O processo de mudança tecnológica na mineração do século XIX: a reconstrução histórica da cadeia de inovações1



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3.2.3 Concentração e Separação


A concentração e separação do minério foram as primeiras operações da mineração a serem mecanizadas, enquanto a extração do minério e dos resíduos foi a última. O tratamento é o estágio fundamental na mineração, porque o minério é trazido para a superfície, na maior parte das vezes, como uma mistura de partículas do mineral desejado com outros minerais, acrescido de uma quantidade diversificada de rejeitos de rocha. Esse fato exige um processo especial de separação do minério da rocha morta ou de outros minerais, dependendo de sua combinação primária na natureza. Havia dois tipos de processo para tratamento dos minérios metálicos: o primeiro foi o processo mecânico; o segundo foi o químico.

O processo mecânico envolvia a trituração do minério por esmagamento ou britagem para liberar o mineral metálico desejado para concentração e aglutinação em um moinho. Segundo Newell (1986), antes de 1890 a capacidade dos moinhos não excedia cerca de 500 t por dia de trabalho. O processamento da moagem envolvia separar os vários minerais por remoção da mais valiosa parte quanto possível deles, de acordo com seu teor, e esse estágio requeria contínuos turnos de mão de obra não especializada e semi-especializada sob estreita supervisão todo o tempo. Os moinhos estavam localizados junto às minas ou então bem próximos a elas porque há suficiente prova de que é mais barato concentrar o minério run-of-mine, eliminando a escória, o mais rápido possível, antes de transportá-lo.

Considerando os metais preciosos, Newell (1986) enfatiza que os minérios de ouro e prata livres eram ligeiramente diferentes desde que fossem processados, de acordo com suas características, em moinhos comuns, nos quais o minério fosse esmagado e o metal extraído diretamente da pasta produzida por meio da amalgamação. De modo geral, o processo de concentração do minério em qualquer estágio dependerá grandemente das peculiaridades do mineral: sua natureza, características de sua ocorrência num dado espaço e escala de produção. O principal objetivo seria obter a mais alta recuperação econômica que foi determinada pela natureza e padrão do processo de concentração. Tal objetivo exigia a mecanização do equipamento e o aumento de sua capacidade e economicidade.

As operações dos moinhos envolvem a trituração do minério em minúsculas partículas por meio do esmagamento e da moagem até que cada partícula útil seja de fato separada da escória. Em termos técnicos e baseando no clássico trabalho de Agrícola – De Re Metallica – também citado em Newell (1986), os métodos de esmagar e moer foram parcialmente mecanizados desde o século XVI. A operação de britagem foi aperfeiçoada dos moinhos movidos manualmente ou pela força animal (em plantas maiores ela era realizada por britadores-pilões acionadas pela água) para os rolos compressores/cilindros no século XIX.

Os pilões da Cornualha, os quais eram saxônicos em sua origem, constituíram uma valiosa contribuição britânica para a indústria de mineração mundial. Eles foram introduzidos na Cornualha no século XVII, mas remodelados nas mãos de trabalhadores de moinhos nos anos de 1850, nos campos de mineração da Califórnia. Esses pilões californianos não somente tinham partes intercambiáveis mas sua estrutura era mais durável e de maior capacidade que os pilões tradicionais. Os pilões a vapor também foram introduzidos no mesmo período e os aperfeiçoamentos desenvolvidos simultaneamente na Inglaterra e Estados Unidos. Eles foram especialmente importantes porque permitiam esmagar maior tonelagem de minério num espaço limitado.

Da mesma forma, pilões tiveram uma outra versão cujo principal uso foi na trituração e amalgamação de minérios de ouro e prata livres oxidados, com o uso de quartzito. De acordo com Newell (1986), uma proliferação destes ‘britadores quaternários’ apareceu no mercado norte americano durante os anos de 1850 e 1860.

