno não permite essa distinção, pois tudo o que parece correto será tido como correto. Entretanto, será isso verdade? Não vejo porque não se poderia dizer que, segundo um critério interno, algo que parece correto pode não ser correto. Também aqui a intenção que se tem é evidente, mas o meio de realizá-la deixa a desejar. Naturalmente, não quero dizer que a argumentação é puramente ilusória ou falaciosa, pois certamente isso seria exagerar na sua crítica. No entanto, seria ainda necessário esmiuçar mais os detalhes e alguns aspectos da questão para que um consenso a seu respeito possa emergir.


5. Um olhar retrospectivo mostra-nos o caminho que percorremos. O debate filosófico que investigamos parte da identificação de duas teses bastante triviais, que todos aceitamos ordinariamente, mas que pareceram problemáticas à luz da reflexão filosófica. Na medida em que as duas teses (tais como interpretadas pelos filósofos) pareciam se contradizer, impunha-se a escolha por uma delas. A filosofia optou inicialmente por manter a tese de que as coisas existem independentemente de sua percepção, e adotou, no lugar da segunda, a tese de que só percebemos o objeto externo indiretamente, isto é, por meio de sua representação que está em nós. O realismo representativo, entretanto, nos conduziu ao idealismo cético. Para evitar essa conclusão indesejável (aos olhos da maioria dos filósofos), a filosofia teve que rever a sua escolha inicial, optando por voltar à tese da percepção direta do objeto e reformulando a tese de que os objetos são inteiramente independentes do sujeito percipiente. Embora se defendesse aqui uma forma de realismo, essa defesa pressupunha a adoção de outra forma de idealismo (segundo esses mesmos filósofos). Como essa conclusão não era inteiramente satisfatória (novamente: aos olhos da maioria dos filósofos), a filosofia tentou identificar mais precisamente o erro que conduzia inevitavelmente essas formas de realismo a alguma forma de idealismo. Nessa crítica ao idealismo, retornamos (de maneira bastante sofisticada) às duas teses triviais da qual partimos. A filosofia percorreu, assim, um círculo completo. Mas, ao retornar ao seu ponto de partida, os problemas iniciais parecem se repor, colocando novamente em marcha todas as reflexões já examinadas: a contradição entre aquelas duas teses, os problemas do realismo representativo, a insuficiência do realismo empírico, os pressupostos questionáveis do idealismo etc. A julgar pelo que os filósofos dizem, não há uma posição final com a qual possamos ficar felizes: uma parece levar à outra interminavelmente. Se isso é verdade, então estamos condenados a andar em círculo, sem jamais chegar a lugar nenhum.

Além da mobilidade constante entre essas doutrinas, que parecem percorrer incansavelmente um círculo fechado, há um paradoxo da filosofia digno de nota. Curiosamente, cada uma dessas doutrinas parece engendrar sua doutrina contrária. O realismo representativo parece engendrar, ainda que contra sua vontade, o idealismo cético; o realismo empírico parece engendrar, não totalmente contra a sua vontade, mas ainda assim de algum modo sem realizar plenamente seus desejos, o idealismo (transcendental ou divino); o idealismo, finalmente, parece engendrar, certamente contra suas intenções, o realismo. Ora, o estudo da filosofia, ao invés de nos dar a tão prometida verdade, oferece-nos tão somente doutrinas que, tal como a discussão levada a cabo pelos filósofos parece indicar, se auto-destróem. Esse resultado paradoxal é certamente desapontador para quem espera da filosofia a verdade sobre as coisas.

