O que dizem os sonhos



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O que dizem os sonhos

Como a psicologia, a neurociência e as religiões analisam as mensagens que vêm à tona durante o sono e por que interpretá-las corretamente é fundamental para melhorar a sua vida

Revista IstoÉ - ED. 2011

CLAUDIA JORDÃO E JONAS FURTADO



A jovem sonha que está sendo atacada por uma cobra em um sítio. Ao tentar se desvencilhar do animal, percebe que está cercada por outras serpentes. A maior delas não demora para se enrolar em sua cintura, deixando-a totalmente imobilizada e impotente. Assustada, a garota acorda e se pergunta, intrigada: que mensagem estaria por trás daquela experiência onírica? Sonhos podem ser interpretados de muitas maneiras, dentro das mais variadas crenças, culturas, filosofias, religiões e linhas científicas. Mas ninguém estudou tão profundamente o assunto quanto o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Para desvendar os mistérios do sono, ele recorria aos símbolos universais do que chamou de inconsciente coletivo. Uma cobra, por exemplo, pode significar morte, cura ou transformação. Médicos neurologistas defendem que as imagens que povoam a mente das pessoas durante o sono são, muitas vezes, resultado de percepções e de memórias antigas que vêm à tona e se encaixam. Isso explicaria os sonhos que parecem trazer soluções para a vida real, como a história do físico alemão Albert Einstein, que concluiu a Teoria da Relatividade depois de um cochilo.
O sonho relatado na página 56 tornou- se exercício de interpretação da primeira turma do curso Os Sonhos e a Jornada do Herói, aberto no mês passado pela Coordenadoria-Geral de Especialização (Cogeae) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Organizada pelo psicólogo e professor de mitologia Guilherme Kwasinski, a disciplina propõe a análise dos sonhos a partir da classificação de arquétipos idealizada por Jung e referendada pelo mitólogo Joseph Campbell no clássico O herói das mil faces (leia quadro à pág. 61). “Há muitos paralelos entre os dois estudos. Campbell dizia que o mito é o sonho coletivo, enquanto o sonho é o mito pessoal de cada indivíduo”, cita Kwasinski. Com inscrições disponíveis para o público em geral, todas as 25 vagas foram esgotadas – havia ainda fila de espera. Devido ao sucesso, as aulas serão oferecidas novamente no segundo semestre e são grandes as chances de ganharem cadeira cativa no portfólio de cursos de extensão da universidade.
Nós nos iludimos no dia-a-dia, trabalhamos com o que e com quem não gostamos, temos que nos enquadrar nos padrões da sociedade. Os sonhos ajudam a mostrar quem somos na essência, são um caminho para o autoconhecimento, para a nossa verdade mais profunda”, afirma Kwasinski. Segundo os métodos do curso, o herói, personagem principal do sonho, é sempre a pessoa que está sonhando e a experiência onírica é dividida em três partes. Para começar, apresenta-se um ambiente e uma situação, como nas primeiras imagens de um filme. A seguir, desenvolve-se um enredo, o vilão (chamado de sombra) se manifesta, os personagens definem seu papel na história (como os arquétipos de Jung e Campbell) e o herói inicia um caminho de conflitos, provações – e cheio de pistas. Na última seção, acontece o grand finale: respostas são oferecidas e a trama é concluída. A psicóloga suíça Marie-Louise von Fraz, uma das maiores colaboradoras e defensoras das idéias de Jung, dizia que a última frase de um sonho merece uma atenção especial, pois é na interpretação dela que reside a chave para a solução do enigma. “O sonho é uma simulação do futuro possível com base no passado conhecido”, resume Sidarta Ribeiro, neurocientista e diretor científico do Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra, em Natal, Rio Grande do Norte.
Detectar e classificar os personagens que aparecem no sonho é o primeiro passo da interpretação. Reconhecer o sábio, os aliados, a cara-metade do sexo oposto, o mensageiro, o rival e seus comparsas torna possível a compreensão das atitudes de cada um deles. Pode ser mais difícil do que parece, pois não necessariamente todo sonho será povoado por todos esses arquétipos – que também podem estar representados por símbolos abstratos, em vez de pessoas. Mapeado quem é quem na história, devem-se analisar o enredo em si e suas particularidades (tempo, espaço, situações), para desvendar a aventura proposta e os meios de realizá- la. A jornada do herói é bem-sucedida quando ele conquista seu objetivo e, mais do que isso, acumula conhecimentos valorosos para melhorar a própria vida e a dos que estão à sua volta.
