O processo de escolarizaçÃo primária em campo mourãO: da escola isolada ao grupo escolar marechal rondon (1947 a 1970)



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O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO PRIMÁRIA EM CAMPO MOURÃO: DA ESCOLA ISOLADA AO GRUPO ESCOLAR MARECHAL RONDON (1947 A 1970)

RITT, Cibele Introvini (UEM/FECILCAM)1

SCHELBAUER, Analete Regina (UEM)2
Resumo
Este texto apresenta os resultados parciais da pesquisa de mestrado sobre o processo de escolarização primária em Campo Mourão: da escola isolada ao Grupo Escolar Marechal Rondon (1947 a 1970), iniciada em 2007. Nosso objetivo consistiu em reconstruir a história dessa instituição escolar e compreender o que a mesma representou para a cidade de Campo Mourão no processo de consolidação do município. Desenvolvemos uma pesquisa qualitativa, por meio de entrevistas semi-estruturadas, bibliográfica e documental por meio do levantamento e análise das fontes primárias disponíveis na instituição escolar e no município entre as décadas de 40 e 70 do século XX. Reconstruir a história das instituições escolares produz um novo conhecimento que deve permitir o entendimento das relações existentes entre educação, trabalho e sociedade, possibilitando-nos refletir sobre o momento presente. Com este trabalho esperamos entender o desenvolvimento da escolarização primária em Campo Mourão, identificando a contribuição da instituição pesquisada no que diz respeito à organização didático-pedagógica e ao processo de consolidação do município.
PALAVRAS-CHAVE: Grupo Escolar Marechal Rondon; Instituição Escolar; Escolarização Primária.

A escola pública brasileira tem sido pesquisada intensamente na última década nos cursos de pós-graduação. Esta pesquisa, por também se inserir neste grupo, visa contribuir com os conhecimentos produzidos na área das instituições escolares, ao procurar desvelar o que a instituição pesquisada representou para o município/cidade de Campo Mourão no período de 1947 a 1970. Como nossa pesquisa se encontra em andamento, neste artigo pretendemos apontar o percurso desenvolvido até o momento, buscando situar a criação do grupo escolar em questão num contexto maior que compreende a criação dessas instituições no Brasil e no Estado do Paraná, bem como alguns resultados parciais da pesquisa.


O percurso inicial da pesquisa: a definição do objeto
Nosso objeto foi delineando-se a partir da busca por estudos sobre Campo Mourão, sendo possível encontrar uma breve literatura produzida sobre o assunto, na qual constavam obras de memorialistas que tratam de vários temas da história da cidade, entre eles a educação, procurando preservar uma memória descritiva e bem sucinta sobre o tema, como os trabalhos de Simionato (1997; 1999), Santos Júnior (2006), Veiga (1999), Brzezinski (19--) e FUNDACAM (2007). Por meio da revisão de literatura evidenciou-se um conhecimento lacunar a respeito da história da educação desse município/cidade e a inexistência de estudos históricos sobre o seu processo de escolarização primária, justificando, dessa forma, a necessidade da presente investigação.

A delimitação do objeto resultou de conversas informais com antigos moradores e professores, as quais indicaram ser o Marechal Rondon o primeiro grupo escolar público da cidade. Partimos para o levantamento de fontes primárias sobre a escola que possibilitassem o desenvolvimento da pesquisa, havendo na própria instituição materiais que correspondiam àquele período como documentos oficiais, histórico escolar, livro ata de exames, atas de reuniões pedagógicas, livros de avisos, livro de posse e exercício dos professores e fotografias. O recorte temporal do objeto que se colocou naquele momento dizia respeito à data de criação da escola na cidade, correspondendo ao ano de 1952. Contudo, após termos acesso ao histórico escolar daquela instituição constatamos que a criação do Grupo Escolar Marechal Rondon resultou da elevação da Escola Isolada existente na cidade a essa nova condição, nos remetendo a um período anterior àquela data.

No intuito de precisarmos a data da criação da Escola Isolada, buscamos por fontes documentais que evidenciassem sua existência. As fontes primárias correspondentes a esse período, em sua maioria, já se perderam. Os únicos registros que encontramos foram fotografias, sendo a mais antiga do ano de 1948, que indicavam o local onde a escola funcionava e a ata de instalação do município que registra que a primeira reunião ocorreu no dia 05 de dezembro de 1947, em uma das salas da escola pública da cidade. Portanto, optamos por marcar o ano de 1947 como o recorte inicial da pesquisa. Elegemos como marco final os anos iniciais da década de 70 do século XX, por representar o momento de extinção dos grupos escolares, com a implantação da Lei 5.692/71 que reformula a organização da educação nacional.