Uma terceira observação ainda se faz necessária. As críticas que uma doutrina dirige à outra parecem convincentes, mas as posições a que essas críticas conduzem parecem igualmente criticáveis. Assim, a contradição apontada entre as duas teses triviais parece de fato impor a escolha por uma delas. Entretanto, o abandono de uma delas não conduz (ao menos assim se julgou) a uma doutrina satisfatória. Se abandonarmos a tese da percepção direta dos objetos reais, adotaremos o realismo representativo. Mas essa doutrina parece igualmente questionável, uma vez que conduz ao idealismo cético, não explicando o que se propunha explicar. Se abandonarmos a tese de que as coisas reais são independentes de nós, estaremos abraçando o realismo empírico, que pressupõe o idealismo transcendental, de alguma maneira enfraquecendo a posição realista e tornando-a insatisfatória. Todas essas três doutrinas são ainda criticáveis por pressuporem a tese (que, alega-se, se auto-refuta) de que só é imediatamente percebido aquilo que se passa em nós. Essa crítica conduz a uma nova forma de realismo. Essa nova forma de realismo, contudo, incorpora aquelas duas teses triviais das quais partimos e, portanto, parece estar sujeita às mesmas críticas que o realista representativo dirigiu a elas no começo de seu questionamente filosófico (para não mencionar algumas dificuldades peculiares dos argumentos empregados na auto-refutação do idealismo). A impressão que se tem é a de que um filósofo adota uma determinada perspectiva porque as outras alternativas lhe parecem questionáveis, mas não porque aquela por ele adotada resiste às críticas e explica o que se propõe a explicar. O que se observa, portanto, é que, enquanto os filósofos estão no ataque, criticando as doutrinas de seus adversários, eles parecem triunfar, mas quando tentam defender suas próprias doutrinas, o fracasso parece igualmente retumbante. Se assim é, a vitória final só pode ser daquele que exclusivamente ataca, sem jamais defender posição filosófica nenhuma.41

Por fim, cabe notar que o número crescente de livros e artigos sobre o tema, em vez de trazer um acordo cada vez mais amplo entre os filósofos, tende somente a disseminar ainda mais a discórdia. Quanto mais se esmiuçam os detalhes envolvidos em cada questão, em cada proposta, em cada argumento, tanto mais as dificuldades aumentam e as vozes díspares se multiplicam. Pode-se talvez dizer que ganhamos em profundidade, sutileza, refinamento, mas dificilmente se poderá dizer que avançamos em direção à verdade ou, pelo menos, que está mais fácil reconhecer de modo consensual onde está a verdade. Se se contempla, com isenção crítica e sem tomar um partido prévio, o debate travado entre os filósofos, é fácil observar que sobre tudo eles se põem em desacordo e que sobre tudo eles se põem cada vez mais em desacordo. Eu apenas tentei descrever, em linhas gerais e na medida das minhas forças, esse profundo desacordo que reina entre os filósofos.42

Diante desse quadro lamentável que a filosofia nos apresenta, eu gostaria de esclarecer a minha própria posição. Antes de mais nada, deve-se ter sempre em mente que não cabe adotar nenhuma doutrina filosófica como a verdadeira. Se adotarmos qualquer uma delas como a verdadeira, alguém logo se adiantará e proporá objeções insuperáveis; e se pretendermos justificar a nossa escolha, cairemos em dificuldades não menores. Na medida em que uma doutrina parece implicar a doutrina oposta, como poderíamos adotar uma doutrina sem, ao mesmo tempo, rejeitá-la? Além do mais, como parece haver uma espécie de circularidade entre as doutrinas filosóficas, nenhum resultado fixo e definitivo pode ser alcançado. Ora, diante desse quadro, seria demasiado esperar da filosofia a enunciação da verdade final sobre a percepção das coisas e sobre seu tipo de existência. Se se quiser julgar a respeito da verdade dessas doutrinas, não consigo ver outra alternativa se não a suspensão do juízo.43 Embora eu não possa pronunciar-me contra elas e dizer que são falsas, pois há boas razões que as tornam plausíveis, também não posso pronunciar-me a seu favor, como se alguma fosse verdadeira, pois todas estão envolvidas em dificuldades, obscuridades e paradoxos. A única solução racional, parece-me, é não aceitar nenhuma doutrina filosófica; ou, pelo menos, posso dizer que o pleno exercício de minha racionalidade não me fez adotar nenhuma doutrina filosófica.