Interpretar corretamente o próprio sonho ajuda a perceber com o que estamos insatisfeitos para fazer pequenos ajustes ou iniciar grandes transformações pessoais”, diz Kwasinski, que tem mais de três mil sonhos pessoais anotados desde 1983, classificados por épocas e temas, aos quais ele recorre em busca de explicações para o próprio comportamento cotidiano – o pai da psicanálise, Sigmund Freud, definiu o sonho como o caminho real para o inconsciente em uma de suas mais célebres afirmações. “De tempos em tempos, temos sonhos maravilhosos, como as obras-primas de grandes artistas, que nos trazem revelações surpreendentes. Decifrá-los é o caminho para compreendermos melhor nossos desejos e a nós mesmos”, completa o professor.
Manter um diário é fundamental para uma análise profunda de seus significados. O hábito permite traçar um panorama dos sonhos mais recorrentes ao longo da vida para tentar entender a mensagem contida neles, assim como identificar os verdadeiros temores por trás dos grandes pesadelos. Para tanto, o sonho deve ser anotado assim que se acorda. Um despertar tranqüilo ajuda a lembrar de detalhes e pessoas envolvidas. “Todo mundo sonha. Mas aquelas pessoas que acordam com o barulho de um despertador e saem correndo da cama para tomar um banho ou preparar o café da manhã inibem a liberação de noradrenalina, que são neurotransmissores auxiliares da manutenção da memória. Como a noradrenalina não é liberada durante o sono, é importante dar um tempo para que isso ocorra nos primeiros momentos desperto”, diz Ribeiro. O neurocientista recomenda também que uma auto-sugestão seja feita antes de dormir – ou seja, cada um deve reafirmar para si mesmo o desejo de sonhar durante o sono.
Desde que o homem existe, os sonhos são cercados de mistérios. Para os povos antigos, eles carregavam algo de sobrenatural. Eram vistos como um meio de a pessoa receber orientações e mensagens do além, tanto das divindades quanto dos mortos. Os egípcios e gregos, por exemplo, pensavam ser possível estabelecer contato com os deuses. E, assim como os espíritas de hoje em dia – que acreditam na possibilidade de interação com almas desencarnadas enquanto dormimos –, os chineses estavam certos da possibilidade de encontrar os mortos. Cada povo, cultura e tradição lida com o sonho de um modo particular. Há os que não dão a mínima para o assunto. E há também aqueles que se dedicam a interpretálos, numa tentativa de se tornar indivíduos melhores e de viver com mais segurança. É o caso da tribo senoi, na Malásia. Lá, sempre que acordavam, as crianças costumavam relatar seus sonhos aos pais. Recebiam conselhos e suas mensagens eram vistas como dicas importantes para a rotina diária da aldeia. Era a partir das experiências dos pequenos e do que aquilo simbolizava para a tribo que decisões, como época de plantar e colher, eram tomadas.
O candomblé também incentiva seus seguidores a interpretar os sonhos, numa tentativa de se blindar de problemas. “Sonhar com um banho de mar pode indicar que a pessoa está ‘carregada’ espiritualmente”, atesta o líder espiritual e presidente do Centro Cultural Africano, em São Paulo, Atunba Adekunle Aderonmu. “Ao acordar ela deve se purificar, participando de um ritual de limpeza ou tomando banho de sal grosso”, diz ele. O candomblé conta que entidades como Ogum, Oxum e Iansã costumavam ter sonhos premonitórios. É por isso que a aceitação dessas mensagens pelos afro-brasileiros têm tanta força.