Quanto à estrutura dos pilões, durante o século XIX, eles raramente foram empregados sem o uso também de rolos e trituradores, e em muitas circunstâncias, os dois substituíam os pilões juntos. E as inovações britânicas exerceriam um importante papel uma vez mais e os cilindros córnicos foram os equipamentos padrão em muitos moinhos. Os cilindros córnicos, que eram considerados uma inovação de princípios do século XIX, tinham acoplados cilindros gêmeos de ferro revestidos com ferro fundido a frio. Seus cilindros foram aperfeiçoados pelos americanos, após 1860, para otimizar as taxas de redução do minério, para ser mais fortemente construídos e rolar a velocidades maiores que seus modelos originais. Tais melhoramentos também foram produzidos para o cilindro Krom.24 Da mesma forma, os aperfeiçoamentos no maquinário de britagem da Cornualha foram seguidos por outras inovações, como novos esmagadores que também operavam no princípio de pressão gradual. Muitos deles foram aperfeiçoados nos distritos de mineração americanos, após os anos de 1850 e, em termos de eficiência, merecem destaque o ‘britador de madíbula’ e o ‘britador giratório’.

O próximo estágio da moagem é a pulverização. Ela era acompanhada pela rotação, em que moinhos de fina pulverização operavam no princípio do atrito e da percussão ou uma combinação dos dois. Newell (1986, p.26) ressalta que o mais tradicional dos moinhos de cilindro foi o arrastra, que empregava o antigo e simples processo de dragagem de pedras pesadas, por meio de um cilindro cheio de minério moído para ser retido. Outro tradicional exemplo foi o moinho chileno, similar ao arrastra, mas usando uma pedra de moinho estabelecida verticalmente para rolar em volta e através de um anel.25 Durante os anos de 1850 e 1860, estes dois métodos de pulverização tiveram melhorias substanciais que os tornaram mais úteis para a pulverização de minérios. Esses moinhos foram especialmente úteis para o tratamento dos minérios porque eles poderiam ser acionados pela energia hidráulica ou pela força animal. No que tange aos metais preciosos, versões especialmente aperfeiçoadas das panelas de pulverização foram populares para a pulverização fina de ouro ou para minérios de prata, mais difíceis de tratar. Entretanto, nesse caso específico, o foco deveria ser a operação química da amalgamação de concentrados, mais que a ação mecânica do esmagamento.

Voltando à importância da pulverização como a operação responsável pela redução do minério a partículas do tamanho do sal ou da areia e pela liberação dos minérios da rocha original, esta separação ocorria de acordo com o tamanho ou composição química do fluido para o sólido. A principal experiência a otimizar a técnica de separação mecânica durante o século XIX envolveu a separação gravimétrica. Realmente, durante todo o século, diferenças naquele método de separação formaram a base para todo o processo de concentração. Em outras palavras, diferenças gravimétricas específicas entre minerais causam diferenças em seu comportamento, quando imersos na água, ar ou outro fluido. Devido a isto, foi necessário um método para separar a parte mais pesada do minério. O mais popular método para fazer isto envolvia a sedimentação em fluidos.

Para Newell (1986), até os anos de 1850, a lavagem para separar as partículas minerais da escória sem valor era feita por peneiras manuais, do começo ao fim, e jigues (leitos pulsáteis). A aplicação das tradicionais técnicas da Cornualha é confirmada mais uma vez através da separação das partículas minerais de várias densidades em espaços mais elaborados: em pias de lavar metais, caixas ou mesas de lavagem.

Com a busca constante por aperfeiçoamentos na última metade do século XIX, pretendia-se atingir níveis mais altos na eficiência da separação total e na capacidade e velocidade dos separadores e concentradores que o padrão comum registrado à época. Além disso, pretendia-se, também, melhorar os métodos para a recuperação econômica de partículas finas de minerais, de material de terra mais fino, chamado rejeito/lama das mesas.

Newell (1986) ressalta, ainda, que a mais espetacular de todas as descobertas tecnológicas na separação do minério e concentração, a ocorrer antes 1890, se deu na área da separação gravimétrica da lama de areia fina. Um bom exemplo poderia ser a mesa giratória automática que foi desenvolvida para melhorar a tradicional bateia córnica. Um outro exemplo de progresso foi o vagonete, que diferia das mesas vibratórias, com sua superfície estacionária, em que os concentradores viajavam na parte mais alta de uma interminável e inclinada correia de transmissão de lona esticada numa esteira. Esse equipamento foi provavelmente baseado na máquina de tratamento de minério de um engenheiro civil Bretão, introduzida na Escócia para a recuperação de lama de concentrado de chumbo.

O processo químico, por sua vez, envolvia os processos de fundição e refinamento que eram necessários para converter o concentrado mineral em metal puro. Newell (1986) relata que como estes últimos passos tipicamente envolviam processos químicos e térmicos e requeriam consideráveis quantidades de combustível barato, eles exigiam trabalhadores altamente qualificados. Além do mais, estes processos provavelmente tinham de se estabelecer mais próximos às fontes de combustível, de mão-de-obra qualificada e do mercado, do que do sítio da mina.

