O problema do mundo exterior



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Dessas três considerações sobre o meu discurso, parece seguir-se que aquela objeção não tem força, vale dizer, creio que posso sustentar o estatuto cético de tudo o que eu disse. Um cético pode descrever a situação filosófica tal como lhe aparece e indicar aqueles caminhos trilhados pelos filósofos. Não lhe está vedado falar sobre o que os outros disseram, nem lamentar sobre as indecisões, conflitos, paradoxos, voltas e reviravoltas, desde que ele não se comprometa com um raciocínio concludente, com uma lição definitiva tirada da história ou com uma conclusão final sobre o assunto. É bem verdade que, em certos momentos de arroubo, em que me deixei levar pela retórica, empreguei expressões mais fortes ou mesmo empreguei um estilo mais vivaz. Mas isso não deve atrapalhar a boa compreensão do texto e espero ter desfeito aqui os possíveis mal-entendidos.48

Entendo, portanto, que a posição cética não se segue logicamente de toda a discussão anterior, nem sequer dessas observações finais. Apenas exponho qual foi minha experiência filosófica e o que dela resultou. Um novo e mais profundo exame poderia conduzir-me a outra conclusão. Na realidade, para ser franco (e por que não sê-lo?), devo confessar que hesitei várias vezes em minhas reflexões, sem saber exatamente que conclusão extrair, ou sem saber avaliar precisamente a força de um argumento, ou sem enxergar a conexão entre as idéias examinadas, ou mesmo sem conseguir posicionar-me claramente diante de uma doutrina. Na discussão com amigos, fui levado a alterar, não somente alguns detalhes da exposição, mas mesmo alguns aspectos importantes da posição final que ora relato aqui. Tudo isso é natural e não vejo como poderia ser diferente, dado que nossa razão (pelo menos a minha) é precária, lenta e extremamente falível. Mesmo quando nossas idéias parecem tomar forma fixa, tornando-se claras e articuladas, um argumento novo ou uma consideração a partir de uma perspectiva diferente podem embaralhá-las novamente, como um sopro de vento pode derrubar um castelo de cartas. Mas, cabe notar, há um ganho moral ao percorrer os caminhos da filosofia. Mesmo se não avançamos em direção à verdade, progredimos moralmente. Esse é, no meu entender, o significado da filosofia, que infelizmente se perdeu entre nós. Calar-se (filosoficamente) por boas razões nos torna melhores.49 Isso talvez não fosse possível se não tivéssemos trilhados esses caminhos filosóficos e, em sincero e árduo esforço na busca da verdade, não reconhecêssemos nossas fraquezas e limitações.50 Percebo que, em minhas conclusões ou análises, o prazer em conceber uma determinada idéia, um sentimento mais forte em relação a um argumento, o impacto da novidade ou o gosto por repisar uma velha opinião interferem em minhas reflexões e, por mais que me esforce por eliminá-las, creio que jamais me livrarei inteiramente dessas influências. Talvez elas atuem ainda mais decisivamente se eu não reconhecer explicitamente seus efeitos sobre mim. Creio que admitir da maneira como estou admitindo aqui nossas duas teses triviais é uma marca de ceticismo (não no sentido do idealismo cético, bem entendido), assim como é uma marca de ceticismo reconhecer que não fiz senão relatar (à maneira de um cronista) minha experiência intelectual,51 sem pretender que a argumentação exibida deva ser necessariamente aceita por qualquer leitor que exercite plenamente sua razão, na medida em que isso nos é possível.
BIBLIOGRAFIA:

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1- Eu gostaria de agradecer a Eduardo Barrio, Guillermo Hurtado, Oswaldo Porchat, Bento Prado Jr. e Luiz Roberto Monzani, cujas observações críticas me ajudaram a reformular minhas idéias.

2- Cf. Hume (1986, 118). O objetivo das notas que se seguem é o de fornecer ao leitor algumas das referências históricas mais óbvias que subsidiam as minhas próprias reflexões.

3- Cf. Berkeley (1998b, I, 174-5, pp. 61-2).

4- Malebranche (1965, p. 234) diz que "todo o mundo está de acordo em que nós não percebemos os objetos que estão fora de nós por eles mesmos." Segundo Malebranche, não está em questão o caráter representativo do conhecimento, mas somente o estatuto dessas entidades intermediárias que são as "idéias".

