“O que está embaixo



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CIÊNCIAS OCULTAS

- os traços do discurso esotérico na Ciência Moderna -

Adriano de León1




“O que está embaixo


é como o que está no alto, assim como o que está no alto

é como o que está em baixo.”

Corpus Hermeticum


1. INTRODUÇÃO
Ciências Ocultas: um paradoxo do que usualmente nos é dito sobre ciência. Ciência significa conhecimento desvelado, saberes compartilhados por uma determinada parcela da sociedade – a comunidade da qual nos fala T. Kuhn1, o que vai de encontro ao adjetivo “oculto” interposto no campo das ciências.

Uma vasta gama de saberes do mundo ocidental renascentista evoca o contrário do velado, do oculto. A Ciência Moderna ilumina o que antes era misterioso, o insolúvel, o inominado. Haveria, assim, a possibilidade de existir um domínio de saberes denominado de Ciências Ocultas neste mundo das Luzes ?

O Ocultismo é uma evocação à idéia de segredo, de conhecimentos reservados, mistérios. Por sua vez, o mistério é parceiro do sonho, da fantasia, de um mundo irreal.2

Este texto não pretende reivindicar qualquer grau de certeza sobre a veracidade das Ciências Ocultas, mas pretende apreender a emergência destes saberes secretos eruditos nos discursos religiosos e científicos amplamente divulgados a partir de vários enunciados, sujeitos e épocas distintas.

Resta-nos algumas indagações: que discursos conformaram este corpus que ora denominamos Ciências Ocultas ? O que significa o secreto nestes discursos ? Qual a relação existente entre Ciências Ocultas e a Ciência Moderna ? É, pois, a busca destas respostas a fio condutor deste artigo.
2. A FOME DE SABER
Para os fins de periodização histórica, proponho ao leitor considerar dois momentos: o primeiro abrangendo os séculos 15 a 17 (Idade Clássica) e outro abrangendo o século 18 até o início do século 20 (Idade Moderna).

As Ciências Ocultas abrangem um conhecimento atemporal e desterritorializado, o que significa dizer que a rede de saberes ditos ocultos possui origem indefinida muito anterior ao século 15 e se estende a domínios muito mais vastos do que apenas a Europa. O agrupamento destes saberes de forma erudita foi feito pelos sábios europeus – os magos eruditos - a partir do século 15 com o aparecimento das Sociedades Secretas, a exemplo da Franco Maçonaria, da Ordem Rosacruz, dos Templários, dos Gnósticos. Daí a repulsa a tais saberes por parte da Igreja, por um lado, e por parte da Ciência Moderna, de outro.

Não obstante sua divulgação a partir do século 15, as Ciências Ocultas representam uma forma de conceber o mundo fora dos padrões de espaço e de tempo da Modernidade. Elas advogam a existência de um saber sagrado a ser atingido para além dos caminhos e técnicas da Ciência Moderna. Isto significa que há um conhecimento uno e transcendental perseguido pelo Ocultismo – a Tradição, como é tida pelos iniciados nos cultos de mistério. É, pois, um discurso impregnado de subjetividades.

Com o arranjo dos diversos saberes em ramos específicos da Ciência Moderna no século 19, o conjunto de saberes das Ciências Ocultas foi banido desta ordem taxonômica das Ciências. O discurso científico, assim, cria o sujeito da ciência e a própria ciência quando se propõe a conceituar quem pertence aos domínios da Ciência Moderna, porque pertencem e como se classificam dentro do organograma proposto por Comte e Spencer.

Os conhecimentos da Tradição ficaram resguardados no campo do discurso esotérico, oralmente repassados aos iniciados das várias Sociedades Secretas já citadas. Este domínio de saberes inclui o helenismo, o estoicismo, o gnosticismo, o hermetismo, todos somados ao modelo da doutrina abraânica. Não é à toa que o Cristianismo se preocupou grande parte em organizar e sistematizar estas escolas da Tradição que serviram de orientação teológica às ordens seculares.

