O processo de mudança tecnológica na mineração do século XIX: a reconstrução histórica da cadeia de inovações1



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Mecânica: Foi caracterizada pelos seguintes estágios:

  1. Nos anos de 1860 e 1870 a dinamite substituiu a pólvora no processo de desmonte;

  2. A perfuração mecânica substituiu a perfuração manual;

  3. Uso de gaiolas (cages) para içar homens e minérios;

  4. Ao fim do século XIX a eletricidade começou a superar as máquinas a vapor e as rodas d’água, como as maiores fontes de energia nas operações de mineração;

  5. A maquinaria de britagem californiana passou a ter uma utilização generalizada na última metade do século;

  6. A ventilação mecânica tornou-se muito difundida quando as minas atingiram níveis mais profundos.

  1. Metalúrgica e Química: A maior inovação isolada foi o processo de cianetação que revolucionou o processamento de minérios, substituindo o processo de amalgamação que predominou na mineração aurífera desde o século XVI46. A patente do processo de cianetação em 1887 tornou possível a exploração das reservas da África do Sul porque permitiu aumentar as taxas de recuperação.

  2. Administrativa: Esta revolução tecnológica levou ao fim a era do garimpeiro individual. A mineração tornou-se um empreendimento que exige grandes somas de capital, conhecimento e uma administração racional para ser lucrativo. Na mineração aurífera de finais do XIX e princípios do XX não havia mais lugar para o prospector individual, uma figura-chave na dinâmica do processo dos rushes oitocentistas47.“Twentieth-century gold mining has no place for him; gold mining is dominated by the corporation relying on scientific prospecting and needing enormous capital investment to mine the gold once it is discovered.”48 No contexto da história da mineração, a África do Sul e um aspecto particular de suas minas de ouro na região de Wiwaterrand constituem um valioso exemplo para se entender este novo estágio da indústria de mineração mundial:

With the development of this field gold came for this first time into the normal economic categories. Alluvial and quartz mining elsewhere has always been so speculative that no clear connection between cost of production and return could be predicted of it, but on the Rand gold mining is an industry rather than a gamble, and the economics results, not perhaps of a single mine, but of the field are calculable”.49

1Notas
 Este texto fecha um ciclo de artigos já publicados, todos eles baseados na tese de doutoramento apresentada a F.F.L.C.H./USP e orientada pela Profa. Suely Robles Reis de Queiroz. A autora agradece os comentários do Prof Colin Lewis à versão preliminar do texto, apresentada em seminário na “The London School of Economics”, como integrante do programa sanduíche USP/LSE, em 2000, para pesquisa financiada pela CAPES. Agradece também os comentários ao relatório de qualificação da tese, feitos pelos professores João Antônio de Paula e Caio Boschi. A autora assume toda e qualquer responsabilidade pelos erros e omissões registrados.

2 Doutora em História Econômica/USP, Profa. Adjunta do Departamento de Economia da PUC Minas.

3 MOKYR, Joel (1990). The Lever of Riches: Technological creativity and economic progress. New York, Oxford University Press, p.12.

4 No que concerne a esta discussão, está sendo utilizada a moldura teórica de MOKYR (1990), para se entender a dinâmica da mudança tecnológica no setor de mineração de ouro. Quanto aos conceitos de invenção e inovação, ver também ROSENBERG, Nathan (1970). “Economic Development and the transfer oftechnology: some historical perspectives”, em Technology and Culture, n.4, v.11, out.1970, p.568-569 e BARBIERI, José Carlos; ÁLVARES, Antônio Carlos T. (2001) “Invenções e Inovações Tecnológicas: conceitos e casos”, em RV Economia, Rio Verde, ano 4, n.7, nov.2001, p.8.

5 ROSENBERG, Nathan (2006). “Por Dentro da Caixa Preta: Tecnologia e Economia – Capítulo 7: Quão Exógena é a Ciência” em Revista Brasileira de Inovação, Rio de Janeiro, RJ, v.5,n.2, FINEP, pp.245-271. Em outro artigo, foram discutidos os padrões de difusão tecnológica na mineração aurífera de Minas Gerais no século XIX e ressaltada a influência das condições ambientais para moldar a adoção de certos progressos tecnológicos, ou seja, as invenções locais e os sistemas tecnológicos regionais somente poderiam ser copiados ou adaptados em outras regiões, tão rápido quanto as informações estivessem disponíveis e as condições técnicas fossem similares. Ver também SOUZA, T. M. F. de (2005). “Padrões de difusão tecnológica na mineração aurífera de Minas Gerais no século XIX: transferência, adaptação e aplicação”. [CD], Anais... VI Congresso Brasileiro de História Econômica e 7ª Conferência Internacional de História de Empresas, Rio de Janeiro e LIMBAUGH, Ronald H.(1999). “Making old tools work better – Pragmatic adaptation and innovation in gold-rush technology”, em RAWLS, James J. ; ORSI, Richard J. (ed.) A Golden State – Mining and Economic Development in gold rush California. Berkeley e Los Angeles, University of California Press, 1999.pp.24.