Tendo suspendido meu juízo e não me pronunciando sobre a verdade ou falsidade das doutrinas filosóficas, resta que, em minha vida, não permaneço mudo ou inativo.44 Para além das doutrinas filosóficas, muita coisa pode ser dita e sustentada, mas talvez não segundo o modo filosófico. Se me perguntam se estou vendo a caneta sobre a mesa, respondo que sim (não direi, por exemplo, que estou vendo a sua imagem - no espelho ou holográfica -, nem que estou vendo a sensação da caneta - linguajar que me parece bastante estranho); se me perguntam se a existência dessa caneta e dessa mesa é independente de minha existência, também responderei que sim (não me ocorrerá, por exemplo, que a pergunta queria saber se eu fabriquei a mesa; se for este o sentido da questão, caso eu tenha fabricado a mesa, eu deverei dizer que a existência da mesa depende de mim).45 Não é porque suspendi o juízo acerca da verdade de certas doutrinas filosóficas que me torno incapaz de, na vida prática, distinguir entre coisas reais que percebo na vigilia (como essa mesa) e meras imaginações produzidas por mim (como Pégaso). Continuo a distingui-las como sempre as distingui e oriento minhas ações em função do que concebo como real; e continuo a falar como sempre falei. A suspensão do juízo não afeta nosso esquema ordinário de pensamento, nem nosso linguajar comum.46

Não se pode confundir essas banalidades com o realismo proposto pelos filósofos em qualquer uma de suas formas. O conteúdo mesmo daquilo que se aceita é muito diferente. No caso do realismo representativo, aquilo que é considerado real é algo diferente do que é percebido; no caso do realismo empírico, aquilo que é real é considerado dependente da consciência; e no caso do realismo direto se afirma uma existência absoluta daquilo que é percebido. Também a aceitação da tese trivial de que percebemos as coisas difere das teses filosóficas de que ou bem percebemos imediatamente as próprias coisas ou bem só percebemos as próprias coisas mediante sua representação. Ao aceitar as teses triviais, não tomo partido nessa disputa filosófica e posso reconhecer tranquilamente a problematicidade em explicar com mais detalhes a percepção que temos das coisas, bem como o que significa dizer que elas existem. Nenhum conteúdo filosófico está sendo afirmado (ou negado) quando se sustenta, como sustento, aquelas duas teses triviais. O "realismo" das trivialidades é neutro em relação a essas opções filosóficas.47 Também a atitude com que aceito as duas teses triviais é bem diferente daquela adotada pelos filósofos quando propõem suas doutrinas, pois se dá de maneira despretensiosa, isto é, sem pretender que elas sejam verdadeiras, no sentido de descrever uma suposta realidade última das coisas, ou que possamos justificá-las racionalmente.

Mas, nesse ponto, alguém poderia levantar a seguinte objeção. Não será uma posição inconsistente ou irracional aceitar simultaneamente teses que a razão mostra serem contraditórias? Com efeito, poder-se-ia dizer, com base em argumentos que já vimos, que as duas teses triviais se contradizem. Toda a nossa discussão começou justamente porque essas duas teses não pareceram conciliáveis aos olhos de muitos filósofos. Se se quiser sustentar as duas teses, é preciso debelar aquela contradição inicialmente apontada. A sua suposta contradição parece ser, com efeito, o principal obstáculo para a sua aceitação simultânea.

Antes de mais nada, cabe observar que essa contradição não é algo que a filosofia tenha estabelecido como uma verdade incontestável. Nosso último realista, pelo menos, nega essa contradição e elabora uma posição bastante sofisticada em que, de sua perspectiva, as duas teses co-existem pacificamente. Talvez também a respeito da existência de uma contradição entre as duas teses se deva suspender o juízo, pois há bons argumentos que mostram a sua contradição e bons argumentos que mostram que não há tal contradição. E os filósofos parecem não se porem de acordo quanto à existência ou não dessa contradição.