O corpus das Ciências Ocultas é formado pela alquimia, pela astrologia e pela magia.3 Estes três ramos fazem parte da lógica esotérica que considera o homem parte integral do Universo. Portanto os elementos alquímicos se coadunam com os astros e constelações, que se combinam com os reinos vegetal e mineral presentes tanto no corpo biológico do homem quanto na Natureza.

Este corpus originou uma série enorme de escolas iniciáticas no Ocidente, as conhecidas Sociedades Secretas, as quais serviram de fonte para as correntes esotéricas modernas. Pode-se observar que o discurso esotérico, muito embora rejeitado pelas religiões seculares bem como, e principalmente, pela Ciência Moderna, não foi extinto, mas permaneceu vivo abrigado no discurso secreto, o silêncio mantenedor de saberes antiquíssimos.

Um dos principais textos que serviram de base às Ciências Ocultas na Idade Clássica foi o Corpus Hermeticum. O Corpus Hermeticum é um conjunto de 15 textos redigidos supostamente nos séculos 2 e 3, atribuídos ao deus Thot egípcio e ao hebreu Moisés.4 Já a escola neopitagórica deixou como legado para as Ciências Ocultas as tábuas de números num conjunto ora denominado numerologia, o qual confere às coisas e aos seres uma denominação numérica5 que lhes conferia uma personalidade única. A idéia do Universo enquanto uma unidade orgânica total é herança do Estoicismo, o qual juntamente com as doutrinas neoplatônicas, acreditava na existência de uma realidade supra-sensível, acessível aos iniciados nos mistérios.

A divulgação maior destas doutrinas no século 17 deu-se graças à vulgarização da cabala judaica. Conhecida como registro do conhecimento dos caminhos do homem, este sistema, também denominado a “árvore da vida”, repousa no princípio do equilíbrio entre pólos opostos. Esta dicotomia é presente em todos os discursos da Idade Clássica, principalmente nos teoremas da física newtoniana.6 A partir da cabala dá-se a representação gráfica dos caminhos do homem – o tarô e seus 22 arcanos maiores – responsável pela divulgação da idéia do homem e do Universo enquanto sujeitos à evolução cósmica.

A Idade Clássica vai conferir ao conjunto de saberes ocultos o status de ciência. Isto é perfeitamente aceitável numa época em que ainda não havia a clássica definição de ciência e seus argumentos metodológicos, e a construção de uma epistemologia científica dependia, em larga escala, de saberes outros que serviriam de cadinho para a formação de um espírito verdadeiramente científico.

As Ciências Ocultas vão ter, neste período, dois grupos de oposição: a Igreja Cristã e a Ciência Moderna. A repressão às Ciências Ocultas por parte da Igreja possui lastro no discurso da demonologia. A associação das práticas ocultas com os pactos demoníacos foi a tônica das caças às bruxas no século 15. Mesmo depois da reforma Protestante, o Luteranismo se opôs às Ciências Ocultas pela irracionalidade do discurso esotérico. A Ciência Moderna, por outro lado, tem em sua lógica positivista a tese de que o oculto é parte da ignorância das religiões, das superstições das classes populares, do folclore, enfim.

O imaginário da sociedade quinhentista está povoado de um discurso eclético que abriga desde as Ciências Ocultas até os primeiros experimentos clássicos da Ciência Moderna. Desta maneira, ocultistas como Ficino, Cornelius Agrippa, John Dee, Giordanno Bruno e Robert Flud participavam das mesmas escolas secretas que Copérnico, Kepler, Darwin e Newton.