O processo de amalgamação, dominante na mineração mundial desde o século XVI, constituiu-se em um processo para separação do ouro das areias enriquecidas, por meio da combinação com o mercúrio. Segundo Hussak (1900), através de uma operação ainda considerada primitiva, formava-se um amálgama26. Dessa mistura, então, retirava-se o ouro, volatilizando o mercúrio que, somente em uma pequena parcela, era regenerado por sublimação (transição da fase sólida para o vapor). O processo foi introduzido, pela primeira vez, no México em 1557, e difundido para toda a América do Sul por Dom Bartholomé de Medina.”27

Mas a amalgamação não era usada em todas as minas da Europa e muito menos na Alemanha, segundo o artigo do “The Quartely Mining Review”, reportando-se a um tratado de metalurgia de princípios do Setecentos, considerado um dos melhores sobre o assunto. Isto porque existem minérios que não podem ser tratados por esse processo e a única saída é a fundição, aplicável a qualquer tipo de minério

As técnicas de fundição para muitas formas de minério metálico requeriam um tratamento preliminar por ustulação e calcinação à temperaturas abaixo de seus pontos de fusão. O maior desafio era, para Newell (1986), o estágio da ustulação que era trabalhoso, quente e exaustivo e tinha de transformar os minérios sulfetados e carbonatados em óxidos metálicos ou minérios fundidos. A técnica consagrada da ustulação em pilha, no sítio da mina, era o método mais usado e econômico quando minérios sulfetados estavam na forma de aglomerados, principalmente em distritos mineratórios novos e inexplorados, onde os proprietários da mina não gostariam de investir prematuramente numa planta física.

Olhando especificamente para o processo de fundição, os óxidos metálicos estavam sujeitos a determinadas temperaturas de fusão para liberar o oxigênio e tornar-se metal. Combustível carbônico (carvão vegetal, carvão de pedra/hulha ou coque) era utilizado para fornecer calor e também para agir como redutor na reação química. Dois tipos de processos diferentes foram usados por séculos para produzir metais como cobre, ferro gusa, chumbo e estanho. O primeiro deles foi a fundição por revérbero galesa do século XVI, que era similar àquela do método de ustulação galês. O segundo processo era o dos alto-fornos, que tinham uma capacidade maior e eram mais econômicos para operar que os revérberos galeses. Esse último foi acompanhado da tradicional técnica alemã de fundição de minérios de cobre e prata, acoplada ao chumbo num alto-forno carregado com uma íntima mistura de minério, redutor e fundente. Newell (1986) observa que, em contraste com os fornos de revérbero, os alto-fornos sofreram uma maior transformação nas mãos dos europeus e mais ainda dos americanos. Mas o maior progresso americano sobre o velho processo alemão foi o alto-forno com jato de água, que foi desenvolvido em 1870 e aperfeiçoado nas várias décadas seguintes. Este tipo de forno representou um grande avanço para ambos processos de ustular e fundir e exigia menos combustível por tonelada de minério que um forno de revérbero. Era, entretanto, mais adaptado ao tratamento de minérios brutos que de finos e concentrados.

O tratamento hidrometalúrgico foi a opção encontrada quando a fundição era muito cara e a amalgamação inadequada. Metais tais como o cobre, o ouro, chumbo e prata poderiam ser obtidos por mergulhar o metal em solução e então precipitá-lo da solução. Para Newell (1986, p33), os minérios de quartzo, acoplados ao ouro e prata que continham arsênico e antimônio, eram refratários e poderiam ser tratados somente por hidrometalurgia. Como resultado disso, os americanos aperfeiçoaram o processo de cloretação germânico para tratamento de ouro durante os anos de 1860. Mas tal processo também mostrou não ser o melhor em termos práticos, principalmente porque não poderia recuperar o ouro em muitos casos. “A verdadeira solução somente seria encontrada com o processo de cianetação, descoberto ao final dos anos 1880 na Escócia e subseqüentemente aperfeiçoado nos distritos mineratórios de ouro e prata da Austrália e dos Estados Unidos”.28

Ao se analisar a reconstrução histórica da cadeia de inovações, a Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra Setecentista estava na gênese do processo pelo qual a produtividade permitiu o crescimento na oferta de metais preciosos como o ouro. O desenvolvimento das minas de carvão britânicas, juntamente com os portos e as rotas marítimas, e a aplicação da energia a vapor aos processos da manufatura e também à drenagem nos trabalhos das minas, introduziram uma nova era sem comparação com as anteriores.