Buscamos na significativa historiografia já produzida sobre o assunto, como nas pesquisas de Souza (1998, 2006a, 2006b); Vidal (2006); Faria Filho (2000), Nascimento (2006, 2007), Miguel (2206), Bencostta (2005), entre outros, conhecimentos que pudessem orientar e subsidiar o percurso da pesquisa que nos dispusemos iniciar. Tendo em vista que o grupo escolar foi oficialmente criado cinco anos após a instalação do município, nossa indagação consistiu em compreender o que representou o Grupo Escolar Marechal Rondon para a cidade de Campo Mourão no processo de consolidação do município. .Esta questão se formulou a partir da leitura da literatura sobre os grupos escolares no Brasil e no Estado do Paraná, e das fontes documentais que havíamos reunido.

Dentre os objetivos delineados para a pesquisa, citamos: reconstruir a história do “Grupo Escolar Marechal Rondon” desde a sua origem até a década de 1970; levantar e organizar as fontes primárias relacionadas à instituição escolar; compreender o contexto de criação da instituição e os elementos/motivações que possibilitaram a criação da Escola Isolada/Grupo Escolar; compreender como se caracterizou a organização pedagógica da escola.

Partimos do pressuposto de que a reconstrução histórica de uma instituição escolar deve ser entendida conforme assinalado por Saviani (2007), que o pesquisador não constrói o objeto pesquisado, mas o conhecimento sobre ele, reproduzindo no plano do conhecimento as condições da construção histórica do mesmo. A constituição da escola como objeto de estudo e pesquisa implica o entendimento que a instituição não se explica por si própria, e que ela está inserida em um contexto maior, sendo o resultado de múltiplas determinações (SANFELICE, 2007).

A metodologia desenvolvida corresponde à pesquisa qualitativa, por meio de entrevistas com ex-alunos, ex-professores e ex-funcionários da Escola Isolada e do Grupo Escolar Marechal Rondon; e a pesquisa bibliográfica e documental mediante o levantamento das fontes primárias, disponíveis na instituição escolar e nos acervos do município.

A seguir apresentamos alguns resultados parciais de nossa investigação, buscando indicar alguns elementos que contribuíram com a criação dos grupos escolares no Brasil, no Paraná e em Campo Mourão.



A educação primária nos anos iniciais da República
Ao término do período imperial, o Brasil ainda não tinha organizado o seu sistema educacional. Conforme o Ato Adicional à Constituição de 1834, as províncias eram as responsáveis pela organização e manutenção de suas escolas primárias e secundárias. Cada Província adotou medidas adequadas para o cumprimento daquele documento, como a do Paraná que previa a criação do Conselho Literário por Distrito, em 1827, do Conselho de Instrução em cada Município, em 1874 e o auxílio para alunos considerados indigentes, em 1877 (OLIVEIRA, 1999). Em face do custeio do ensino, algumas Províncias criaram impostos específicos sem, contudo, deixarem de contar com a contribuição de iniciativas particulares para dar conta dos recursos financeiros necessários.

Ao contrário do que acontecia neste mesmo período em países da Europa, como Inglaterra, França e Espanha, e nos Estados Unidos, na América, que estavam constituindo seus sistemas nacionais de ensino e implantando a escola graduada (SOUZA, 1998), a educação primária e popular no Brasil era desenvolvida numa situação de precariedade, onde alunos em diferentes níveis de escolaridade frequentavam a mesma turma sob a responsabilidade de um só professor, muitas vezes em prédios inadequados para tal prática.


No Brasil, as discussões sobre a renovação dos programas do ensino primário intensificaram-se no final do século XIX, quando a educação popular ganhou centralidade nos debates políticos, concebida como fator fundamental para a garantia das transformações econômicas, sociais e políticas necessárias ao país (SOUZA, 2008, p. 32).
Em consonância com as mudanças na organização do trabalho, decorrentes da substituição da mão de obra escrava pela assalariada e da influência das idéias liberais, as reformas do ensino empreendidas pelas Províncias neste período consideravam a necessidade de preparar o trabalhador útil, que soubesse desempenhar suas atribuições sem trazer prejuízo à economia.