A partir do Romantismo do século 15, a Natureza passa a pertencer aos domínios do discurso filosófico, a exemplo da Naturphilosophie alemã. O médico suíço Theophrastos Bombart von Hohenheim, conhecido como Paracelso, é uma das figuras sem par desde momento. Como romântico, Paracelso enfatiza o indivíduo como espelho do macrocosmo. O mundo visto a partir da Filosofia Oculta era um mundo encantado, fundamentado na magia naturalis como prática maior das Ciências Ocultas. Foi graças à Magia Natural que se esboçou a ciência natural moderna. A compreensão dos reinos mineral e vegetal, sua classificação, a fisiologia dos seres vivos e o uso dos minerais já era matéria de estudo da Magia Natural, mas sob uma outra ótica. A visão das ciências naturais visavam o estudo dos seres e do mundo físico a partir de leis compreensíveis e regulares do mundo material, mundo sem intervenções de ordem sobrenatural de qualquer espécie.

O Romantismo concebe a Natureza como um texto a ser decifrado7 a partir de correspondências. Com efeito, podemos afirmar ser a Magia e seu princípio da similitude o fundamento dos discursos românticos. O universo romântico é vivo e plural, e o homem neste contexto é um dos seus conjuntos. Seu discurso é, por assim dizer, bipolarizado e tende a disciplinar os saberes. O gosto pela taxonomia, pelas classificações e tipologias são características de sua epistemologia. Espírito e Natureza se unificam no discurso romântico, sendo ambos considerados germes de uma só raiz. Por isto tudo, as Ciências Ocultas têm no movimento romântico um ponto de apoio e divulgação.

O século 16 parecia, deste modo, ser uma combinação de saberes da Antigüidade Clássica, do cristianismo medieval e do paganismo popular.8 Partes de um mesmo discurso, estas correntes conviviam numa mesma base epistemológica que tinha como lastro o mundo encantado, povoado de seres naturais e supra naturais, que comandavam as ações cotidianas e os destinos do mundo.

O controle dos discursos se deu na Idade Moderna, com a divisão das ciências em categorias inteligíveis e mensuráveis. Nas palavras de M. Foucault9


“em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.”
Nos séculos 16 e 17 a vontade de saber desenhava planos e objetos possíveis, observáveis e mensuráveis, classificáveis. Deste modo, as categorias do pensamento medievo – substância, essência, matéria, forma, quantidade e qualidade – foram substituídas, no pensamento moderno, por tempo, espaço, massa, energia, com ênfase na quantificação.10

O mundo encantado é, logo, passo a passo, desencantado pela ciência que transforma os mistérios em leis universais e regularidades estatísticas. Neste rumo muitas rejeições são levadas a cabo, colocando em suspeição quaisquer formas de ocultismo, de discurso velado, de mistério.

A própria religião cristã, esta povoada de “mistérios da fé”, rejeitou o ocultismo. A razão disto repousa no fato de que o judaísmo, raiz principal do cristianismo ocidental, não acredita que o homem e Deus fazem parte de uma mesma essência,11 e por isso não partilham de uma mesma substância. Para tal tradição, e para o Cristianismo por tabela, as desgraças do mundo são conseqüências da desobediência dos homens às leis de Deus. Para as Ciências Ocultas, ao contrário, os reveses humanos têm causa meramente mecânica, em concordância com a Ciência Moderna, como a lei da ação e da reação.

Neste jogo de poderes, a ética religiosa calvinista estimulava uma secularização do mundo, elegendo as Ciências Ocultas como inimigas do homem moderno.12 As tais práticas ocultistas eram associadas ao antigo, sinônimo de camponês ou primitivo, no mundo da Modernidade que rejeitava as formas arcaicas da vida cotidiana e tudo aquilo que não significasse cidade e progresso. O Protestantismo, na sua quase totalidade, condenava as Ciências Ocultas como falsos cultos religiosos que tentavam manipular Deus.

A ética protestante criou um Deus racional a partir da reforma. O que para os ocultistas se traduzia por presença de forças manipuláveis da Natureza, para os puritanos era traduzido como força da prece e do milagre. Ora, se até Deus era parte de um mundo natural sujeito à leis regulares e ordenadas, só a Modernidade era capaz de abarcá-lo. As Ciências Ocultas perdem fôlego, se reservam nas Sociedades Secretas, após darem os primeiros passos para o que louvamos hoje com o nome de Ciência.