Na verdade, o brilho do ouro tem dominado o mundo desde a antiguidade. A abundância crescente do metal precioso na Europa, de 1500 em diante, permitiu que a arte dos ourives surgisse para um alto nível de demanda. Os ourives e os banqueiros mercadores tornaram-se mais importantes nesse período de tempo devido ao afluxo do ouro em todo mundo. A multiplicação da oferta de ouro, nos séculos XV e XVI, conduziu a uma situação em que o controle do preço e do movimento desse metal precioso começou a fluir das mãos dos reis para as mãos dos banqueiros mercadores e dos ourives, nos maiores centros de comércio do mundo. Tal processo ocorreu na Inglaterra onde os ourives já atuavam como banqueiros desde o século XIV pelo menos.29

Sutherland ressalta que a criação do Banco da Inglaterra em 1694 agiu ao mesmo tempo como um freio sobre esse movimento imprudente de barras de ouro. Os constantes influxo e efluxo (entrada e saída) de ouro estavam ocorrendo e, simultaneamente, entravam moedas de ouro estrangeiras na Inglaterra, como também saíam moedas de ouro inglesas. Como resultado da necessidade, o refinamento puramente mercantil de grandes quantidades de ouro aumentava naturalmente. Entretanto, em termos de produção, os séculos XVI e XVII não foram realmente os anos mais significativos. Sutherland argumenta que “se todo o novo ouro produzido durante os séculos XVI e XVII de todas as partes do mundo totalizava cerca de menos que 4 % da produção total, entre a descoberta da América por Colombo e os dias atuais, somente a produção dos séculos XVIII e XIX respondeu por algo próximo dos 30%”.30 Este aumento é realmente significativo, e seu impacto na história econômica daquele período merece também uma análise criteriosa, principalmente sob o enfoque tecnológico.

Para Eakin (1989, p.113-114), as tradições alemãs, mexicanas e córnicas dominaram a mineração mundial até o final do Oitocentos, quando a indústria americana e sul-africana apareceram e mudaram o perfil tecnológico da mineração em todo o mundo.31



Em termos comparativos, deve-se analisar o papel exercido pelos mais tradicionais países mineradores para entender o seu estágio tecnológico. A Alemanha surgiu como carro chefe da mineração européia na Renascença, após a descoberta da prata da Saxônia, e seus mineradores, principalmente metalurgistas, tiveram uma grande contribuição para a indústria de mineração britânica. Eakin (1989) ressalta que a monarquia Tudor trouxe mineradores alemães para a Inglaterra do Seiscentos, objetivando desenvolver os depósitos de cobre e estanho da Cornualha. Nesse contexto, o papel-chave exercido pelos mineradores alemães parece inegável, a despeito dos poucos registros disponíveis sobre o estado comparativo da arte de minerar a época. William Keating, escrevendo sobre a arte da mineração e o seu estágio de desenvolvimento na Europa oitocentista, apresentou, em seu trabalho publicado em 1821, exemplos comparativos sobre o que ele considerava os três principais reinos especializados no setor: Inglaterra, França e Alemanha.32

  1. Para Keating (1821) os exemplos da França, mostram que “the mines in France are generally worked with great talent and regularity”, confirmando a excelência dos franceses nesse segmento.

Um dos pontos fortes do estado das artes na mineração francesa era, segundo Keating (1821), sua “Escola de Minas”, dotada de uma excelente infra-estrutura: um ótimo laboratório de química, uma soberba coleção de minerais, uma excelente biblioteca e um gabinete equipado com modelos de todo maquinário usado nas minas. Durante o verão, os estudantes viajavam em excursões dirigidas pelos professores, cujo destino era fatalmente uma mina que serviria de laboratório para o exercício prático das aulas ministradas durante o inverno. E não menos rigorosa era a seleção desses alunos. Os estudantes privilegiados – “Royal students” – eram escolhidos entre os melhores que completavam os estudos na “École Polytechnique”, considerada a melhor escola de matemática do mundo à época e recebiam um salário do governo para, após formados, integrarem o corpo dos engenheiros de minas do Estado. Estes pertenciam à primeira classe de alunos. A segunda classe era suprida, mediante rigoroso exame para vagas limitadas, por jovens rapazes desejosos de adquirir conhecimento na área, com a expectativa de um dia poderem supervisionar minas por si próprio. Uma questão interessante diz respeito à concessão do governo francês para que poucos estudantes estrangeiros pudessem integrar tal escola, mediante uma permissão especial do diretor geral das minas. Esse grau de liberdade, em estender a informação técnica gratuita a todos estrangeiros que visitassem Paris, foi assim ilustrada, por Keating:

We arrived in Paris in 1817, a short time after the re-organization of the school, and very readily obtained the favour of attending the lectures and of studying in the laboratory of the school; in a word, we enjoyed all the privileges of the royal students, without being obliged to obey the regulations by which they were governed. Since that time, they have received, in the space of four years, eight foreigners; four of whom were from the United States, one from Peru, one from Switzerland, one from Poland, and one from Italy. (…) The time which most of these continued attached to the school was from two to three years, and all were allowed to remain as long as they chose.33

Ao lado da “Escola de Minas” em Paris, o governo francês também implantou uma escola prática de mineração na região central dos campos de carvão de St. Etienne, visando à formação de mestres e capitães de minas.

b) Para a Alemanha, o texto de Keating (1821) também revela o superior estágio técnico de suas minas.

In Germany, the art of mining seems to have arrived at its climax, and to have been dormant of late; at least, the improvements in latter days have not been great. The Germans detest all ideas of change; but at the same time that this will guard them against dangerous and foolish innovations it will also prevent them from making those improvements which the nature of things requires.

In alluding to the vast amount of ingenuity displayed in the construction of the machines employed at the German mines for bringing the ore raised into a marketable condition, it has frequently been observed by correspondents of the Mining Journal that the superiority of the German machinery, as compared with that in general use in Cornwall and Devonshire, is in a great measure attributable to the circumstance that, inasmuch as the German ores are, as a rule, considerably poorer than those of this country, there is a positive necessity for extracting every particle of ore in the most economic manner, in order to secure any profis at all.34

Analisando a arte da mineração na Alemanha, Keating (1821) afirma que em nenhum país do mundo, ela foi levada a cabo com tamanho grau de atenção e conhecimento científico. Na Alemanha, tal arte foi considerada como uma das mais honrosas e importantes profissões, recebendo por isto atenção especial e privilégios do soberano. Em certas regiões, o filho do mais orgulhoso aristocrata desempenhava as mesmas funções que o mais simples minerador, buscando o adequado preparo para estágios mais avançados da profissão. Os mineradores mais comuns tinham grandes privilégios e marcas de distinção – a título de exemplo, eles eram dispensados do serviço militar e vestiam um uniforme próprio que era usado há cinco séculos. De fato, na visão de Simonin (1868), os alemães haviam introduzido em suas minas uma verdadeira disciplina militar, seguida regularmente.



In this legion of labour the work men are the private soldiers; the master-miners of overmen, the corporals; the engineers, the captains – all of whom wear uniforms that have been designed for ages.35

A Academia de Minas de Freyberg, na Saxônia, criada em 1760, também merece destaque por sua grande reputação em toda Europa e especialmente na Alemanha, assim como a de Schemnitz na Hungria. A grande vantagem comparativa delas era a sua localização em meio a cerca de 130 minas, às quais o estudante tendo livre acesso para visitas, constituía-se uma grande massa de informação prática a ser adquirida no curto prazo. E dado o tempo de exploração, essas minas acabaram revelando-se verdadeiros laboratórios de aprendizado; algumas delas vêem sendo exploradas desde o século XI e ainda estão plenamente ativas. Em resumo, nas palavras de Keating (1821),



the mines of Germany are more remarkable for the regularity with which the operations are carried on, for the scientific disposition given to the works, for the length of time that the mines are kept in activity, than for the wealth which they produce, or the profits which they afford. In the mines of Germany, we admire more the works of man than the gifts of nature.36.

c) As minas da Grã-Bretanha também refletem as vantagens comparativas da hegemonia econômica britânica.