A Proclamação da República no Brasil, em 1889, marca um novo momento em que diferentes ideais são propagados. Para que o movimento republicano se consolidasse foi necessário romper com o passado imperial e sua relação com a igreja. Para tanto, um projeto civilizador foi elaborado (SOUZA, 1998).


Educar o povo tornar-se-ia a preocupação central do projeto educacional republicano. O desafio de construir a nação brasileira passava pela necessidade de regenerar o povo, combatendo os maus costumes, o vício, a indolência. Caberia à escola primária moldar o novo cidadão (SOUZA, 2008, p. 36).
Como marco desse regime, a partir de 1890, São Paulo empreendeu reformas da instrução pública, iniciando pela Escola Normal e, posteriormente, pelo ensino primário, e criou os grupos escolares, instituições modelares para os demais Estados brasileiros, tanto no que diz respeito à organização administrativa e pedagógica quanto a estrutura física dos prédios onde funcionavam essas escolas.
Inicialmente, o curso primário foi fixado em 8 anos de duração, dividido em 2 cursos: o preliminar, obrigatório até os 12 anos de idade, destinava-se à formação do cidadão pela aprendizagem da leitura, escrita, cálculo e rudimentos das ciências naturais e sociais; o complementar, também com duração de 4 anos, tinha caráter mais completo, direcionando-se para a ampliação da cultura geral (SOUZA, 2008, p. 40).
Inicialmente a reforma não criou os grupos escolares. A implantação dos mesmos se deu a partir de 1893. Neste ano, o deputado Gabriel Prestes discursou na Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo a favor da criação dos grupos escolares, assinalando as vantagens que este modelo de escola apresentava (SOUZA, 1998 e 2006a).
O modelo de escola graduada, amplamente em voga nos países europeus e nos Estados Unidos desde meados do século XIX, compreendia um tipo de organização didático-pedagógica e administrativa de escola mais complexo, econômico e racional, adequado à expansão do ensino primário nos núcleos urbanos. Ele pressupunha um edifício com várias salas de aula e vários professores, uma classificação mais homogênea dos grupos de alunos por níveis de adiantamento, a divisão do trabalho docente, atribuindo a cada professor uma classe de alunos e adotando a correspondência entre classe, série e sala de aula (SOUZA, 2008, p. 41).
No Brasil, num primeiro momento os grupos escolares/escolas graduadas foram criados pela reunião de várias escolas, já existentes, em um único local. Não apresentou imediatamente a característica de unicidade administrativa e pedagógica própria desta proposta de escola. Este processo ocorreu anos mais tarde, e este modelo de escola se tornou referência, seja pelo método intuitivo então adotado, em consonância com as discussões pedagógicas da atualidade, seja pela forma de organização pedagógica, com a racionalização do trabalho e a divisão de tarefas, seja pela estrutura adequada as atividades escolares, obedecendo as prescrições sanitaristas e higiênicas. Souza observa que
[...] estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul lograram estabelecer uma rede expressiva de grupos escolares até meados do século XX. Em muitas regiões do país, a expansão do ensino primário ocorreu pelo concurso das escolas reunidas e isoladas (SOUZA, 2008, p. 47).
Nos primeiros anos do século XX, outros Estados instalaram grupos escolares nas cidades que comportavam essas escolas, destinadas a atender um número expressivo de estudantes. Na Bahia a legislação sobre a criação dos grupos data de 1895, porém, o mesmo foi criado somente em 1908. A criação das escolas graduadas nestes estados também correspondeu ao projeto liberal modernizador republicano (SAVIANI, 2007).

Em meados do século XIX o Paraná tornou-se província ao desmembrar-se de São Paulo. Neste período, a educação primária desenvolveu-se em estado precário, seja pela falta de materiais, de prédios escolares, de professores com formação adequada, seja pela falta de convencimento da população da importância de se estudar, uma vez que os pais não encaminhavam seus filhos para as casas escolas/cadeiras escolares existentes.