No contexto clássico dos séculos 16 e 17, Ciências Ocultas e Ciência Moderna faziam parte de um só discurso. O misticismo enquanto visão de mundo dentro das Sociedades Secretas chega à Ciência Moderna através da formulação de modelos teóricos sobre o homem e a natureza. Mais tarde com o singular afastamento das Ciências Ocultas e Ciência Moderna a visão meramente racionalista passa a tomar todos os espaços do mundo dos saberes. Ciências Ocultas e Ciência Moderna conviviam até então com a idéia básica de que o homem podia controlar a Natureza e o mundo concreto. A ruptura se deu13 quando o real passou a significar simplesmente o visível, o tangível, o mensurável. Ciências Ocultas e seus domínios invisíveis, assim como a imaginação, passaram a fazer parte do mundo da fantasia, do erro, do absurdo. No ligar das “forças da Natureza” a nova idéia era a lógica da Ciência Moderna e seu “preciso” método investigativo.

Mas não só as Ciências Ocultas foram rejeitadas neste período, como também todas as formas culturais que não possuíssem vínculo direto com as cidades. As Ciências Humanas do século 19, estas mesmas, não viam quaisquer finalidades em estudar este campo de saberes, pondo o esotérico, o oculto, o místico, nos domínios do risível, do ficcional, do fantasioso, do neurótico, do folclórico, do exótico, do primitivo, enfim, de todas as manifestações que abrangiam desde formas religiosas populares – cristãs ou não – até fenômenos inexplicáveis à época, como o magnetismo e a eletricidade estática.

Na Idade Clássica os discursos ocultistas e científicos se encontravam em tal grau imbricados que magos e cientistas não se diferenciavam.14

Na Segunda metade do século 17 o mundo já era concebido como um mecanismo: natureza regida por leis causais e explicáveis pelo método científico.

Muitos dos cientistas assim tidos pela Academia foram também ocultistas. O uso dos talismãs, a leitura de textos tradicionais como o Corpus Hermeticum,15 a lógica das simpatias, em resumo, a Magia Natural, se misturava com as novas técnicas descobertas pela Ciência Moderna. Astrologia, alquimia e cabala se assomavam à astronomia, à química e à matemática, num vai-e-vem que nos mostra o legado das Ciências Ocultas para a Ciência Moderna.

É mister enfatizar que as Ciências Ocultas, como saberes da Idade Clássica, rejeitavam quaisquer saberes considerados arcaicos, como “a magia ignorante dos antigos”,16 os cultos de fertilidade, o paganismo e as feitiçarias. A Modernidade bane estas formas, mas conserva as Ciências Ocultas pelo seu eruditismo e sua ênfase proto-científica.

3. AS CIÊNCIAS DO OCULTO: uma leitura de Papus.
“O objeto perseguido pelas Ciências Ocultas é a investigação do invisível por meio do visível, do númeno pelo fenômeno, da idéia pela forma.”

Papus
Segundo os textos eruditos mágicos da Idade Clássica17 o que há de mais importante nas Ciências Ocultas é a analogia. Através dela se conhecem as correlações que interligam os vários fenômenos. Assim o homem é análogo ao Universo e por conseguinte denomina-se o homem de microcosmo e o Universo de macrocosmo.

Considerando o Universo como um Grande Todo Inteligente e Vivo, este era formado de três estruturas: a inteligência, a alma e o corpo. O homem teria a mesma composição, mas de maneira invertida, ou seja: corpo, alma e inteligência. Um mundo ternário e especular. Com efeito, a natureza das coisas do mundo seria conseqüência deste movimento ternário: ativo – passivo – neutro; pai – mãe – filho; pai – filho – espírito santo; atração – repulsão – equilíbrio.