Além disso, a contradição só parece existir (se existir) na medida em que interpretamos filosoficamente as teses triviais e não parece surgir se nos limitarmos à sua formulação mais trivial. Com efeito, se tomarmos a tese da existência das coisas como a existência de coisas absolutas e independentes da mente e a tese da percepção do objeto como a tese da percepção imediata do objeto, então parece que essas duas teses se contradizem. Mas não é assim que eu as aceito aqui, nem é assim (parece-me) que as pessoas costumam aceitá-las (se é que não-filósofos se preocupam com elas). Se as entendermos trivialmente, portanto, há ainda menos razão para suspeitar de que a contradição existe e é inevitável.

Suponha, finalmente, que há alguma espécie de contradição entre essas duas teses triviais. Consistirá essa alegada contradição numa boa razão para rejeitar uma delas? Talvez. Qual, então, rejeitar? A mais fraca. Mas qual seria a mais fraca? Aparentemente a segunda, que diz respeito à percepção das coisas. Mas vimos como seu abandono não levou a melhores resultados. De outro lado, a tese da existência das coisas não pareceu menos questionável. Também aqui a revisão da tese trivial não culminou numa posição satisfatória. Ambas parecem impor-se igualmente e é difícil, se não impossível, recusar qualquer uma delas. Tantas coisas estão envolvidas em torno delas que não é possível abandoná-las na vida sem abandonarmos muitas de nossas prática, entre elas práticas linguísticas. Mesmo se houver contradição, ela não impede o bom funcionamento da vida; ao contrário, a supressão da contradição, tal como tentada pela filosofia, é que implicaria uma série de mudanças em nossas vidas e traria somente mais dificuldades teóricas. Na medida em que não conseguimos resolver a (suposta) contradição, nem abandonar uma delas, não restaria senão confessar essa minha incapacidade (apesar de meus esforços) e a necessidade de conviver com a (suposta) contradição.

Outra solução, para evitar a suposta contradição, seria a de não mais dizer, em qualquer sentido, que essas teses são verdadeiras, visto que duas sentenças contraditórias não podem ser ambas verdadeiras ao mesmo tempo. Se não mais dizemos que elas são verdadeiras, então a contradição desaparece, sem que precisemos abandoná-las. Elas seriam vistas, assim, como instrumentos úteis para organizar nossa experiência. Cabe lembrar aqui a convivência das teorias da luz como onda e como partícula; se teoricamente deveríamos optar por uma única teoria, na prática usamos aquela que nos convém mais. Cabe lembrar igualmente que a teoria da relatividade e a mecânica quântica não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo; e isso não impede que as aceitemos simultaneamente. O fato de que há contradição entre elas pode fazer com que nos perguntemos sobre qual aceitar, sobre o papel meramente organizador das teorias científicas e da linguagem ou se elas espelham mais ou menos fielmente a realidade, se devemos aperfeiçoar as teorias a fim de dissipar a suposta contradição. Em nenhum desses casos se segue, da mera contradição, a rejeição imediata das teorias contraditórias. Em suma, mesmo se houver alguma espécie de contradição (o que está longe de ser um ponto estabelecido) entre as duas teses entendidas trivialmente, ainda assim não cabe rejeitar qualquer uma delas imediatamente, sem maiores considerações.

Em vista disso, e sem jamais abandonar a minha suspensão do juízo, continuarei a dizer que as coisas existem e que percebemos as coisas. A contradição não está estabelecida entre as duas teses tais como entendidas e discutidas pelos filósofos; mais do que issso, sequer se percebe a contradição entre as formulações triviais das duas teses; e mesmo se houvesse alguma espécie de contradição, não haveria como, nem por que abandoná-las de imediato, sem maiores considerações; poder-se-ia, em último caso, aceitá-las como meros expedientes práticos para a nossa vida (mas esse recurso extremo não é, nem de longe, necessário).