Miguel (2006) assinala alguns fatores que contribuíram para a baixa freqüência nas escolas como: a falta de interesse da população, que não reconhecia a necessidade de instrução; a pobreza das famílias, que trazia impedimentos de várias ordens como a dificuldade em suprir as condições materiais mínimas para que as crianças freqüentassem a escola; o acesso difícil, causado pela condição das estradas, ou pela distância em que a escola se situava com relação ao local onde as crianças residiam. Considerando que a maior parte da população estava situada na área rural, a natureza do trabalho nas lavouras requeria a colaboração das crianças com os afazeres dos pais, ocasionando a ausência das aulas e, em alguns casos, a evasão escolar.

A legislação produzida no período imperial pelos governos central e provincial evidencia que a educação escolar figurou nos debates daquele período, indicando certo interesse pela escola. Considerando que, ao final do período imperial, a quantidade de escolas paranaenses que se apresentava era mínima diante da população, em sua maioria analfabeta, pode-se entender que as leis não foram cumpridas.

No Estado do Paraná, a criação dos grupos escolares foi iniciada em 1903, na cidade de Curitiba (MIGUEL, 2006) com o Grupo Escolar Dr. Xavier da Silva (BENCOSTTA, 2005) tendo como referência a educação primária paulista. Nos anos iniciais do século XX, o desenvolvimento da educação primária paranaense, na forma de grupo escolar, ocorreu lentamente, considerando-se o quadro sócio-econômico do período e a coexistência de outros modelos de escolas, como as Escolas Isoladas (OLIVEIRA, 2001).
Não restam dúvidas de que o investimento dos poderes públicos paranaenses não correspondeu às expectativas de um discurso que propunha a regeneração da sociedade por meio da educação. Ainda que houvesse um distanciamento entre a retórica do Estado e a aplicação de recursos na área educacional, o debate de intelectuais, educadores e políticos paranaenses que propunham novos formatos, concepções e métodos para uma escola, que pretendia se moderna, colaborou na construção de resultados que tiveram ressonâncias nos grupos escolares mantidos pelo Estado (BENCOSTTA, 2005, p. 103) (grifos do autor).
Inicialmente um projeto de escola destinado à população urbana das grandes cidades, nos diferentes estados em que foram criados, os grupos escolares deixaram de atender nas primeiras décadas do século XX a maioria da população que se localizava na zona rural ou em pequenas cidades do interior.
O Grupo Escolar na cidade de Campo Mourão/PR
As terras que atualmente correspondem ao município de Campo Mourão até 1943 pertenciam a Guarapuava, tendo pertencido a Pitanga a partir desta data e, somente em 1947, Campo Mourão obteve sua emancipação político-administrativa. Nesta época contava com uma infraestrutura condizente com a situação em que se encontrava de município recém criado, sem rede de abastecimento de água, luz elétrica e esgoto, além de poucas residências e estabelecimentos comerciais.

Nossas fontes iconográficas e orais nos indicam que a primeira escola pública situada na cidade, que funcionou na década de 40 do século XX, era pequena, situava-se na área central e dividia o espaço do estabelecimento com a prefeitura. As condições de funcionamento eram mínimas, seja pelo espaço físico destinado às aulas, seja pelos móveis e materiais didáticos de que dispunha. Esta escola em 1952 foi elevada à condição de grupo escolar.

Como podemos observar na fotografia abaixo, era uma construção em madeira, com duas portas frontais, funcionando nas dependências do lado esquerdo a prefeitura e na sala do lado direito, a escola. A cobertura não era de telhas de barro, mas em madeira, seu espaço não estava delimitado por cerca, não possuía pátio ou outra área de lazer e os sanitários situavam-se a alguns metros da escola.

Recepção da população da cidade para a chegada do governador Moysés Lupion, em 16 de setembro de 1948, em frente ao estabelecimento que comportava a prefeitura e a escola pública.

FONTE: SANTOS JÚNIOR, 2006, p.41.
Naquele período a maior parte da população do município situava-se na zona rural, o que até certo ponto contribuía para que poucas crianças freqüentassem esta Escola Isolada. Os estudantes formavam uma turma multisseriada, ou seja, crianças de nível de escolaridade diferentes estudavam sob a orientação de uma única professora. As entrevistas denotam que os estudantes que freqüentavam esta escola correspondiam a famílias de diferentes níveis de renda. Não raro, havia crianças que iam descalças para a aula, ou calçadas com chinelos. Tais crianças nem sempre podiam participar nos dias de festividades, pois que não tinham condições de adquirir o uniforme, ou a roupa usada nos festejos.