O mundo sensível se completa em todas as suas partes por outro mundo, cuja lógica escapa à ação dos sentidos e percepções humanos. Na esfera invisível do Universo encontram-se as formas elementares de pensamento as quais podem ser manipuladas pelo homem. O agente por meio do qual se atuaria sobre estas forças seria a vontade humana.

Neste sentido, um dos preceitos mais importantes sobre o qual assenta-se grande parte da doutrina ocultista é a identificação da simpatia sutil que haveria entre o praticante e as forças do mundo invisível.18 Seguindo-se a tal, as Ciências Ocultas têm por conhecimento inicial a identificação com invisível. Isto significa que há que se descobrir as ligações sutis entre sinais, símbolos, palavras, pensamentos e gestos para alcançar o numinoso, a Luz Astral.

A harmonia entre o mundo visível e o mundo invisível se daria pelo ternário cabalista19

PODER


VONTADE REALIZAÇÃO
onde a realização é o fim inevitável da conjunção da vontade – a faculdade diretora das forças inteligentes – e do poder – o sábio emprego da vontade.

As analogias se dão inicialmente com a relação homem e planetas: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua.20 Aos 7 planetas eram atribuídas 7 funções da inteligência humana: discernimento, generosidade, ódio, memória, sexualidade, alegria e força.

Por sua vez cada planeta se relacionava com 7 animais, 7 vegetais, 7 minerais, 7 cores, 7 dias da semana e 7 notas musicais. A partir da analogia entre estes grupos de 7 elementos poder-se-ia chegar à compreensão e manipulação da ordem do mundo. Também por este viés análogo teríamos as artes ocultas, embrionárias das ciências: alquimia, astrologia, medicina oculta, botânica oculta, fisiologia esotérica, entre tantas outras.
4. UMA NOVA ORDEM: a descontinuidade entre Ciências Ocultas e Ciência

Moderna.
O século 18 tem importância fundamental nos estudos sobre Ocultismo pela quebra estabelecida neste período entre Ciências Ocultas e Ciência Moderna. A partir da ideologia da evolução e do progresso, as Ciências Ocultas foram tidas como ciências do erro e do anti-racionalismo. O Ocultismo foi minado e relegado à razão obscura do mundo antigo. Na Modernidade a solidez das Ciências Ocultas também se desmancha no ar.

As Ciências Ocultas aparecem, no início da Modernidade, no mesmo momento da revolução Científica inaugurada por Galileu Galilei, nas primeiras décadas do século 17, como o grande obstáculo epistemológico à instauração da inteligibilidade mecanicista. Evidentemente, as Ciências Ocultas já dominavam a mentalidade européia desde as primeiras manifestações do Renascimento. A inspiração fundamental do renascimento nada teve de científico. Foi marcada por um ideal eminentemente retórico. Foi uma época dotada de pouco espírito crítico e povoada de vários saberes, alimentando todos os tipos de crenças na magia, na demonologia, na bruxaria e na astrologia.21 Mulheres, judeus e indivíduos das classes populares se comungassem destes saberes eram considerados bruxos e repudiados pela elite política. Homens que partilhavam destes mesmos saberes eram tratados como sábios e recebidos nos palácios como conselheiros e profetas de uma nova era – a Nuova Scientia de Vico. Eis uma questão de gênero e de classe !

A partir do advento da medicina como prática ideal para determinadas curas, a Magia Natural, ramo das Ciências Ocultas perde terreno e é considerada maldita neste meio.22

A concepção mecanicista moderna insistia que o mundo poderia ser comparado a um relógio. O conhecimento fragmenta-se em pedaços – os novos saberes científicos. Cresce a resistência ao dogmatismo, uma vez que a física e a astronomia são os saberes mecânicos em si. Amplia-se o hiato entre razão e fé. O mundo invisível e supra sensível passa a ser estudado como um fenômeno natural decorrente da ignorância dos povos antigos ou de camponeses igualmente ignorantes. Também a magia, a alquimia e a astrologia: os fenômenos possuem uma explicação fisiológica, mecânica ou física. Os casos de possessão devem ser entregues aos médicos. Terminam os casos de bruxaria e os processos.