Uma outra objeção seria mais ou menos a seguinte. Se, por um lado, é razoável aceitar que o cético mostre a igualdade de forças entre as doutrinas filosóficas e o conflito permanente e crescente das filosofias, por outro, há certas reflexões e observações que lhe estão vedadas. Um cético não pode dizer tudo o que eu disse. Em particular, um cético não pode comprometer-se com uma espécie de circularidade necessária e inevitável das doutrinas filosóficas, nem com a tese de que uma doutrina oposta. Ao reconstruir racionalmente uma pequena história da filosofia (moderna), eu teria incluído nela elementos incompatíveis com o ceticismo. E se poderia mesmo objetar, não sem certa dose de ironia, que minha versão da filosofia apresenta alguns aspectos hegelianos: um desenvolvimento circular das filosofias e a doutrina segundo a qual uma tese engendra, a partir de si mesma, sua antítese. A única diferença seria a de que eu não concluiria com um saber absoluto; a moral tirada por mim seria a da completa ignorância, pois a história não teria nenhum fim e permaneceria estritamente contraditória (uma espécie de dialética negativa). Em suma, ao assumir pessoalmente a trajetória circular e contraditória da filosofia, eu teria abandonado uma postura cética.

Ora, é preciso esclarecer um ponto delicado a respeito da descrição que esbocei ao longo destas páginas, bem como das quatro observações que fiz. O que deve ser esclarecido, creio, é o estatuto do meu discurso e de minhas reflexões. Em nenhum momento afirmei taxativamente que o resultado inevitável do realismo (representativo ou empírico) era o idealismo (cético, transcendental ou divino) ou que o idealismo pressupunha o idealismo, mas sempre tomei o cuidado de dizer que uma coisa parecia se seguir da outra. E isso por pelo menos três motivos. Em primeiro lugar, porque não posso (e creio que nenhum filósofo pode) dizer que uma coisa efetivamente se segue da outra, como se houvesse uma dedução lógica ou mesmo como se todos os filósofos estivessem de acordo com a implicação. O máximo que se pode dizer é que os exames repetidos e cuidadosos de boa parte dos filósofos tendem a convergir na direção apontada; quando eu disse que de uma postura se seguia a outra, eu não quis afirmar uma implicação necessária, mas somente que a maioria dos filósofos admitiu tal conexão.

Em segundo lugar, porque, dado o que pude ler e fui capaz de pensar, tal me parecia ser a evolução e o estado da filosofia; evidentemente, cuidei de expôr como eu vejo a questão e, nesse sentido, toda a organização e concatenação lógica cabe a mim. Obviamente, outras pessoas escreveriam um texto diferente e eu mesmo, em outras circunstâncias, teria escrito um texto bem diferente. Todo texto leva uma marca pessoal e somente expresso como as coisas me aparecem. E como poderia ser diferente? Entretanto, todas as inferências, todos os argumentos, todas as posições filosóficas e todos os complexos movimentos desse xadrez filósofico são estritamente tirados da filosofia, sem jamais distorcê-los ou deformá-los (assim o espero, pois empenhei-me seriamente nesse sentido), e não são criações do meu espírito. Confesso que há uma dose inevitável de elementos subjetivos nas páginas precedentes, mas entendo que o que a mim se pode imputar não consiste em nenhum momento na invenção arbitrária de uma suposta realidade filosófica.

Em terceiro lugar, para além dessa dimensão pessoal partilhada por toda e qualquer reconstrução da filosofia, há (no meu caso pelo menos) um esforço de descrição de uma situação objetiva, que visa refletir aquilo mesmo que os filósofos dizem. São, parece-me, os próprios filósofos (pelo menos parte significativa deles) que entendem que o realismo representativo leva ao idealismo cético, o realismo empírico ao idealismo transcendental ou divino e o idealismo ao realismo. Nessa medida, são eles mesmos que tiram de uma doutrina a sua doutrina oposta. E a sequência que leva de volta ao ponto de partida coincide com "a ordem do tempo" (pelo menos em certo recorte). Além disso, são eles mesmos que não se deixam persuadir por seus colegas e, aprofundando cada vez mais a discussão, ampliam cada vez mais a discórdia. De minha parte, trato de somente descrever toda a trama filosófica. Os problemas cruciais aqui apontados devem ser imputados somente aos filósofos e não a uma invenção arbitrária de minha parte. Tentei resolvê-los e não consegui; cabe àqueles que inventaram esses problemas resolvê-los. Os filósofos que se entendam.




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