A Sra. Zulmira (OLIARI, 2008), ex-aluna da Escola Isolada, lembra que em 1950, período em que estudou o 2º ano, a situação da escola era precária. A professora regente muitas vezes não dispunha de apagador para o quadro e necessitava improvisar um material que cumprisse tal função. Essa situação também se confirma na entrevista da Sra. Leony (ANDRADE, 2008), ex-professora dessa escola que se estabeleceu em Campo Mourão em 06 de fevereiro de 1950, transferida do grupo escolar de Guarapuava. Segundo seu relato eram poucos os recursos disponíveis.

Vindo de Ponta Grossa, o Sr. Manoel (INTROVINI, 2008), nos relatou que naquela cidade estudava o 2º ano e chegando à Escola Isolada submeteu-se a um teste realizado pela professora Eroni Ribas, para identificar o nível de escolaridade que possuía. Em 1950 foi matriculado no 3º ano nesta escola. Segundo ele, os materiais didáticos eram precários, existindo poucos livros para leitura. Os livros existentes eram para uso na escola, emprestados durante o período letivo e devolvidos ao término deste. Os alunos compravam apenas os cadernos, lápis e borracha no armazém existente.

Quanto às atividades de ensino, o Sr. Manoel afirma que nas aulas a professora fazia exposição teórica dos conteúdos, cabendo ao estudante a memorização dos mesmos. Não havia infraestrutura na cidade e na escola que possibilitasse o uso de outros materiais didáticos, bem como aulas práticas. Esta escola não comportava uma biblioteca, fato que dificultava o acesso a outros livros que não fossem os didáticos, usados durante as aulas.

Em 1950, o município de Campo Mourão contava com 32.948 habitantes, destes, 836 residiam na cidade e os demais na zona rural (IBGE, 2008a). A maior parte da população em idade escolar, cerca de 85,17% (IBGE, 2008b), não estava alfabetizada, constituindo uma demanda considerável por educação. Para atender os moradores da cidade no âmbito educacional havia o Instituto Santa Cruz, uma escola particular inaugurada no início de 1950, que possuía um prédio adequado para as práticas escolares, conforme afirma a Sra. Zulmira (OLIARI, 2008), também ex-aluna do Instituto Santa Cruz e a Escola Isolada, transformada em Grupo Escolar em 1952 pelo governador Bento Munhoz da Rocha (Histórico do Grupo Escolar, 1957), atendendo a um número maior de crianças.

O grupo funcionou a princípio numa construção em madeira, até que o edifício em alvenaria fosse construído, anos mais tarde, na Rua Brasil onde funciona, hoje, o Colégio Estadual Marechal Rondon. Inicialmente chamado de Grupo Escolar de Campo Mourão, em 1957, conforme determinações da Secretaria da Educação e Cultura para que se escolhesse o nome de um patrono, a escola passou a ter o nome de Grupo Escolar Marechal Rondon (OFÍCIO nº 08/57).

O Grupo Escolar trouxe uma nova forma de organização pedagógica, assim como os demais grupos implantados no Brasil. A escola graduada apresentou também em Campo Mourão uma forma mais moderna de ensinar. Com salas de aulas organizadas por idade, o Grupo Escolar inicialmente trabalhou com quatro turmas, uma para cada série.

A organização administrativa tornou-se mais complexa com a criação da função de diretor escolar. Essa função foi assumida inicialmente pela professora normalista Jorinda Santos Portela que a exerceu desde o ano de instalação da escola até março de 1955. A partir dessa data, a professora, também normalista, Leony Prado Andrade assumiu a direção do grupo escolar, primeiro interinamente e posteriormente por força de nomeação (livro do Histórico do Grupo Escolar, 1957.) respondendo pela direção até 1985.

Inicialmente as professoras normalistas que trabalharam no Grupo Escolar vieram transferidas de outras cidades, pois Campo Mourão não tinha uma escola que proporcionasse tal formação. No final da década de 1950 foram criadas a Escola Normal Secundária João D’Oliveira Gomes e a Escola Normal Regional Emiliano Perneta, ambas funcionaram, por um determinado período de tempo, no mesmo terreno do Grupo Escolar Marechal Rondon, conforme relata D. Leony (ANDRADE, 2008).