“O sonho é muito importante para todas as culturas ancestrais. No mundo ocidental, ainda se dá pouca atenção a ele. É importante conciliar a vigília (quando estamos acordados) com a vida onírica”, defende Ribeiro. O neurocientista diz prestar ainda mais atenção em seus sonhos quando se vê pressionado por alguma situação extrema, no trabalho ou na vida pessoal. Uma atitude parecida com a desempenhada por seguidores do budismo tibetano, que usam os sonhos para entender os momentos de vida em que se encontram. “É comum os lamas pedirem às pessoas com quem convivem para que elas lhe relatem seus sonhos. Eles possuem seus próprios símbolos e buscam mensagens”, resume Arnaldo Bassoli, psicoterapeuta e presidente do Comitê Brasileiro de Apoio ao Tibete no Brasil. Através da ioga dos sonhos, prática voltada para budistas avançados, a pessoa desenvolve a habilidade de se manter consciente nesses momentos. “Isso não significa que haja uma preocupação em interpretar os sonhos. A ioga prega a consciência plena mesmo ao dormir, para que a pessoa esteja sempre desperta, com a mente limpa, livre de distorções”, diz Bassoli.
Passagens de sonhos são recorrentes nas escrituras sagradas. Na Bíblia, os profetas José e Daniel receberam de Deus o dom de desvendá-los. O primeiro interpretava as visões do rei do Egito e o segundo traduzia os relatos de Nabucodonosor. O texto sagrado reúne mais de 700 citações de sonhos e visões. Numa das mais famosas, São José é avisado pelo anjo Gabriel que Maria carrega no ventre uma criança divina. “Na Bíblia, o sonho não deixa de ser uma ferramenta literária, uma maneira que se encontrou para transmitir uma mensagem”, afirma o biblista cônego Celso Pedro da Silva. O professor de teologia da PUC Rafael Rodrigues prefere dar outra explicação. “Esses relatos bíblicos têm como marca fundamental revelar a palavra de Deus por meio da profecia”, diz. Grande parte do conteúdo do Corão, livro sagrado do Islã, foi revelada ao profeta Maomé em sonho. E nos Vedas dos hindus há relatos oníricos favoráveis e desfavoráveis.
Independentemente da crença, é durante a fase de alta atividade neural do sono (chamada de REM, rapid eye movement) que as revoluções oníricas acontecem. De importância comprovada para o fortalecimento da memória, os sonhos começam a ter seu papel reconhecido também na reestruturação dela, de forma a gerar novos comportamentos. Ou seja: sonhar estimula a criatividade. “Durante o sono de ondas lentas, não há sonhos, apenas pensamentos no escuro. Quando aumenta a atividade neural e as memórias começam a interagir, é como se acendesse a luz do projetor e começasse a sessão de cinema”, compara Ribeiro. O melhor de tudo é que os filmes em cartaz são sempre para lá de especiais: eles foram produzidos e estrelados por você.
Passagens de sonhos são recorrentes nas escrituras sagradas. Na Bíblia, os profetas José e Daniel receberam de Deus o dom de desvendá-los. O primeiro interpretava as visões do rei do Egito e o segundo traduzia os relatos de Nabucodonosor. O texto sagrado reúne mais de 700 citações de sonhos e visões. Numa das mais famosas, São José é avisado pelo anjo Gabriel que Maria carrega no ventre uma criança divina. “Na Bíblia, o sonho não deixa de ser uma ferramenta literária, uma maneira que se encontrou para transmitir uma mensagem”, afirma o biblista cônego Celso Pedro da Silva. O professor de teologia da PUC Rafael Rodrigues prefere dar outra explicação. “Esses relatos bíblicos têm como marca fundamental revelar a palavra de Deus por meio da profecia”, diz. Grande parte do conteúdo do Corão, livro sagrado do Islã, foi revelada ao profeta Maomé em sonho. E nos Vedas dos hindus há relatos oníricos favoráveis e desfavoráveis.
Independentemente da crença, é durante a fase de alta atividade neural do sono (chamada de REM, rapid eye movement) que as revoluções oníricas acontecem. De importância comprovada para o fortalecimento da memória, os sonhos começam a ter seu papel reconhecido também na reestruturação dela, de forma a gerar novos comportamentos. Ou seja: sonhar estimula a criatividade. “Durante o sono de ondas lentas, não há sonhos, apenas pensamentos no escuro. Quando aumenta a atividade neural e as memórias começam a interagir, é como se acendesse a luz do projetor e começasse a sessão de cinema”, compara Ribeiro. O melhor de tudo é que os filmes em cartaz são sempre para lá de especiais: eles foram produzidos e estrelados por você.


http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2011/artigo89078-1.htm

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