O desaparecimento da magia não foi conseqüência das novas tecnologias.23 Pelo contrário, a apropriação tecnológica só se tornou possível quando terminou a crença na magia. Os filósofos mecanicistas admitiam uma grande variedade de fenômenos naturais que tiveram condições de prescindir das explicações mágicas. Todo acontecimento teria uma causa natural. Se Deus criou o mundo regular e uniforme não haveria nenhuma força oposta a tal.

O campo de saberes das Ciências Ocultas foi o mais forte inimigo do mecanicismo. Enquanto as Ciências Ocultas encarregavam-se de encantar o mundo, povoando o imaginário da sociedade renascentista com fadas, gnomos, fórmulas mágicas, filtros de amor, a lógica mecanicista desencantou este mesmo mundo, atribuindo causas inteligíveis a fenômenos inteligíveis, a partir da elaborações de teoremas, leis gerais para o universo conhecido, teses clássicas sobre o homem e sua suposta natureza.

Vale destacar que o próprio mecanicismo possuía um princípio metafísico. A lógica mecânica tem duas acepções: primeira, um conjunto de leis gerais dos princípios da mecânica dos corpos; segunda, sua vertente metafísica , o movimento contínuo da matéria que exige, para se conservar, um princípio de uma emergência, a figura de Deus.

O grande mérito dos mecanicistas do século 17 foi o de ter afirmado que a matéria é perfeitamente inerte e desprovida de toda e qualquer propriedade misteriosa ou forças ocultas - o conceito de inércia. Ficam assim eliminadas da natureza as simpatias e antipatias, porque a matéria é totalmente desprovida de espírito e de pensamento. Não se tem mais necessidade de explicações das Ciências Ocultas. Para as teses mecanicistas há uma clara divisão entre matéria e espírito, o que conduz a uma nova maneira de tratar o mundo material e o supra material, uma vez que o primeira não possuía consciência. Ciências Ocultas, religião e misticismo passam a fazer parte de um outro domínio epistemológico: o senso comum, os saberes populares, todos estes sujeitos ao falseamento, à charlatanice, aos vícios das predições e dos jogos de azar.

Este universo mecânico, por sua vez, também vai interferir na epistemologia das Ciências Ocultas. As Sociedades Secretas, antes divulgadoras do saber proto-científico, agora bebem do novo olhar científico do mundo. A Maçonaria, por exemplo, passa a denominar Deus de Arquiteto do Universo, expressão de Bossuet24, discípulo de Descartes, século 17, retirada do tema do homem-máquina e Deus relojoeiro.

O grande idealizador desta idéia mecânica do mundo, Isaac Newton, para explicar a natureza lançava mão das simpatias e antipatias presentes em todas as coisas. Seus conceitos estavam muito marcados por domínios da magia natural25.

Com toda o poder exercido pelo saber científico na Modernidade e por mais que houvesse um desencantamento do mundo, a sociedade possuía uma concepção mágica de si mesma, acreditando num homem como centro de um mundo animado por uma alma universal sob a influência da simpatia e antipatia de estrelas e planetas.

É por conta deste imaginário mágico, que durante todo o século 16 e boa parte do século 17 não foi fácil distinguir magia natural da ciência experimental em suas pesquisas sobre as forças sobrenaturais e pela observação da natureza. Elas só se separam quando a ciência toma os rumos do mecanicismo compreendendo em termos racionais as causas destas forças misteriosas.


5. O OCASO DAS CIÊNCIAS OCULTAS
No século 19 a teoria das similitudes desaparece como explicação da ordem do mundo. As Ciências Humanas historicizam os saberes, classificando os mesmos num quadro geral dentro de uma ordem essencialmente temporal. As Ciências Ocultas são consideradas ciências de uma era que já passou, de um mundo antigo e baseado na superstição, no sobrenatural. A Ciência Moderna cospe no prato que comeu, atribuindo a si mesma o estatuto de modelo único do conhecimento. Ao negar os antigos deuses, ela mesma se deifica.