A ata de reunião pedagógica do Grupo Escolar, de 27 de agosto de 1960, registra a participação da diretora da Escola Normal Regional Emiliano Perneta, a sra. Dircyra Torres Ragugnetti e da diretora da Escola Normal Secundária João D’Oliveira Gomes, sra. Dulcia Gomes Delattre. Nesta reunião uma professora desenvolveu uma aula modelo fundamentada nas teorias atuais de ensino, para ser apreciada pelos presentes. Esta prática se repetiu em outros momentos o que nos indica uma relação próxima entre as três instituições.

Entre os conteúdos ensinados estavam os de higiene e os de moral. O objetivo também era formar naquelas crianças o sentimento de respeito entre si e o amor à pátria, considerando a participação dos estudantes nas festividades cívicas. O pensamento liberal dos republicanos paulistas com relação à educação, ainda no final do século XIX, parece corresponder aos objetivos da educação realizada nesta cidade. Tal pensamento considerava que
A crença no poder redentor da educação pressupunha a confiança na instrução como elemento (con)formador dos indivíduos. Potência criadora do homem moral, a educação foi atrelada à cidadania e, dessa forma, foi instituída a sua imprescindibilidade para a formação do cidadão (SOUZA, 1998, p. 26-27).
Contudo, por sua instalação ter se dado em meados do século XX, não é possível afirmar que compartilhou da mesma visibilidade das escolas criadas no Estado no início do século. Possuindo um edifício funcional, seguia as prescrições higienistas para a construção de prédios escolares assinaladas por Souza (1998, 2006a), Bencostta (2005) e Pykosz (2007). Dotado de salas de aula, sanitários masculinos e femininos para estudantes, gabinete da direção, secretaria, sala dos professores, sanitários para professores, almoxarifado, cantina e depósito sua fachada incorporou traços simplificados, diferentemente dos seus antecessores paranaenses inspirados nos grupos escolares criados no Estado de São Paulo que incorporaram estilos arquitetônicos conferindo-lhes status de monumentalidade (BENCOSTTA, 2005).

Cumpre considerar que, embora em meio século, a escola pública primária brasileira continuou se defrontando com problemas como evasão e repetência, seus objetivos já não se configuravam os mesmos da época da instalação das escolas graduadas no país, pois o regime republicano já se consolidara. Outros objetivos e finalidades se colocaram, dentre eles a qualificação de um trabalhador cada vez mais especializado que atendesse os impositivos do desenvolvimento tecnológico/industrial. Portanto, assim como os demais grupos escolares brasileiros, o Grupo Escolar Marechal Rondon deixou de existir na década de 1970 devido à política educacional deste período que criou o ensino de 1º e 2º graus.



REFERÊNCIAS
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BRZEZINSKI, Francisco Irineu. A Futura Capital. Curitiba: Juruá, 19--.
FARIA FILHO, L.M. Dos pardieiros aos palácios: cultura escolar e urbana em Belo Horizonte na Primeira República. Passo Fundo: UPF, 2000.

FUNDACAM. Principais Avenidas, Ruas e Logradouros Públicos – 1947/2007: Biografia dos Homenageados. Campo Mourão, 2007. (Edição Comemorativa aos 60 anos de Emancipação Político-Administrativa do município)



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Outros documentos:
Andrade, Leony Prado. Entrevistadora: Cibele Introvini. Entrevista concedida em 04 de jul. de 2008 na cidade de Campo Mourão/Pr. Arquivo digital. (1h 43min 20s)
INTROVINI, Manoel Messias. Entrevistadora: Cibele Introvini. Entrevista concedida em 01 de jul. de 2008 na cidade de Campo Mourão/Pr. Arquivo digital. (59min 10s).
Oliari, Zulmira Introvini. Entrevistadora: Cibele Introvini. Entrevista concedida à pesquisadora em 13 de ago. de 2008 na cidade de Maringá/PR. Arquivo digital.(58min 44s).
Documentos dO GRUPO ESCOLAR marechal rondon:
Ata de Reunião Pedagógica. Livro Ata de Reunião Pedagógica do Grupo Escolar Marechal Rondon, p. 4b, 1960. (Manuscrito)
Histórico do Grupo Escolar. Livro Histórico do Grupo Escolar Marechal Rondon, 05 de mai. de 1957. (Manuscrito)

1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá e professora do Curso de Pedagogia da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão.

2 Professora Doutora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá.


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