5- Cf. Descartes (1953, p. 269; III, p. 289), Malebranche (1965, pp. 256-7), Berkeley (1998b, 194-7, pp. 81-3; 203-4, pp. 89-90), Hume (1985, 210 ss.; 1986, 118-9).

6- Cf. Descartes (1953, p. 268-70; e, sobretudo, 1953, p. 322-3) e Malebranche (1965, pp. 20-92).

7- Cf. Berkeley (1998a, I, 14-5; 1998b, 178-9, pp.65-6).

8- Cf. Putnam (1981, pp. 1-21).

9- Cf. Descartes (1953, p. 287).

10- Como é bem sabido, a distinção entre qualidades primárias e secundárias aparece em Galileu, Locke, Descartes e Malebranche, entre outros. Bayle (1991, p. 364-6) e Berkeley (1998a, I, 9, 14-5; 1998b, 188 ss., p. 75 ss.) criticam essa distinção.

11- Cf. Descartes (1953, p. 333-4). Berkeley (1998a, I, 30) e Kant (1974, A, 376) retomam, com outro significado, a resposta de Descartes.

12- Cf. Descartes (1953, 288-9).

13- Cf. Berkeley (1998a, I, 8).

14- Cf. Berkeley (1998b, 203-4, pp. 89-90).

15- Cf. Kant (1974, A, 367 ss.).

16- Cf. Berkeley (1998a, I, 89) e Kant (1974, A, 369).

17- Cf. Berkeley (1998b, 262, pp. 142-3) e Kant (1974, A, 378).

18- Cf. Malebranche (1965, p. 234). Ver a crítica de Arnauld (1986, p. 65) e a resposta de Malebranche (1978, p. 95-6).

19- Cf. Kant (1974, A, 368).

20- Cf. Berkeley (1998a, I, 3) e Kant (1974, A, 370 e 373).

21- Cf. Kant (1974, A, 367-8).

22- Cf. Kant (1974, A, 371).

23- Cf. Kant (1974, A, 373-4).

24- Cf. Moore (1993, p. 166).

25- Cf. Berkeley (1998a, 25) e Hume (1985, p. 190).

26- Cf. Kant (1974, A, 28-9).

27- Cf. Kant (1974, A, 371).

28- Cf. Kant (1974, A, 370, 373 etc.).

29- Cf. Kant (1974, A, 385).

30- Cf. Berkeley (1998b, 201-2, pp. 87-8).

31- Cf. Berkeley (1998b, 212-3, p. 98).

32- Cf. Arnauld (1986, passim., mas especialmente capítulos 5 e 6). Veja-se a resposta de Malebranche (1978, cap. 5, pp. 50-4; cf. 1965, pp. 246-8).

33- Cf. Kant (1974, B, pref., xxxix-xli, nota) e Stroud (1984, cap. 4 e p. 274).

34- Cf. Kant (1974, B, 276, 417).

35- Cf. Kant (1974, B, 417-8); cf. também Wittgenstein (1984a, 243 ss.), Hacker (1990, pp. 46-62) e Tugendhat (1979, pp. 92-4).

36- Cf. Porchat (1993, pp. 134-9).

37- Cf. Kant (1974, B, 275-6).

38- Cf. Wittgenstein (1984a, 580), Hacker (1990, cap. 1) e Tugendhat (1979, caps. 5 e 6).

39- Cf. Kant (1974, B, 277).

40- Cf. Kant (1974, B, pref., xli e 275).

41- Cf. Bayle (1991, p. 362) e Hume (1970, p. 74).

42- Cf. Porchat (1993, p. 166-70).

43- Cf. Sexto Empírico (1993, I, 12, 30).

44- Cf. Sexto Empírico (1993, I, 21-4).

45- Cf. Cicero (1994, II, 98-104).

46- Cf. Sexto Empirico (1977, I, 41-320).

47- Cf. Wittgenstein (1984b, p. 48).

48- Cf. Hume (1985, pp. 273-4).

49- A expressão é de Bento Prado Jr.

50- Cf. Smith (1995, pp. 89-94).

51- Cf. Sexto Empírico (1993, I, 4).

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