As Ciências Ocultas tinham como base analítica o princípio da similitude.26 A analogia e a simpatia dizem respeito à conjuntura de coisas semelhantes entre si. Uma premissa das Ciências Ocultas, por esta ótica, influencia todo o pensamento humanista da Modernidade:



“o homem é a medida de todas as coisas !”
Leonardo Da Vinci já representava esta máxima nos seus esboços , como o famoso “estudo do homem”, no qual ele apresenta o homem como pentagrama27 das Ciências Ocultas.

Portanto, o conjunto epistemológico do Renascimento até o século 17 é a semelhança. Logo, nas Ciências Ocultas cada signo se assemelha a outro numa seqüência infinita. Nas palavras de Foucault, a Natureza é uma figura redobrada do Cosmo, cujos limites são o homem – microcosmo – e o Universo – macrocosmo.

A Idade Clássica não separava erudutio de divinatio. Face a isto, o discurso clássico abrigava ocultismo e ciência sem maiores conflitos. Esta rede discursiva era uma tessitura de saberes racionais, noções oriundas das Ciências Ocultas, num panorama paradoxo que rogava a fidelidade ao tradicional, ao mesmo tempo que o negava através da racionalidade que já despontava como lógica única.

A linguagem esotérica era a grande gramática do mundo. Através das analogias própria desta linguagem era possível compreender processos complexos como o da cura. Desta forma, a homeopatia agindo segundo a analogia simpática prescrevia que o causador eliminava a causa. D’outro lado, a alopatia atuando segundo a analogia antipática dizia que o contrário eliminaria a causa.

As Ciências Ocultas vão entrar no seu ocaso no final do século 17 com a ruptura epistemológica que põe fim ao mundo das similitudes para iniciar um mundo das diferenças. A esta erosão de saberes Foucault denomina descontinuidade.28

F. Bacon, o último dos antigos e o primeiros dos modernos, enuncia o fim das analogias:29


“toda semelhança é idolatria !”
Da mesma forma, o cartesianismo contribuiu com esta linha de pensamento quando, a partir de comparações, consegue estabelecer relações de semelhança entre coisas diferentes entre si. A analogia cede lugar à análise: conhecer não significa mais aproximar semelhantes, mas em discerni-los, ou seja, estabelecer identidades.

Num dado momento histórico e numa dada cultura há sempre um campo epistemológico que define as condições de aparecimento e triunfo de um certo saber. Com efeito, a Modernidade desenlaça a teia de saberes ocultos e científicos, separando-os e hierarquizando-os num plano racional e fragmentado do que seria considerando científico e o que não o seria, pois.

Em virtude desta cisão, as Ciências Ocultas nem sequer mais possuem o estatuto de Ciência, sendo tidas por tradicionais médicos, químicos, físicos, e sociólogos como facetas da rudimentar forma de pensar dos indivíduos leigos, do senso comum povoado de ignorância. É um discurso perigoso por ser preconceituoso e por acreditar que a Ciência Moderna é fruto de geração expontânea, e nenhuma relação tem com outras formas de saberes, a exemplo das Ciências Ocultas. E esta tese da geração expontânea há muito foi negada por esta mesma Ciência que ora triunfa.
Nada, senão a imaginação conduz a história da humanidade!”

Albert Einstein



NOTAS


5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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YATES, Frances C. Giordano Bruno e Tradição Hermética. São Paulo, Pensamento, 1996.

1 Professor do Departamento de Ciências Sociais – CCHLA - UFPB

1 Ver T. Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas, principalmente a introdução e o capítulo 1.

2 Na Europa pós seiscentista, tudo o que aludisse ao fantástico, ao mágico foi tido como falseamento da verdade só conseguida pela Ciência Moderna. Recomendo a leitura de G. Bachelard, A Formação do Espírito Científico e G. Durand, A Imaginação Simbólica.