In England, there is no school of mines. In the large cities, there are professors on the sciences connected with mining; but no practical information can be derived from them. Hence, the only means which the English have of improving themselves in mining, is to visit mines, and to work in them. This method is certainly very good; but the English directors are frequently too deficient in theory, especially as the literature of the English miner is very limited, and not very good. The nature of their education and occupations prevents many of them from attending to the study of the German language, which every miner ought to acquire, as no language offers such a valuable stock of books on this subject.37

But the great and ardent spirit of the British nation, their inventive power, the force of their genius, and their great turn for mechanics, will naturally cause them to excel in mining, as in every other art. Their mines are, it is true, too irregularly worked; but they are worked with profit, and that, after all, must be considered as the main object. Nowhere is the art more flourishing.

Em nenhum país do mundo, diz Keating (1821), as minas eram tão prósperas, importantes e produtivas, como na Grã-Bretanha. Os britânicos se destacavam pelo seu peculiar talento para inventar e aperfeiçoar tudo que aparece. Além disso, sua memorável porção de espírito público permitia que a mineração em suas mãos fosse o resultado da soma de esforços levados ao mais alto grau de perfeição38. Dentre os vários exemplos pinçados de suas regiões mineradoras mais nobres estão: as extensivas escavações subterrâneas, permitindo a formação de largos espaços para recebimento de maquinários, como grandes máquinas-a-vapor; nas suas minas a carvão em Newcastle a lâmpada segura de Davy foi primeiramente introduzida, inibindo a ocorrência de inúmeros acidentes; a introdução de métodos mais modernos de ventilação; e finalmente, uma das mais interessantes aplicações da máquina a vapor, ou seja, a “locomotiva”, puxando dez ou doze vagões no transporte no entorno da mina.

Em termos comparativos, seriam valiosas ainda duas observações. Primeiramente, embora na Inglaterra, onde todos os empreendimentos industriais eram sustentados pelo setor privado, os engenheiros também recebessem o título de capitães nas minas metalíferas, não há indicativo que usassem uniformes, insígnias ou espadas, como na Alemanha39. Em segundo lugar, Moss (1927) observa que ao final do Oitocentos tinha-se a impressão de que a mineração britânica estava atrasada, em termos técnicos, em relação à norte-americana. Demonstrando sua discordância, argumenta que as condições de trabalho, como segurança do minerador britânico, eram superiores e que, nos Estados Unidos, as minas eram controladas por homens de negócios e não por engenheiros de minas treinados, cujo único objetivo era a produção de carvão independentemente da vida útil da mina ou da segurança dos trabalhadores. Para Moss, “American and British mining technique cannot be compared except in the light of natural conditions”.40

Em resumo, como Eakin (1989) relata, os córnicos (mineradores da Cornualha) tornaram-se os pioneiros em mineração subterrânea no século XIX, consolidando a supremacia britânica no campo da mineração. Ao mesmo tempo, os mexicanos transformaram a antiga técnica de amalgamação européia num processo industrial.41 De fato, nos princípios do século XIX, o processo mexicano de amalgamação, a química metalúrgica alemã e as técnicas córnicas de mineração subterrânea formavam a fundação da mineração moderna de metais”.42



Embora durante o rush do ouro no século XVIII, o Brasil fosse o maior produtor de ouro em barra, ao final do mesmo século a Rússia apareceu como líder na produção43. A estagnação técnica e o declínio das reservas aluvionais foram os principais fatores a liderar a queda na produção brasileira. Após 1849, os grandes rushes na Califórnia, Austrália, Alaska, Canadá e África do Sul continuaram a mudar drasticamente o padrão de mineração mundial de ouro, além de liderar um enorme aumento na produção mundial. Nas palavras de Temple (1972), “in the whole of the first century after Columbus discovered America the world output of gold was about 750 tons; in the second half of the nineteenth century it was 10,000 tons.”44 Após estes rushes do ouro da segunda metade do século, um novo estágio tecnológico emergiu e a era do garimpeiro, do capitão de mina da Cornualha e do mestre da amalgamação findou-se. Aplicando os princípios do conhecimento científico e tecnológico à indústria de mineração, o mundo testemunhou o aparecimento de um número crescente de geólogos e engenheiros de minas ao final do século. Nesse tocante, Eakin (1989) ressalta que historicamente o melhor exemplo foi a descoberta do ouro na África do Sul. Segundo ele, entre 1870 e 1930 a indústria de mineração de ouro mudou-se para uma era dominada pela mineração de empresas e experimentou uma revolução tecnológica, baseada em três dimensões descritas a seguir:45
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