6 MOKYR (1990), J. op.cit. p. 13 e 295.

7 MOKYR (1990), op.cit., p.296.

8 LANDES, David (1994). Prometeu desacorrentado: transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa Ocidental, desde 1750 até nossa época. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, p.33-34.

9 MOLENDA apud MOKYR (1990), op. cit., p.63.

10MOKYR (1990), op.cit., p.63 e 64. MOKYR ressalta que “De Re Metallica” é um dos mais valiosos e detalhados livros de engenharia de mineração jamais escrito e Georgius Agricola o nome latino de Georg Bauer.

11 MOKYR (1990), op.cit., p.64. A superioridade germânica em mineração será devidamente considerada assim que for apresentada uma análise comparativa do estado desta arte em outros países.

12 MERTON apud MOKYR (1990), op.cit., p.64.

13 Ver ROSENBERG, Nathan (1976). Perspectives in Technology. New York, Cambridge University Press, 1976, op.cit., p.192.

14 MOKYR (1990), op. cit., p.110.

15 Mokyr (1990, p.268) ressalta que a Grã-Bretanha, a economia mais competitiva à época, obteve uma vantagem inicial na inovação, mas após 1870, perdeu-a para o continente europeu. Ele ainda argumenta, citando MOWERY (1986), que provavelmente os oligopólios alemães menos competitivos e as grandes firmas que emergiram nos Estados Unidos ao fim do século XIX podem ter proporcionado um melhor ambiente para a mudança tecnológica. Ver MOKYR (1990), op. cit., p.268.

16 Esta análise do estágio da mineração mundial será baseada na sua totalidade no capítulo 2 do trabalho de NEWELL,D. (1986). Technology on the frontier: Mining in Old Ontário. Vancouver, University of British Columbia Press, 1986.

17 NEWELL (1986), op. cit., p.15.

18 Baseado em NEWELL (1986), op. cit., p. 17.

19 NEWELL (1986), op.cit., p.18.

20 Id., ibidem.

21 NEWELL (1986), op.cit., p.21.

22 Id., ibid., p.22. Ressalte-se que detonadores confiáveis são muito importantes na mineração.

23 A contribuição de Alfredo Nobel foi valiosa nesse contexto e seus sucessivos experimentos o levaram, em meados de 1870, a converter nitroglicerina líquida numa forma gelatinosa segura. Seu irmão havia sido uma vítima dos acidentes causados pela instabilidade da nitroglicerina. Como Alfred Nobel estava determinado a controlar o explosivo, então ele descobriu em 1866 como poderia ser controlado o seu poder integral de explosão. A dinamite foi usada na construção de túneis, estradas, poços de petróleo e pedreiras. Sobre o progresso na indústria química, ver também MOKYR (1990), op.cit., p.119.

24 NEWELL (1986), op. cit. p.26.

25 Id., ibidem.

26 HUSSAK, Eugen. Riquezas Auríferas do Brasil. Traduação H. Carper A. de Souza. Rio de Janeiro: 1933 (Relatório Técnico do DNPM, 1900, não publicado).

27 “ON THE several modes of amalgamation as practised in the Hungariam and Tyrolese Mining districts, and in South America”, em The Quartely Mining Review, n. V, (April, 1831), p. 8.

28 NEWELL (1986), op.cit. p.33. Considerado de forma isolada o maior progresso técnico no processo de extração de ouro, o processo de cianetação foi descoberto em 1889 por dois médicos escoceses, Robert e William Forrest e um químico, John McActhur, que o patentearam. Aplicado em termos comerciais à região de Witwatersrand, na África do Sul, tal processo viabilizou a extração de 96% do ouro do minério. Ver TEMPLE, John (1972). Mining – An Internacional History. London, Ernest Benn Limited, 1972.op. cit., p. 108.

29 SUTHERLAND, C.H.V. (1969). Gold: its beauty, power and allure. Norwich, Thames and Hudson London, p.144-145.

30 Id., ibid., p.146.

31 EAKIN, Marshall C. (1989) British Enterprise in Brazil – The St. John d’el Rey Mining Company and the Morro Velho Gold Mine – 1830-1960. Durham, Duke University Press, 1989. p.113-114.

32 KEATING,W.H. (1821). Considerations upon the art of mining, to which are added, reflections on its actual state in Europe and the advantages which would result from an introduction of this art into The United States. Philadelphia, M. Carey and Sons, 1821. p.40-73. Ver ainda dois artigos do século XIX: B., F. (1835)“Comparative view of celebrated mines in Europe and América”, em The Quartely Mining Review, n. 7, jul. 1835. p. 61-66, e TAYLOR, John (1837). “Lecture on the Economy of Mining”, em The Quartely Mining Review, n. 10 dez. 1837. p. 261-272.