3 Ver A. Faivre, O Esoterismo, capítulos 2 e 3.

4 Estes textos se referem à unidade que há implícita entre o homem e o Cosmo. Este conjunto serviu de base às religiões solares, dentre as quais o Cristianismo. Observe a simbologia cristã em relação aos astros, a exemplo do ostensório, do peixe, do trigo, dos doze apóstolos representantes dos doze signos solares da astrologia.

5 A. Koyré, nos seus Études d’Histoire de la Pensée Scientifique , se refere a estas tábuas de números e sua influência em Newton com a descoberta do cálculo integral, como também dos cálculos que envolvem matrizes e logaritmos.

6 Observe bem a noção de força de Newton. Ela remete a idéias bem dicotômicas de pares de opostos como vetores, acelaração-desaceleração, força centífuga-centrípeta, gravitação-repulsão etc.

7 Para maior compreensão deste período ver J. Le Goff, Os Intelectuais na Idade Média, cap. 2 e seg.

8 Ver K. Woortmann, Religião e Ciência no Renascimento, cap. 3 e 4.

9 L’Ordre du Discours, p. 08.

10 Ver E. Burtt, As Bases Metafísicas da Ciência Moderna, primeira parte.

11 Uma boa referência sobre este assunto se encontra na introdução do livro The Jew Mistical de J. Neusner.

12 A maior referência a este tema, sem dúvida, é a tese do desencantamento do mundo, n’A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de M. Weber, além da tese do individualismo proposta por L. Dumond, n’ O Individualismo.

13 Veja parte 4 deste artigo.

14 O excelente trabalho de C. Dubois, O Imaginário da Renascença, traduz exatamente esta mistura de valores.

15 Um texto de grande monta sobre este tema é o F. Yates, Giordano Bruno e a Tradição Hermética, no qual o autor faz um retrospecto das influências esotéricas no pensamento científico do Renascimento.

16 Papus, Tratado Elemental de Ciencia Oculta, p. 12.

17 Estes textos foram estudados por mim na tese de doutorado. Considero, portanto, como textos eruditos os textos que tiveram divulgação pela imprensa por toda Europa e futuramente América. Posso citar, entre eles, os textos de Papus, Eliphas-Lévi, Giordano Bruno, Francis Bacon, Francis Barrett, entre outros.

18 Eliphas-Lévi na introdução d’A Chave dos Grandes Mistérios enfatiza a diferença entre um mago erudito e um feiticeiro. Para o autor o primeiro se vale das boas formas-pensamento, uma vez que seus propósitos morais simpatizavam com estas formas. O feiticeiro, ao contrário, se deixava levar pelas más formas-pensamento simpáticas ao seu modelo destrutivo e ignorante.

19 Papus, idem, p. 35.

20 Estes eram os astros considerados planetas mágicos para as Ciências Ocultas.

21 Ver A. Koyré, idem, p. 51.

22 M. Foucault, A História da Loucura, retrata a criação, em 1656 do Hospital Geral em Paris, o que representa um corte fundamental nos tratamentos antes usuais como as benzeduras e as artes de cura mágica.

23 Cf. K. Thomas, Religion and the Decline of Magic, nas suas conclusões.

24 Ver Eliphas-Lévi and the French Occult Revival, de C. McIntosh, introdução e parte 1.

25 Cf. R. Westfall, na introdução de Newton and the Hermetic Tradition, e W. Schea, Reason, Experiment and Mysticism in the Scientific Revolution.

26 Muito embora não se refira exclusivamente às Ciências Ocultas, M. Foucault descreve com brilhantismo este processo de renovação da épisteme, em As Palavras e as Coisas, a partir do capítulo 2, primeira parte.

27 Pentagrama ou estrela de cinco pontas é a representação da divindade humana nos talismãs e simbologias das Ordens Secretas.

28 Ver Foucault, idem, introdução.

29 F. Bacon, Novum Organum, p. 119.



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