33 KEATING (1821), op.cit.,p.43.

34Mining, Journal, nov. 12, 1864. p.801.

35 SIMONIN, L. (1868) Mines and miners; underground life. Tradução e edição de H. W. Bristow. London, William Mackenzie, p. 458.

36 KEATING, op.cit.,p.57.

37 Considerando a posição britânica na mineração de ouro, CURLE (1905, p.17-18)) compartilha a mesma visão de KEATING (1821), embora sua comparação tenha sido feita entre os Estados Unidos e o Império Britânico. Analisando as razões por que a mineração em seus vários ramos era uma indústria mais avançada e melhor conduzida nos Estados Unidos que no Império Britânico, o nível de educação também deve ser apontado como uma desvantagem. O argumento é que nos Estados Unidos havia pelo menos três universidades que geravam engenheiros de Minas altamente qualificados enquanto na Grã-Bretanha não havia nenhuma; a despeito da existência de uma “Escola de Minas” em Londres, ela não proporcionava o treinamento que as universidades americanas forneciam. Segundo a mesma fonte: “Engineering has not been considered a proper profession in England socially (...)”. Ver CURLE, J.H. The gold mines of the world. London, George Rotledge & Sons, Limited, 1905. p.17-18.

38 No entanto há quem tenha criticado o espírito eminentemente prático do minerador britânico, principalmente aquele da Cornualha. Watson apud Calvert, assim se referiu aos mineradores responsáveis pelos “ensaios” no tratamento do metal precioso: “The cornish assayers, generally, have not the slighest notion of the theories of chemistry or metallurgy, and their assays are not very accurate.” Na mesma obra, Calvert ressalta a seguinte observação dos diretores da também companhia inglesa “National Brazilian Company: “One of the greatest faults in the character of the cornish miner is the disinclination to sampling which is scarcely ever done unless the ground appears favourable for gold; (...)”. Ver CALVERT, John (1853). The gold rocks of great Britain and Ireland, and a general outline of the gold regions of the world, with a treatise on the geology of gold. London, Chapman an Hall, p. 312 e 315.

39 SIMONIN (1868), op. cit., p. 460.

40 MOSS (1927), K. Neville. British mining practice, a comparison with American. The Times, on October 8th 1927(Panfleto).

41 Segundo BERSTEIN (1965, p.10), o famoso processo mexicano do pátio de amalgamação, que atingiu uma alta taxa de extração de prata de minérios de baixo teor, foi descoberto em 1555 por Bartolomeu Medina. Ver BERSTEIN, M.D. (1965). The Mexican Mining Industry – 1890-1950: a study of the interaction of Politics, Economics and Technology. Albany, State Univesity of New York, p.10.

42 EAKIN, op.cit. p.14.

43 Na visão de TEMPLE (1972, p.59-60), essa liderança da Rússia com 3/5 da produção mundial somente seria ofuscada em 1848: “Russian gold production, however, was totally eclipsed by spectacular gold discoveries in America, begining with that in California in 1848”. Ver TEMPLE (1972), op. cit., p. 59-60.

44 Para uma história detalhada dos rushes de ouro no mundo, ver SUTHERLAND, op.cit., p.154 –162 e também BLAYNEY, G. (1978) The rush that never ended – a history of Austrália mining. Hong Kong, Carlton, Melbourne University Press, 1978. No âmbito desta questão, há ainda uma grande bibliografia disponível. Ver também TEMPLE (1972),op.cit.,p.59-76.

45 EAKIN (1989),op.cit., p.117.

46 Sobre a contribuição mexicana, ver nota 40 neste artigo.

47 No entanto, há quem advogue esta necessidade de capital já para meados dos anos 60 no século XIX. Segundo SPENCE, o arrefecimento do fluxo de capital para as minas norte-americanas naquele período simbolizava a real necessidade de métodos mais confiáveis de exploração que compensassem o investimento. Em suas palavras: “The age of the individual entrepreneur, working with his hands on as small scale was at an end in many of the older, established camps. Capital was now vital for continuing the mineral industries after the preliminary work had been accomplished”. Ver SPENCE, Clark C.(1958). British Investments and the American Mining Frontier, 1860-1891. Ithaca, New York, Cornell University Press, p. 7.

48 TEMPLE (1972), op. cit., p. 76.

49 Lehfeldt apud RICHARDSON, P. & VAN HELTEN, J.J.(1984). “The development of the South African Gold-Mining Industry, 1895-1918”, em Economic History Review, n.3, v.37, ago. 1984. p.321-322.

Referências Bibliográficas

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